Capítulo 40 - Criado por Vó

Dormir no trabalho, ainda mais na estação, é o maior vacilo que uma pessoa pode cometer. Por isso, quando encontramos um amigo com dificuldades de se manter acordado após um almoço, normalmente tentamos ajudá-lo. Eu, pelo menos, tento dar um toque, falar com ele para ir lavar o rosto ou mesmo ir dormir no banheiro, para não ter problemas com seu chefe. Agora, quando você é o chefe, a coisa muda de figura.

“Rodrigo!”

Ele não atendeu, pois deve estar no décimo sono. Meu Deus, ele está babando!

“Rodrigo, acorda!”, disse cutucando o sujeito.
“Hã, oi chefe!”, disse ele limpando a boca babada.
“O que você está fazendo?”
“Eu estava fazendo o que você mandou.”
“Eu mandei você dormir?”
“Não. Você me mandou ficar aqui até você ir embora. Só que eu estou morrendo de fome e você não foi embora ainda. Aí acabei caindo no sono. Eu tenho sono quando estou com fome.”

Acho que se eu tivesse uma serra-elétrica aqui, eu partiria esse imbecil ao meio! Como pode ele ter levado tão a sério o que eu disse? Com certeza ele tem problemas mentais.

“Rodrigo, o que eu disse, não era para ser levado a sério.”
“Não é pra levar a sério o que você diz?”
“Não foi o que eu disse!”
“Não estou entendendo.”
“O que eu quis dizer com aquilo foi que não era para você falar comigo durante o dia, só isso.”
“Mas eu pensei...”
“Esquece o que você pensou. Vai almoçar, vai!”
“Obrigado, chefe!”
“E não durma mais no trabalho!”
“Pode deixar, não vou fazer mais isso.”

Coitado, até tenho pena. Às vezes, claro.

“Chefe!”
“O que você quer agora?”
“Você não vai me levar para a reunião, mesmo?”

Ele está fazendo cara de cachorro pidão e está com os olhos cheios de lágrimas, como se tivesse perdido o brinquedo preferido. Não sei se ele está tentando me convencer ou se realmente está chateado. Não dá pra saber essas coisas de bajuladores. Eles nascem profissionais no assunto!

“Desculpa Rodrigo, mas você fica dessa vez.”
“Por favor!”

Estou com medo de ele ajoelhar e começar a implorar, agarrando minhas pernas. Imagina o mico?

“Dessa vez, você fica. E ponto final.”
“Isso é uma sacanagem! É culpa daquela mulher! Ela está jogando você contra mim, tomando meu lugar!”
“Deixa de ser idiota! Ana não está fazendo nada contra você!”
“Eu não acredito!”
“Bom, o problema é seu.”

Acho que fui grosso, pois ele não estava esperando essa resposta. Se ele começar a chorar, eu juro que dou um tapa na cara dele.

“Rodrigo, olha só. Você fez besteira e eu estou indo consertar.”
“Eu juro que foi sem querer!”
“Imagino que tenha sido, mas eu preciso consertar isso sozinho, ok?”
“Então por que está levando ela?”
“Porque ela vai me ajudar com algumas questões técnicas que eles estão com dúvidas.”

Mentira, claro, mas foi uma ótima desculpa.

“Tá bom então. Mas da próxima vez, eu é que vou, não é?”
“Vamos ver. Vai almoçar e depois a gente conversa.”
“Ok!”

Eu estou pagando todos os meus pecados com esse sujeito. Devo ter sido um cara muito mal na última encarnação, se eu acreditasse nisso, claro. Esqueci de perguntar sobre o erro que encontraram ontem. Não sei onde estava com a cabeça quando pedi o Rodrigo para ver isso pra mim.

“Rodrigo!”
“Oi chefe!”
“Você viu o problema que estava dando no sistema de Avaliação de Desempenho que está em produção?”
“Ainda não chefe. Vou ver depois do almoço.”
“Não esquece! Hoje é o último dia de avaliação.”
“Pode deixar, não vou te decepcionar.”

Por que não consigo acreditar no que ele diz?

