Capítulo 18 - A Grande Plano

Você já leu os outros capítulos?? Não?!?! Então pare agora!!

“É o seguinte: você vai chegar nela no início da festa pra poder sentir o clima. É só chegar pra conversar, não pra agarrar. Depois você se afasta e fica observando de longe. O Gilberto vai chegar nela pra gente saber se realmente ela não vai dar trela pra ninguém.”
“Eu vou chegar nela? Tá maluco? Eu sou casado!”
“Porra, e o que tem isso?”
“Como assim o que é que tem? Você tem merda na cabeça? Todo mundo dessa empresa sabe que eu sou casado e muita gente conhece a minha mulher!”
“Tá bom então, o viadinho chega nela então.”
“De qual viadinho você está falando?”
“Do Juliano, porra!”
“E você acha que o Juliano vai mesmo chegar nela?”
“Você acha que ele não vai querer que nosso amigo aqui dê uma bimbada naquela gostosa?”
“Ricardo, acho que você está perdendo a noção. O Juliano nunca vai fazer isso.”
“Então pra que esse viadinho serve então?”
“Dá pra parar de chamar o cara de viadinho?”
“Tá defendendo o macho, tá?”
“Dá pra parar de brigar, vocês dois?”

Tive que intervir na discussão das duas moças. Do jeito que os dois são esquentados, daqui a pouco estão saindo no tapa.

“Ricardo, você chega nela pra eu sentir o clima. Você vai saber o que dizer pra tentar convencê-la a ficar com você.”
“Não sei se consigo. Ainda estou traumatizado desde o último não que recebi dela.”, disse Ricardo.
“Depois chama os outros de viadinho. Bicha traumatizada não dá pra agüentar!”
“Gilberto, vai se catar, vai? E não me encha a porra do saco!”
“Caralho, vocês parecem duas crianças!”
“Beleza então, vamos deixar você agora, ok? Vem Gilberto!”, disse Ricardo, puxando Gilberto pelo braço.
“Hei! Aonde vocês vão?”

O motivo da saída repentina dos dois apareceu na minha frente. Linda e maravilhosa, Júlia vem caminhando com seu sorriso de comercial de pasta de dentes em direção à copa.

“Oi”, disse ela, sorrindo pra mim.
“Hã, oi”
“Tudo bem com você?”
“Claro, agora melhor!”

Não acredito que eu disse a cantada mais velha do universo! Acho que até a minha avó ouviu essa cantada na época que ainda era menina-moça.

“Você é muito fofo, sabia?”

Ela está apertando a minha bochecha! Se ela continuar por mais alguns segundos, vou passar a maior vergonha da minha vida, tamanha a excitação do ser.

“Ficou sem graça?”
“Eu? Não. Claro que não.”

Segundos de silêncio. Quando os dois ficam completamente sem assunto, é um mau sinal.

“E aí? Vai à festa?”, perguntamos em uníssono.

Nós dois estamos rindo! Ela é tão linda... acho que casaria com ela agora, se ela quisesse.

“Eu vou, claro!”
“Vejo você lá, então!”

Ela quer me ver na festa! Será que estou sonhando? Tenho quase certeza que ainda devo estar em casa mordendo aquele travesseiro maldito.

“Beijos, tenho uma reunião agora com o Dario. Vim pegar um café pra não dormir.”, disse ela, sorrindo novamente.
“Vai lá! Boa sorte!”
“É, vou precisar!”, disse ela, sorrindo e passando a mão no meu rosto antes de sair do recinto.

Respira fundo! Respira fundo!

Todos os planetas estão alinhados. Todos os ascendentes estão a meu favor. Não tem como nada dar errado!

É hoje que eu fico famoso nessa empresa!

Capítulo 17 - O Tarado

Não continue caso não tenha lido os capítulos anteriores!!

Ricardo é um cara muito bacana. Solícito ao extremo, sempre está disposto a ajudar quando precisamos. Gosta de sacanear os amigos e não tem papas na língua na hora de expor sua opinião. Se ele não gostar de você, pode ter certeza que você saberá. Ele só tem um único problema: sexo.

