Capítulo 55 - O Resultado da Corrida

Acho que essa foi a corrida mais estressante, demorada e cara que eu já realizei em um táxi na minha vida inteira. Para sair da Avenida Rio Branco e ir até a Lapa, foram vinte minutos e vinte reais. Um real por minuto! Eu não ia pagar, pois ele errou em quase todas as esquinas, mas o coitado chorou tanto que acabei pagando. Vai que ele perde o emprego e resolve matar o culpado por isso?

Finalmente consegui chegar ao meu destino: o Curral do Chope. Estou ouvindo o barulho vindo lá de dentro, o tilintar das canecas congeladas e sentindo o cheiro da comida frita e gordurosa. Não existe coisa melhor, não é?

Capítulo 54 - Ligação Inesperada

Telefone de novo.

“Alô!”
“Oi meu filho.”
“Quem é?”
“É a mamãe! Não está reconhecendo minha voz?”

Prestar a atenção no motorista maluco e falar com a minha mãe ao mesmo tempo, não é algo pra qualquer um.

“Claro que tô, mãe. É que esse número eu não conhecia.”
“Eu troquei de telefone de novo. To ligando pra te passar o número, já que, para o antigo, você não ligou nenhuma vez.”

Lá vem ela reclamando que eu não ligo. Mas eu falei com ela não tem nem duas semanas!

“Já está anotado!”
“Por que você não liga pra mamãe?”
“Eu liguei pra você esses dias!”
“Já tem quase um mês que você ligou pra mim! Se for dinheiro, pode ligar a cobrar, não tem problema.”
“Não é isso, mãe. É que eu ando meio sem tempo.”
“Sem tempo de lembrar da sua mãe?”
“Você não entende, não tem nada a ver!”
“Se eu morrer aqui, nessa casa, sozinha, você não vai nem saber!”
“Mãe, sem melodrama.”
“Mas é verdade! Poderia ligar pra perguntar ‘e aí? A cachorra já morreu?’; nem parece que eu sou sua mãe!”

Só falta ela começar a chorar agora.

“Mãe, pára com isso?”
“Como eu posso parar? A sua irmã me liga quase todos os dias e você só de mês em mês!”
“Ela liga porque é uma a toa!”
“Não fale assim da sua irmã! Você tem que respeitar ela, pois ela vai virar advogada!”

Coitada. Não tem a mínima idéia do que Joana faz. Eu só não conto, porque ela vai ter um treco e vai acabar ficando igual a minha avó. Imagina o remorso?

“Por falar na sua irmã, ouvi dizer que ela está namorando. Você já conheceu?”
“Qual deles?”
“Qual deles o quê?”
“Qual dos namorados!”
“Ela tem mais de um?”
“Ela tem um monte! Inclusive, namora um monte de uma vez só!”

Silêncio.

“Tô brincando mãe!”

E o silêncio continua. Algo está acontecendo. Será que ela está passando mal?

“Mãe?”
“Não me mata de susto menino!”, disse ela, soluçando.
“Você está chorando?!”
“Com um susto desses, você queria o quê?”
“Calma mãe, eu estou brincando!”
“Não brinca com uma coisa séria dessas!”
“Desculpa!”

Ela está tentando se recompor. Pelo visto, jamais poderei falar a verdade! De que adianta um trunfo se nunca poderei usá-lo?

“Mas então, você conheceu o rapaz? É algum advogado importante?”
“Deve ser mãe, mas não conheci.”
“Rezo tanto para Joana conseguir um rapaz bom!”
“Eu também!”

Arranjando um bom marido, ela sai de casa e me deixa morando sozinho. Não poderia querer algo melhor pra ela, não é?

“Você está comendo direito, Davizinho?”
“Você sabe que eu não gosto que me chame assim, mãe!”
“Está ou não está?”
“Estou! Estou!”
“Está tomando leite de manhã?”
“Quando eu lembro, sim!”
“Você sabe que não pode ficar sem leite, David! Você fica fraco!”
“Eu estava com pressa hoje, por isso não tomei. Dá próxima vez eu juro que tomo.”
“Vocês, nessa cidade grande, precisam se alimentar direito!”
“Tá bom, mãe! Eu já entendi!”

Mais um silêncio. Parece que ela está ficando sem assunto, o que é um bom sinal de fim de conversa. Não que eu não goste de conversar com a minha mãe, mas é que eu prefiro terminar a conversa antes que ela comece com assuntos que não gosto de conversar.

“Você está rezando meu filho?”

Esse é um dos assuntos.

“Sim, todos os dias!”

Não gosto de mentir pra ela, mas não dá pra falar a verdade sobre religião. Não depois de tudo que ela já passou comigo sobre o assunto.

“Muito bem! Reze bastante, pois só papai do céu pode dar as coisas pra gente!”
“Desde quando você virou religiosa?”
“A vida sem religião é uma vida sem sentido! Você tem que ter uma, seja ela qual for!”
“Ok!”
“Vou desligar, meu filho, pois não sou dona da Telemar. Tive que pagar quase seiscentos reais de plano de saúde, pois não tem ninguém pra me ajudar.”