Capítulo 39 - Tudo Consegue ser Pior do que se Imagina

“Você é maluco?”
“Cara, você sabe como eu sou.”
“Você é um idiota, isso sim!”
“E agora? O que eu faço?”
“Eu sei lá! Quantos anos essa garota tem?”
“Dezenove.”
“É o quê?”
“Dezenove! É, eu sei que fiz merda!”
“Você engravidou uma garota de dezenove anos e, ainda por cima, ela é sua cunhada? Você tem merda na cabeça?”
“Ela me provocava toda hora, porra! Como eu poderia resistir a um pernil daquele, tão fresquinho!”
“Caralho, Roberto! Você não consegue se controlar?”
“Você sabe o que aconteceu comigo.”
“Não fique usando aquilo para justificar as besteiras que você anda fazendo. Isso já faz muito tempo e você já está bem crescidinho para ficar lembrando disso!”
“Tá bom, papai. Mas o que eu faço agora?”
“Sei lá! É impossível pensar em alguma coisa!”
“Ela falou que vai tirar.”

Se tem uma coisa que não suporto é ouvir alguém falando de aborto. A criança não pede pra vir ao mundo e ela não tem culpa das idiotices que seus pais irresponsáveis fazem!

“Tá maluco?”
“Cara, foi ela que disse!”
“Você é mais irresponsável do que eu imaginava!”
“Eu não sei o que fazer! Eu não vejo outra saída.”
“Não faça nada estúpido para depois se arrepender. A criança não tem nada com isso.”
“Eu sei. Mas não tenho tempo nem dinheiro para outra família.”
“Se vira, meu irmão! Ninguém mandou fazer merda!”
“Por que você está alterado? Eu é que devia estar nervoso!”
“Porra, Roberto! Você quer que eu fique normal vendo a merda que você fez? E ainda vem me falar de aborto?!”
“Não sabia que você era tão radical. Pode deixar que não vou deixar que ela faça besteira.”
“É bom mesmo!”
“Eu falei isso tudo, mas ainda não está certo de que ela está grávida.”

Deixa eu me acalmar, porque, senão, vou acabar brigando com ele.

“Quando sai o resultado do exame?”
“Hoje à tarde.”
“Quantos meses sem descer?”
“Dois meses e alguns dias.”
“A probabilidade é alta.”
“Eu sei.”

Eu não consigo entender o que esse sujeito tem na cabeça. Será que ele não sabe que existe camisinha?

“Eu tenho que ir, minha reunião é na Barra da Tijuca às 15h.”
“Vai lá. Depois a gente conversa mais.”
“Reze para que ela não esteja mesmo grávida, pois, se não, sua vida vai virar um inferno.”
“Vou rezar muito!”
“Vai trabalhar e vê se você coloca um pouco de juízo nessa sua cabeça!”
“É difícil, mas vou tentar.”

Eu já estou pilhado hoje e ainda fico ouvindo os problemas dos outros. Vou chegar na festa todo travado. Depois dessa reunião então, ficarei pior ainda! Preciso me acalmar.

“David, temos que ir.”, disse Ana Cláudia.
“Já vamos. Só vou colocar essas coisas na minha mesa e ir ao banheiro.”
“Estou te esperando lá embaixo então.”
“Ok!”

Meia-hora no carro evitando olhar para o rosto dela. Ainda por cima, depois de tudo, vou arranjar um torcicolo.

Capítulo 38 - As Cinco Certezas da Vida

Existem apenas cinco certezas na vida:

1) Você irá morrer (isso é fato).
2) Você será demitido pelo menos uma vez (mesmo não sendo culpa sua!).
3) Você trairá a pessoa amada (e se arrependerá, provavelmente).
4) Você será traído pela pessoa amada (e usará isso como desculpa para fazer o mesmo com a próxima namorada).
5) Você fará uma merda que o fará pedir um conselho ao amigo mais próximo (ou ao primeiro que passar na sua frente).

Não preciso comentar que Roberto só não passou pela primeira certeza. Pelo menos até uma de suas mulheres descobrir o que está acontecendo.

Capítulo 37 - A História de Roberto

Roberto era o cara mais fiel do mundo. Até sua mulher botar um par de chifres em sua cabeça e fugir com o instrutor da academia. Bem clichê, mas foi o que aconteceu.

