Capítulo 70 - Adeus aos Companheiros

“Fechem as bocas, por favor.”, disse.
“Cara, só de olhar eu gozei umas quinze vezes.”, disse Gilberto.
“Cadê o Ricardo?”
“Foi correndo para um canto, tentar comer a espinhuda. Você sabe como ele é, acha que está perdendo a competição.”
“E aí? Preparado?”, perguntou Roberto.
“Acho que não.”
“Que viadinho!”, disse Ricardo, chegando com uma cerveja na mão.

Todos olharam para ele e perceberam que havia algo estranho.

“Seu zíper está aberto.”, apontou Juliano.
“Bianca quis visitar o Bráulio.”, disse ele, sorrindo.
“O nome da espinhuda é Bianca? Nem sabia.”, disse Roberto.
“Tem uma pilastra ali atrás super-escondida. Joguei uma máscara facial na cara dela e a coitada foi correndo pro banheiro. Uma das meninas do RH perguntou pra ela se ela estava gripada!”, disse Ricardo, caindo na gargalhada.
“Que nojo!”, disse Juliano.
“Você é muito viadinho mesmo!”, disse Ricardo.
“Ricardo, menos.”, disse Roberto.
“Vamos ao que interessa: vocês vão para algum lugar?”, perguntou Gilberto.
“Ela quer ir para a minha casa.”
“Para sua casa?!”, indagaram todos.
“É!”
“Mas por que você não vai pra um motel aqui perto?”, perguntou Roberto.
“Ela disse que precisa estar em Niterói amanhã cedo e que seria ótimo para ela.”
“Estranho, não acha?”, perguntou Gilberto.
“Para de jogar areia na fogueira do cara!”, disse Ricardo.
“Eu só achei estranho!”, disse Gilberto.
“Eu também achei, mas fazer o quê?”, disse.
“Eu vou carregar a espinhuda pra casa também. Não vou gastar dinheiro com ela.”, disse Ricardo.
“Faz você muito bem.”, disse Roberto.
“Lá vem sua futura esposa.”, disse Juliano, apontando para Júlia, saindo do banheiro.

Ela pegou a minha mão e me carregou para fora do grupo. Fomos direto para a saída. Só deu tempo de eu olhar para trás e ver os caras, mais felizes do que eu, torcendo por mim. Eu não posso decepcioná-los.

Capítulo 69 - O Chamado

“Meu irmão, você tirou a sorte grande!”, comentou Ricardo.
“O que você está fazendo aqui? Cadê a espinhuda?”
“A cara dela tava sangrando, então ela foi ao banheiro.”, disse Ricardo.
“É sério isso?”
“Claro que não, porra!”
“Eu sei lá! A mulher parece um terreno lunar, cheia de crateras!”
“Para de zoar! Ela tem um rabo maravilhoso!”
“É, a gente viu daqui.”, comentou Gilberto.
“Mas conta o que ela disse!”, pediu Roberto.

Eu contei tudo. O detalhe da roupa suada, o que ela disse e o quase beijo. Não podia faltar nenhum detalhe, inclusive o inconveniente do garçom.

“A mulher tá feroz! Toda vez que te encontra ela te dá uma cantada assim?”, comentou Juliano.
“Pois é, tô ficando até com medo.”
“Temos que continuar com o plano!”, comentou Ricardo.
“Por que você não vai lá dançar com ela?”, perguntou Gilberto.
“Eu não sei dançar nada!”

Começou o funk novamente. Parece que o povo do marketing pediu para o DJ, pois ninguém agüentava mais ouvir “Uma barata chamada Kafka”.

“Agora você não tem escolha. Qualquer um sabe dançar funk!”
“Eu não sei dançar nada!”

Olhei para cara do Ricardo e vi que ele pretendia alguma coisa. Não gosto desses olhares de maluco dele.

“Vai aprender agora.”

