É isso...

ATUALIZADO!!!

Pessoal,

Depois de muito tempo sem passar por aqui, queria dizer uma novidade.
Como as editoras hoje em dia são muito chatas e só publicam os livros de quem aparece na mídia ou é famoso lá fora, resolvi publicar o livro em um site de impressão por demanda.

Se alguém gostou do texto, quer presentear alguém que não consegue ler no monitor ou mesmo ter o livro em casa para ler no banheiro, segue abaixo o link de venda:


E ajudem a divulgar, por favor!

Abraços!

Eduardo Martins

Obs.: Ah! Preparem-se, pois a história de David irá continuar. Como já é moda, estou preparando uma trilogia! ;-)

Só pra adiantar o título da segunda parte:

Relatos de um Analista: O Caso do Maníaco dos Cofrinhos

****************************

Bom, acabou... rs

Acho que ficou bem legal, eu pelo menos ri sozinho algumas vezes escrevendo esse texto.
Para os que gostaram, espero que divulguem para que os outros possam ler também.
Para os que não gostaram, tudo bem... ninguém é perfeito.

Irei começar a enviar esse texto compilado para as editoras, então, por favor, torçam por mim.

Estou preparando um novo blog, que será divulgado aqui, com o meu outro livro, bem diferente deste. É um suspense, passado no Rio de Janeiro, o meu primeiro livro. Gostei muito de escrevê-lo e espero que vocês também gostem.

Agradeço a todos que leram os capítulos da saga de David e esperem por novidades.

Abraços!

Eduardo Martins
Escritor em Crise
Obs.: Por favor, comentem!!

Capítulo 77 - No Outro Dia de Manhã

Sabe quando o despertador toca e você simplesmente o ignora? É exatamente isso que estou fazendo. O despertador não me interessa, nada me interessa. Além disso, hoje é sábado. Não era nem para ele ter tocado! Não quero abrir os olhos, pois tenho certeza de que não vou encontrá-la ao meu lado e isso tudo terá sido um sonho, um sonho muito bom e maravilhoso.

As posições, a duração, foi tudo perfeito. Nunca pensei que eu fosse tão viril assim. Ela não se cansava, não se cansava! Adormecemos juntos, ao mesmo tempo, como almas gêmeas, complementos um do outro. Foi uma experiência arrebatadora, perfeita. Acho que não tenho mais adjetivos para caracterizar tudo que passei. Era um tipo de sexo tântrico, nunca dantes realizado. Algo novo e impossível de se descrever.

Vou abrir os olhos e dar de cara com aqueles olhos verdes hipnotizantes, aquele rosto perfeito e seu sorriso branco, seguidos de um “Bom dia, meu amor!” numa voz doce e suave.

“Bom dia!”, disse, me virando para abraçá-la.

Infelizmente, alegria de pobre dura pouco.

Ao me virar para abraçá-la, não encontrei ninguém ao meu lado, apenas meu travesseiro babado.

O grito de Joana ecoou pelo ambiente. Será que Júlia se matou na minha sala? Se sim, será que foi por que ela ficou apaixonada demais e achou que não conseguiria viver sem mim? Ou pior, foi por que ela não gostou da noite, entrou em depressão e se matou por não ter feito a coisa certa? Isso vai me dar dor de cabeça.

“Quem fez isso?”, gritou Joana, adentrando o meu quarto.
“Isso o quê?”
“Destruíram tudo!”
“Tudo o quê?”
“Você é cego ou iditota? Alguém picotou todo o meu material de trabalho! Sabe quanto custa esse espartilho?”

Saber eu não sei, mas pelo estado da coisa, acho que ela não vai conseguir usar isso de novo.

“Você viu a Júlia por aí?”
“Quem?!”
“Júlia. A mulher que estava comigo.”
“Eu não acredito!”
“Não acredita em quê?”

Num ataque de fúria, Joana pulou em cima de mim e começou a me bater. Eu sei que não fazemos isso há algum tempo, mas acho que ela não está em suas melhores condições mentais. Eu só não entendi aonde eu entro na história e porque eu estou apanhando.

“Dá pra parar com essa porra?!”, gritei, tirando ela de cima de mim.
“Eu te odeio! Eu te odeio!”
“Isso eu já sei, agora dá pra explicar?”
“Ela te usou, seu idiota!”
“Do que você está falando?”
“Vocês homens são um bando de imbecis!”

Ela saiu correndo do quarto, chorando, e se trancou no banheiro. Pra falar a verdade, eu não estou entendendo muita coisa. Será que ela está achando que fui eu? Ou pior, será que ela está acusando Júlia de ter feito isso?

“Joana!”, disse, já na porta do banheiro.
“Saia daqui, seu imbecil!”

Realmente, só de espiar o quarto dela, deu pra perceber que o estrago foi grande. Tem roupa espalhada por todos os lados, quase todas picotadas. Imagina comprar isso tudo de novo?