O cara completamente tarado. Não pode ver um rabo de saia que já sai correndo atrás. E o pior é que a maioria de suas investidas dá certo, o que faz aumentar seu ego ainda mais. Além disso, ele coleciona filmes pornôs de todos os tipos e nacionalidades. Sabe o nome de todos, inclusive o nome dos “atores”, das “atrizes” e dos diretores. E olha que são muitos!

Em sua casa, os filmes que possui ficam em um dos quartos, com estantes e prateleiras pregadas até o teto. Ele separou todos os filmes na seguinte ordem:
  • Nacionalidade
  • Distribuidora
  • Gênero
  • Nome
Ricardo consegue encontrar tudo em dois segundos. É quase humanamente impossível encontrar algo no meio de tantos filmes, ainda mais quando a opção de pesquisa é tão variada, mas ele consegue.

A seção de filmes alemães é a maior. Tem filme de grávida, com animais, velhas, gordas, anãs e todo tipo de orifício possível. Acho que encontrei um onde os homens só transavam com plantas. Existe ainda uma seção restrita que não gosto nem de mencionar, de tão nojenta. Mas fazer o quê? Tem gosto pra tudo!

Resumindo: se você quiser um filme para tirar aquele atraso, é só falar com o Ricardo que ele te arranja com o que se distrair.

Acho que por ser assim, Ricardo nunca conseguiu ficar mais de seis meses com uma mesma mulher. Ele diz estar sempre procurando a futura ex-senhora Resende. E no meio tempo, procura alguns orifícios para se divertir.

O único troféu que Ricardo ainda não conseguiu conquistar foi Júlia. Ainda bem que ele já se reconheceu derrotado.

Capítulo 16 - O Refúgio

VOCÊ JÁ LEU OS CAPÍTULOS ANTERIORES??? SE NÃO, ENTÃO PARE AGORA!!

“Claro que ela está falando de você!”, disse Ricardo.

Ricardo, Eu, Juliano e Gilberto já estávamos no café fofocando. Quando esse tipo de coisa acontece, o e-mail já não é o suficiente. Acorda-se, então, o comboio para o café.

“Eu também acho.”, disse Gilberto. Juliano concordou com a cabeça.
“Será mesmo? To ficando nervoso. Acho essa mulher demais pra mim.”
“Deixa de ser viadinho! Vai lá e come ela até você ter que passar pasta d’água!”, disse Ricardo, batendo no meu ombro.
“Será que você consegue dizer uma frase sem besteiras?”, disse Juliano, ficando nervoso com o vocabulário de Ricardo.
“Vai se fuder, seu viado de merda!”
“Ricardo, vai com calma, ok?”

Tive que acalmar os ânimos de Ricardo, pois, às vezes, ele é muito sem noção! Mas daqui a pouco eu conto a história do sujeito.

“David, pelo amor de Deus! Essa mulher era tudo que eu queria comer na minha vida! Peguei todas as mulheres da empresa, menos ela! Ela nunca sequer olhou pra mim! Ela rejeitou uma cantada minha! Isso é quase impossível, mas aconteceu! E como você é meu amigo, você merece pegar aquela mulher, tirar fotos e mostrar para os amigos!”
“Eu concordo com o Ricardo.”, disse Gilberto.
“Eu não vou nem comentar o que ele acabou de dizer. Vou dar o fora, antes que vocês resolvam tramar o seqüestro de alguém.”, disse Juliano.

Juliano saiu da copa com as mãos pro alto. Coitado, ele não agüenta ficar nem cinco minutos conversando com o Ricardo. Os dois nunca se deram bem, pois são completamente diferentes.

“Eu sempre o achei meio viadinho.”
“Ricardo, você acha todo mundo viadinho. Deixa o garoto em paz um pouco, dá pra ser?” disse Gilberto.
“Eu vou ter que beber bastante pra chegar nela.”
“Pode deixar, que isso eu dou um jeito rapidinho. Já tenho uma idéia pra resolver essa sua timidez.”, disse Ricardo, rindo e esfregando as mãos.

Eu só tenho uma coisa a dizer: as idéias de Ricardo nunca são muito boas e sempre deixam a gente na mão. Mas, fazer o quê? Ninguém segura o cara quando o assunto é “fazer um amigo transar”.