Os quatro começaram a me empurrar em direção ao salão. Aquele som forte do funk carioca parecia explodir na minha cabeça. Eles me deixaram, a contragosto, bem no meio, de frente para Júlia, que logo tratou de me puxar pra perto dela. Quando percebi, já estava rebolando até o chão.
A minha perna roçava nas partes íntimas de Júlia, me fazendo ir ao extremo. Eu olhava para os lados e, de relance, via as pessoas comentando. Ela me puxou pra bem perto e se virou, esfregando as nádegas fartas da minha barriga até meu joelho. É lógico que não agüentei e fiquei de barraca armada, para minha vergonha.
Num susto, ela se virou e ficou com o rosto colado no meu, nariz com nariz. Ela continuava dançando e rebolando e eu parado, feito uma estátua. Ela começou a falar, sem tirar os olhos dos meus.

“Não vejo a hora de sair daqui.”, disse ela, mordendo os lábios.
“Eu saio na hora que você quiser.”
“Vamos agora então.”
“Pra onde?”
“Pra sua casa.”
“Pra minha casa?”
“É!”
“Mas eu moro em Niterói!”
“Eu preciso estar em Niterói amanhã cedo. Vai ser ótimo pra mim.”
“Mas eu não tenho carro. Estou a pé!”
“Vamos no meu carro. Você tem garagem?”
“Tenho.”
“Ótimo.”

Ela se virou mais uma vez, esfregando suas costas suadas no meu peito. Todos já estavam de boca aberta.

“Vamos agora porque eu estou a ponto de bala!”, disse.
“Eu preciso ir ao banheiro primeiro.”
“Então vai logo!”

Ela olhou para mim e parou de dançar. Deu mais um sorriso e seguiu para o banheiro feminino.Eu fui para perto da galera, que mantinha a boca acerta.

Capítulo 68 - A Minha Primeira Conquista (Leia-se Tentativa)

As lembranças das minhas conquistas, ao longo desses anos, não são muito agradáveis. É lógico que, à medida que vai ficando mais velho, você vai pegando experiência e, com isso, fica mais confiante. Mas, mesmo assim, você, com certeza, ficará sem respostas ou em um beco sem saída em algumas de suas conquistas.

A minha primeira investida foi quando eu tinha quinze anos. O nome dela era Rebeca e era uma das meninas mais bonitas da minha escola, só pra variar. Eu já gostava dela desde os doze anos, mas só criei coragem aos quinze. Foram três anos de sofrimento, só pra chegar numa garota. O resultado? Levei um não, claro.

Estávamos numa festinha do pessoal do colégio, na casa de um dos malucos da turma, o Alfredo. O pai do Alfredo tinha tanto dinheiro que ele brincava de montar castelo de cartas com notas de cem dólares. A casa do cara era enorme, bem parecida com a do meu sonho de hoje de manhã, mas sem as árvores imponentes e os passarinhos cantantes.

Os pais dele tinham viajado e, como todo garoto de quinze anos que quer aparecer, ele convidou todo mundo para uma festa em sua casa. Era tudo de graça, por isso, todos foram, inclusive os mais humildes. Era tanta comida e bebida, que metade do povo passou mal, todos com indigestão.

A garota estava lá e eu bem longe dela. Tinha medo, vergonha, nervoso, qualquer sintoma de um pré-beijo na garota dos seus sonhos. Bebi algumas cervejas e criei coragem.

“Oi Rebeca.”
“Oi David. Aconteceu alguma coisa?”
“Não, nada.”
“Então o que foi?”
“Eu queria conversar com você, só isso.”
“Pode falar.”
“Poderíamos ir ali atrás?”
“Por quê?”
“É particular. Não queria falar na frente de suas amigas.”

As amigas começaram a rir e eu comecei a ficar ainda mais nervoso.

“Pode falar aqui mesmo. Não tenho segredos.”
“Tá bom, então.”

Eu não tinha outro jeito, senão travar. Tentava falar, mas não conseguia. As garotas começaram a soltar risadinhas e Rebeca percebeu que aquilo estava me incomodando, me impedindo de falar. Foi então que ela resolveu ir comigo para mais longe, onde as garotas não pudessem ver.

