Capítulo 46 - Que Falta faz uma Serra-Elétrica

Glossário:

Base: base de dados, onde ficam os dados de um sistema... grande explicação!

DBA (Data Base Administrator): é o sujeito que cuida da base de dados, ou pelo menos deveria... na verdade só sabe valorizar o trabalho dele e atrasar o dos outros!!

Tabela: é uma parte do banco de dados. Na verdade mesmo, é onde ficam os dados... e as tabelas ficam no banco de dados... ah! Deu pra entender!! Pense uma planilha do excel! É a mesma coisa! Quer dizer, mais ou menos...

Select: é uma instrução que você usa para consultar alguma coisa numa tabela. Lógico que tem que escrever mais coisas, não é só escrever "select" e pensar no que você quer... computador ainda nao lê mente!

*************************
No caminho para minha baia, constatei o que Gilberto tinha acabado de dizer. Não é que o sujeito está dormindo mesmo? É muito cara-de-pau!

“Rodrigo!”

Engraçado, parece que ouvi um soluço.

“Rodrigo!”
“Eu juro que foi sem querer!”, disse ele, ainda abaixado.
“Você está chorando?!”
“Foi sem querer. Eu não tive culpa!”
“O que você fez?”
“Eu fui corrigir o erro, mas aí, foi sem querer!”
“Fala logo a merda que você fez!”
“Eu descobri que o problema do sistema era um registro que estava na tabela e que não deveria existir. Então eu apaguei o bendito.”
“E o que tem isso?”
“Só que eu esqueci de colocar o filtro...”
“Você apagou a tabela toda?!”

Parece que tem alguém lá em cima de sacanagem com a minha cara, mordendo e assoprando o tempo inteiro. Será que não dava para ficarmos apenas com a parte boa da história?

“Eu juro que foi sem querer!”
“Rodrigo, se você não sair da minha frente agora, eu juro que eu te enforco com as minhas próprias mãos!”
“Desculpa, por favor! Me perdoa!”
“SOME DA MINHA FRENTE!”

Com esse grito, toda a empresa olhou para mim. Rodrigo, coitado, parecia um cão escorraçado, com as orelhas caídas e com o rabo entre as pernas. Deve ter um monte de gente com pena dele. Vou perguntar se eles querem levar para casa.

“Ana, me ajuda aqui, pelo amor de Deus!”
“O que aconteceu?”
“O Rodrigo apagou toda a tabela de avaliações.”
“Ele fez o quê?”
“É isso mesmo. O infeliz fez o favor de fazer merda no último dia da avaliação de desempenho e no mesmo dia da festa!”
“Precisamos recuperar o backup da base. Eles acabaram de fazer um, às 17h.”
“Estamos com sorte então. Não é possível que alguém tenha feito alguma avaliação de desempenho nesse meio tempo. Solicita ao DBA substituto pra mim, enquanto eu vou dar uma olhada para saber se foi criado algum registro na tabela.”
“Como você vai fazer isso?”
“Vou olhar a tabela de Auditoria.”
“Tenho uma má notícia.”
“Mais uma não, pelo amor de Deus!”
“A função que inclui na tabela de auditoria não está funcionando desde a semana passada.”
“Ótimo!”

Sem tabela de auditoria, DBA de férias e funcionário burro. O que eu faço com essa empresa? Como eles querem que eu trabalhe ou resolva um problema urgente se eles mesmos criam tantas regras para nos impedir de fazer tais coisas? É inexplicável!

“O DBA substituto não sabe como fazer isso!”, disse ela.
“Como não sabe? Ele é pago para isso!”
“Ele disse que não foi pago pra isso.”
“É o quê? O cara é o sujeito que deveria tomar conta das bases de dados! Ele é o administrador!”
“Foi o que ele disse.”
“O que vamos fazer?”
“Eu vou até lá ajudá-lo, porque, senão, isso não sai hoje.”
“Vai lá correndo e dá um tapão no pescoço dele por mim.”

Vamos lá! Preciso de dados! Uma consulta na base de testes, copiada todos os dias, vai me dar uma noção de quantos registros terei que migrar. O problema são os dados de hoje! Por que todo mundo deixa pra fazer tudo na última hora? Se eu perder essa festa, eu juro que aquele infeliz não arranjará emprego nem em empresa de limpeza!