O cara ficou arrasado e passou meses, trancado em casa, chorando a perda da mulher amada. Até que um dia, seus amigos mais que legais, apresentaram a ele os prazeres da vida fácil. Após essa experiência, o sujeito virou o cara mais avesso a compromisso na face da terra.

Ele não queria saber de nada sério com ninguém. Queria apenas se divertir, sair, pegar a mulherada e transar com todas na sua frente. Estava completamente perdido. Foi quando, numa noite dessas de farra, conheceu Catarina. Os dois se apaixonaram e logo estavam morando juntos. Eram felizes e tiveram um filho, João, que hoje está com cinco anos.

O problema foi a chegada daquela vontade que aflige todos os homens casados: a vontade da “carne fresca”. Como Roberto trabalhava muito e sempre viajava para o norte do estado, foi fácil encontrar uma outra pessoa que lhe desse atenção, além de outras coisas a mais. Juliana passou a ser a sua segunda mulher “oficial”, a do final de semana.

Então ficou algo parecido com isso: durante a semana ele ficava com Catarina no Rio e, nos finais de semana, ele ficava com Juliana em Campos. Para fugir nos finais de semana, ele usa a desculpa “ainda existem pendências no trabalho antigo”. Durante a semana, ele usa a desculpa “trabalho na matriz e venho pra cá somente nos finais de semana”. Como as mulheres são patetas quando apaixonadas, as duas caem nas lorotas do rapaz.Além dessa enrolação toda, ele ainda arranja tempo para fazer merda aqui no Rio, normalmente longe de casa. Mas, agora, ele se superou.

Capítulo 36 - Um Novo Problema

Ainda na máquina de fax...

“Aconteceu alguma coisa?”, perguntou Roberto.
“Oi Roberto. Eu estava só subornando o cara do gás.”
“Você o quê?”
“Eu tive que oferecer um dinheiro pro sujeito para ele religar meu gás ainda hoje.”
“Nada como um cafezinho para acertar as coisas.”
“Pois é, morar no Brasil tem dessas coisas. O povo faz tudo por um cafezinho.”
“Nem me fale.”

Engraçado. O Roberto está com uma cara de preocupado. Parece que quer dizer alguma coisa, mas não está conseguindo.

“David, preciso te falar um coisa.”
“É, eu percebi. Aconteceu alguma coisa?”
“Ainda não sei.”
“Como assim não sabe?”
“Podemos conversar lá na copa?”
“Eu tenho uma reunião agora.”
“Mas é rápido!”
“Beleza.”

Homem quando fica nervoso desse jeito é porque engravidou alguém ou está precisando de dinheiro. Se for a segunda opção, coitado, ele não vai conseguir nada. Não é por eu ser pão-duro e sim por eu ser somente ‘duro’.

“Cara, estou com um problema.”
“Pode falar, Roberto. Aconteceu alguma coisa grave?”
“Acho que sim.”
“O que você aprontou dessa vez?”
“Acho que a menina que eu estou saindo está grávida.”

Ainda bem que não era a segunda opção.

“Mas você está saindo com outra pessoa?”
“Estou. E ela é mais nova do que eu. Bem mais nova!”
“Você não consegue se satisfazer com apenas duas?”
“Poxa cara, não vamos ficar discutindo isso! Eu estou com um problemão aqui!”
“Cara, se você consegue enganar duas, consegue enganar três. O problema é ter mais um rebento para sustentar!”
“Se fosse só esse o problema, estava tranqüilo.”
“Tem mais algum problema?”
“Tem.”
“Diga qual, infeliz!”
“A garota é irmã de Catarina. Ela é minha cunhada!”

Quase cuspi o café em cima dele.

Capítulo 35 - O Jeitinho Brasileiro

Existe uma máquina de fax na empresa que é liberada para todos os funcionários. O único problema é que, para conseguir ligar e solicitar o sinal do fax, você precisa do fio do telefone, que fica com Regininha. Eles resolveram tirar o cabo porque o segurança não parava de usar o telefone. O coitado tentava, sem muito sucesso, convencer seu filho a não ser gay. Tudo bem ele tentar, mas ele podia fazer isso em casa e não no telefone da empresa.

“Alô! Poderia me liberar o sinal do fax, por favor?”