Capítulo 15 - E-mails

Ler e-mails é uma tarefa árdua e um excelente modo de passar o tempo. Às vezes, você consegue passar um dia inteiro só fazendo isso. É, também, um modo legal das pessoas saberem ou acharem que você está trabalhando.

Recebo todos os tipos de e-mails imaginários. Depois que virei gerente então, o fluxo de e-mails da minha caixa de entrada praticamente duplicou. Os funcionários da empresa acham que, só porque você virou gerente, você resolverá o problema delas, seja ele qual for. Já recebi e-mail até de uma mulher, funcionária da empresa, pedindo pra eu arranjar um namorado pra filha dela que estava encalhada. Segundo ela, a filha já estava velha demais para ter filhos e, como eu era gerente, eu poderia arranjar um casamento para ela com um dos meus vários subordinados. Não tive coragem de mostrar as opções que tinha abaixo de mim.

Os mais legais, lógico, são os e-mails de piadas, fotos de mulheres peladas e vídeos de sacanagem. Esses dias, recebi um vídeo que se intitulava britadeira atômica. Não vou entrar em detalhes, mas aquele cara não era humano!

Gosto de vídeos de acidentes também, pois adoro imaginar o Dario e o Rodrigo dentro de um dos carros que saem voando e capotam trezentos e vinte e sete vezes antes de cair num rio turbulento e cheio de piranhas.

Agora, as que eu mais gosto, são as mensagens onde alguém está falando mal de alguém da empresa. Eu me divirto com esses e-mails e sempre emito minhas opiniões sarcásticas, só para apimentar a discussão.

Esses dias um sujeito estava perguntando para o Ricardo se ele sabia de alguma coisa da mulher dele, pois estava desconfiado que ela estivesse saindo com alguém da empresa. Coitado. Na mesma hora o Ricardo mandou a mensagem para mim e para mais três pessoas sacaneando o coitado do chifrudo. Também, ele foi perguntar logo para o cara que estava pegando a mulher dele! Eu achei escroto, mas fazer o quê? Alguns nascem para serem otários enquanto, outros, nascem para serem os espertos que zoam os otários.

Hoje é um dia especial: dia de festa! Minha caixa já está com quarenta e sete e-mails novos: vinte e nove com assunto “É Hoje!”, quinze com assunto relacionado à putaria e três de trabalho. Não preciso nem dizer que não vou olhar os de trabalho agora, certo?

Sempre pego o último e-mail com o mesmo assunto para ler, pois ali está todo o bate-papo ocorrido. Começo a ler de baixo pra cima, para entender toda a discussão. Nessa mensagem específica, estavam falando de Júlia. Pobres mortais, eles não tem idéia da onda que vou tirar hoje. Vamos ao e-mail:

Ricardo: “Ae, quero ver quem vai ser homem de chegar na Júlia hoje!”
Gilberto: “Você vai né, garanhão?”.
Roberto: “Deixa de ser viado, Gilberto!”.
Gilberto: “Vai pro inferno!”.
Rodrigo: “Eu vou chegar nela!”.
Ricardo: “Uhuahuahauhauh... você não vai chegar nem perto dela, seu retardado!”.
Rodrigo: “Não te perguntei nada, seu babaca!”
Roberto: “Pessoal, vamos focar no assunto, ok?”.
Rodrigo: “Ok! Mas se ele implicar vou falar de novo!”.
Ricardo: “Quem chamou o Rodrigo na conversa?”.
Rodrigo: “Você só sabe me excluir! Não deixa eu participar de nada!”
Ricardo: “Deve ser porque você é um retardado!”.
Juliano: “Quando vocês falarem algo de útil, eu volto a ler o e-mail, ok?”.
Roberto: “Pessoal, acabei de ver a Júlia! Ela está com um vestido preto minúsculo e uma sandalinha de vagabunda! Sem explicação!”.
Ricardo: “Puta merda! Como eu ainda não a vi?”
Roberto: “Cacete! O Rodrigo tá indo lá falar com ela!”
Ricardo: “Não acredito! Ela virou a cara pra ele e foi embora! Que otário!”.
Roberto: “O que você foi falar com ela, seu maluco?”.
Rodrigo: “Fui perguntar se ela queria ir pro motel comigo.”.
Ricardo: “VOCÊ O QUÊ?!”.
Roberto: “VOCÊ O QUÊ?!”.
Juliano: “VOCÊ O QUÊ?!”.

