Capítulo 2 - Dúvida Cruel

Bom, tenho apenas alguns minutos para realizar todas as minhas tarefas e ainda estou sentado na cama, olhando para o meu querido rádio-relógio. Se não fosse a obra na rua lá embaixo, eu estaria dormindo ainda. Nunca pensei que o som de uma britadeira salvaria meu emprego, até porque, não há nada mais insuportável do que o som de trabalhadores furando o asfalto às 8h da manhã. Se eu conseguir chegar a tempo, tenho que me lembrar de agradecer os caras pela ajuda.

Voltando aos meus afazeres matinais, acredito que eu tenha que cortar algumas das minhas atividades para conseguir chegar a tempo no trabalho. Sintetizando:

  1. Ficar enrolando na cama durante 45 minutos, após desligar o primeiro toque do despertador -> 45 minutos
  2. Tentar me manter de pé, equilibrando meu corpo para não cair na cama novamente e voltar a dormir -> 10 minutos
  3. Caminhar calmamente até o banheiro -> 3 minutos
  4. Ligar o chuveiro e aguardar a água esquentar por causa do aquecedor que está com defeito -> 20 minutos
  5. Relaxar debaixo do chuveiro -> 10 minutos
  6. Descarregar os três meses de abstinência -> 2 minutos
  7. Escolher a roupa para trabalhar -> 1 minuto
  8. Vestir a roupa, comer um biscoito e sair de casa -> 5 minutos
  9. Andar até o ponto correndo -> 5 minutos
    Total -> 1h 46 min.

São 08h15min. A primeira atividade já foi realizada. Inclusive passou da conta. A segunda atividade já foi realizada em tempo recorde (1 minuto) devido ao susto de saber que estou completamente ferrado. A terceira, posso realizar na metade do tempo. A quarta é um problema.

O Aquecedor do apartamento é a gás e deveria esquentar a água no mínimo em trinta segundos, segundo as instruções do vendedor que me vendeu o aparelho. Realmente, no início, o aquecedor funcionava que era uma beleza. Era só abrir a torneira que, em poucos segundos, uma enxurrada de água fervente surgia, jogando fumaça para todos os lados e embaçando o espelho do banheiro. Era bom demais!

Um dia, minha querida irmã resolveu acender o gás manualmente, pois havia faltado a luz. Na hora de enfiar o isqueiro na abertura para acender a chama, ela fez algo que não devia e acabou provocando uma pequena explosão, que fechou quase totalmente a entrada de gás do aquecedor. Eu, como todo bom irmão que odeia a irmã burra, fui solidário e levei o aquecedor para consertar. Levei um susto quando vi o orçamento.

O vendedor da autorizada teve a coragem de me dizer que teria que trocar toda a parte plástica interna do aquecedor (como pode um aquecedor ter partes plásticas internas???), o que encareceria bastante o preço do conserto. E realmente encareceu, pois ficou quase o preço de um novo aquecedor. Desisti de consertar e, hoje, convivo com os vinte minutos requeridos para aquecer a água.

Voltando aos itens, a quarta é um problema porque eu odeio água gelada. Odeio ao ponto de nunca ter entrado em um rio ou cachoeira para tomar banho. Sempre fui criticado por isso (e sacaneado também), mas eu simplesmente não consigo. Como eu não tenho 20 minutos disponíveis, vou ter que juntar as minhas forças, pedir ajuda aos céus para conseguir pelo menos lavar o cabelo.

Relaxar debaixo da água quente é uma maravilha, é revigorante. Como a água está fria, eu passo para o próximo item.

A seção de descarrego é problemática. Com essa água fria, o coitado não vai querer dar as caras. Ele já não é grandes coisas e na água fria então, nem se fala. O problema é que eu sou meio viciado, o que me causa crise de abstinência, caso eu não venha a realizar o ritual pelo menos uma vez ao dia. Normalmente faço no chuveiro, mas hoje vai ter que ser na pia mesmo.

A roupa pode ser qualquer uma, pois eu já passei da fase de andar arrumadinho para ver se alguém me dá um aumento. Eu não vou mudar o mundo mesmo, então eu prefiro ser um ninguém mais a vontade. Além disso, o Rio de Janeiro é um inferno no verão, o que complica um pouco. Eu acho que todas as empresas do Rio deveriam permitir os funcionários a trabalhar de bermuda e chinelão. As mulheres não podem ir de saia curta e decote no umbigo? Porque não podemos usar uma bermuda? Será que as pessoas não gostam de olhar uma perna cabeluda? Outra discussão filosófica que pode ficar para depois.