É engraçado como algumas coisas não mudam. O fax, por exemplo, já era para ter sido abolido há pelo menos uns dez anos. A internet chegou e não vejo diferença em se mandar um documento por fax ou por e-mail. A autenticidade será duvidosa em ambos os casos, então, para que se preocupar com segurança? Presume-se, apenas, que a pessoa não esteja te enganando. Apenas isso.

“Poderia confirmar o recebimento?”
“Recebemos uma conta com registro de pagamento com data de hoje. Confere?”
“Sim, é isso mesmo.”
“E mando para quem esse fax?”
“Para o Eduardo, do setor financeiro.”
“Só um segundo.”

Pelo menos essa empresa não possui setor de telemarketing, nem atendimento eletrônico, o que é quase um milagre hoje em dia. Nela, conseguimos falar direto com quem queremos, o que torna as coisas muito mais práticas e fáceis.

Quando preciso utilizar atendimento eletrônico, quase sempre tenho taquicardia. Esse tipo de atendimento é extremamente irritante, pois, além de ter que ouvir uma mulher com voz de zumbi, temos que pressionar milhões de opções para, no final, não obter a informação que queremos. A ligação, então, é transferida para um atendente. A etapa seguinte é estressante, pois o atendente não consegue te explicar nenhuma de suas dúvidas, não consegue resolver nada e ainda fica te enrolando para você gastar com os minutos cobrados, ou seja, não servem para nada.

“Senhor, não existe nenhum Eduardo no setor financeiro.”

Falei bem cedo demais.

“Como não? Eu falei com ele ontem!”
“Senhor, eu conheço todos os funcionários do setor financeiro e não existe ninguém com esse nome.”
“Meu amigo, eu não estou maluco. Eu falei com um Eduardo ontem, dizendo que eu ia pagar a conta hoje.”
“Senhor, não existe ninguém com esse nome. Desculpe-me.”

Não é possível! Será que fui enganado? Mas eu liguei para esse mesmo número!

“Se você conhece todo mundo, diga-me os nomes.”
“Senhor, os únicos que trabalham no setor financeiro são: Roberta, Rogéria, Carlos e Edward.”
“Edward?”
“É. Filho da Dona Josefa e do seu Atílio. Fazem churrasco todos os finais de semana e são muito legais e divertidos.”
“Mas que porra de nome é esse?”
“Senhor, pedirei para diminuir o conteúdo impróprio do linguajar empregado, ok?”

Que atendente é esse que fala tão difícil?

“Ok! Desculpe-me!”
“Edward é o nome dele.”
“Poderia me transferir para o ‘Edward’ então?”
“Sim senhor! Envio o fax para ele?”
“Pode enviar!”
“Obrigado, senhor! Não saia daí, pois sua ligação é muito importante para nós!”

Músicas de espera são sempre depressivas. Parecem ser uma cantiga de Natal daquelas bem chatas e tristes, que grudam na cabeça e só saem após você ouvir uma outra música de natal!

“Eduardo falando.”
“Eduardo?”
“Foi o que eu disse. Em que posso ajudar?”
“Cara, aqui é o David, lá do Fonseca, tudo bem?”
“Oi David, como vai? Conseguiu resolver o problema do pagamento?”
“Consegui, mas deixa eu te perguntar outra coisa, primeiro.”
“Pode perguntar.”
“Qual o seu nome, afinal de contas?”
“Mas eu já disse meu nome. Não estou entendendo.”
“Desculpa, mas é que o primeiro atendente disse que seu nome era Edward.”
“Esse é meu nome.”
“Mas você acabou de se anunciar como Eduardo!”
“Mas meu nome é esse também!”

Conversa de maluco...

“Não estou entendendo mais nada!”
“Meu nome de registro é Edward Eduardo. Alguns me chamam de Edward e outros de Eduardo. Pra mim, tanto faz.”
“Sua mãe não gostava muito de você, não é?”
“Desculpe senhor David, mas não escutei direito.”
“Nada não, esquece. Cara, é o seguinte: mandei o fax para você. Tem como religar o gás?”
“Sim, claro! O prazo para religar o gás é de quarenta e oito horas.”
“Mas isso é muita coisa!”
“Desculpe senhor, mas esse é o procedimento.”
“Não tem como dar uma agilizada nisso? Se não minha irmã vai me matar!”
“Desculpe, mas não há o que fazer.”
“Teria como você parar de se desculpar de tudo que eu falo?”
“Desculpe senhor, não farei mais isso.”