Dez mil registros, uma quantidade razoável. Preciso fazer uma cópia desses dados para a mesma tabela em produção. Só que eu não me lembro como se faz isso! O problema de virar gerente é esse: você acaba “esquecendo” das coisas!

Quando não se sabe de alguma coisa em informática, basta procurar na internet! Se você não encontrar algo idêntico ao que você quer, com certeza vai achar algo muito parecido.
Menos de um segundo depois e eu já estou com o que preciso fazer. Uns Select's, mais alguns ajustes, um teste básico e pronto! Feito!

Agora só falta o backup de hoje. Já são 17h50min e o Gilberto já foi. Vou chegar sozinho e atrasado! Eu sei que não acredito no senhor, meu Deus, mas dá uma ajudinha aí! Eu preciso transar hoje!

Tomara que Dario não descubra o que está acontecendo!

“David!”, gritou Dario.

Agora já era.

Capítulo 45 - A Suspeita do Início do Fim

“Ela fez o quê?”, perguntou Gilberto.

Estávamos no café, como de costume. Gilberto não estava fazendo nada e acabei chamando-o para conversar. Tinha que contar para alguém o que tinha ocorrido na reunião.

“Ela peitou o Astolfo! O cara parecia um cachorro sem dono ao final do esporro.”
“Cacete! A mulher, além de feia, é macho mesmo!”
“Eu fiquei atônito. Não conseguia me mexer, atracado com a cadeira.”
“Eu nunca imaginei em falar isso, mas você tem sorte de ter uma mulher assim trabalhando com você.”
“Eu também nunca imaginei em concordar com você. Não sobre isso.”

É incrível como algumas pessoas são curiosas. O Jorge, um técnico fofoqueiro da empresa, nunca toma café, mas, hoje, ele resolveu entrar na copa para pegar um. Ele deve estar tentando pescar alguma coisa do que estamos falando, mas ele não vai conseguir.

“E a festa?”, perguntou Gilberto, tentando mudar de assunto.
“Nem sei se vou. Estou com preguiça.”
“Eu também não estou com muita vontade.”

Bom, a mudança de assunto deu certo. Ele já foi embora. O sujeito é chato e inconveniente. Como podem existir pessoas assim? Agora podemos voltar ao assunto.

“Você perguntou o porquê dela ter feito aquilo?”
“Perguntei na volta. Ela disse que não estava agüentando mais aquele homem me maltratando.”
“Vixi! Ela deve estar apaixonada por você!”, disse ele, gargalhando.
“Sai pra lá, urubu! Já tenho compromisso pra hoje a noite!”

Não consigo imaginar alguém pegando a Ana Cláudia. É até estranho dizer isso, mas o marido dela tem sorte de ser cego.

“E aí? Empolgado?”
“Como nunca estive!”
“Eu estaria também, se fosse você.”
“Vai pra lá que horas? Já são 17h30min.”
“Vou às 18h mesmo, na hora que abre aquele lugar.”
“Eu vou com você então.”
“Cara, me deixa ir trabalhar. Preciso, ainda, ver se o Rodrigo terminou de corrigir o erro no sistema de Avaliação de Desempenho.”
“Não gosto de fazer isso, mas, quando passei por ele, ele estava de cabeça abaixada. Parecia dormir.”
“Não acredito! De novo?!”
“Ele estava normal, trabalhando. Mas aí colocou as mãos na cabeça e se abaixou na baia.”
“Mãos na cabeça?”
“É.”

Isso não é um bom sinal.

Capítulo 44 - Curta e Grossa

“Eu quero consultar o saldo das contas e pronto!”
“Não dá pra fazer isso, nós seremos presos!”
“Não me interessa!”

A Ana está mais inquieta do que o normal. Estou ficando preocupado.

“Astolfo, desculpa, mas não podemos fazer nada.”
“Vocês vão dar um jeito nessa merda, por que, se não, o contrato vai pro saco!, gritou ele.

Pronto, agora ferrou.

“Olha aqui, Senhor Asfalto!”, disse Ana, levantando e apontando o dedo para o homem.
“Meu nome é Astolfo!”
“Não me interessa qual é o seu nome!”
“Olha como fala comigo, sua...”
“Você fica quieto e me escuta! Se o David está dizendo que não dá pra fazer, nós não iremos fazer! Eu conheço bem o seu tipo imbecil e, se você continuar com esse terrorismo barato e idiota, você pode enfiar esse contrato no rabo junto com a sua prepotência!”