Segundo assunto chato: reclamações sobre a situação financeira atual.

“Mãe, eu não tenho dinheiro pra ajudar.”
“Eu sei, meu filho, não estou te cobrando nada.”
“Beleza.”
“A sua avó mandou um abraço!”
“Como assim? Ela conseguiu falar alguma coisa normal?”
“Não, mas estou mandando mesmo assim. Tenho certeza que, entre um palavrão e outro, ela falou algo do tipo.”
“Dá um abraço nela pra mim. Mas não chegue muito perto para ela não te morder de novo!”
“Pode deixar, meu filho. Fica com Deus!”
“Beijos, mãe!”
“Beijo meu filho! Mamãe te ama, viu? E cuida da sua irmã pra mim, pois não vou durar muito tempo!”
“Tchau!”

Tive que cortar o assunto, pois ela ia entrar no terceiro assunto chato: a proximidade da morte. Acho que não conheci uma pessoa mais hipocondríaca do que a minha mãe. Ela sabe, décor, todas as bulas de remédio existentes no mundo. Isso é bom quando preciso curar uma dorzinha, pois, assim, não gasto dinheiro com médico. Existem outros assuntos chatos, como: “você tem que passar em concurso público” e “eu quero um neto”; não ia agüentar mais dois tópicos com ela ao telefone.

Agora, a festa! Já são 19h30min e eu ainda estou nesse táxi. Tem alguma coisa engraçada na paisagem. O que eu estou fazendo na praia do Flamengo?

“Amigo, o que você está fazendo aqui?”
“Eu? Estou dirigindo!”
“Eu disse aqui, na praia do Flamengo!”
“Você me mandou virar a direita e eu virei!”
“Eu mandei você manter a direita!”
“Mas eu fiz isso!”
“E por que você não entrou na rua dos Arcos?”
“Por que você não disse que era pra virar a direita duas vezes!”

Isso que dá querer dar uma de rico. Pobre tem que andar é de ônibus!

Capítulo 53 - O Taxista

Dúvida cruel de pobre: vou de ônibus ou a pé? Não tenho muito tempo pra pensar. O restaurante é perto, mas provavelmente vou suar no caminho se for a pé. Imagina pegar a mulher da minha vida fedendo a suor? Já estou suando de nervoso, se for andando então, vou chegar com marcas de pizza nas axilas! Acho que vou de táxi, pois assim me mantenho refrescado no ar-condicionado de um Santana qualquer.

“Táxi!”

Pra variar, realmente é um Santana. Acho que noventa e oito por cento dos táxis do Rio de Janeiro são Santana. Eles devem continuar fabricando esse carro só para os taxistas. Aliás, eles devem sair da fábrica já pintados e com taxímetro rodando!

“Sabe aonde é o Curral do Chope?”
“Curral do quê?”

Taxista que não conhece bar na Lapa é novato. Deve ter sido importado do nordeste, com promessas de uma vida melhor e muito dinheiro no bolso. Coitados, foram todos enganados, pois não existe povo mais explorado do que os taxistas. Até relevo o fato de eles roubarem de vez em quando numa corrida. Com os outros, claro, não comigo!

“Curral do Chope, ali na Lapa.”
“Vixi! Onde fica isso?”
“Passa os Arcos que eu te mostro.”
“Arcos da Lapa?”
“De onde mais seriam?”
“Sei lá! Não conheço essa cidade direito ainda.”
“Eu já percebi. Vai logo, que eu estou atrasado!”
“Pode deixar patrão! Mas eu vou por onde?”

Era só o que me faltava. O coitado deve estar começando hoje!

“Você está na Rio Branco e não sabe chegar na Lapa?”
“É que eu comecei hoje. Meu primo, Edisberto, me arrumou esse emprego.”
“Beleza. É só ir reto até o final dessa rua. Chegando lá, mantenha-se a direita, ok?”
“Ok! Vambora patrão!”

O cara deu uma arrancada e morreu com o carro. Quase bati com a cabeça no banco da frente. Era tudo que eu precisava agora: um motorista que não sabe dirigir e que não tem a mínima idéia da onde está.

“Desculpa patrão! Agora nós vamos!”

Espero que eu não morra antes de chegar à festa.

Capítulo 52 - Saindo da Empresa

Mais uma ligação.

“Você vem ou não?”, gritou Roberto do outro lado da linha.
“Tô saindo daqui!”
“Porra, já são 19h! Já tem um monte de gente bêbada aqui! E estão chegando na sua mulher direto!”
“E aí? Ela tá dando mole pra alguém?”
“Não! Está só conversando com as meninas do Marketing. Todo mundo que chega ela veta!”
“O Ricardo já chegou nela?”
“Já! Levou o maior veto!”
“Muito bom! Segura ai, que eu estou indo!”

Agora posso me encaminhar à zona da perdição, para a minha glória, para meu reconhecimento como macho alfa. Hoje, eu sou um predador atrás de uma presa específica e o meu campo de caça é a festa!