Esse cara deve estar devendo a um monte de gente. Não é possível, ele pede desculpas a cada cinco segundos!

“Vamos começar de novo: hoje é sexta-feira; amanhã vocês não trabalham; eu preciso de gás. O que podemos acordar?”
“Está tentando me subornar, senhor?”
“Não! Longe de mim fazer algo tão abominável! Mas, caso eu estivesse, você aceitaria?”
“Dependendo de quantos cafés estamos falando, podemos tentar um milagre.”

Sabia! É só oferecer um cafezinho e eles conseguem fazer tudo com mais rapidez e eficiência. É um absurdo eu ter que fazer esse tipo de coisa, mas não posso fazer nada. É mais forte que eu!

“E de quantos cafés estamos falando?”
“Uns dez cafés já estão de bom tamanho.”
“Ótimo! Consegue ligar hoje ainda?”
“Com certeza! Daqui umas duas horas você pode conferir.”
“O fax que enviei está correto?”
“E o que importa? Não fazemos nada com isso mesmo!”

Gosto de pessoas sinceras.

“Obrigado! Manda por e-mail a sua conta para eu depositar os cafés.”
“Beleza. Até mais e obrigado por entrar em contato conosco!
“De nada.”

Ter que subornar alguém para conseguir gás é uma atitude completamente antiética. Não concordo com esse lance de suborno, mas já tive que fazer isso algumas vezes, principalmente em blitz da polícia militar. Mas, apesar disso tudo, é melhor ferir a minha ética do que ficar ouvindo a Joana me enchendo a paciência por que perdeu o “cliente”.

Capítulo 34 - Irmã Chata - Parte 2

Telefone tocando.

“Alô!”
“Acabaram de cortar a merda do gás!”

Minha querida irmã, quase uma lady de tão educada.

“Graças a você né, Joana?”
“Você sabe que eu trabalho a noite e durmo durante o dia! Não dá pra pagar conta à noite, seu idiota!”
“Já ouviu falar em internet?”
“Por que você não vai à merda?”
“Joana, eu estou na rua, falando no celular, no centro do Rio de Janeiro. Dá pra falar logo o que você quer?”
“Eu quero gás pra poder tomar banho, porra! Como eu vou trabalhar sem tomar banho?”

E eu ainda tenho que ouvir isso.

“Eu acabei de pagar a conta e já vou passar o fax para a empresa fornecedora.”
“E eles ligam o gás na hora?”
“Sei lá, porra!”
“E se não ligarem? Eu tenho um cliente marcado para as quatro!”
“Tem gente que faz isso às quatro da tarde?”
“Gente com dinheiro não precisa trabalhar!”
“A que ponto a humanidade chegou.”
“Deixa de ser viado, seu merda!”

Vamos acalmar os ânimos. Não vou ficar gritando no meio da rua por causa da minha irmã doente mental.

“Por que você não toma banho frio, já que está com tanta pressa?”
“Porque a minha pele fica ressecada! Eu não posso sair com meus clientes com pele ressecada! Eu já te disse isso um milhão de vezes, seu imbecil!”
“Será que um dia conseguiremos conversar sem palavrões?”
“Será que um dia você vai deixar de ser viadinho e vai fazer alguma coisa direito na vida?”
“Eu já disse que vou mandar o fax. O que mais você quer que eu faça?”
“Você quer mesmo que eu fale?”
“Não, obrigado. Assim que tiver alguma resposta eu te aviso.”
“É bom mesmo!”

Desligou o telefone na minha cara. Ela só não consegue ser mais grossa por falta de espaço.

Capítulo 33 - O Inferno do Mundo Moderno

Adendo do Capítulo Anterior: na saída do restaurante, cada um foi para um lado. Juliano foi para empresa em passos largos. Gilberto foi a livraria, a meu pedido, procurar o livro novo do Eduardo Martins. Roberto e Ricardo foram para o Mercado Popular da Uruguaiana, carinhosamente apelidado, por nós, como ‘Pólo Tecnológico’. Eles foram comprar mídias (lá é muito mais barato!). Eu estou caminhando para o banco. Será que eu mereço tamanho castigo? Também, ninguém mandou ser pobre e não ter dinheiro para pagar a conta de gás antes da data do vencimento.

