Capítulo 25 - Resolvendo o Problema

“Eu estou no meu trabalho, sossegado, e você me liga pra me agredir? Vai tomar no seu cú!”
“Já fiz muito isso essa noite e ainda fui paga!”
“Você é uma puta mesmo!”
“Sou sim, e registrada!”

As coisas não estão indo muito bem. Se eu não parar, daqui a pouco estou gritando aqui dentro e vou acabar me tornando o centro das atenções.

“Olha só! Eu tenho que trabalhar. Se você não quiser minha ajuda, beleza. Agora não fique me enchendo o saco, me fazendo perder tempo com as suas baboseiras.”
“Então diz logo porque essa merda não está funcionando! Você não é analista de sistemas? Então analisa essa joça que você chama de computador!”
“Você não tem idéia como eu tenho vontade de contar pra mãe as suas aventuras ilícitas, sua vagabunda!”
“E você não tem idéia como eu tenho vontade de contar, pra todos os seus amigos, que você fez fio-terra com a Claudinha!”

Agora ela pegou pesado! Esse episódio da Claudinha foi um caso a parte. Eu não sabia nem quem eu era direito e ela estava a fim de fazer. Então eu fiz. Mas quero deixar bem claro que eu não gostei nem um pouco!

“Você é muito baixa mesmo.”
“Vai me ajudar ou não vai?”

Vamos às perguntas básicas, pois ela é uma anta quando o assunto é computador.

“O computador ligou?”
“Lógico, seu idiota!”
“Mas você disse que não estava ligando!”
“Não tá aparecendo imagem na televisão!”
“Televisão?”
“É! Nessa merda aqui!".
“No monitor, caralho!”
“Isso!”
“Tem alguma luz piscando na CPU?”.
“Onde?”
“Na torre.”
“Dá pra esclarecer?”
“Nessa merda branca e comprida onde você coloca os seus CD’s pra ouvir, sua idiota!”
“Olha a grosseria!”
“Tem ou não tem?”
“Tem.”
“Quantas?”
“Um monte.”
“Dá pra dizer quantas?”
“Três luzes, porra!”
“Tem uma piscando mais que as outras?”
“Tem uma verde!”
“Beleza. O monitor está ligado?”
“Agora funcionou, tchau!”

Menos mal. Monitor desligado é um dos meus menores problemas. Agora imagina se eu tivesse que explicar pra ela que o Sistema Operacional não está funcionando e será necessária a substituição de um arquivo de sistema, logo após um boot?

Capítulo 24 - Família Feliz

Joana e eu nunca nos demos muito bem. Por ser três anos mais novo, minha mãe me mimou um pouco mais do que Joana, o que foi suficiente para ela me odiar para o resto da vida.

Ela era filha única e acabei chegando e roubando o trono dela. Isso fez com que ocorresse um desvio de conduta, causando uma perturbação psicológica grave e quebra da linha de sua personalidade. Acho que foi isso que o médico falou pra minha mãe na época que minha irmã tentou me afogar no aquário lá de casa. Pelo menos foi o que ela me contou, já que eu tinha apenas um ano de vida na época da lição de nado involuntária.

Depois que eu comecei a perceber o mundo, tratei de arranjar algumas técnicas para me defender das maldades dela. Uma das mais clássicas era fingir que ela tinha me batido para poder ganhar algo com a minha mãe. Ela podia estar no quarto dela e eu no meu, que eu saía gritando, dizendo que ela tinha me batido por nada. Era quase um prazer vê-la levando uma surra. Eu sei que era um sentimento estranho, até porque isso poderia ter afetado na minha personalidade, mas era muito bom assisti-la apanhando, já que, na maioria das brigas corporais com ela, era eu que apanhava (ela era maior do que eu!).

O tempo foi passando e eu fui crescendo. Ela nunca deixou de me encher o saco, mas não existiam mais brigas com agressão física. Na última vez, fui bastante criticado, pois dei um soco em suas costas que deixou a garota sem ar por um bom tempo. Ainda tive que ouvir a minha avó dizendo “Ela é mocinha agora! Não pode apanhar porque, senão, pode desregular o período dela!”.