“Você acha que foi Júlia?”
“Quem mais poderia ser, seu idiota?”
“Mas por que ela faria isso?”
“Eu roubei o melhor cliente dela!”

Conversa entre duas pessoas com uma porta no meio é no mínimo estranho. Às vezes você não consegue ouvir direito o que a outra pessoa diz, e, às vezes, você finge não ter escutado só pra pensar no que dizer logo em seguida. Tipo bate-papo na internet.

“Como assim roubou?”

Ela não respondeu e eu fiquei confuso agora. Vou deixar ela chorando e vou voltar a dormir. Quem sabe eu consigo sonhar com a minha deusa?

Deitando novamente na cama onde tudo aconteceu. Esse travesseiro está com o cheiro dela e... um papel?! Que papel amarelo é esse? Com certeza isso não é meu, pois eu odeio amarelo. Deve ser de Júlia, dizendo que me ama e que vamos ser felizes para todo o sempre.

Adorei a nossa noite, foi algo fantástico, muito bom mesmo. Desculpe-me por ter saído sem falar nada, mas o compromisso era importante. É um cliente com muito dinheiro, e paga muito bem, por isso não posso perdê-lo também. Depois que a vagabunda da sua irmã roubou o meu melhor cliente, fica difícil perder um cliente assim. Ah! Avisa pra ela que não se mexe com Júlia Toledo, ok? Por isso deixei uma surpresinha pra ela.

Adorei tudo em você. Muito vigoroso e tem uma pegada boa, gostosa.
Espero que possamos sair mais algumas vezes. É só marcar!

Beijos!
Jú.

PS: a conta para depósito é 003124-4, agência 154, Banco do Brasil. O Valor é R$ 600,00. Te dei um desconto de 50%.

Tempo para raciocinar. Ela é puta?! O cara que ela perdeu era um cliente e a minha irmã que roubou o infeliz?! Eu fui só um brinquedo nas mãos de uma pessoa vingativa?! Fala sério! Fiquei sem esposa, sem filhos, sem dinheiro no banco e com uma dor de cabeça por pelo menos seis meses (leia-se Joana reclamando no meu ouvido). Eu juro que, segunda-feira, eu mato a Regininha!
FIM

Capítulo 76 - O Pé

Com o carro estacionado perfeitamente torto, caminhamos para o elevador, um pouco distantes um do outro. Ela continua com uma cara estranha. Será que ela vai desistir?

“Tudo bem com você?”, perguntei, pressionando o botão do meu andar.
“Claro que sim.”
“Você está com uma cara estranha.”
“Não é nada.”
“Você quer continuar? Se quiser podemos fazer isso outro dia.”

Não acredito que acabei de dizer isso!

“Quero. Eu preciso disso, depois de tudo.”
“Tudo bem.”

Será que ela quer me fazer de objeto sexual e depois me jogar fora? Será que sou apenas um brinquedo? Será que ela só quer me usar? Até que não seria tão ruim.

“Não pense que estou te usando.”

Ela lê mentes!

“Não estou pensando isso.”
“Eu gosto de você.”
“Eu também gosto de você. Na verdade, eu e a torcida do Flamengo.”
“Você é engraçado.”, disse ela sorrindo, “E muito bonito também. Espanta-me você ainda ser solteiro.”.
“É que eu não encontrei a pessoa certa ainda, eu acho.”

Meu Deus! Faça com que eu fique quieto e pare de falar asneiras pelo menos até as três da manhã!

“É aqui”, disse, mostrando a porta do apartamento.

Para o meu espanto, ao abrir a porta, me deparei com uma casa arrumada e limpa. Hoje é sexta-feira! Dia de diarista! Não acredito que estou com tanta sorte assim!

“Sente-se. Vou pegar alguma coisa pra gente beber.”

Agora estou em apuros. Não deve ter nada nessa casa para beber, a não ser água ou algum refrigerante sem gás! Será que ofereço um café? Só se for para ela jogar na minha cara e me chamar de estúpido. Essa cozinha não tem nada!

Um vinho! Eu ganhei um vinho ano passado na churrascaria que fomos almoçar no final do ano! Ele deve estar escondido em algum lugar dessa despensa. Arroz, feijão, Trakinas, Trakinas, Trakinas, Trakinas... não é possível que Joana coma tanto biscoito! Esse maldito vinho deve estar no meio das garrafas.

Refrigerante diet, Refrigerante normal, Refrigerante Light, Cerveja... Cerveja! Mas está quente, essa merda! Como vou oferecer cerveja quente para ela? Será que se eu colocar um gelo fica bom? É capaz de dar caganeira quando a gente começar a transar. Vai ser como colocar bala de menta em garrafa de refrigerante. Não quero nem imaginar!

Lembro de ter colocado na geladeira. Será que está lá?

Água, água, torta, presunto, queijo podre. Tenho que lembrar de fazer uma limpeza nessa geladeira. Gelatina, frango, Vinho! Achei o desgraçado! E está gelado! Nem acredito! Agora as taças!

“Você gosta de vinho tin...”