O silêncio. Ana ainda está respirando fundo, enquanto Astolfo se mantém de boca aberta. Eu ainda estou segurando os braços da cadeira, de tão nervoso. Não vai dar nem tempo de ir à festa, pois serei demitido na hora que pisar na empresa.

“Gostei de você!”, disse ele.
“Acordado então?”, perguntou ela.
“Sim, acordado.”

Mais um milagre para a minha coleção de hoje.

Capítulo 43 - A Questão do Escopo

A grande briga entre as consultorias de informática e seus usuários resume-se em apenas uma palavra: escopo.

Essa discussão já dura desde o início dos tempos, quando um homem discutia com o outro que tinha solicitado uma roda redonda e não uma roda quadrada. Isso causou uma grande confusão entre os dois que sucedeu uma quebra de pescoço e uma mulher roubada.

Acho que em todos os projetos que participei, até hoje, seja ele de informática ou não, tiveram problemas no escopo. Isso me lembra a minha primeira peça de teatro na escola.

Eu tinha cerca de doze anos e fazia parte do grupo de teatro da escola. Eu achava legal e todas as meninas da minha idade achavam lindo, um cara, numa sociedade tão machista, ter sentimentos legais, ao ponto de participar de uma peça de teatro. Mal sabiam elas que eu estava ali apenas para conseguir dar o meu primeiro beijo.

A diretora da peça, baseada num conto infantil, estava uma pilha, pois restavam apenas há três dias da estréia e o roteiro ainda possuía um problema, apontado pelos produtores. Existia um personagem na peça que matava um outro personagem com uma espadada na cabeça, o que seria muito trágico para uma peça para pré-adolescentes. Foi então que a diretora encomendou um escritor para reescrever a morte do sujeito.

A primeira versão do roteiro chegou impressa em papel meio amassado e cheia de manchas, o que tornou a sua leitura impossível. A diretora reclamou e, no mesmo dia, chegou uma nova versão, impressa em papel super-branco e em alto-relevo, mas faltando a parte que interessava: a alteração solicitada.

A diretora, em completo desespero, mandou um e-mail dando um bronca no sujeito e solicitando uma nova versão. Chegou inclusive a dizer que o contrato seria cancelado, caso a versão não chegasse naquele dia.

A nova versão chegou, em papel branco e letras em alto-relevo, além da parte faltante. Quando a diretora leu, ela caiu pra trás. A morte não somente continuava ali, como estava muito pior, pois envolvia um moedor de carne e um funil. O assistente de direção, vendo que a diretora já não tinha mais condições, convocou uma nova reunião com o escritor para acabar de vez com o problema. A reunião foi realizada e ficou decidido que a morte seria retirada do roteiro, tornando o final mais feliz.

No dia seguinte, uma nova versão chegou às mãos da diretora que leu e gostou. Ela apresentou um ensaio ao produtor que, pra variar, não gostou e pediu para voltar com a morte do garoto.
A diretora entrou em contato com o escritor e explicou o ocorrido. O escritor, por sua vez, ficou puto da vida e mandou a diretora à merda, dizendo nunca mais escrever uma linha sequer para ela.

A mulher ficou transtornada. Chorava por todos os cantos e não sabia mais o que fazer. Foi então que, com uma idéia brilhante, a diretora resolveu voltar ao roteiro original, mudando a forma da morte (uma pedra caía na cabeça do garoto), e mostrar aos produtores assim mesmo.
Ela realizou um novo ensaio e os produtores adoraram.

Seguimos em frente e estreamos no dia programado. A peça foi um fracasso e todos acharam que a morte do garoto foi muito trágica, preferindo que tivesse sido realizada de forma mais sutil, como uma espadada na cabeça. Os produtores, então, demitiram a diretora da peça. Ela nunca mais conseguiu um novo emprego.

As semelhanças entre esse e os outros projetos que eu participei em minha vida profissional são imensas! Tirei algumas lições desse caso e as levei por toda a minha vida profissional:

· Não importa em que área você trabalhe, as alterações no escopo estarão sempre presentes e atormentarão sua vida.
· Nunca terceirize os seus problemas. Eles sempre triplicam!
· Sempre tenha alguém para colocar a culpa, caso a coisa toda não dê certo.