Capítulo 51 - Irmã Chata, Parte 3

Ah, não! Ligação de casa a essa hora só pode ser problema.

“Alô!”
“Eles não religaram o gás!”

Joana a essa hora? Só pode ser piada!

“Você ligou o chuveiro?”
“Claro que liguei! Está achando que eu sou o quê?”
“Você quer que eu responda?”
“Vai à merda! Por sua causa eu perdi meu cliente das 16h e vou perder o meu cliente das 19h!”
“Daqui a pouco você arranja outro.”

Um silêncio dominou a conversa. Ela suspirou e manteve-se muda por alguns segundos. Hesitou algumas vezes, como se quisesse dizer algo que não podia ou que tinha medo de falar.

“Você pode me ajudar, por favor?”

Joana pedindo algo para mim com educação? Tem alguma coisa errada.

“Você está passando mal?”
“Não, por quê?”
“Nada não, deixa. Você foi verificar lá no aquecedor?”
“Fui! Não está acendendo!”
“Você religou o registro que você provavelmente deve ter mexido em um de seus ataques de raiva?”
“Não!”
“Então liga!”
“Funcionou! Te amo, irmão!”

Realmente ela não está bem.

Capítulo 50 - Resultado do Capítulo Anterior

Após meia-hora de muito esforço e paciência, consegui convencer Dario a refazer as avaliações que ele havia perdido. Inclusive, como eu havia reclamado, ele fez questão de fazer a minha avaliação comigo presente. Até que a minha nota final foi razoável, pois ele me detonou nos fatores comportamentais, principalmente no item trabalho em equipe. Mas como ganhei notas boas nas metas de trabalho e de aprendizagem, minha nota subiu um pouco.Mas de que adianta? Nunca ganho PLR mesmo!

Capítulo 49 - Mais Longe do Fim

Já são 18h30min e a Ana ainda não mandou o e-mail e nem telefonou pra avisar que está tudo ok. Vou telefonar para ver como anda as coisas.

Merda! Ela não está atendendo! Por que isso só acontece comigo?

Telefone tocando, só pode ser ela!

“Alô!”
“Vem pra cá logo, porra!”

É Gilberto me enchendo a paciência. Está uma barulheira absurda do outro lado da linha. Ele já está com voz de bêbado.

“Eu estou tentando terminar essa merda aqui!”
“Esquece isso e vem pra cá!”
“Não posso! O Dario descobriu!”
“Manda ele tomar no cú e vem pra cá logo!”
“Se eu pudesse, jogava ele daqui de cima!”
“Vai jogar quem, aqui de cima?”

Dario apareceu como um fantasma atrás de mim. Eu gelei e desliguei o telefone na cara de Gilberto. Tenho que pensar rápido e pensamentos rápidos são sempre perigosos.

“O computador. Queria jogar o computador daqui de cima.”
“Que bom. Pensei que você estivesse falando de mim.”
“Não, não estava.”
“Alguma novidade? O Uísque já deve estar acabando.”
“Já estou quase terminando.”
“Descobriu o que era?”
“Não.”
“Então como você está terminando se você não sabe nem o que é?”
“Dario, se você continuar me fazendo perguntas, não conseguirei terminar rápido.”
“Por que eu acho que você está me enganando?”

Chefe desconfiado. Perigo! Perigo!

“Dario, você pode fazer as suas avaliações sem problemas. Você não tem um monte pendente ainda?”
“Tenho.”
“Então, porque não vai adiantando?”
“Vou fazer isso então. Mas ande logo com isso!”

Anda logo Ana Cláudia, atende essa merda de telefone.

“Alô!”, disse ela.
“Finalmente!”
“Já acabei aqui. Pode liberar o sistema.”
“Mas o sistema já estava liberado!”
“Ih! Se alguém estiver fazendo avaliação, vai perder tudo!”
“Ah, não!”
“David!”, gritou Dario.

É hoje que não saio daqui.

Capítulo 48 - Terrorismo

“Posso saber por que as avaliações que eu fiz não estão aqui?”, disse ele, virando o monitor e apontando para a tela.
“Deixa-me ver.”

Virei o monitor para mim e peguei o teclado e o mouse. Preciso ganhar tempo, enquanto a Ana faz a parte dela.

“Estranho.”
“O que é estranho?”
“Entrei com a minha senha, de administrador. Não está aparecendo a avaliação de ninguém!”
“É o quê?”

Fingir não saber de nada é uma boa tática. Não ia adiantar eu botar a culpa no Rodrigo, pois ele ia jogar para cima de mim de qualquer jeito.

“Não está aparecendo de ninguém!”
“Mas como pode isso? Hoje é o último dia!”
“Eu pedi o Rodrigo para acertar uma coisa no sistema hoje. Vou lá na minha máquina para saber o que ele fez.”

Preciso de uma desculpa para sair daqui.