Sabe aqueles momentos em que você olha para alguma coisa e leva um susto, deixando escapar qualquer coisa que esteja em suas mãos? Foi o que aconteceu.

Ela já estava sem o vestido, deitada no sofá, olhando para mim. Um espartilho azul claro cobria e torneava seu corpo estonteante. Uma meia-calça de mesma cor estava presa a pequenos prendedores, ligando-a ao espartilho. O cabelo solto e lindo escorria por seus ombros. A minha boca permaneceu aberta e só saí do transe quando senti o sangue escorrendo por entre os dedos de meu pé. Os copos tinham quebrado e cortado a minha pele, bem acima do dedão. Tinha que acontecer alguma coisa errada, não é?

“Você se cortou? Desculpa!”
“Não foi culpa sua, claro.”
“Você tem uma caixinha de primeiros socorros? Posso fazer um curativo para você.”
“Não precisa se incomodar. Eu mesmo posso fazer isso.”
“Eu já fiz curso de enfermagem. Faço isso em dois segundos e com garantia de permanência do curativo, mesmo com atritos constantes.”

Gostei da idéia dos atritos constantes.

“Onde está a caixa?”
“Está no banheiro, dentro do armário.”
“Vou pegar. Fique aí, quietinho, ok?”
“Não vou me mexer.”

Ela se levantou e foi andando para o banheiro. A calcinha minúscula quase não aparecia. Como ela rebola! Eu já estou preparado, pronto para a guerra!

“Levante o pé para que eu possa limpá-lo, antes de fazer o curativo.”

Levantei o pé e coloquei-o em cima da toalha de Joana. Júlia, lógico, não sabia de quem era a toalha. Com certeza, aquela demonstração de amor de Joana hoje a tarde irá desaparecer quando ela colocar o olho em seu pertence, completamente sujo de sangue.

Estou impressionado com a delicadeza dela. É perfeita, a mulher da minha vida. Não quero deixá-la nunca mais. Vou envelhecer ao seu lado, olhando para esses olhos verdes e dizendo “Te amo” de cinco em cinco minutos.

“Pronto.”
“Tem certeza de que não vai sair ou sangrar?”
“Não tenho, não. Eu estava brincando.”
“Mas e aí?”
“Por precaução, sente-se aí e deixa que eu faço o serviço.”

Começamos no sofá, terminamos na cama. Não vou dar detalhes. Só preciso dizer que foi a coisa mais incrível do mundo. Acho que depois disso, vou passar a acreditar em você, meu Deus, de tanto que eu te chamo!

Capítulo 75 - Lembranças da Primeira Quase Transa

Nunca tive muita sorte com esse lance de levar mulher pra casa. Sempre acontece alguma coisa, como: o chuveiro quebrar na hora de tomar banho com a garota; a menina retirar de suas costas uma roupa completamente imunda que estava em cima da cama; alguém aparecendo para uma visita surpresa; entre outras desventuras.

Ainda me lembro bem da primeira vez que tentei levar uma menina para a minha casa, quando ainda morava no interior com a minha mãe. Ela tinha viajado em excursão com algumas amigas e Joana já morava em Niterói. Eu estava aguardando por isso há bastante tempo e, na mesma hora que a minha mãe saiu de casa, eu, prontamente, liguei para uma menina que estava me dando mole. A garota chegou em alguns minutos, estes intermináveis! Eu era adolescente, o que explicava um pouco da ansiedade.

A recebi com uma cerveja choca (eu não sabia que estava choca, pois não bebia muito!) e um pote de amendoim. Sempre me disseram que amendoim era bom para a ereção e eu sempre achei isso uma idiotice. Nesse dia, claro, eu confirmei a minha suspeita de que, realmente, era uma idiotice.

Depois de abrir algumas outras milhares de cervejas, encontrei uma que não estivesse ruim, para o meu alívio. Peguei mais alguns petiscos e fomos assistir TV na sala.

Coloquei um filme bem picante, com cenas de nudez, mas sem sexo explícito. O filme era horrível, mas serviu para o que eu queria. Em pouco tempo, a garota, começou a levantar a saia e a dizer que estava com calor. Vendo que a coisa toda estava ficando boa, me entupi de amendoim, esperando um efeito mais rápido.

A garota começou a roçar a perna em mim e eu comecei a passar a mão na perna dela. De supetão, ela subiu em mim e começou a me beijar, mesmo cheio de amendoins na boca. Os amendoins voavam da minha boca à medida que ela enfiava ainda mais fundo a sua língua. Ela estava ávida por sexo e eu desesperado, quase sufocando com a porra do amendoim na garganta. Ela não tirava a boca da minha e eu, entupido, não conseguia respirar. Eu já estava ficando roxo e sem forças, quando ela desistiu e deitou no sofá, me chamando para continuar.

Eu cuspi o amendoim no chão e recuperei o ar. Ela ficou olhando para mim, como se nada estivesse acontecendo, me chamando com o dedo indicador e mordendo o canto esquerdo do lábio inferior. Nesse momento ela já estava sem roupas.

