Capítulo 55 - O Resultado da Corrida

Acho que essa foi a corrida mais estressante, demorada e cara que eu já realizei em um táxi na minha vida inteira. Para sair da Avenida Rio Branco e ir até a Lapa, foram vinte minutos e vinte reais. Um real por minuto! Eu não ia pagar, pois ele errou em quase todas as esquinas, mas o coitado chorou tanto que acabei pagando. Vai que ele perde o emprego e resolve matar o culpado por isso?

Finalmente consegui chegar ao meu destino: o Curral do Chope. Estou ouvindo o barulho vindo lá de dentro, o tilintar das canecas congeladas e sentindo o cheiro da comida frita e gordurosa. Não existe coisa melhor, não é?

Capítulo 54 - Ligação Inesperada

Telefone de novo.

“Alô!”
“Oi meu filho.”
“Quem é?”
“É a mamãe! Não está reconhecendo minha voz?”

Prestar a atenção no motorista maluco e falar com a minha mãe ao mesmo tempo, não é algo pra qualquer um.

“Claro que tô, mãe. É que esse número eu não conhecia.”
“Eu troquei de telefone de novo. To ligando pra te passar o número, já que, para o antigo, você não ligou nenhuma vez.”

Lá vem ela reclamando que eu não ligo. Mas eu falei com ela não tem nem duas semanas!

“Já está anotado!”
“Por que você não liga pra mamãe?”
“Eu liguei pra você esses dias!”
“Já tem quase um mês que você ligou pra mim! Se for dinheiro, pode ligar a cobrar, não tem problema.”
“Não é isso, mãe. É que eu ando meio sem tempo.”
“Sem tempo de lembrar da sua mãe?”
“Você não entende, não tem nada a ver!”
“Se eu morrer aqui, nessa casa, sozinha, você não vai nem saber!”
“Mãe, sem melodrama.”
“Mas é verdade! Poderia ligar pra perguntar ‘e aí? A cachorra já morreu?’; nem parece que eu sou sua mãe!”

Só falta ela começar a chorar agora.

“Mãe, pára com isso?”
“Como eu posso parar? A sua irmã me liga quase todos os dias e você só de mês em mês!”
“Ela liga porque é uma a toa!”
“Não fale assim da sua irmã! Você tem que respeitar ela, pois ela vai virar advogada!”

Coitada. Não tem a mínima idéia do que Joana faz. Eu só não conto, porque ela vai ter um treco e vai acabar ficando igual a minha avó. Imagina o remorso?

“Por falar na sua irmã, ouvi dizer que ela está namorando. Você já conheceu?”
“Qual deles?”
“Qual deles o quê?”
“Qual dos namorados!”
“Ela tem mais de um?”
“Ela tem um monte! Inclusive, namora um monte de uma vez só!”

Silêncio.

“Tô brincando mãe!”

E o silêncio continua. Algo está acontecendo. Será que ela está passando mal?

“Mãe?”
“Não me mata de susto menino!”, disse ela, soluçando.
“Você está chorando?!”
“Com um susto desses, você queria o quê?”
“Calma mãe, eu estou brincando!”
“Não brinca com uma coisa séria dessas!”
“Desculpa!”

Ela está tentando se recompor. Pelo visto, jamais poderei falar a verdade! De que adianta um trunfo se nunca poderei usá-lo?

“Mas então, você conheceu o rapaz? É algum advogado importante?”
“Deve ser mãe, mas não conheci.”
“Rezo tanto para Joana conseguir um rapaz bom!”
“Eu também!”

Arranjando um bom marido, ela sai de casa e me deixa morando sozinho. Não poderia querer algo melhor pra ela, não é?

“Você está comendo direito, Davizinho?”
“Você sabe que eu não gosto que me chame assim, mãe!”
“Está ou não está?”
“Estou! Estou!”
“Está tomando leite de manhã?”
“Quando eu lembro, sim!”
“Você sabe que não pode ficar sem leite, David! Você fica fraco!”
“Eu estava com pressa hoje, por isso não tomei. Dá próxima vez eu juro que tomo.”
“Vocês, nessa cidade grande, precisam se alimentar direito!”
“Tá bom, mãe! Eu já entendi!”

Mais um silêncio. Parece que ela está ficando sem assunto, o que é um bom sinal de fim de conversa. Não que eu não goste de conversar com a minha mãe, mas é que eu prefiro terminar a conversa antes que ela comece com assuntos que não gosto de conversar.

“Você está rezando meu filho?”

Esse é um dos assuntos.

“Sim, todos os dias!”

Não gosto de mentir pra ela, mas não dá pra falar a verdade sobre religião. Não depois de tudo que ela já passou comigo sobre o assunto.