“Vê se anda logo e conserta isso! Eu preciso fazer a sua avaliação para ir para a festa!”
“Mas você não deviria marcar uma reunião comigo para realizar essa avaliação? Afinal de contas, eu posso comentar ou discordar de algo que você tenha escrito.”
“Fala sério! Desde quando eu chamo algum funcionário para conversar sobre avaliação de desempenho?”
“São regras do RH!”
“E eu com isso? Fui eu que criei essa empresa. Eu faço as minhas regras!”
“Mas eu não tinha que fazer uma avaliação sua também?”
“Eu mesmo já fiz essa parte, mas, pelo jeito, vou ter que fazer de novo, já que você fez o favor de sumir com todos os dados do sistema!”

O cara além de botar a culpa em mim, faz a minha avaliação sem me consultar e ainda se auto-avalia! Como pode alguém assim pode ser gestor de alguém?

“Posso ir então?”
“Vai e anda logo com isso! E se vocês perderam todos os dados, inclusive os das avaliações feitas pelo presidente, não precisa nem ir à festa. Pode ir direto pra casa e não voltar mais!”

Terrorismo a essa altura do campeonato é demais pra mim.

Capítulo 47 - As Festas da Empresa

Festas de empresa são sempre interessantes. Há quem reclame de tudo e há quem não se lembre de nada. Eu sou da turma que se diverte, ri da cara dos outros e tenta alguma coisa com a mulherada, mas bem no sapatinho. Existem três regras que devem ser seguidas a risca, pois, se não, seu emprego corre sério risco. São elas:

1) Nunca pegue ninguém na festa. Mesmo que aquela gata esteja bêbada e esteja muito a fim de dar pra você, passe bem longe dela. Pode xavecar, combinar de ir pra casa, mas não faça nada no ambiente!
2) Nunca fique puxando assunto com o chefe. Ele sabe que você está ali só porque é seu chefe, então saia de perto.
3) Nunca beba demais. Fazer papelão em festa de empresa significa ser sacaneado pro resto da vida. Se vomitar então, pode pedir a um amigo para recolher suas coisas e manda-las pelo correio.

Feito isso, você pode se divertir a vontade. E diversão em festa de empresa significa falar mal dos outros, beber e comer de graça. Não existe coisa mais agradável do que ver uma pessoa que você não gosta na fossa. É muito mais agradável ainda, conversar com as mulheres sem ter que falar de trabalho e ver que elas concordam com a maioria das nossas opiniões sobre certas pessoas da empresa. Além disso, mulher é sempre uma fonte boa de fofoca. Não que eu seja fofoqueiro, mas é bom se manter atualizado com os últimos acontecimentos.

Certa vez, Roberto resolveu desrespeitar as regras e se deu mal. Encheu a cara de Uísque com Red Bull, encheu a paciência de Dario (chegou a chamar o sujeito de Senhor dos Anéis!) e, o pior de tudo, pegou a mulher mais feia da festa. Para completar, ele andou de mãos dadas com ela por todo o ambiente e, para piorar a sua situação, foi embora de carona com ela.

No dia seguinte, Roberto veio nos contar que acordou ao lado de uma mulher horrorosa e que estava morrendo de dor nas costas. Não conseguia se lembrar de nada, mas pediu para que nós não o lembrássemos de nada. Rimos bastante da cara dele por pelo menos uns três meses. Ninguém mandou desrespeitar as regras!

O resto do pessoal sempre se comporta, pois todo mundo tem medo de perder o emprego. Os casados ficam na deles e os solteiros tentam alguma coisa, mas sem efetivar ali dentro. A conversa é sempre recheada de “vamos sair daqui” e “aqui dentro tá muito quente”. A grande maioria não consegue nada, mas o que custa tentar, não é?

Hoje é dia de festa e, ao invés de eu aproveitar todas essas coisas legais citadas acima, estou indo para a sala do Dario, levar esporro por algo que eu não tenho culpa. Na verdade, a culpa é dele por manter aquele energúmeno do Rodrigo dentro da empresa.

Capítulo 46 - Que Falta faz uma Serra-Elétrica

Glossário:

Base: base de dados, onde ficam os dados de um sistema... grande explicação!

DBA (Data Base Administrator): é o sujeito que cuida da base de dados, ou pelo menos deveria... na verdade só sabe valorizar o trabalho dele e atrasar o dos outros!!

Tabela: é uma parte do banco de dados. Na verdade mesmo, é onde ficam os dados... e as tabelas ficam no banco de dados... ah! Deu pra entender!! Pense uma planilha do excel! É a mesma coisa! Quer dizer, mais ou menos...

Select: é uma instrução que você usa para consultar alguma coisa numa tabela. Lógico que tem que escrever mais coisas, não é só escrever "select" e pensar no que você quer... computador ainda nao lê mente!

*************************
No caminho para minha baia, constatei o que Gilberto tinha acabado de dizer. Não é que o sujeito está dormindo mesmo? É muito cara-de-pau!

“Rodrigo!”

Engraçado, parece que ouvi um soluço.