Desesperado, como de costume, retirei a minha roupa e fiquei olhando para baixo, esperando uma resposta do bendito, que nem se mexia. Fiquei mexendo nele, olhando para aquela garota sem roupas e nada. Para completar o vexame, minha mãe entrou pela porta dos fundos, sem fazer um barulho sequer, pegou um remédio na despensa, colocou numa colher e foi me procurar. O que ela encontra na sala? Uma mulher nua, um rapaz de quinze anos brocha e um monte de amendoim mastigado grudado em seu tapete. Nunca mais comi amendoim na minha vida.

Depois de alguns meses, voltei a falar com a minha mãe. Ela me disse que fez o ônibus voltar, pois sabia que eu não ia tomar o remédio na hora certa. Eu dei uma bronca nela e pedi para que nunca mais fizesse isso novamente. Sentimental como nenhuma outra, ela começou a chorar e a dizer que eu não a amava mais. Passei mais alguns dias revertendo a situação. Afinal de contas, eu não era tão idiota de ficar brigado com a minha mãe por muito tempo. Ela que pagava as minhas contas!

Esse foi o vexame do século e a garota nunca mais olhou pra mim. Pelo menos ela não contou pra ninguém, pois ela não podia fazer isso. O Pastor da igreja dela não deixava.

Capítulo 74 - Criança Carente

Depois de algumas freadas bruscas e alguns motoristas nervosos me xingando, consegui pegar o jeito do carro. E por sinal, que carro!

O bicho nem sentia meu pé, normalmente pesado, apenas continuava respondendo, como se nada estivesse acontecendo. Atingi, fácil, os duzentos quilômetros por hora na perimetral e um pouco mais na ponte. Na descida do vão central cheguei aos duzentos e cinqüenta, bem longe do limite do carro, que era trezentos e vinte. Fiquei com medo e diminuí. Júlia não parecia incomodada com aquela velocidade toda.

“Você gosta de velocidade, não é?”
“Gosto um pouco, mas não tive muitas oportunidades de dirigir carros possantes. E os que dirigi não chegam nem aos pés desse aqui.”
“Gosto de velocidade também, por isso comprei esse carro.”
“Ele deve ter sido caro.”
“E foi.”

Como uma mulher que trabalha na minha empresa possui um carro desses? Nem se eu trabalhasse a minha vida inteira, ganhando o que eu ganho, teria dinheiro para gastar em um carro desses!
Ela parou e ficou olhando para o lado, com um olhar triste. Parece que o carro a fez lembrar de algo. Estávamos chegando à praça do pedágio.

“Aconteceu alguma coisa?”
“Lembranças, nada mais.”
“Entendo.”
“Mas são águas passadas. Agora encontrei alguém.”
“Eu não sei o que dizer.”
“É passado, mas não interessa mais.”

Ela deve estar se lembrando do antigo namorado. Talvez ele seja muito rico e tenha dado esse carro de presente para ela! Eu ficaria triste também se eu perdesse um namorado rico assim.
Tenho que parecer atencioso. Mulher adora homem atencioso, homem que ouve seus problemas diários ou problemas mais sérios. Esse é um bom momento para atacar!

“Você não quer conversar sobre isso?”
“Acho que não. Não vamos estragar a nossa noite, certo?”
“Certo!”

Se ela não quer conversar sobre isso, quem sou eu para dizer algo. Pelo menos fiz minha parte.

Capítulo 73 - Comentário Indiscreto

“Pra ser sincero, dirigi apenas uma vez.”

Eu tinha que falar a verdade, não podia mentir para a mulher com quem eu vou casar e ter filhos!

“Não é muito difícil, basta colocar na posição D e acelerar.”
“Realmente não parece muito difícil.”

Vamos lá! Posição D e acelerar! O carro é tão silencioso que não percebi que ele já estava ligado.

“Carro bem silencioso.”
“Só o carro. A dona já não é muito silenciosa.”

Sem comentários.

Capítulo 72 - A História do Carro Automático

Certa vez, conheci uma garota numa noitada bem interessante. Saímos algumas e ela estava se apaixonando por mim, o que é ruim. Mulher que se apaixona rápido é sempre perigosa, mas fui levando, até porque ela era bem gostosinha.

Um dia, num sábado, ela me convidou para ir a um casamento de uma amiga. Eu não conhecia ninguém na festa, só Juliana (esse era o nome da garota) e muito mal.

Era uma festa clássica, com ternos e longos desfilando pelo salão ornamentado e bem iluminado. Tinha um bolo maior do que eu e dois bonequinhos representando o casal em situações engraçadinhas (isso está virando moda). No caso deles, a noiva estava em pé, com cara de feliz e, o noivo, com cara de desesperado, todo amarrado, sendo puxado pelos pés pela noiva e com um controle de Playstation nas mãos. Fiquei imaginando os bonecos do meu casamento: o noivo implorando para a noiva não dar um tiro na minha CPU. Muito engraçadinho, mas desesperador!
Fomos para a última mesa, bem no canto e bem longe de todos. Mesmo assim, estávamos muito bem servidos. Eram tantos garçons que, os mesmos, se degladiavam para servir uma mesa. Parecia até garçom de boteco da lapa.