Eu não acredito. Simplesmente, não consigo acreditar no que o idiota acabou de fazer. Será que ele faz isso sério ou é maluco mesmo?

David: “O que ela disse, Rodrigo?”
Rodrigo: “Se eu te disser, você não vai acreditar!”
Ricardo: “Fala logo, porra!”.
Roberto: “Fala logo!”.
Juliano: “Eu não quero nem saber!”.
Rodrigo: “Ela disse: ‘eu só converso sobre essas coisas fora do trabalho. Além disso, só tem uma pessoa aqui que me interessa.’!”

Pelo visto, a coisa vai ser mais fácil do que eu imaginava.

Capítulo 14 - O Chato

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* Caso de Uso = documento que contém as regras de uma determinada funcionalidade de um sistema. Deve ser sempre atualizado quando de uma mudança no requisito para garantir a consistencia da documentação do sistema. Claro que isso nunca acontece, já que você está correndo porque o prazo apertou e, no final das contas, não aguenta mais alterar aquele documento maldito de tanta mudança que o cliente pede...


“David!”

Ah, não. Mal sento na minha mesa e lá vem o Rodrigo me encher o saco. Será que ele não consegue ver que estou tentando ler meus e-mails? Posso até fingir que não estou escutando, pois utilizo a técnica do “fone de ouvido mudo”, mas acho que não vai adiantar muito. Ele é bem insistente.

“David!”

Sabe aqueles momentos num filme onde o ator olha pro alto pedindo clemência a Deus, retira o fone de ouvido com certa impaciência e vira para o sujeito que o está chamando com uma pequena grosseria do tipo “o que você quer?”? Pois é, acabei de fazer isso.

“O que você quer?”
“Te dar bom dia!”, disse ele sorrindo com cara de maluco.
“Beleza. Mais alguma coisa?”
“Mas eu nem te dei bom dia ainda!”
“E o que você está esperando?”
“Então tá, lá vai!”

O que eu fiz pra merecer isso? Será que foi aquele gato que coloquei fogo quando eu era pequeno? Acho que estou sendo castigado por isso, só pode ser!

“Bom dia, David! Espero que você tenha um óóóóóóóóótimo dia e que você seja muuuuuuuuito feliz e consiga tuuuuuuuudo que deseja!”

Eu não sei se ele é puxa-saco ou se é retardado, mas ele está sorrindo como um ET saído do filme “Heróis Fora de Órbita”.

“Muito Obrigado!”, disse sendo sarcástico, lógico.
“Que bom que você gostou!”
“Agora volte para a sua baia e continue trabalhando, ok?”
“Eu não posso.”
“Como não pode?”
“Eu preciso te perguntar uma coisa pra mim poder continuar o que estou fazendo.”

Quando Rodrigo está com dúvida em algo, pode ter certeza que será algo que você terá vontade de rir ou, no meu caso, matar o desgraçado por não saber aquilo. Foram tantas perguntas idiotas que já perdi a conta. Às vezes, tenho vontade de perguntar se ele realmente terminou o segundo grau, mas, como superior dele, a ética me manda ficar calado. Outra coisa: “pra mim poder” foi forte. Preciso correr com essa conversa, pois, senão, fico sem ouvido.

“Pergunta logo então!”
“Eu tenho que escrever uma frase no Caso de Uso* e não sei se uso Z ou S em uma palavra que está inserida no contexto.”
“E qual seria essa palavra?”
“Posso dizer a frase toda?”
“Por que você não me diz somente a palavra?”
“Por que ela está inserida no contexto da frase!”
“Mas o que isso tem a ver?”
“Sem a frase, talvez você não entenda a minha dúvida!”
“Então diz logo essa frase!”
“Lá vai: O ator pressiona a opção OK e o Sistema mantém a opção acesa. Esse “acesa” é com S ou com Z?”