“Rodrigo!”
“Eu juro que foi sem querer!”, disse ele, ainda abaixado.
“Você está chorando?!”
“Foi sem querer. Eu não tive culpa!”
“O que você fez?”
“Eu fui corrigir o erro, mas aí, foi sem querer!”
“Fala logo a merda que você fez!”
“Eu descobri que o problema do sistema era um registro que estava na tabela e que não deveria existir. Então eu apaguei o bendito.”
“E o que tem isso?”
“Só que eu esqueci de colocar o filtro...”
“Você apagou a tabela toda?!”

Parece que tem alguém lá em cima de sacanagem com a minha cara, mordendo e assoprando o tempo inteiro. Será que não dava para ficarmos apenas com a parte boa da história?

“Eu juro que foi sem querer!”
“Rodrigo, se você não sair da minha frente agora, eu juro que eu te enforco com as minhas próprias mãos!”
“Desculpa, por favor! Me perdoa!”
“SOME DA MINHA FRENTE!”

Com esse grito, toda a empresa olhou para mim. Rodrigo, coitado, parecia um cão escorraçado, com as orelhas caídas e com o rabo entre as pernas. Deve ter um monte de gente com pena dele. Vou perguntar se eles querem levar para casa.

“Ana, me ajuda aqui, pelo amor de Deus!”
“O que aconteceu?”
“O Rodrigo apagou toda a tabela de avaliações.”
“Ele fez o quê?”
“É isso mesmo. O infeliz fez o favor de fazer merda no último dia da avaliação de desempenho e no mesmo dia da festa!”
“Precisamos recuperar o backup da base. Eles acabaram de fazer um, às 17h.”
“Estamos com sorte então. Não é possível que alguém tenha feito alguma avaliação de desempenho nesse meio tempo. Solicita ao DBA substituto pra mim, enquanto eu vou dar uma olhada para saber se foi criado algum registro na tabela.”
“Como você vai fazer isso?”
“Vou olhar a tabela de Auditoria.”
“Tenho uma má notícia.”
“Mais uma não, pelo amor de Deus!”
“A função que inclui na tabela de auditoria não está funcionando desde a semana passada.”
“Ótimo!”

Sem tabela de auditoria, DBA de férias e funcionário burro. O que eu faço com essa empresa? Como eles querem que eu trabalhe ou resolva um problema urgente se eles mesmos criam tantas regras para nos impedir de fazer tais coisas? É inexplicável!

“O DBA substituto não sabe como fazer isso!”, disse ela.
“Como não sabe? Ele é pago para isso!”
“Ele disse que não foi pago pra isso.”
“É o quê? O cara é o sujeito que deveria tomar conta das bases de dados! Ele é o administrador!”
“Foi o que ele disse.”
“O que vamos fazer?”
“Eu vou até lá ajudá-lo, porque, senão, isso não sai hoje.”
“Vai lá correndo e dá um tapão no pescoço dele por mim.”

Vamos lá! Preciso de dados! Uma consulta na base de testes, copiada todos os dias, vai me dar uma noção de quantos registros terei que migrar. O problema são os dados de hoje! Por que todo mundo deixa pra fazer tudo na última hora? Se eu perder essa festa, eu juro que aquele infeliz não arranjará emprego nem em empresa de limpeza!

Dez mil registros, uma quantidade razoável. Preciso fazer uma cópia desses dados para a mesma tabela em produção. Só que eu não me lembro como se faz isso! O problema de virar gerente é esse: você acaba “esquecendo” das coisas!

Quando não se sabe de alguma coisa em informática, basta procurar na internet! Se você não encontrar algo idêntico ao que você quer, com certeza vai achar algo muito parecido.
Menos de um segundo depois e eu já estou com o que preciso fazer. Uns Select's, mais alguns ajustes, um teste básico e pronto! Feito!

Agora só falta o backup de hoje. Já são 17h50min e o Gilberto já foi. Vou chegar sozinho e atrasado! Eu sei que não acredito no senhor, meu Deus, mas dá uma ajudinha aí! Eu preciso transar hoje!

Tomara que Dario não descubra o que está acontecendo!

“David!”, gritou Dario.

Agora já era.

Capítulo 45 - A Suspeita do Início do Fim

“Ela fez o quê?”, perguntou Gilberto.

Estávamos no café, como de costume. Gilberto não estava fazendo nada e acabei chamando-o para conversar. Tinha que contar para alguém o que tinha ocorrido na reunião.

“Ela peitou o Astolfo! O cara parecia um cachorro sem dono ao final do esporro.”
“Cacete! A mulher, além de feia, é macho mesmo!”
“Eu fiquei atônito. Não conseguia me mexer, atracado com a cadeira.”
“Eu nunca imaginei em falar isso, mas você tem sorte de ter uma mulher assim trabalhando com você.”
“Eu também nunca imaginei em concordar com você. Não sobre isso.”

É incrível como algumas pessoas são curiosas. O Jorge, um técnico fofoqueiro da empresa, nunca toma café, mas, hoje, ele resolveu entrar na copa para pegar um. Ele deve estar tentando pescar alguma coisa do que estamos falando, mas ele não vai conseguir.