Depois desse episódio, foram realizadas apenas brigas verbais, mas sem restrições quanto à forma da linguagem empregada, o que se tornou a nossa forma de comunicação mais freqüente.

Após sua ida para Niterói, para freqüentar a faculdade, minha vida ficou menos tumultuada. Infelizmente, minha mãe não tinha dinheiro para pagar um apartamento para cada, por isso, quando passei na federal, fui morar com Joana. As brigas eram feias e os vizinhos reclamavam constantemente. Pelo menos até eu descobrir, sem querer, sua nova forma de ganhar dinheiro. Só fiquei quieto porque ela prometeu me arranjar umas amigas de graça. Assim, minha mãe não ficava sabendo de nada, ela continuava ganhando dinheiro, eu ficava com as amigas dela e todo mundo ficava feliz. Simples assim!

Hoje sou muito mais tranqüilo, mas, às vezes, ela me tira do sério. Afinal, ninguém agüenta tanta burrice e prepotência numa pessoa só.

Capítulo 23 - A Gentileza de Joana

Vou marcar logo essa reunião e de preferência lá na empresa do cliente, pois não quero que o Rodrigo apareça de repente e estrague tudo, de novo.

Reunião marcada! Todos os envolvidos provavelmente receberão os convites a qualquer momento. Queria voltar para os meus e-mails, mas antes preciso atender meu celular. É uma ligação lá de casa, ou seja, não deve ser boa coisa.

“Fala Joana. O que você quer?”
“Essa merda desse computador estragou de novo!”
“O que está acontecendo com ele?”
“Simplesmente não liga!”
“Você já tentou ligar na tomada?”
“Eu já mandei você à merda hoje?”
“Se você não cooperar, eu não vou te ajudar.”
“Você nunca me ajuda em nada mesmo!”
“Olha aqui, garota! Você já está acabando com a pouca paciência que me resta.”
“Por que, então, você não enfia o dedo no cú e rasga?”

Começamos a nos entender.

Capítulo 22 - A Feiúra do Mundo

Felizmente, minha mãe me fez muito bem e não nasci feio. Não que eu seja um Tom Cruise, mas dou pro gasto. Agora, o que posso dizer sobre a feiúra? Acho que a única coisa concreta sobre o assunto é que ela realmente existe e é a maioria.

Existem pessoas feias por todos os lugares do mundo. Em qualquer lugar que você vá, seja num boteco, seja num hotel sete estrelas, haverá alguém que você achará feio. Não há escapatória!

Tudo bem que isso é uma convenção da sociedade, que cultua o corpo perfeito e ignora os mais estragados. Mas, fazer o quê? Nós vivemos nessa sociedade e temos que conviver com isso.

No Rio de Janeiro, essa cultura é muito mais forte. Acho que devido às praias, as pessoas ficam mais peladas, o que faz com que elas malhem bastante para não passar vergonha. Deveríamos ter uma estátua de um deus grego em cada esquina, para poder estimular as pessoas a malhar, serem magros ou fortes e felizes.

Está certo que uma barriga de tanquinho e um braço do tamanho de um pernil te ajudarão a pegar algumas mulheres gostosas, mas um nariz de batata e a cara cheia de buracos de espinhas da época que você não pegava ninguém, também te prejudicarão com as mais exigentes. Eu, sinceramente, acho malhar um saco. Pra que ficar se matando na academia, fazendo cara feia pras pessoas e ficar se encostando aos aparelhos suados, se eu posso ir para um bar com os amigos, beber cerveja gelada, ficar sorrindo para todo mundo e olhando a mulherada passar? Pra mim, não faz nenhum sentido.