“Muito bem! Reze bastante, pois só papai do céu pode dar as coisas pra gente!”
“Desde quando você virou religiosa?”
“A vida sem religião é uma vida sem sentido! Você tem que ter uma, seja ela qual for!”
“Ok!”
“Vou desligar, meu filho, pois não sou dona da Telemar. Tive que pagar quase seiscentos reais de plano de saúde, pois não tem ninguém pra me ajudar.”

Segundo assunto chato: reclamações sobre a situação financeira atual.

“Mãe, eu não tenho dinheiro pra ajudar.”
“Eu sei, meu filho, não estou te cobrando nada.”
“Beleza.”
“A sua avó mandou um abraço!”
“Como assim? Ela conseguiu falar alguma coisa normal?”
“Não, mas estou mandando mesmo assim. Tenho certeza que, entre um palavrão e outro, ela falou algo do tipo.”
“Dá um abraço nela pra mim. Mas não chegue muito perto para ela não te morder de novo!”
“Pode deixar, meu filho. Fica com Deus!”
“Beijos, mãe!”
“Beijo meu filho! Mamãe te ama, viu? E cuida da sua irmã pra mim, pois não vou durar muito tempo!”
“Tchau!”

Tive que cortar o assunto, pois ela ia entrar no terceiro assunto chato: a proximidade da morte. Acho que não conheci uma pessoa mais hipocondríaca do que a minha mãe. Ela sabe, décor, todas as bulas de remédio existentes no mundo. Isso é bom quando preciso curar uma dorzinha, pois, assim, não gasto dinheiro com médico. Existem outros assuntos chatos, como: “você tem que passar em concurso público” e “eu quero um neto”; não ia agüentar mais dois tópicos com ela ao telefone.

Agora, a festa! Já são 19h30min e eu ainda estou nesse táxi. Tem alguma coisa engraçada na paisagem. O que eu estou fazendo na praia do Flamengo?

“Amigo, o que você está fazendo aqui?”
“Eu? Estou dirigindo!”
“Eu disse aqui, na praia do Flamengo!”
“Você me mandou virar a direita e eu virei!”
“Eu mandei você manter a direita!”
“Mas eu fiz isso!”
“E por que você não entrou na rua dos Arcos?”
“Por que você não disse que era pra virar a direita duas vezes!”

Isso que dá querer dar uma de rico. Pobre tem que andar é de ônibus!

Capítulo 53 - O Taxista

Dúvida cruel de pobre: vou de ônibus ou a pé? Não tenho muito tempo pra pensar. O restaurante é perto, mas provavelmente vou suar no caminho se for a pé. Imagina pegar a mulher da minha vida fedendo a suor? Já estou suando de nervoso, se for andando então, vou chegar com marcas de pizza nas axilas! Acho que vou de táxi, pois assim me mantenho refrescado no ar-condicionado de um Santana qualquer.

“Táxi!”

Pra variar, realmente é um Santana. Acho que noventa e oito por cento dos táxis do Rio de Janeiro são Santana. Eles devem continuar fabricando esse carro só para os taxistas. Aliás, eles devem sair da fábrica já pintados e com taxímetro rodando!

“Sabe aonde é o Curral do Chope?”
“Curral do quê?”

Taxista que não conhece bar na Lapa é novato. Deve ter sido importado do nordeste, com promessas de uma vida melhor e muito dinheiro no bolso. Coitados, foram todos enganados, pois não existe povo mais explorado do que os taxistas. Até relevo o fato de eles roubarem de vez em quando numa corrida. Com os outros, claro, não comigo!

“Curral do Chope, ali na Lapa.”
“Vixi! Onde fica isso?”
“Passa os Arcos que eu te mostro.”
“Arcos da Lapa?”
“De onde mais seriam?”
“Sei lá! Não conheço essa cidade direito ainda.”
“Eu já percebi. Vai logo, que eu estou atrasado!”
“Pode deixar patrão! Mas eu vou por onde?”

Era só o que me faltava. O coitado deve estar começando hoje!

“Você está na Rio Branco e não sabe chegar na Lapa?”
“É que eu comecei hoje. Meu primo, Edisberto, me arrumou esse emprego.”
“Beleza. É só ir reto até o final dessa rua. Chegando lá, mantenha-se a direita, ok?”
“Ok! Vambora patrão!”

O cara deu uma arrancada e morreu com o carro. Quase bati com a cabeça no banco da frente. Era tudo que eu precisava agora: um motorista que não sabe dirigir e que não tem a mínima idéia da onde está.

“Desculpa patrão! Agora nós vamos!”

Espero que eu não morra antes de chegar à festa.

Capítulo 52 - Saindo da Empresa

Mais uma ligação.