Comer, eu como qualquer coisa. Posso deixar pra comer no trabalho mesmo, pois eles dão pão com manteiga como café da manhã. Não é grande coisa, mas dá pra tapar o buraco do dente até a hora do almoço.

Sair de casa é o fim do processo.

Acho que se eu fosse o Juliano eu desenharia o fluxograma pra poder entender direito o que fazer. Mas depois eu falo sobre o Juliano.

Como ficou a lista de afazeres:

  1. Tomar banho de água gelada -> 5 minutos
  2. Descarregar os três meses de abstinência na pia -> 2 minutos
  3. Escolher a roupa para trabalhar -> 1 minuto
  4. Vestir a roupa, comer um biscoito e sair de casa -> 5 minutos
  5. Andar até o ponto correndo -> 5 minutos
    Total -> 18 min.

Mais treze minutos, serão 08h33min. Como o ônibus passa no ponto às 08h30min, eu teria que sair agora para chegar a tempo de embarcar, ou seja, não dá tempo.

Vou ter que mudar algumas coisas:

  1. Molhar o cabelo -> 1 minuto
  2. Vestir a roupa e sair de casa -> 2 minutos
  3. Andar até o ponto -> 5 minutos
    Total -> 8 min.

Agora dá tempo!
Há! Eu esqueci do tempo de reza para não pegar engarrafamento...

Capítulo 1 - A Maldição do Rádio-relógio

Sabe aqueles dias em que você sabe que tem que acordar cedo, pois você tem uma reunião às 09h00min, mas simplesmente, por um impulso, você desliga a merda do despertador e volta imediatamente a dormir profundamente? Pois é, esse é um daqueles dias e acabei de desligar o despertador.

Bom, levando em conta que a minha reunião é uma apresentação de um projeto que estou trabalhando há seis meses, acho que eu deveria estar no mínimo estressado nesse momento, levantando, correndo, sei lá, algo parecido com isso. Mas não. Pela minha cara de felicidade agarrando o travesseiro, definitivamente, não pareço muito preocupado.

Eu moro num modesto apartamento de quatro suítes em Icaraí, de frente pra praia e com uma varanda de sete metros de comprimento. Tenho uma mulher maravilhosamente gostosa e muda. Não reclama de nada (claro, ela é muda!) e sempre me acorda com um serviço sexual básico. Depois de terminado o “trabalho”, ela se levanta e vai preparar o café da manhã, sempre com um sorriso maravilhoso e agradável.

Revigorado, me levanto e vou tomar um banho no meu lindo banheiro, este equipado com uma banheira de hidromassagem de três mil litros. Quase uma piscina (dá até pra nadar!). Após o banho, me visto, desço dois lances de escadas até a cozinha e tomo meu café enquanto minha amada esposa realiza mais um de seus serviços.

Acabado todo o processo matinal, saio de casa até a minha garagem, pego o meu Porsche e saio pela estrada de árvores imponentes e passarinhos cantantes.

Eu sonho com isso praticamente todos os dias e claro que, se eu tivesse isso tudo, não estaria muito preocupado com a apresentação que provavelmente vale meu emprego.

Devo estar sonhando com isso nesse momento, pois estou agarrando com muita força o travesseiro extra comprado com muito esforço na liquidação de uma loja de varejo aqui de Niterói. Por falar nesse bendito travesseiro, segue uma explicação sucinta da história do mesmo, em itens:

  • Locutor narrando: “Esse travesseiro fará maravilhas para a sua coluna, vejam só!”.
  • TV mostrando a imagem de uma mulher com a calça no meio das costas deitando no travesseiro perfeito. O travesseiro parece fofo, lindo e branco. A mulher superfeliz dá um depoimento empolgante.
  • Locutor narrando: “Compre agora o seu em qualquer uma das nossas lojas por apenas R$14,99!”.
  • Eu, pensando: “Puta merda, preciso de um desses!”.
  • Eu, gritando com o outro cliente já na loja: “Esse travesseiro é meu, seu filho da puta! Eu vi primeiro!”.
  • Eu, falando com a caixa após um olho roxo, mas com o travesseiro em mãos: “Obrigado!”.
  • O travesseiro, após eu encostar a cabeça, foi descendo, murchando, até encontrar o colchão velho doado pela minha avó.
  • Eu, em pensamento rápido: “Isso vem com bomba pra encher?”.
  • Eu, pensando, após a primeira noite usando o travesseiro: “Eu mato aquele locutor!”.