Depois de encher o rabo de comida, começamos a beber cerveja, pois não consigo beber uísque, que era a outra bebida que estavam servindo. Após alguns copos, Juliana começou a me encher o saco para ir para a pista de dança. Não gosto de dançar e já estava tempo suficiente com ela para dizer não para essas coisas. Eu disse e ela ficou puta. Foi sozinha para a pista e eu fiquei sentado, olhando para o povo, me distraindo.

Uma mulher, já coroa, sentou-se à mesa ao lado e começou a olhar para mim. Ela estava muito bem vestida, com pulseiras e colares chamativos e, aparentemente, de ouro. Ou seja, era rica.

Eu fiquei meio sem-graça, até porque ela parecia ter a mesma idade da minha mãe. Tentei desviar dos olhares, mas não conseguia. Ela não parava. Aquilo tudo já estava me irritando, quando ela puxou assunto comigo.

“Oi”, disse ela.
“Olá.”
“Você não conhece ninguém aqui, não é?”
“Como você sabe disso?”
“É só olhar para você.”

Ela tirou uma carteira de cigarros da pequena bolsa e começou a fumar um cigarro comprido e com cheiro enjoativo.

“Você está sozinho?”, perguntou ela.
“Não. Estou com a minha namorada.”

Como achei que ela não ia entender o termo ficante, tive que dizer que ela era minha namorada.

“É aquela ali, de cabelo ruivo?”
“É sim.”
“Ela não parece te dar muita atenção.”
“Eu não quis dançar. Por isso ela está lá sozinha.”
“Ela não está sozinha.”

Juliana estava dançando com um sujeito, provavelmente um amigo antigo. Pelo menos era o que eu esperava.

“Deve ser algum amigo.”
“Imagino que sim.”, disse ela, sorrindo.

O garçom passou com uma bebida desconhecida, pelo menos para mim. Era uma taça fina e comprida e o líquido borbulhava lá dentro. Ela pegou uma taça e perguntou se eu queria uma. Eu tive que aceitar.

“Gostoso isso. O que é?”
“Prosseco.”
“Muito bom.”
“Só não beba muito. Ela pega rápido.”

Dali pra frente, foi só prosseco. A bebida era boa e descia que era uma beleza. Era algo energizante e me deixava alegre, feliz e disposto. Fiquei conversando com aquela mulher e não demorou muito para eu estar no meio da pista de dança.

O garçom ficava triste quando via meu copo vazio e enchia o bendito novamente. Eu já estava louco, dançando com todas as mulheres da festa, sem distinção de cor ou idade. A essa altura, eu não tinha a menor idéia da onde estava Juliana. Pra dizer a verdade, não me interessava muito também. Para completar a festa, entrou a bateria da Viradouro, contagiando todo mundo. Nunca sambei tanto na minha vida.

Depois de algum tempo e algumas paqueradas de algumas senhoras, fiquei cansado e voltei para a minha mesa. A mulher ainda estava lá, fumando.

“Está tudo bem com você?”, perguntou ela.
“Estou ótimo!”, disse, com a língua enrolada.
“Ainda está com energia sobrando?”
“Muita energia!”
“Quer gastar essa energia em outro lugar?”
“Só se for agora.”

Saímos do meio da multidão, a caminho do pátio onde os carros estavam estacionados. Eu estava completamente bêbado, mas tentei fingir que estava bem. Pena que nunca fui muito bom com interpretações.

Chegamos ao carro, após tropeçar em alguns paralelepípedos. Eu fiquei olhando para aquele Honda Fit, vermelho berrante, esperando que ele viesse me atacar. Assisti muito “O Ataque dos tomates assassinos” quando criança e tinha certeza de que aquilo era o chefe deles.

A mulher parou ao lado do carro, na porta do carona, e jogou a chave para mim. Eu permaneci parado, não entendendo muito bem.

“Você dirige.”
“Ok.”

Quando entrei no carro, levei um susto: era câmbio automático. Agora, imagina eu, bêbado, dirigindo um carro automático, sem ter a mínima idéia de como fazer isso? Entrei em pânico.

Acabei caindo na besteira de não contar para ela o meu pequeno segredo e fui, a trancos e barrancos, dirigindo para a saída do clube. No caminho, encontrei Juliana atracada com o maluco que ela estava dançando. Nem liguei muito, pois não gostava muito dela.

Depois de algumas barbeiragens, a mulher, lógico, percebeu que eu não sabia dirigir aquilo e ficou apreensiva, sempre se agarrando ao descanso de braço da porta.