Observação: adivinha quem era o garoto que morria?

Capítulo 42 - Primeiro Contato

A reunião é na sala do cara, que fica no final do corredor apontado pela segunda secretária. Ao longo deste corredor, existem vários pôsteres, bem grandes, dos antigos presidentes da empresa. Acho meio macabro isso, pois parece que tem um monte de gente morta te olhando, mas já me acostumei.

A Ana, coitada, também está assustada com os rostos pálidos e sisudos dos homens. Eu fiquei impressionado com a foto de um dos presidentes, pois se manteve imóvel, mesmo com a Ana chegando bem perto para ler o que estava escrito na plaquinha de metal. Esse cara deveria ser bom!

A porta da sala do sujeito possui ornamentos estranhos, como gárgulas segurando argolas com a boca e unicórnios desenhados ao longo da madeira escura. Além disso, existem duas estátuas de minotauros, uma em cada lado da entrada, que parecem guardar o conteúdo da sala. Tudo muito esquisito e excêntrico demais para o meu gosto.

“Entre!”, gritou o homem, após eu bater na porta.

Ana Cláudia manteve-se atrás de mim, como um fator surpresa, um ás na manga. O homem está fumando um charuto, sentado na sua cadeira de couro e de aparência confortável. Um ventilador de teto girava devagar, mesmo com o ar-condicionado ligado, mantendo um clima estranho.

O homem apontou os dois lugares a frente dele e apagou o charuto em um cinzeiro em forma de elefante. Manteve-se olhando para o cinzeiro enquanto nós nos sentávamos.

“Adoro elefantes. Eles são grandes, gordos e lentos. Acho engraçado isso.”, disse ele, levantando o rosto.

Foi engraçada a reação dele ao ver Ana Cláudia. Foi um misto de surpresa e pavor nunca antes presenciado por mim. Ele arregalou os olhos e ficou, por alguns segundos, espremendo o charuto no elefante, como se estivesse no automático. Tive que intervir.

“Oi Astolfo, essa é a Ana Cláudia, minha arquiteta.”
“É um prazer, senhor.”, disse ela, estendendo a mão.

Ele continuou esfregando o charuto no elefante, agora com mais força. Num lampejo, retornou ao mundo, estendendo a mão para a garota. Mas ainda estava hipnotizado.

“Eh, oi.”, disse ele.
“Estamos aqui para resolver o mal-entendido que o Rodrigo causou. Não temos como acessar as contas dos funcionários para saber seus saldos. Isso é contra lei.”
“Eh, eu sei.”
“Alguém mais virá para a reunião?”
“Não. Somente eu.”

Ele saiu do transe quando o charuto se desfez completamente e a brasa, ainda existente, queimou seu dedo. Ele parecia hipnotizado pela feiúra de Ana Cláudia. Eu pensei que a intimidação estava dando certo, mas eu estava enganado.

“Vocês me ofereceram um produto e disseram ser viável.”, disse ele, acendendo outro charuto.
“Eu sei disso, mas foi sugerido algo impossível de se desenvolver nos moldes da lei.”
“Não me interessa a lei, só não quero levar calote desses desgraçados que eu chamo de funcionários!”
“Mas não podemos fazer isso!”
“Se vira, mermão! Se vocês não fizerem, cancelo o contrato!”

A Ana Cláudia continuava calada, mas inquieta com a atitude do sujeito. Eu só conseguia pensar no Rodrigo, pendurado por uma corda, no alto do prédio, implorando para eu não jogar ele lá embaixo.

“Astolfo, sejamos racionais. Eu não posso fazer isso.”
“Por que não podem?”
“Porque é ilegal!”
“Você acha que coloquei essa empresa onde está sendo legal? Mantendo as coisas dentro da lei? Não seja idiota!”
“Desculpa Astolfo, mas é meio complicada a comparação. Se o banco descobrir, podemos ser presos!”
“Pelo amor de Deus! Você acha que mora em que lugar do mundo? Aqui, ninguém é preso! Basta pagar uns cafezinhos para os malucos e está tudo certo! O que eu não posso permitir é a minha empresa perder tanto dinheiro com empréstimos internos!”
“Astolfo, nós fomos contratados para fazer um sistema para a área financeira e não de empréstimos! Isso não estava nem no escopo inicial e, mesmo assim, incluímos no projeto a seu pedido.”
“E empréstimo não tem a ver com Finanaças?”
“Tem sim. Mas não estava no escopo.”
“Eu mudo o escopo quantas vezes eu quiser, nessa merda! O dinheiro é meu e eu faço o que quiser com esse projeto!”