Acredito que a maior concentração de gente feia do Rio de Janeiro está nos transportes públicos. Se alguém resolver jogar uma bomba atômica na Central do Brasil às sete horas da manhã numa segunda-feira, metade das pessoas feias e estranhas do mundo seria morta. Na barca acontece o mesmo. E quanto mais cedo, pior!

De qualquer jeito, isso só acontece porque existem pessoas. Porque, se não existissem, a menos feia de hoje seria a mais bonita de amanhã e assim por diante. Ou seja, elas sempre existirão!
Agora, uma pergunta vem a minha cabeça: será que a Ana Cláudia anda de trem?
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Esqueci de comentar, mas, durante toda a conversa com Ana Cláudia, permaneci olhando para o monitor, sem desviar meu olhar um segundo sequer. Não estava me sentindo bem e fiquei com medo de vomitar, ainda mais no dia da festa.

Capítulo 21 - O Início da Merda

“David, o Rodrigo fez merda de novo.”
“Ai meu Deus, o que ele fez agora?”
“Ele mandou um Caso de Uso para o cliente sem passar por mim.”
“E o que ele especificou de impossível dessa vez?”
“Tirando os erros de português, ele escreveu que o sistema vai buscar a informação de saldo em conta corrente dos associados, para o ator saber se o funcionário pode ou não pagar o empréstimo devido e registrado.”
“Ele o quê?”
“É isso mesmo. Além disso, ao invés de escrever ‘problema’ ele escreveu ‘poblema’ em todo o Caso de Uso.”
“Será que ele finge ou é retardado assim mesmo?”
“Eu acho melhor você conversar com o Dario sobre ele. Nós vamos acabar perdendo o projeto por causa do energúmeno.”
“Eu não posso, você sabe disso.”
“Não dá nem pra mandar ele pra outro setor?”
“Não. Dario disse que quer que eu ensine tudo pra ele.”
“Meus pêsames.”
“O que os clientes disseram?”
“Eles estão furiosos, pois eu disse que não dava pra fazer isso que estava especificado.”
“E o que podemos fazer para contornar a situação?”
“Não tenho a mínima idéia.”

Quando a Ana Cláudia não sabe o que fazer, pode ter certeza que a situação não é boa. Acho que vou pagar cinqüenta reais para matarem esse idiota antes que ele me mate. Infelizmente, é bem capaz de ele voltar do além e me acordar todos os dias de manhã me dizendo “Bom dia, David! Espero que seu dia seja ótimo e que você consiga tudo o que deseja!”.

“Vou marcar uma reunião pra acalmar os ânimos deles.”
“Acho melhor você fazer isso. Vai marcar pra hoje?”
“Tá maluca? Hoje é dia de festa!”
“Acho melhor marcar pra hoje.”
“Por que você diz isso?”
“Porque eu liguei pra eles e os caras falaram até em cancelar o contrato.”
“Cancelar o contrato por causa de um caso de uso?”
“É.”
“Esses caras tem merda na cabeça? Vão jogar todo esse dinheiro fora por causa de um erro de português?”
“Não foi um erro de português, e você sabe disso.”
“Eu mato aquele desgraçado do Rodrigo.”
“Vai marcar pra hoje à tarde então?”
“Infelizmente, não tenho alternativa.”
“Não preciso ir, correto?”
“Dessa vez, você vai comigo. Mas não se empolgue muito, pois os caras são um saco.”
“Nada é mais chato do que aturar, oito horas por dia, esse imbecil do Rodrigo.”
“Nisso eu tenho que concordar com você.”

Como pode uma pessoa, que vive numa sociedade como a nossa, não saber que existe sigilo bancário? Esses usuários devem viver no mundo da lua! Na verdade, eu acho que a lua tem uma fábrica de usuários idiotas que, quando ficam prontos, são despachados para as empresas para atormentar todos os analistas de sistemas do mundo. Acho, inclusive, que isso deve ser uma provação divina ou algo do tipo, pois não há explicação para tal fenômeno. Eu devia ter escutado a minha mãe e devia ter virado médico legista. Pelo menos os clientes não reclamam.