Quando chegamos ao túnel que vai de Botafogo para Copacabana, antes do Rio Sul, um carro freou na minha frente, bruscamente. Procurei a embreagem e pisei no freio. Estávamos em alta velocidade e pisar no freio não era a coisa certa a se fazer naquele momento. Foi então que viramos uma bola de pinball, batendo de um lado ao outro do túnel. Ela não parava de gritar e eu de apertar o freio e o acelerador ao mesmo tempo, piorando ainda mais a situação. Quando paramos, o carro estava destruído e eu morrendo de vontade de vomitar. Saí do carro e descarreguei todo aquele pró-seco, enquanto a mulher me xingava dizendo que o seu marido ia ficar louco. Permaneci sentado, esperando a polícia chegar, além do marido furioso.

A ambulância chegou primeiro, me levando para o hospital. Estava na cara que eu precisava de uma dose de glicose na veia. A mulher eu nunca mais vi. Acho que esqueceram de pegar meu nome, por isso não entrei no processo e no Boletim de Ocorrência. Menos mal, pois prefiro tomar glicose a enfrentar marido corno.

Capítulo 71 - O Preparatório

O caminho para o estacionamento foi rápido. Ela continuou me puxando pelo braço, como se estivesse desesperada com alguma coisa. Não sei se era falta de sexo, mas aquilo não era muito normal. Pelo menos é o que eu acho. Só não entendi o porquê de ser na minha casa. Será que é algum tipo de fetiche que ela gosta? Algo do tipo: “oi, eu não te conheço direito, mas vamos transar na sua casa estranha, pois tenho mais tesão assim?”. Ainda bem que Joana trabalha a noite.

“Você tem certeza que quer ir para minha casa? Podemos ficar em algum lugar por aqui.”
“Tem algum problema com a sua casa?”
“Não! Quer dizer, a minha irmã mora comigo.”
“E ela vai atrapalhar?”
“Ela trabalha a noite. Não vai atrapalhar.”
“Ela trabalha a noite?”
“É. Ela é promoter.”

Eu não podia contar pra ela que minha irmã é puta! Imagina se ela é da igreja ou algo parecido? Se bem que ela nem me conhece e já está indo pra cama comigo, então não pode ser da igreja. Pelo menos, eu acho.

“Promoter?”
“É. Promove festas.”
“Eu sei o que é promoter.”

Mancada! Ela deve estar pensando que eu acho que ela é burra. Não vai nem me deixar entrar no carro!

“Desculpe-me, não foi minha intenção.”

Ela parou, olhou pra mim e passou a mão no meu rosto. Ficou olhando por um tempo e sorriu. Foi se aproximando da minha orelha. Eu quase descarreguei a arma ali mesmo, no meio do estacionamento.

“Não precisa se desculpar, meu lindo!”

Afastou-se e me deu um beijo. Um beijo! O beijo mais gostoso e vitorioso do mundo! Movimentos perfeitos de língua e boca. Estou extasiado, perplexo e feliz. São tantos sentimentos juntos que não sei distinguir exatamente o que eu estou sentindo. Ela pegou os meus braços e colocou envolta de seu corpo, pedindo um amasso. Eu tive que responder a altura.

Levantei sua perna esquerda e a encostei em um dos carros próximos. Estávamos nos roçando como se nunca tivéssemos feito isso antes. Mais um fetiche será realizado: transar sob um carro em um estacionamento! Eu sonho com isso desde que vi o meu primeiro filme com aqueles cinemas abertos, onde você entra com o seu carro e esquece o filme para transar loucamente com a mulher ao seu lado.

Ela está me apertando contra seu corpo, pedindo mais e ao mesmo tempo dizendo “não, por favor! É proibido!”. Essa sensação é imensamente prazerosa. A mulher quer e você quer dar, mas ela sabe que isso é proibido, o que torna a situação ainda melhor.

Eu estou nas nuvens, pulando em colchões de algodão, como uma criança feliz que acabou de ganhar um brinquedo, há tanto tempo desejado.

“Pára! Não podemos fazer isso aqui!”

Eu não acredito que ela parou agora!

“Por que não? Não tem ninguém aqui!”
“Vamos para sua casa.”
“Você não pode me deixar aqui assim! Eu estou em desespero!”
“Eu estou vendo. Mas será melhor na sua casa, pode ter certeza.”

Ela me afastou e endireitou sua roupa. Pegou um espelho na bolsa e retocou o batom, além de tirar uma mancha da bochecha. Eu fiquei ali, parado, com a calça estourando. É a segunda vez que alguém me deixa assim hoje. Não é possível que eu seja tão azarado!

“Vamos! Você dirige meu carro enquanto eu vou fazendo brincadeiras com você.”, disse ela sorrindo.

Ela jogou a chave do carro e eu quase deixei cair. Era uma chave estranha que eu nunca tinha visto antes. Praticamente um quadrado. Ela foi andando na frente e parou ao lado de um carro importado prata, com um símbolo enorme da Mercedes na frente. Era um carro esportivo e muito bonito, bem ao estilo dos carros do James Bond. Ela ficou parada, esperando eu abrir as portas. E quem disse que eu sabia mexer naquilo?