Como não dava pra dormir com ele, passei a usá-lo como qualquer objeto dos meus sonhos. Não quero mais falar sobre isso, pois foi muito traumático.

Enquanto continuo no meu sono de beleza, deixe-me apresentar: eu me chamo David. Sou alto, forte, moreno, gostoso, lindo e bem-dotado... isso pra minha mãe. Para os outros mortais, que não reconhecem minha divindade como minha querida progenitora, sou alto, magro e bem-apresentável (adjetivo que representa a minha total beleza).

Eu moro no Fonseca, em Niterói, num condomínio que deveria ser um paraíso (pelo menos parecia no panfleto distribuído na época da construção), mas não é. Inclusive destruíram todo o jardim, que era o mais legal do condomínio, para liberar mais espaço para garagem. Quase morri quando fiquei sabendo disso, mas os condôminos “legais” aceitaram, então tive que ficar quieto. Resumindo, o condomínio até que é bom, mas está situado num local não muito bom e mataram a porra do jardim! Só pra deixar algo bem claro: Fonseca não é São Gonçalo!

Já são 7h40min e parece que estou querendo fazer algo meio obsceno com o travesseiro.

Continuando o assunto da minha moradia: o apartamento é minúsculo e tem dois quartos, um banheiro, cozinha e sala. Se colocarmos dez pessoas na sala, não entra nem um Basset a mais. Um quarto é meu e o outro da minha irmã querida. Sim, eu sei: morar com mulher, sem ser sua esposa, é um saco. Ela ocupa a porra do banheiro sempre que você precisa. Nunca, mas nunca mesmo, more num apartamento com um banheiro apenas. É suicídio!

Joana ocupa o minúsculo compartimento por horas. Na verdade, parecem séculos. Sugeri que ela se mudasse pra dentro do banheiro, mas ela me xingou um pouco. Quando falei que ia retirar o chuveirinho do vaso então, ela quase me jogou pela janela. Acredito que retirando o bendito, ela demoraria menos no banheiro, mas foram tantos xingamentos que desisti da idéia. Aliás, os xingamentos são tão constantes que as pessoas devem achar que esse é o nosso único meio de comunicação.

Uma coisa boa sobre Joana: ela é linda. É sério! Todos os meus amigos babam por ela. Inclusive, acho que alguns só conversam comigo pra tentar algo com a garota, mas ela nunca dá muita bola pra eles.

Hoje ela está trabalhando no ramo do entretenimento masculino. Traduzindo: ela é puta. Até ganha bem com isso, mas gasta grande parte do dinheiro que ganha na tão sonhada faculdade de direito. Agora, uma pergunta: por que toda puta faz faculdade de direito? Será que é algum desejo de justiça, imposto, inconscientemente, pela profissão da vida? Essa é uma questão filosófica bastante complexa, na qual não quero gastar meus neurônios. Pelo menos, ela não leva trabalho pra casa.

Eu já devia estar acordado nesse momento, mas, até agora, continuo no travesseiro tentando fazer o impossível. A minha querida irmã seria a minha última esperança, mas a coitada deve ter trabalhado bastante durante a noite, então acho bastante difícil ela sequer se mexer na cama.

Sigo meu sono de beleza. Nesse momento o magnífico travesseiro já está todo babado. Algo importante me ocorreu. A reunião importante não só é importante, como é para o presidente da empresa cliente! Já são 08h10min e você sabe qual é a chance de eu chegar ao trabalho antes das 9h? Zero! Estou, literalmente, fodido e mal-pago.

Um barulho, um fio de esperança surgiu no mais profundo âmago da minha consciência. O travesseiro babado já se encontra fora do meu alcance. Eu devo o ter largado após não conseguir fazer com ele o que eu pretendia. Troquei-o pela colcha que estava quase caindo no chão.

Mais um barulho! Já estou incomodado.

Mais um, seguido de outro! Virei a cara para o rádio-relógio. Vou abrir os olhos a qualquer momento. Já estou me mexendo na cama, incomodado com o barulho constante.

Abri os olhos! Estou focando o relógio a quase um metro de distância. Apenas uma frase veio na minha cabeça e saiu quase que involuntariamente, num grito abafado pela colcha que ainda estava perto da minha boca.

“Puta que pariu, que merda!”