A minha vontade era pegar o meu monitor e enfiar na cabeça desse imbecil! Como pode um analista de requisitos não saber escrever acesa? E que porra de frase é essa que ele está colocando no Caso de Uso?

“Vem cá, onde mesmo que você fez faculdade?”
“Na UFRJ.”
“E como você conseguiu entrar lá?”
“Não estou entendendo.”
“Deixa pra lá. É com S mesmo. Você já está terminando?”
“Ainda não. Esta é a terceira frase.”
“Mas você está escrevendo esse caso de uso há duas semanas!”
“Eu sei, mas é que você não estava podendo me atender e a Ana está sempre ocupada, então fiquei parado esperando a oportunidade de te perguntar a minha dúvida.”
“Você ficou o quê?”
“Parado, do verbo sem movimento.”

Estou pensando seriamente em deixar essa profissão. Como posso lidar todos os dias com uma pessoa tão burra? Não vou nem comentar essa última frase porque não vale a pena.

“Você conhece o google?”
“Conheço sim, por quê?”
“Você sabia que a gente consegue encontrar quase tudo nesse site, bastando digitar algumas palavras que tenham a ver com o que você quer procurar?”
“Claro que conheço! Esses dias eu não tinha nada pra fazer, então coloquei o meu nome lá. Achei um monte de coisas a meu respeito, até o número das minhas contas do banco! Legal né?”
“É, realmente, muito legal. Mas se você conhecia a ferramenta, por que não a utilizou para sanar a sua dúvida?”
“O que é sanar?”
“TIRAR! TIRAR A SUA DÚVIDA!”
“Não precisa gritar, chefe! Dá próxima vez eu faço isso então.”
“Se dependesse de mim, não existiria uma próxima vez!”
“Não entendi, chefe.”
“Vai pra sua baia, vai!”
“OK! Não precisa ser grosseiro.”

Tenho que reverter, pois, se ele contar para o Dario da grosseria, ele vai me encher o saco.

“Desculpa, é que eu estou nervoso.”
“Tudo bem. Eu também já fiquei nervoso hoje, pois não consegui achar a tecla para colocar um acento agudo nesse teclado americano. Coisa difícil de encontrar, né?”
“Rodrigo, faça-me um favor: não fale comigo pro resto do dia, OK? Vou ficar muito ocupado e preciso de paz e silêncio.”
“Sem problemas, chefe. Qualquer coisa, pergunto pra Ana.”
“Faça isso.”

Pelo visto a Ana Cláudia ouviu, pois acabou de fazer uma cara feia. Na verdade, ela conseguiu fazer uma cara mais feia do que a cara normal dela, o que era praticamente impossível. Agora que tenho paz, vou voltar aos e-mails.

“Chefe!”

Eu juro que vou procurar o esqueleto daquele gato. Vou mandar alguém exorcizar o espírito do bichano, pois não quero mais sofrer nessa vida.

“Fala Rodrigo.”
“Mandei um e-mail pra você, depois dá uma lida.”
“Obrigado por me avisar!”
“É uma piada! Muito engraçada!”
“Imagino.”

Não dou cinco minutos para ele voltar e perguntar por que eu apaguei o e-mail dele sem ler.

Capítulo 13 - O Senhor Certinho

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“Você é muito sortudo. E irresponsável.”
“Nem me fale, Juliano.”
“Como você pôde sair de casa tão tarde? Poderia ter custado o seu emprego!”
“Eu não tive culpa! Quer dizer, tive um pouco de culpa sim. Mas eu não tenho culpa se o meu despertador fica tão próximo da cama.”
“Se eu estivesse no seu lugar, teria acordado pelo menos umas duas horas antes do horário normal para não ter problemas com horário. Afinal de contas, você sabe que o trânsito do Rio de Janeiro é uma m... droga.”

Vou dizer uma coisa que resume toda a personalidade do Juliano: ele é certinho demais. O cara não fala um palavrão sequer! Na verdade, só teve uma vez que ele disse um “Merda”, durante um problema ocorrido em um sistema em produção. Foi uma coisa tão espontânea, tão “sem querer”, que, quando a palavra saiu de sua boca, o garoto ficou roxo e saiu correndo pro banheiro. Dizem que ele ficou escovando os dentes por uma meia hora, tentando se livrar daquele pecado extremo.