Clientes são todos iguais.

Capítulo 41 - Recepção Calorosa

Visitas em cliente são sempre estressantes. Não só pela tensão existente entre os dois lados, mas pelo simples fato de que o cliente sempre acha que “o cliente tem sempre razão”, o que não é verdade. Não em informática.

Além disso, existe um outro problema: eles pagam, mesmo que indiretamente, o seu salário, por isso, qualquer coisa que você fale de errado, pode ser problemático para o projeto, causando, assim, a sua demissão. Por isso, em uma reunião, nunca, mas nunca mesmo, deixe alguém que não saiba nada sobre o projeto falar sobre o bendito. Isso pode ser fatal.

Hoje, as tarefas serão árduas. Primeiro, eu tenho que convencê-los de que o que o Rodrigo ofereceu é impossível, legalmente, de se desenvolver. Segundo, preciso convencê-los de permanecer numa reunião, pelo menos por meia hora, olhando para o filho do bicho ruim (leia-se Ana Cláudia). Acho que a segunda tarefa é mais complicada do que a primeira.

Pelo jeito, a intimidação será a melhor maneira de reverter o quadro. Vou colocar a Ana na frente, como se fosse um escudo, e ficar gritando atrás. Ainda vou pedir a ela que abra a boca e sorria algumas vezes, só para aumentar o pavor. Duvido que eles não aceitem tudo o que eu falar. O medo é uma das armas mais poderosas contra o ser humano. Basta saber causá-lo.

“Olá! Em que posso ajudá-lo?”, perguntou a recepcionista.
“Oi, temos uma reunião com o Sr. Astolfo.”
“Qual o nome de vocês... Meu Deus!”

A primeira pessoa a levar um susto com Ana Cláudia.

“Ana Cláudia e David.”, disse Ana, tomando as rédeas da conversa.
“Hã, Ok! Ana Cláudia e David. Só um minuto, por favor.”

A mulher saiu da mesa e foi fofocar com alguém numa sala, atrás da recepção. A coitada está comentando com a amiga, provavelmente a outra recepcionista, num volume que o Rodrigo, lá no centro, poderia ouvir.

As duas apareceram com um ar desconfiado e sentaram-se em suas cadeiras de rodinhas.

“Vou ligar para saber se o Sr. Astolfo já está disponível.”, disse a recepcionista que tinha nos atendido.

O engraçado é que ela não olhava mais em nossa direção, apenas para o monitor a sua frente. Foi a primeira, e espero que a última, vez que vi Ana Cláudia com raiva.

“Você está com algum problema?”, perguntou Ana para a recepcionista.
“Eu? Não, senhora!”, disse a mulher, mantendo os olhos vidrados no monitor.
“Por que você não está olhando pra mim então?”
“Estou trabalhando, senhora!”, disse ela, sem desviar os olhos.
“Eu estou perguntando algo a você e você me responde sem olhar para mim.”
“Senhora, estou tentando entrar em contato com a secretária do Sr. Astolfo.”, disse ela, se esforçando para olhar para Ana.
“Ok, então!”

Assim que Ana Cláudia se virou, a mulher deu um suspiro de alívio. Ana ouviu e já ia se virar para reclamar, quando a outra secretária avisou que o Sr. Astolfo já estava disponível para nos receber, sem olhar em nossa direção, claro.

Quando entramos no corredor de acesso à sala do sujeito, ouvi as mulheres cochichando, dizendo nunca ter visto algo parecido na vida. Ainda bem que, dessa vez, a Ana Cláudia não ouviu.

****************************

Existe uma piadinha no ramo de informática que diz o seguinte:

"Somente dois profissionais no mundo possuem usuários: os analistas de sistemas e os traficantes."

Acho que isso ilustra bem a situação da classe.