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Pagar conta em banco é uma das atividades que mais provam o ser humano no mundo. Você precisa ter resistência física, resistência ao frio (acho que eles mantêm o dinheiro congelado para não derreter, tamanho o frio dentro dos bancos) e muita, mas muita paciência para agüentar as vinte e sete horas de fila e pessoas inconvenientes. Isso tudo para pagar uma simples conta de trinta e sete reais.

Hoje o banco está especialmente lotado, como de costume. As pessoas devem adivinhar que eu tenho que ir ao banco e, por isso, vão todas na minha frente, só pra me irritar. E o pior é que sempre tem algum sujeito fazendo comentários sobre a fila, mesmo quando você não está a fim de conversa. Eu sempre ignoro todos, mas eles continuam comentando e se dirigindo a mim como se eu fosse seu amigo de infância. Com certeza, deve ser alguma provação divina ou algo parecido.

Estou no final da fila e são quase vinte pessoas na minha frente. Pra variar, apenas dois dos sete caixas estão abertos. Por que os bancos colocam tantos postos de caixa em suas agências se nunca, eu digo nunca mesmo, eles estão todos ocupados? Para mim, é desperdício de espaço.

Um amigo me disse que, uma vez, há muito tempo atrás, ele viu, por alguns minutos, todos os caixas atendendo. Pedi provas, como fotos ou gravações em vídeo, mas ele não tinha. Deve ser alguma lenda urbana, pois eu não acreditei muito nele.

Tem um sujeito que está irritado com a demora da fila. E ele está na minha frente! Ele é um candidato, ou seja, em breve irá começar a falar comigo, pois além das reclamações e os estalos com a língua, ele está virando, lentamente, para mim.

Não demorou muito.

“Essa fila tá foda.”, disse o homem.

O que eu faço com esse sujeito? Será que ele não vê que não estou a fim de novos amigos?

“Esse banco está fincando cada dia pior!”

Eu tenho que concordar com ele, mas não posso expressar nada., pois, pelo visto, o fato de ignorar seus comentários não está funcionando. Vou ter que usar a técnica de ficar olhando para os lados, toda vez que ele começar a se dirigir a mim.

“Não agüento mais fila. E você?”

Ele iniciou uma conversa. Esse é o pior dos casos. E agora? Continuo ignorando ou falo alguma coisa? Eu posso simplesmente acenar com a cabeça, fazendo cara de poucos amigos. Será que ele engole essa?

Ele ainda está olhando pra mim, esperando a resposta! Vou continuar fingindo que não é comigo.
Agora são apenas dez na minha frente. Até que o atendimento não está tão ruim hoje. Eles só podiam andar um pouco mais rápido, pois não quero conversar com esse sujeito.

“Você tem celular aí?”
“O quê?”
“Você tem celular aí, com você?”

Por que será que ele está me perguntando isso? Será que ele vai me assaltar dentro do banco?

“Tenho, por quê?”
“Posso fazer uma ligação?”

É pior do que ladrão, é sem-noção!

“Você quer fazer uma ligação do meu celular?”
“É rapidinho e a cobrar.”
“Você não tem celular?”
“Não, não tenho.”
“E por que você não compra um?”
“Porque eu não preciso de um.”
“Você está precisando agora.”
“Mas é por isso que eu estou pedindo o seu emprestado.”

Mais uma característica do sujeito: ele é maluco!

“Qual o número?”
“Deixa que eu digito o número.”
“Por que você não quer que eu digite o número? Tem medo de eu roubar seu celular?”
“Eu não disse isso.”
“Estamos num banco e você acha que eu vou te roubar? Só estou pedindo um favor!”

Ele começou a gritar, chamando a atenção das outras pessoas. Tinha que acontecer alguma coisa para estragar meu dia, não é mesmo?

“Amigo, se você quiser utilizar o meu celular, fale baixo.”
“Ok!”
“Diga-me o número que eu disco para você.”
“2555-2555.”

Eu não acredito que estou fazendo isso, mas tenho medo de malucos.