“Você vem ou não?”, gritou Roberto do outro lado da linha.
“Tô saindo daqui!”
“Porra, já são 19h! Já tem um monte de gente bêbada aqui! E estão chegando na sua mulher direto!”
“E aí? Ela tá dando mole pra alguém?”
“Não! Está só conversando com as meninas do Marketing. Todo mundo que chega ela veta!”
“O Ricardo já chegou nela?”
“Já! Levou o maior veto!”
“Muito bom! Segura ai, que eu estou indo!”

Agora posso me encaminhar à zona da perdição, para a minha glória, para meu reconhecimento como macho alfa. Hoje, eu sou um predador atrás de uma presa específica e o meu campo de caça é a festa!

Capítulo 51 - Irmã Chata, Parte 3

Ah, não! Ligação de casa a essa hora só pode ser problema.

“Alô!”
“Eles não religaram o gás!”

Joana a essa hora? Só pode ser piada!

“Você ligou o chuveiro?”
“Claro que liguei! Está achando que eu sou o quê?”
“Você quer que eu responda?”
“Vai à merda! Por sua causa eu perdi meu cliente das 16h e vou perder o meu cliente das 19h!”
“Daqui a pouco você arranja outro.”

Um silêncio dominou a conversa. Ela suspirou e manteve-se muda por alguns segundos. Hesitou algumas vezes, como se quisesse dizer algo que não podia ou que tinha medo de falar.

“Você pode me ajudar, por favor?”

Joana pedindo algo para mim com educação? Tem alguma coisa errada.

“Você está passando mal?”
“Não, por quê?”
“Nada não, deixa. Você foi verificar lá no aquecedor?”
“Fui! Não está acendendo!”
“Você religou o registro que você provavelmente deve ter mexido em um de seus ataques de raiva?”
“Não!”
“Então liga!”
“Funcionou! Te amo, irmão!”

Realmente ela não está bem.

Capítulo 50 - Resultado do Capítulo Anterior

Após meia-hora de muito esforço e paciência, consegui convencer Dario a refazer as avaliações que ele havia perdido. Inclusive, como eu havia reclamado, ele fez questão de fazer a minha avaliação comigo presente. Até que a minha nota final foi razoável, pois ele me detonou nos fatores comportamentais, principalmente no item trabalho em equipe. Mas como ganhei notas boas nas metas de trabalho e de aprendizagem, minha nota subiu um pouco.Mas de que adianta? Nunca ganho PLR mesmo!

Capítulo 49 - Mais Longe do Fim

Já são 18h30min e a Ana ainda não mandou o e-mail e nem telefonou pra avisar que está tudo ok. Vou telefonar para ver como anda as coisas.

Merda! Ela não está atendendo! Por que isso só acontece comigo?

Telefone tocando, só pode ser ela!

“Alô!”
“Vem pra cá logo, porra!”

É Gilberto me enchendo a paciência. Está uma barulheira absurda do outro lado da linha. Ele já está com voz de bêbado.

“Eu estou tentando terminar essa merda aqui!”
“Esquece isso e vem pra cá!”
“Não posso! O Dario descobriu!”
“Manda ele tomar no cú e vem pra cá logo!”
“Se eu pudesse, jogava ele daqui de cima!”
“Vai jogar quem, aqui de cima?”

Dario apareceu como um fantasma atrás de mim. Eu gelei e desliguei o telefone na cara de Gilberto. Tenho que pensar rápido e pensamentos rápidos são sempre perigosos.

“O computador. Queria jogar o computador daqui de cima.”
“Que bom. Pensei que você estivesse falando de mim.”
“Não, não estava.”
“Alguma novidade? O Uísque já deve estar acabando.”
“Já estou quase terminando.”
“Descobriu o que era?”
“Não.”
“Então como você está terminando se você não sabe nem o que é?”
“Dario, se você continuar me fazendo perguntas, não conseguirei terminar rápido.”
“Por que eu acho que você está me enganando?”

Chefe desconfiado. Perigo! Perigo!

“Dario, você pode fazer as suas avaliações sem problemas. Você não tem um monte pendente ainda?”
“Tenho.”
“Então, porque não vai adiantando?”
“Vou fazer isso então. Mas ande logo com isso!”

Anda logo Ana Cláudia, atende essa merda de telefone.

“Alô!”, disse ela.
“Finalmente!”
“Já acabei aqui. Pode liberar o sistema.”
“Mas o sistema já estava liberado!”
“Ih! Se alguém estiver fazendo avaliação, vai perder tudo!”
“Ah, não!”
“David!”, gritou Dario.

É hoje que não saio daqui.

Capítulo 48 - Terrorismo

“Posso saber por que as avaliações que eu fiz não estão aqui?”, disse ele, virando o monitor e apontando para a tela.
“Deixa-me ver.”