“E a festa?”, perguntou Gilberto, tentando mudar de assunto.
“Nem sei se vou. Estou com preguiça.”
“Eu também não estou com muita vontade.”

Bom, a mudança de assunto deu certo. Ele já foi embora. O sujeito é chato e inconveniente. Como podem existir pessoas assim? Agora podemos voltar ao assunto.

“Você perguntou o porquê dela ter feito aquilo?”
“Perguntei na volta. Ela disse que não estava agüentando mais aquele homem me maltratando.”
“Vixi! Ela deve estar apaixonada por você!”, disse ele, gargalhando.
“Sai pra lá, urubu! Já tenho compromisso pra hoje a noite!”

Não consigo imaginar alguém pegando a Ana Cláudia. É até estranho dizer isso, mas o marido dela tem sorte de ser cego.

“E aí? Empolgado?”
“Como nunca estive!”
“Eu estaria também, se fosse você.”
“Vai pra lá que horas? Já são 17h30min.”
“Vou às 18h mesmo, na hora que abre aquele lugar.”
“Eu vou com você então.”
“Cara, me deixa ir trabalhar. Preciso, ainda, ver se o Rodrigo terminou de corrigir o erro no sistema de Avaliação de Desempenho.”
“Não gosto de fazer isso, mas, quando passei por ele, ele estava de cabeça abaixada. Parecia dormir.”
“Não acredito! De novo?!”
“Ele estava normal, trabalhando. Mas aí colocou as mãos na cabeça e se abaixou na baia.”
“Mãos na cabeça?”
“É.”

Isso não é um bom sinal.

Capítulo 44 - Curta e Grossa

“Eu quero consultar o saldo das contas e pronto!”
“Não dá pra fazer isso, nós seremos presos!”
“Não me interessa!”

A Ana está mais inquieta do que o normal. Estou ficando preocupado.

“Astolfo, desculpa, mas não podemos fazer nada.”
“Vocês vão dar um jeito nessa merda, por que, se não, o contrato vai pro saco!, gritou ele.

Pronto, agora ferrou.

“Olha aqui, Senhor Asfalto!”, disse Ana, levantando e apontando o dedo para o homem.
“Meu nome é Astolfo!”
“Não me interessa qual é o seu nome!”
“Olha como fala comigo, sua...”
“Você fica quieto e me escuta! Se o David está dizendo que não dá pra fazer, nós não iremos fazer! Eu conheço bem o seu tipo imbecil e, se você continuar com esse terrorismo barato e idiota, você pode enfiar esse contrato no rabo junto com a sua prepotência!”

O silêncio. Ana ainda está respirando fundo, enquanto Astolfo se mantém de boca aberta. Eu ainda estou segurando os braços da cadeira, de tão nervoso. Não vai dar nem tempo de ir à festa, pois serei demitido na hora que pisar na empresa.

“Gostei de você!”, disse ele.
“Acordado então?”, perguntou ela.
“Sim, acordado.”

Mais um milagre para a minha coleção de hoje.

Capítulo 43 - A Questão do Escopo

A grande briga entre as consultorias de informática e seus usuários resume-se em apenas uma palavra: escopo.

Essa discussão já dura desde o início dos tempos, quando um homem discutia com o outro que tinha solicitado uma roda redonda e não uma roda quadrada. Isso causou uma grande confusão entre os dois que sucedeu uma quebra de pescoço e uma mulher roubada.

Acho que em todos os projetos que participei, até hoje, seja ele de informática ou não, tiveram problemas no escopo. Isso me lembra a minha primeira peça de teatro na escola.

Eu tinha cerca de doze anos e fazia parte do grupo de teatro da escola. Eu achava legal e todas as meninas da minha idade achavam lindo, um cara, numa sociedade tão machista, ter sentimentos legais, ao ponto de participar de uma peça de teatro. Mal sabiam elas que eu estava ali apenas para conseguir dar o meu primeiro beijo.

A diretora da peça, baseada num conto infantil, estava uma pilha, pois restavam apenas há três dias da estréia e o roteiro ainda possuía um problema, apontado pelos produtores. Existia um personagem na peça que matava um outro personagem com uma espadada na cabeça, o que seria muito trágico para uma peça para pré-adolescentes. Foi então que a diretora encomendou um escritor para reescrever a morte do sujeito.

A primeira versão do roteiro chegou impressa em papel meio amassado e cheia de manchas, o que tornou a sua leitura impossível. A diretora reclamou e, no mesmo dia, chegou uma nova versão, impressa em papel super-branco e em alto-relevo, mas faltando a parte que interessava: a alteração solicitada.

A diretora, em completo desespero, mandou um e-mail dando um bronca no sujeito e solicitando uma nova versão. Chegou inclusive a dizer que o contrato seria cancelado, caso a versão não chegasse naquele dia.