“Pode falar, David.”
“Eu...”
“Pode falar!”
“Eu... estou apaixonado por você.”
“Você o quê?”
“Eu queria te beijar.”
“Olha David, não me leve a mal, mas você é muito novo e eu estou em outra.”
“Mas somos da mesma idade!”
“Garotas da nossa idade gostam de garotos mais velhos. Eu até acho você bonitinho, mas estou atrás de mais maturidade.”
“Tudo bem, então. Desculpe te incomodar.”
“Não fique triste, ok? Tenho certeza que você encontrará alguém pra te fazer feliz.”
“Podemos ser amigos, pelo menos?”
“Claro que sim.”

Ela saiu de perto de mim e voltou para as amigas. Fiquei olhando de longe ela contando tudo o que eu tinha acabado de dizer e as amigas gargalhando. Pelo menos ela ficou meio brava, pedindo que as amigas parassem com a brincadeira. Eu desencanei, parti para outras.

Depois de algum tempo, fiquei sabendo que Rebeca engravidou de um capitão de futebol do time da cidade. Ela ficou na merda, pois ele não assumiu o filho e foi jogar no exterior. Chegando lá, o sujeito morreu num acidente de trem. Tudo muito trágico, mas engraçado ao mesmo tempo. Pelo menos, na época, ela foi legal comigo.

O tempo foi passando, fui ficando mais velho e levando alguns foras. Com um acerto aqui e outro erro ali, fui procurando um padrão a seguir. Hoje consegui manter um padrão, mas nunca pensei em elevá-lo tanto assim, como com Júlia. Talvez seja hora de novas mudanças.

Capítulo 67 - O Primeiro Round

Quando a cerveja é de graça, seja qual e onde for a festa, o balcão sempre estará cheio de pinguços amontoados, impedindo a sua passagem. A dificuldade em uma boate, por exemplo, chega a ser absurda, tamanho o esforço para se chegar ao objetivo. Hoje, claro, não está diferente.

“Me dá uma cerveja, por favor!”

Pedi ao garçom, que me ignorou. Será que ele não foi com a minha cara ou está dando preferência para aquele grupinho do marketing ali do outro lado.

“Garçom! Uma cerveja!”
“Uma pra mim também.”

Júlia apareceu ao meu lado, suando. As gotas de suor escorriam por entre seus seios fartos, dando certo brilho a sua pele queimada de sol. Ela balançou o cabelo tentando se refrescar do calor insuportável que devia estar sentindo. Eu fiquei imóvel, claro, tentando buscar palavras para expressar o tesão que eu estava sentindo. Melhor ficar calado para não falar besteira.

“O gato comeu sua língua?”
“Ainda não.”
“Que bom, pois você vai precisar dela.”

Uma cantada dessa vinda de uma mulher maravilhosa assim, só pode ser brincadeira. Tenho certeza de que os malucos pagaram essa mulher pra fazer isso ou então ainda estou sonhando, agarrando meu travesseiro babado.

“Você demorou, pensei que não vinha mais.”
“Eu tive um problema no trabalho.”
“Eu imaginei. Que bom que você veio.”

Fiquei completamente sem assunto. E isso é ruim, muito ruim. Eu não posso travar com uma mulher dessas. Eu não travei com a coelha lá fora e nem com a mulher do ônibus, por que travaria com ela? Respira fundo! Acalme-se!

“Eu não perderia essa festa por nada.”
“E qual seria o motivo?”
“Você sabe qual o motivo.”
“Não sei não, me fala?”

Ela já estava muito próxima de mim, quase encostando o rosto molhado no meu. Lógico que tinha que acontecer alguma coisa para atrapalhar nosso beijo.

“A cerveja de vocês!”, disse o garçom, colocando as cervejas no balcão.

Ela se afastou de mim por causa desse garçom imbecil! Eu estava prestes a quebrar a primeira regra. E eu estava muito feliz por isso!

“Vou dançar mais um pouquinho, tá?”, disse ela, colocando a mão no meu queixo.
“Vai lá. Mas não se cansa muito, pois você vai precisar de fôlego mais tarde.”
“Pode deixar que, isso, eu tenho de sobra.”