Virei o monitor para mim e peguei o teclado e o mouse. Preciso ganhar tempo, enquanto a Ana faz a parte dela.

“Estranho.”
“O que é estranho?”
“Entrei com a minha senha, de administrador. Não está aparecendo a avaliação de ninguém!”
“É o quê?”

Fingir não saber de nada é uma boa tática. Não ia adiantar eu botar a culpa no Rodrigo, pois ele ia jogar para cima de mim de qualquer jeito.

“Não está aparecendo de ninguém!”
“Mas como pode isso? Hoje é o último dia!”
“Eu pedi o Rodrigo para acertar uma coisa no sistema hoje. Vou lá na minha máquina para saber o que ele fez.”

Preciso de uma desculpa para sair daqui.

“Vê se anda logo e conserta isso! Eu preciso fazer a sua avaliação para ir para a festa!”
“Mas você não deviria marcar uma reunião comigo para realizar essa avaliação? Afinal de contas, eu posso comentar ou discordar de algo que você tenha escrito.”
“Fala sério! Desde quando eu chamo algum funcionário para conversar sobre avaliação de desempenho?”
“São regras do RH!”
“E eu com isso? Fui eu que criei essa empresa. Eu faço as minhas regras!”
“Mas eu não tinha que fazer uma avaliação sua também?”
“Eu mesmo já fiz essa parte, mas, pelo jeito, vou ter que fazer de novo, já que você fez o favor de sumir com todos os dados do sistema!”

O cara além de botar a culpa em mim, faz a minha avaliação sem me consultar e ainda se auto-avalia! Como pode alguém assim pode ser gestor de alguém?

“Posso ir então?”
“Vai e anda logo com isso! E se vocês perderam todos os dados, inclusive os das avaliações feitas pelo presidente, não precisa nem ir à festa. Pode ir direto pra casa e não voltar mais!”

Terrorismo a essa altura do campeonato é demais pra mim.

Capítulo 47 - As Festas da Empresa

Festas de empresa são sempre interessantes. Há quem reclame de tudo e há quem não se lembre de nada. Eu sou da turma que se diverte, ri da cara dos outros e tenta alguma coisa com a mulherada, mas bem no sapatinho. Existem três regras que devem ser seguidas a risca, pois, se não, seu emprego corre sério risco. São elas:

1) Nunca pegue ninguém na festa. Mesmo que aquela gata esteja bêbada e esteja muito a fim de dar pra você, passe bem longe dela. Pode xavecar, combinar de ir pra casa, mas não faça nada no ambiente!
2) Nunca fique puxando assunto com o chefe. Ele sabe que você está ali só porque é seu chefe, então saia de perto.
3) Nunca beba demais. Fazer papelão em festa de empresa significa ser sacaneado pro resto da vida. Se vomitar então, pode pedir a um amigo para recolher suas coisas e manda-las pelo correio.

Feito isso, você pode se divertir a vontade. E diversão em festa de empresa significa falar mal dos outros, beber e comer de graça. Não existe coisa mais agradável do que ver uma pessoa que você não gosta na fossa. É muito mais agradável ainda, conversar com as mulheres sem ter que falar de trabalho e ver que elas concordam com a maioria das nossas opiniões sobre certas pessoas da empresa. Além disso, mulher é sempre uma fonte boa de fofoca. Não que eu seja fofoqueiro, mas é bom se manter atualizado com os últimos acontecimentos.

Certa vez, Roberto resolveu desrespeitar as regras e se deu mal. Encheu a cara de Uísque com Red Bull, encheu a paciência de Dario (chegou a chamar o sujeito de Senhor dos Anéis!) e, o pior de tudo, pegou a mulher mais feia da festa. Para completar, ele andou de mãos dadas com ela por todo o ambiente e, para piorar a sua situação, foi embora de carona com ela.

No dia seguinte, Roberto veio nos contar que acordou ao lado de uma mulher horrorosa e que estava morrendo de dor nas costas. Não conseguia se lembrar de nada, mas pediu para que nós não o lembrássemos de nada. Rimos bastante da cara dele por pelo menos uns três meses. Ninguém mandou desrespeitar as regras!

O resto do pessoal sempre se comporta, pois todo mundo tem medo de perder o emprego. Os casados ficam na deles e os solteiros tentam alguma coisa, mas sem efetivar ali dentro. A conversa é sempre recheada de “vamos sair daqui” e “aqui dentro tá muito quente”. A grande maioria não consegue nada, mas o que custa tentar, não é?

Hoje é dia de festa e, ao invés de eu aproveitar todas essas coisas legais citadas acima, estou indo para a sala do Dario, levar esporro por algo que eu não tenho culpa. Na verdade, a culpa é dele por manter aquele energúmeno do Rodrigo dentro da empresa.