A nova versão chegou, em papel branco e letras em alto-relevo, além da parte faltante. Quando a diretora leu, ela caiu pra trás. A morte não somente continuava ali, como estava muito pior, pois envolvia um moedor de carne e um funil. O assistente de direção, vendo que a diretora já não tinha mais condições, convocou uma nova reunião com o escritor para acabar de vez com o problema. A reunião foi realizada e ficou decidido que a morte seria retirada do roteiro, tornando o final mais feliz.

No dia seguinte, uma nova versão chegou às mãos da diretora que leu e gostou. Ela apresentou um ensaio ao produtor que, pra variar, não gostou e pediu para voltar com a morte do garoto.
A diretora entrou em contato com o escritor e explicou o ocorrido. O escritor, por sua vez, ficou puto da vida e mandou a diretora à merda, dizendo nunca mais escrever uma linha sequer para ela.

A mulher ficou transtornada. Chorava por todos os cantos e não sabia mais o que fazer. Foi então que, com uma idéia brilhante, a diretora resolveu voltar ao roteiro original, mudando a forma da morte (uma pedra caía na cabeça do garoto), e mostrar aos produtores assim mesmo.
Ela realizou um novo ensaio e os produtores adoraram.

Seguimos em frente e estreamos no dia programado. A peça foi um fracasso e todos acharam que a morte do garoto foi muito trágica, preferindo que tivesse sido realizada de forma mais sutil, como uma espadada na cabeça. Os produtores, então, demitiram a diretora da peça. Ela nunca mais conseguiu um novo emprego.

As semelhanças entre esse e os outros projetos que eu participei em minha vida profissional são imensas! Tirei algumas lições desse caso e as levei por toda a minha vida profissional:

· Não importa em que área você trabalhe, as alterações no escopo estarão sempre presentes e atormentarão sua vida.
· Nunca terceirize os seus problemas. Eles sempre triplicam!
· Sempre tenha alguém para colocar a culpa, caso a coisa toda não dê certo.

Observação: adivinha quem era o garoto que morria?

Capítulo 42 - Primeiro Contato

A reunião é na sala do cara, que fica no final do corredor apontado pela segunda secretária. Ao longo deste corredor, existem vários pôsteres, bem grandes, dos antigos presidentes da empresa. Acho meio macabro isso, pois parece que tem um monte de gente morta te olhando, mas já me acostumei.

A Ana, coitada, também está assustada com os rostos pálidos e sisudos dos homens. Eu fiquei impressionado com a foto de um dos presidentes, pois se manteve imóvel, mesmo com a Ana chegando bem perto para ler o que estava escrito na plaquinha de metal. Esse cara deveria ser bom!

A porta da sala do sujeito possui ornamentos estranhos, como gárgulas segurando argolas com a boca e unicórnios desenhados ao longo da madeira escura. Além disso, existem duas estátuas de minotauros, uma em cada lado da entrada, que parecem guardar o conteúdo da sala. Tudo muito esquisito e excêntrico demais para o meu gosto.

“Entre!”, gritou o homem, após eu bater na porta.

Ana Cláudia manteve-se atrás de mim, como um fator surpresa, um ás na manga. O homem está fumando um charuto, sentado na sua cadeira de couro e de aparência confortável. Um ventilador de teto girava devagar, mesmo com o ar-condicionado ligado, mantendo um clima estranho.

O homem apontou os dois lugares a frente dele e apagou o charuto em um cinzeiro em forma de elefante. Manteve-se olhando para o cinzeiro enquanto nós nos sentávamos.

“Adoro elefantes. Eles são grandes, gordos e lentos. Acho engraçado isso.”, disse ele, levantando o rosto.

Foi engraçada a reação dele ao ver Ana Cláudia. Foi um misto de surpresa e pavor nunca antes presenciado por mim. Ele arregalou os olhos e ficou, por alguns segundos, espremendo o charuto no elefante, como se estivesse no automático. Tive que intervir.

“Oi Astolfo, essa é a Ana Cláudia, minha arquiteta.”
“É um prazer, senhor.”, disse ela, estendendo a mão.

Ele continuou esfregando o charuto no elefante, agora com mais força. Num lampejo, retornou ao mundo, estendendo a mão para a garota. Mas ainda estava hipnotizado.

“Eh, oi.”, disse ele.
“Estamos aqui para resolver o mal-entendido que o Rodrigo causou. Não temos como acessar as contas dos funcionários para saber seus saldos. Isso é contra lei.”
“Eh, eu sei.”
“Alguém mais virá para a reunião?”
“Não. Somente eu.”

Ele saiu do transe quando o charuto se desfez completamente e a brasa, ainda existente, queimou seu dedo. Ele parecia hipnotizado pela feiúra de Ana Cláudia. Eu pensei que a intimidação estava dando certo, mas eu estava enganado.

“Vocês me ofereceram um produto e disseram ser viável.”, disse ele, acendendo outro charuto.
“Eu sei disso, mas foi sugerido algo impossível de se desenvolver nos moldes da lei.”
“Não me interessa a lei, só não quero levar calote desses desgraçados que eu chamo de funcionários!”
“Mas não podemos fazer isso!”
“Se vira, mermão! Se vocês não fizerem, cancelo o contrato!”