Ela foi embora e meu coração está batendo mais rápido do que coelho trepando. Entrei em transe, pensando em todos os momentos maravilhosos que irei passar com ela hoje à noite. Coisas nunca antes imaginadas. Estou em êxtase permanente e ninguém vai conseguir tirar isso de mim. Não hoje.

Quando voltei a mim, percebi que os quatro estavam em grupo, olhando pra mim, de bocas abertas. Uma indireta certeira e uma resposta positiva. É a primeira vez que isso me acontece.

Capítulo 66 - O Idiota e o Energúmeno

“O que está acontecendo?”, perguntou Dario.
“Nada não.”, disse, antes que Rodrigo abrisse a boca.

Rodrigo ficou olhando para mim, ainda com a boca aberta. Não sei se ele estava pensando em algo ou ainda processando o que eu tinha acabado de fazer.

“Está acontecendo alguma coisa, Rodrigo?”, perguntou Dario, me ignorando.
“David não quer me perdoar pelo que fiz hoje.”

Ele tinha que abrir a boca para falar merda.

“Eu disse que ia tentar e provavelmente estaria tudo bem pela manhã.”
“Mas o que você fez, Digo?”
“Eu...”
“Ele não fez nada.”, disse, antes que ele terminasse sua frase.
“Você poderia deixar o Rodrigo falar?”
“Ok!”, disse, desistindo.
“Eu apaguei a base da avaliação de desempenho. Mas foi sem querer!”
“Você o quê?”

Dario olhou sério para Rodrigo. Até eu fiquei assustado agora. Será que ele vai levar um esporro por isso? Eu ia adorar se isso acontecesse.

“Eu apaguei a base, mas foi sem querer!”
“Como você fez isso?”
“Ele esqueceu de colocar um filtro na query, só isso.”, disse.
“Eu te perguntei alguma coisa?”, indagou Dario.

Eu tive que ficar quieto e esperar a conversa dos dois terminar.

“Eu esqueci de colocar um filtro na query.”
“E por que você fez isso?”
“Por que o David não me ensinou direito.”

Filho da mãe! Está colocando a culpa pela sua burrice em mim!

“Eu precisava te ensinar isso?”
“Eu disse pra você que queria que você ensinasse tudo a ele!”
“Mas isso é muito básico!”
“Não interessa!”
“Mas...”
“Amanhã nós conversamos sobre isso. Vou tentar tomar um pouco mais de uísque, pois já está acabando.”
“Vou com você, tio!”
“Então venha e aproveite a festa. Amanhã eu dou um jeito no seu tutor.”

Os dois sumiram no meio da multidão. Rodrigo seguiu seu mestre, olhando para trás, como se soubesse que tinha falado merda. Alguns segundos depois, Gilberto já estava próximo novamente.

“O que aconteceu?”
“Eu mato o Rodrigo!”
“O que ele disse?”
“Ele me queimou com o Dario! É mole?”
“Você não tinha que conversar com Dario na festa. Você feriu a regra número dois!”
“Não senhor! Ele chegou para falar comigo, não eu com ele!”
“Olhando por esse lado, talvez você tenha razão.”

Estou com muita raiva daquele imbecil. Depois de tudo que eu fiz! Tentei proteger o cara e ele me apunhala pelas costas! Preciso de uma cerveja.

“E a Ana? Não vem?”, perguntou Gilberto, mudando de assunto.
“Ana Cláudia nunca participou das festas”

Uma olhada geral, para analisar o ambiente e não estou vendo Júlia no recinto. Será que ela já foi embora? Deve ter me visto conversando com o Dario. Com certeza ela acha que eu sou um pela-saco.

“Vou pegar uma cerveja.”
“Seu copo está furado?”, perguntou Gilberto, rindo.
“Espero que sim.”, disse, me afastando.

Capítulo 65 - Chefes e Festas

Conversar com alguém superior, hierarquicamente falando, a você em uma festa, é um crime imperdoável. Os que se renderam ao lado negro da força, não retornaram. Ficaram perdidos no mundo, procurando um saco amigo para puxar. Meio Gollum sem o anel, em Senhor dos Anéis, meio criança sem seu deamon, em Fronteiras do Universo. Eu só sei que os caras ficam desnorteados. Pelo menos assim, eles não enchem o meu saco.