“Aperte o botão.”
“Qual botão?”
“O único que tem aí!”

Pra mim, essa chave tem no mínimo uns trinta e cinco botões, mas um único “pressionável”. O carro fez um barulho e destravou as portas. Ela entrou e ficou me esperando. Eu, claro, fiquei babando mais um pouco a máquina que eu estava prestes a dirigir. Afinal, não é todo dia que um pobre coitado como eu, tem a oportunidade de dirigir um carro desses.

“Coloque a chave aqui.”, disse ela, apontando para o pequeno orifício no painel.

Coloquei a chave devagar, com medo de estragar alguma coisa. Olhei para o câmbio e me assustei ao ver que ele não era manual. Eu só dirigi carro automático uma vez na vida e foi uma experiência traumática!

“Você já dirigiu um carro automático antes?”

Acho que ela percebeu a minha cara de desespero.

Capítulo 70 - Adeus aos Companheiros

“Fechem as bocas, por favor.”, disse.
“Cara, só de olhar eu gozei umas quinze vezes.”, disse Gilberto.
“Cadê o Ricardo?”
“Foi correndo para um canto, tentar comer a espinhuda. Você sabe como ele é, acha que está perdendo a competição.”
“E aí? Preparado?”, perguntou Roberto.
“Acho que não.”
“Que viadinho!”, disse Ricardo, chegando com uma cerveja na mão.

Todos olharam para ele e perceberam que havia algo estranho.

“Seu zíper está aberto.”, apontou Juliano.
“Bianca quis visitar o Bráulio.”, disse ele, sorrindo.
“O nome da espinhuda é Bianca? Nem sabia.”, disse Roberto.
“Tem uma pilastra ali atrás super-escondida. Joguei uma máscara facial na cara dela e a coitada foi correndo pro banheiro. Uma das meninas do RH perguntou pra ela se ela estava gripada!”, disse Ricardo, caindo na gargalhada.
“Que nojo!”, disse Juliano.
“Você é muito viadinho mesmo!”, disse Ricardo.
“Ricardo, menos.”, disse Roberto.
“Vamos ao que interessa: vocês vão para algum lugar?”, perguntou Gilberto.
“Ela quer ir para a minha casa.”
“Para sua casa?!”, indagaram todos.
“É!”
“Mas por que você não vai pra um motel aqui perto?”, perguntou Roberto.
“Ela disse que precisa estar em Niterói amanhã cedo e que seria ótimo para ela.”
“Estranho, não acha?”, perguntou Gilberto.
“Para de jogar areia na fogueira do cara!”, disse Ricardo.
“Eu só achei estranho!”, disse Gilberto.
“Eu também achei, mas fazer o quê?”, disse.
“Eu vou carregar a espinhuda pra casa também. Não vou gastar dinheiro com ela.”, disse Ricardo.
“Faz você muito bem.”, disse Roberto.
“Lá vem sua futura esposa.”, disse Juliano, apontando para Júlia, saindo do banheiro.

Ela pegou a minha mão e me carregou para fora do grupo. Fomos direto para a saída. Só deu tempo de eu olhar para trás e ver os caras, mais felizes do que eu, torcendo por mim. Eu não posso decepcioná-los.

Capítulo 69 - O Chamado

“Meu irmão, você tirou a sorte grande!”, comentou Ricardo.
“O que você está fazendo aqui? Cadê a espinhuda?”
“A cara dela tava sangrando, então ela foi ao banheiro.”, disse Ricardo.
“É sério isso?”
“Claro que não, porra!”
“Eu sei lá! A mulher parece um terreno lunar, cheia de crateras!”
“Para de zoar! Ela tem um rabo maravilhoso!”
“É, a gente viu daqui.”, comentou Gilberto.
“Mas conta o que ela disse!”, pediu Roberto.

Eu contei tudo. O detalhe da roupa suada, o que ela disse e o quase beijo. Não podia faltar nenhum detalhe, inclusive o inconveniente do garçom.

“A mulher tá feroz! Toda vez que te encontra ela te dá uma cantada assim?”, comentou Juliano.
“Pois é, tô ficando até com medo.”
“Temos que continuar com o plano!”, comentou Ricardo.
“Por que você não vai lá dançar com ela?”, perguntou Gilberto.
“Eu não sei dançar nada!”

Começou o funk novamente. Parece que o povo do marketing pediu para o DJ, pois ninguém agüentava mais ouvir “Uma barata chamada Kafka”.

“Agora você não tem escolha. Qualquer um sabe dançar funk!”
“Eu não sei dançar nada!”

Olhei para cara do Ricardo e vi que ele pretendia alguma coisa. Não gosto desses olhares de maluco dele.

“Vai aprender agora.”