A Ana Cláudia continuava calada, mas inquieta com a atitude do sujeito. Eu só conseguia pensar no Rodrigo, pendurado por uma corda, no alto do prédio, implorando para eu não jogar ele lá embaixo.

“Astolfo, sejamos racionais. Eu não posso fazer isso.”
“Por que não podem?”
“Porque é ilegal!”
“Você acha que coloquei essa empresa onde está sendo legal? Mantendo as coisas dentro da lei? Não seja idiota!”
“Desculpa Astolfo, mas é meio complicada a comparação. Se o banco descobrir, podemos ser presos!”
“Pelo amor de Deus! Você acha que mora em que lugar do mundo? Aqui, ninguém é preso! Basta pagar uns cafezinhos para os malucos e está tudo certo! O que eu não posso permitir é a minha empresa perder tanto dinheiro com empréstimos internos!”
“Astolfo, nós fomos contratados para fazer um sistema para a área financeira e não de empréstimos! Isso não estava nem no escopo inicial e, mesmo assim, incluímos no projeto a seu pedido.”
“E empréstimo não tem a ver com Finanaças?”
“Tem sim. Mas não estava no escopo.”
“Eu mudo o escopo quantas vezes eu quiser, nessa merda! O dinheiro é meu e eu faço o que quiser com esse projeto!”

Clientes são todos iguais.

Capítulo 41 - Recepção Calorosa

Visitas em cliente são sempre estressantes. Não só pela tensão existente entre os dois lados, mas pelo simples fato de que o cliente sempre acha que “o cliente tem sempre razão”, o que não é verdade. Não em informática.

Além disso, existe um outro problema: eles pagam, mesmo que indiretamente, o seu salário, por isso, qualquer coisa que você fale de errado, pode ser problemático para o projeto, causando, assim, a sua demissão. Por isso, em uma reunião, nunca, mas nunca mesmo, deixe alguém que não saiba nada sobre o projeto falar sobre o bendito. Isso pode ser fatal.

Hoje, as tarefas serão árduas. Primeiro, eu tenho que convencê-los de que o que o Rodrigo ofereceu é impossível, legalmente, de se desenvolver. Segundo, preciso convencê-los de permanecer numa reunião, pelo menos por meia hora, olhando para o filho do bicho ruim (leia-se Ana Cláudia). Acho que a segunda tarefa é mais complicada do que a primeira.

Pelo jeito, a intimidação será a melhor maneira de reverter o quadro. Vou colocar a Ana na frente, como se fosse um escudo, e ficar gritando atrás. Ainda vou pedir a ela que abra a boca e sorria algumas vezes, só para aumentar o pavor. Duvido que eles não aceitem tudo o que eu falar. O medo é uma das armas mais poderosas contra o ser humano. Basta saber causá-lo.

“Olá! Em que posso ajudá-lo?”, perguntou a recepcionista.
“Oi, temos uma reunião com o Sr. Astolfo.”
“Qual o nome de vocês... Meu Deus!”

A primeira pessoa a levar um susto com Ana Cláudia.

“Ana Cláudia e David.”, disse Ana, tomando as rédeas da conversa.
“Hã, Ok! Ana Cláudia e David. Só um minuto, por favor.”

A mulher saiu da mesa e foi fofocar com alguém numa sala, atrás da recepção. A coitada está comentando com a amiga, provavelmente a outra recepcionista, num volume que o Rodrigo, lá no centro, poderia ouvir.

As duas apareceram com um ar desconfiado e sentaram-se em suas cadeiras de rodinhas.

“Vou ligar para saber se o Sr. Astolfo já está disponível.”, disse a recepcionista que tinha nos atendido.

O engraçado é que ela não olhava mais em nossa direção, apenas para o monitor a sua frente. Foi a primeira, e espero que a última, vez que vi Ana Cláudia com raiva.

“Você está com algum problema?”, perguntou Ana para a recepcionista.
“Eu? Não, senhora!”, disse a mulher, mantendo os olhos vidrados no monitor.
“Por que você não está olhando pra mim então?”
“Estou trabalhando, senhora!”, disse ela, sem desviar os olhos.
“Eu estou perguntando algo a você e você me responde sem olhar para mim.”
“Senhora, estou tentando entrar em contato com a secretária do Sr. Astolfo.”, disse ela, se esforçando para olhar para Ana.
“Ok, então!”

Assim que Ana Cláudia se virou, a mulher deu um suspiro de alívio. Ana ouviu e já ia se virar para reclamar, quando a outra secretária avisou que o Sr. Astolfo já estava disponível para nos receber, sem olhar em nossa direção, claro.

Quando entramos no corredor de acesso à sala do sujeito, ouvi as mulheres cochichando, dizendo nunca ter visto algo parecido na vida. Ainda bem que, dessa vez, a Ana Cláudia não ouviu.

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Existe uma piadinha no ramo de informática que diz o seguinte:

"Somente dois profissionais no mundo possuem usuários: os analistas de sistemas e os traficantes."

Acho que isso ilustra bem a situação da classe.