“Está dizendo que o telefone não existe.”
“Impossível! Disque de novo!”

E lá vamos nós novamente. Tomara que dê certo dessa vez, pois tenho medo dele me espancar aqui dentro. Se isso acontecer, será que alguém vai me socorrer ou todos vão ficar rindo da minha cara?

“Está dizendo que o telefone não existe.”
“Isso é má vontade?”
“Não, não é!”
“Obrigado então.”

Ele se virou e ficou olhando para a fila. Ainda continua estalando a língua, fazendo aquele barulho irritante. Está meio inquieto. Acho que vai se virar novamente. Merda!

“Você pode guardar o meu lugar? Eu vou ali e já volto.”
“Vai com Deus!”
“Você é cristão?”, disse ele, virando-se.
“Não, não sou.”
“Então por que disse isso?”
“Disse o quê?”
“Você disse para eu ir com Deus.”
“E o que isso tem a ver?”
“Se você não é cristão, por que disse isso?”
“Isso é só uma maneira de se dizer, nada mais!”
“Você é bem estranho.”

Ele saiu da fila e se dirigiu a um dos atendentes. Enquanto isso, a fila andava a passos de tartarugas. Agora faltam apenas duas pessoas, mais o sujeito que saiu da fila. E por falar nele...

“Pedi a gerente para usar o telefone.”
“E daí?”
“Eu consegui fazer a ligação.”
“Bom pra você.”
“Eu queria ligar a cobrar e consegui de primeira.”
“Legal.”

Anda filinha! Anda!

“Por que será que no seu celular não funcionou?”
“Não sei.”

Ele é o próximo! Por favor, dona caixa, chama esse sujeito logo!

“Muito estranho, não acha? Eu conseguir lá e, com você, não.”
“Amigo, eu liguei pro número que você pediu.”
“Sei.”
“Eu não preciso mentir pra você. Na verdade, eu não preciso nem conversar com você! Eu não te conheço!”
“Não precisa justificar a sua má vontade em ajudar alguém necessitado com ignorância.”

Meu Deus! Dai-me paciência para aturar esse tipo de gente chata! E por que a porra do caixa não chama logo esse sujeito?

“Você devia ser mais solícito, sabia?”
“Meu amigo, eu posso ficar na fila em paz? Você está enchendo o meu saco desde que cheguei aqui.”
“Eu só vim pagar as minhas contas! Eu tenho direito tanto quanto você!”
“Então pague as suas contas em silêncio!”

Eu não acredito. O caixa que ia chamar o sujeito acabou de colocar uma placa de fechado em cima do balcão! Agora só tem um funcionário atendendo esse monte de gente! Daqui a pouco, vai haver motim aqui, tamanha a quantidade de reclamações.

O Homem ficou mais calmo, respirou fundo e continuou estalando a língua. É nessas horas que eu gostaria de ser com o Hannibal Lecter, em ‘Silêncio dos Inocentes’, só pra mandar esse sujeito cortar a própria língua e morrer sufocado com ela entalada na garganta.

“As minhas contas não venceram ainda. Eu tenho medo de usar a internet. Acho que vão roubar meu dinheiro.”
“Você tem conta aqui?”
“Tenho.”
“E os seus boletos não estão vencidos?”
“Não.”
“E o que você está fazendo aqui então?”
“Eu já disse que não gosto de internet.”
“Você já ouviu falar em caixa eletrônico?”
“Já!”
“Você sabia que dá pra pagar contas lá também?”
“Sério? Disso eu não sabia.”
“E por que você não vai pagar suas contas lá?”
“Não sei.”
“Se eu fosse você, eu tentaria. É muito fácil!”
“Acho que vou experimentar então.”
“Faça isso.”

Ele foi embora me agradecendo. Ganhei um amigo retardado e um lugar a mais na fila. Agora sou o próximo. Finalmente!

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Observação 1: quarenta minutos de chateação e espera, para menos de um minuto de atendimento. Esses são os bancos do Brasil. Da próxima vez, tenho que me lembrar de não depender da minha irmã querida para pagar uma conta.

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Observação 2: quando saí do banco, o sujeito estava na fila do caixa eletrônico enchendo o saco de outra pessoa. Será que ele vai pedir para usar o celular, de novo?