Juliano foi criado pelo avô, que era militar. Vocês têm idéia de como é viver com um sujeito grita com a planta que quer se virar para esquerda até ela se virar para a direita? Pois é, Juliano tem medo de errar até depois que o velho morreu. Eu já falei pra ele que ele vai ficar igual a minha avó, mas ele não me ouve!

Metódico, como nenhum outro, Juliano não se move sem projetar, estimar e realizar. Até para colocar um novo tapete em sua sala, ele desenha tudo no computador: diagrama quais os móveis serão retirados primeiro, desenha o processo de como retirar os móveis, estender o tapete, e colocar os móveis de volta no lugar. Depois de tudo, ele faz um relatório de lições aprendidas e guarda para aperfeiçoar a próxima mudança.

“Essas coisas acontecem. Vou fazer o quê?”
“Comigo não acontecem.”
“Mas, convenhamos, você é meio maluco, né?”
“Já pedi pra você não me chamar de maluco!”

Vou parar de falar, que é melhor. Adoro o Juliano, mas quando ele fica nervoso, fico até com medo. Ele é filho de milico, então deve ter um monte de armas em casa. Vai que ele entra aqui e sai dando tiro em todo mundo? Tô fora!

“Tá certo. Desculpa!”
“Mas e aí, vai apresentar o projeto quando?”
“Não sei. Dario vai marcar de novo.”
“Espero que você seja precavido na próxima vez.”
“Vou tentar. Nesse momento já mudei meu foco. Só penso nessa festa de hoje. Você vai?”
“Acho que vou aparecer lá.”
“Nem acredito! Juliano Ferreira vai à festa da empresa depois de dois anos sem ir?”
“Eu disse que vou dar uma passada lá. Você sabe que não gosto de participar desse tipo de festividade. O povo perde a linha.”
“É só nisso que estou pensando: perder a linha!”
“Você não tem jeito mesmo!”
“Claro que não! Você deveria tentar às vezes.”
“Vou pensar no seu caso. Vou voltar pra minha baia porque tenho que terminar um diagrama. Até mais!”
“Vai lá. Depois a gente se fala!”

Deixa-me ligar o computador, pois tenho que, ao menos, fingir que estou trabalhando. Dia de festa o povo fica ouriçado, ou seja, a caixa de e-mail vai entupir de besteiras e comentários maldosos. Não tem nada melhor pra passar o tempo.

Capítulo 12 - O Esporro e a Sorte

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“Desculpa, eu não sabia.”
“Você não sabia a hora da reunião também?”

A mãe do sujeito morre e ele está preocupado com o horário da reunião? Só pode ser maluco!

“Como eu já disse...”.
“Não me interessa as suas desculpas. Já estou cansado delas.”
“Mas...”
“Nada de ‘mas’. Quando eu te coloquei nesse trabalho, achei que estivesse fazendo a coisa certa. Pelo visto me enganei.”.
“Que isso Dario, eu trabalho pra caramba!”
“De que adianta trabalhar muito e não produzir nada?”
“Como assim? Eu entreguei a primeira versão do sistema um dia antes da data estimada! Eu fiquei vários dias até tarde da noite para entregar o prometido!”
“Ficou até tarde porque chega atrasado e não trabalha direito!”

Estou ficando com raiva desse babaca. Eu só não xingo a mãe dele porque ela acabou de morrer! A minha vontade é afogar esse imbecil nesse aquário idiota que ele tanto ama. Agora me diz, pra que um aquário de mil litros pra colocar um peixe? Um mísero peixe! O coitado não deve nem conhecer o outro lado do aquário!

O sujeito está meio abatido. Provavelmente por causa da morte da mãe. Se bem que o cara é tão frio que é bem capaz de ter gostado da velha ter morrido, pois já me disseram que ela tinha um seguro de vida que daria para alimentar uma família de dez pessoas por vinte anos!