Roberto tentou, certa vez, ir para o lado de lá. A justificativa era a necessidade de um aumento, pois estava difícil sustentar tantas mulheres ao mesmo tempo. Tentamos convence-lo de que existiam outras maneiras de conseguir um aumento, mas ele não queria saber, estava determinado.

Escolheu um dos seus chefes e partiu para cima. Tentou algumas semanas, mas não conseguiu se aproximar do sujeito. Desistiu desse e foi tentar algo com um que ele achava ser mais fácil.
Roberto caiu na besteira de escolher, como foco, Marcela, uma dos diretores e grande concorrente de Ana Cláudia como mulher mais feia do mundo. O problema foi que Roberto considerou que, jogando o seu charme para cima da mulher, ele conseguiria algo rapidamente, talvez até um lugar na diretoria.

Ele estava determinado, afinal, o que precisava era só dar um trato e pronto, o aumento estava garantido. Marcou a data para o ataque: o dia da festa da empresa.

Chegamos cedo e começamos a beber. Tentamos convencê-lo de não ferir a segunda regra, ainda mais com Leonardo, mas ele não queria saber, não ouvia nossos conselhos.

Aproximou-se do grupo dos diretores e chamou Marcela, carregando-a para um canto. Conversaram por alguns momentos, sorrindo um para o outro. Nós não conseguíamos ouvir nada, apenas ver os afagos discretos e as risadas escandalosas. Não estávamos acreditando naquilo, pois o cara estava se entregando por dinheiro!

Os dois ficaram, um tempo, se olhando e depois seguiram em direção ao banheiro masculino. Nós, como bons amigos, fomos para perto da porta, tentar guardar aquele ato insano.

Infelizmente, as coisas não acontecem como esperado e, no momento em que houve uma dispersão do grupo (estavam todos sem cerveja!), Dario, como sempre inconveniente, entrou no banheiro para mijar e pegou os dois se agarrando.

Roberto começou a gritar feito um louco dizendo que Marcela estava agarrando ele à força. Ela ficou puta da vida e começou a desmentir Roberto, que continuava gritando. Nós entramos no banheiro alguns momentos depois e encontramos Marcela, segurada pelos seguranças, e Roberto, perto de Dario, com uma cara de transtornado. Estava claro que sua expressão era de medo. Medo de perder o emprego.

Dario ficou do lado de Roberto e demitiu Marcela da empresa, talvez não só pelo ocorrido, mas também pelo incomodo de ter aquela mulher feia nas reuniões de diretoria. Roberto ficou sem o aumento, mas continuou empregado. Ele prometeu nunca mais ferir a regra número dois. Pena que ninguém acredita no que ele diz.

Capítulo 64 - Eis que Surge o Protetor do Infeliz

Encontrar gente indesejável em festa é brochante. Você está lá, feliz, alegre, falando mal dos outros e chega o sujeito para espalhar o bolinho de amigos formados, normalmente para falar com apenas uma das pessoas do grupo. Nesse caso específico, o bucha era eu.

“Oi Chefe.”

Sabe quando você vai conversar com uma criança pequena e ela fica cheia de vergonha, abaixando a cabeça e rodando os pés? É o que Rodrigo está fazendo agora.

“O que você quer?”, disse, sem muita paciência.

Ele levantou o rosto e ficou olhando para mim, com cara de choro. Será que ele vai ter coragem de chorar na minha frente, no meio da festa?

“Vim te pedir desculpas.”, disse ele, deixando escorrer uma lágrima.

As pessoas começaram a perceber aquela cena. Todos olhando, já somos o centro das atenções, pois estamos sozinhos no meio do salão, perto do bar. Queria ser um avestruz nessas horas.

“Está desculpado. Agora some!”
“Não precisa ser ignorante. Eu só quis ajudar!”
“Ajudar como? Não sei como você consegue andar sem cair!”

Acho que peguei pesado demais com o coitado, pois ele acabou de segurar um soluço.