“Infelizmente, você tem muita sorte, David. Se o presidente da empresa cliente estivesse aqui e você não, você não precisaria aparecer na sua baia para o resto da sua vida.”
“Estou numa maré boa.”
“Conseguiu terminar a apresentação, pelo menos?”
“Sim, consegui.”

Estou com medo dele. Está falando numa voz arrastada e nem levantou a voz pra mim ainda! Tudo muito estranho.

“Aqui, o pendrive.”, disse, entregando para ele.
“Não está funcionando.”
“Como não?”
“Não está reconhecendo.”
“Não é possível! Deixa-me ver.”
“Além de chegar atrasado, traz um pendrive fodido?”
“Mas eu testei antes de sair de casa!”

Uma das piores coisas que existem é um olhar de reprovação seguido de um tsc tsc tsc. E foi exatamente o que ele fez, segundos antes do telefone tocar. Ele pegou o fone e começou a dizer palavras pequenas, em uma conversa monossilábica. Tirou o telefone da orelha, colocou no gancho e olhou pra mim.

“Acho melhor você jogar na mega-sena hoje.”
“Por quê?”
“Eles desmarcaram a reunião.”

Era tudo que eu precisava ouvir.

Capítulo 11 - A Primeira Gafe

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A primeira gafe, da qual eu me lembro, foi com uma professora minha do colégio. A mulher lecionava Inglês e era muito gente boa. Estávamos eu e um amigo conversando com ela sobre casas mal-assombradas.

“A casa, onde eu moro hoje, tem um espírito. Eu já o vi algumas vezes. Ouço barulhos e tal, além de coisas caindo e quebrando.”, disse ela.
“Eu não gosto de conversar sobre isso, me dá calafrios!”, disse Gustavo, o meu amigo.
“Deixa de ser viadinho! Mas, fala Tia, é sério isso mesmo?”, perguntei.
“É sério. Tem um centro espírita ali perto de casa e eles foram fazer uma sessão lá em casa.”
“Gente, vamos mudar de assunto?”, disse Gustavo, já desesperado.
“Mas e ai?”, perguntei, não dando muita bola para Gustavo.
“Eles descobriram que o sujeito morreu na casa e que era tão apegado a ela que não foi para o plano espiritual. Ficou ali.”
“Cacete! Nunca me convide para ir à sua casa, por favor!”, disse Gustavo.
“Eles tentaram convencer o espírito a sair, mas não adiantou. Ele achava que ainda não tinha morrido.”
“E ai? O que você vai fazer?”, perguntei curioso.
“Já fiz! Voltei pra casa da minha mãe, ali em frente ao hospital. Uma de portão branco.”
“Há! Sei qual é. Ali era onde morava um doidinho que ficava socando o portão, não é? Eu ficava com medo de passar ali em frente e aquele doido me agarrar pelo pescoço e me matar.”, disse sorrindo.
“Aquele doido era meu irmão e ele morreu.”, disse ela, olhando pra mim com raiva.

Gustavo quase caiu pra trás. Eu fiquei tão sem graça que nunca mais cheguei perto dela pra conversar sobre nada. Não preciso nem dizer que quase perdi na matéria por causa disso.

Capítulo 10 - Sem meias palavras

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“Entre!” gritou Dario.

Primeira tática a se usar com um chefe chato e com cara feia é, simplesmente, não o deixar falar. “Saia atropelando!” é o meu lema.

“Oi Dario. Peguei um engarrafamento monstruoso hoje. Andava dois metros a cada dez minutos, você acredita?! O prefeito tem que fazer alguma coisa porque, senão, daqui a pouco, está igual a São Paulo! E o pior é que o cara do rádio só dá dica furada. Diz que a perimetral está livre quando está toda engarrafada! Já me ferrei com essas dicas de rádio várias vezes, mas eu sempre acabo acreditando neles de novo. De qualquer jeito, não posso mudar o itinerário do ônibus. Mas e aí? Os caras ainda não chegaram, né? A Regina me disse. Ela pediu para eu vir aqui direto falar com você. Aliás, como vai a sua mãe, já melhorou?”
“Ela morreu hoje de manhã.”

Pelo visto, hoje será um dia muito ruim.