“É incrível como as pessoas são más hoje em dia.”
“Do que você está falando?”
“Você não reconhece o meu esforço! Para que eu chego cedo todos os dias?”

Isso não dá para agüentar. Tem gente que acha que chegar cedo todos os dias serve para alguma coisa. De que adianta chegar cedo e sair tarde se você não consegue produzir nada? É melhor chegar meio-dia e sair às quatro e entregar o que deve-se entregar!

“Rodrigo, vamos mudar de assunto? Estamos numa festa! Festa é alegria, felicidade, bebida de graça e mulher gostosa. Por que você não pára de chorar e vai conversar com alguém?”
“Você não quer conversar comigo, é isso?”

Sujeito sentimental é um saco. Na verdade, o que eu precisava agora era um saco para enfiar na cabeça desse sujeito e sufocá-lo até ficar roxo. Queria ter a delicadeza do capitão Nascimento nessas horas.

“Para falar a verdade, não estou a fim de conversa mesmo. Estou chateado com você, mas até amanhã passa.”
“Jura?”
“Não.”

Fraqueza é uma das minhas qualidades que menos prezo. Mas não consigo ser diferente, não nesses momentos.

“Você não jura?”
“Eu juro que vou tentar.”

Uma figura estranha apareceu do meu lado. Pelo cheiro de colônia barata já até sei quem é.

“Se divertindo, Diguinho?”, disse Dario.
“Não muito, tio.”

Agora a conversa vai ficar interessante.

Capítulo 63 - Eis que Surge o Infeliz

“Ele pegou a espinhuda!”, indagou Roberto, que havia chegado a poucos segundos.
“Pois é. Ele acabou de ferir a regra número um do nosso mandamento.”, comentou Gilberto.
“Mas ele feriu a regra número três também, então não tem problema.”, disse Roberto.
“Só falta ele ferir a regra número dois.”, comentei.
“Ele não é maluco.”, disse Gilberto.
“Espero que não.”, disse.

Ricardo já sumiu de vista, ou seja, já está com a mulher pronta para levar para o abatedouro. É bem provável que não o vejamos mais esta noite.

“Por falar nisso, o Rodrigo não apareceu.”, comentou Gilberto.
“Espero que não apareça, pois eu não gostaria de me tornar um assassino no meio da festa da empresa.”
“Por falar no capeta...”, disse Gilberto se afastando, no mesmo momento em que Rodrigo surgia no meio da multidão.

Capítulo 62 - Lembrando da Idade

Ultimamente virou moda tocar música dos anos oitenta nas festas, boates, festas de criança, Bar Mitzvá, funerais e afins. Os caras desenterram cada defunto, cada grupo bizarro, principalmente os que tiveram apenas um sucesso.

Você acaba lembrando da música, fica feliz por isso te lembrar coisas boas do seu passado, daquela mulher feia que você pegou na época e todo mundo te sacaneou, mas fica triste por saber que está ficando velho. É bem legal tentar lembrar do nome dos grupos, principalmente quando você está cercado de pessoas da mesma idade. Eu não consigo me lembrar de nenhum grupo, pois tenho péssima memória para essas coisas. Já o Ricardo, conhece todos os nomes, todas as músicas, todas as coreografias e lembra de todas as mulheres que ele pegou cantando “Amante Profissional” para elas. Acho que por isso ele ficou tão empolgado.

Capítulo 61 - Ferindo uma Regra

“Por que vocês demoraram tanto?”, perguntou Gilberto.
“Estávamos conversando, só isso.”

Juliano já tinha se afastado para pegar uma cerveja.

“Cadê o Ricardo e o Roberto?”
“O Roberto foi pegar a tequila no carro e o Ricardo está ali!”
O cara já estava dançando com a espinhuda no meio do salão. A coisa toda já estava caminhando para o bizarro, quando o DJ resolveu tirar o funk e colocar música dos anos oitenta. Ricardo deu um berro quando começou a tocar “Amante Profissional” e puxou a espinhuda pra bem perto, tascando um beijo na coitada. Eu juro que vi algumas espinhas e cravos voando, tamanha a força que Ricardo imprimia naquele beijo. Ele acabou de ferir uma das regras.