Os quatro começaram a me empurrar em direção ao salão. Aquele som forte do funk carioca parecia explodir na minha cabeça. Eles me deixaram, a contragosto, bem no meio, de frente para Júlia, que logo tratou de me puxar pra perto dela. Quando percebi, já estava rebolando até o chão.
A minha perna roçava nas partes íntimas de Júlia, me fazendo ir ao extremo. Eu olhava para os lados e, de relance, via as pessoas comentando. Ela me puxou pra bem perto e se virou, esfregando as nádegas fartas da minha barriga até meu joelho. É lógico que não agüentei e fiquei de barraca armada, para minha vergonha.
Num susto, ela se virou e ficou com o rosto colado no meu, nariz com nariz. Ela continuava dançando e rebolando e eu parado, feito uma estátua. Ela começou a falar, sem tirar os olhos dos meus.

“Não vejo a hora de sair daqui.”, disse ela, mordendo os lábios.
“Eu saio na hora que você quiser.”
“Vamos agora então.”
“Pra onde?”
“Pra sua casa.”
“Pra minha casa?”
“É!”
“Mas eu moro em Niterói!”
“Eu preciso estar em Niterói amanhã cedo. Vai ser ótimo pra mim.”
“Mas eu não tenho carro. Estou a pé!”
“Vamos no meu carro. Você tem garagem?”
“Tenho.”
“Ótimo.”

Ela se virou mais uma vez, esfregando suas costas suadas no meu peito. Todos já estavam de boca aberta.

“Vamos agora porque eu estou a ponto de bala!”, disse.
“Eu preciso ir ao banheiro primeiro.”
“Então vai logo!”

Ela olhou para mim e parou de dançar. Deu mais um sorriso e seguiu para o banheiro feminino.Eu fui para perto da galera, que mantinha a boca acerta.

Capítulo 68 - A Minha Primeira Conquista (Leia-se Tentativa)

As lembranças das minhas conquistas, ao longo desses anos, não são muito agradáveis. É lógico que, à medida que vai ficando mais velho, você vai pegando experiência e, com isso, fica mais confiante. Mas, mesmo assim, você, com certeza, ficará sem respostas ou em um beco sem saída em algumas de suas conquistas.

A minha primeira investida foi quando eu tinha quinze anos. O nome dela era Rebeca e era uma das meninas mais bonitas da minha escola, só pra variar. Eu já gostava dela desde os doze anos, mas só criei coragem aos quinze. Foram três anos de sofrimento, só pra chegar numa garota. O resultado? Levei um não, claro.

Estávamos numa festinha do pessoal do colégio, na casa de um dos malucos da turma, o Alfredo. O pai do Alfredo tinha tanto dinheiro que ele brincava de montar castelo de cartas com notas de cem dólares. A casa do cara era enorme, bem parecida com a do meu sonho de hoje de manhã, mas sem as árvores imponentes e os passarinhos cantantes.

Os pais dele tinham viajado e, como todo garoto de quinze anos que quer aparecer, ele convidou todo mundo para uma festa em sua casa. Era tudo de graça, por isso, todos foram, inclusive os mais humildes. Era tanta comida e bebida, que metade do povo passou mal, todos com indigestão.

A garota estava lá e eu bem longe dela. Tinha medo, vergonha, nervoso, qualquer sintoma de um pré-beijo na garota dos seus sonhos. Bebi algumas cervejas e criei coragem.

“Oi Rebeca.”
“Oi David. Aconteceu alguma coisa?”
“Não, nada.”
“Então o que foi?”
“Eu queria conversar com você, só isso.”
“Pode falar.”
“Poderíamos ir ali atrás?”
“Por quê?”
“É particular. Não queria falar na frente de suas amigas.”

As amigas começaram a rir e eu comecei a ficar ainda mais nervoso.

“Pode falar aqui mesmo. Não tenho segredos.”
“Tá bom, então.”

Eu não tinha outro jeito, senão travar. Tentava falar, mas não conseguia. As garotas começaram a soltar risadinhas e Rebeca percebeu que aquilo estava me incomodando, me impedindo de falar. Foi então que ela resolveu ir comigo para mais longe, onde as garotas não pudessem ver.

“Pode falar, David.”
“Eu...”
“Pode falar!”
“Eu... estou apaixonado por você.”
“Você o quê?”
“Eu queria te beijar.”
“Olha David, não me leve a mal, mas você é muito novo e eu estou em outra.”
“Mas somos da mesma idade!”
“Garotas da nossa idade gostam de garotos mais velhos. Eu até acho você bonitinho, mas estou atrás de mais maturidade.”
“Tudo bem, então. Desculpe te incomodar.”
“Não fique triste, ok? Tenho certeza que você encontrará alguém pra te fazer feliz.”
“Podemos ser amigos, pelo menos?”
“Claro que sim.”

Ela saiu de perto de mim e voltou para as amigas. Fiquei olhando de longe ela contando tudo o que eu tinha acabado de dizer e as amigas gargalhando. Pelo menos ela ficou meio brava, pedindo que as amigas parassem com a brincadeira. Eu desencanei, parti para outras.

Depois de algum tempo, fiquei sabendo que Rebeca engravidou de um capitão de futebol do time da cidade. Ela ficou na merda, pois ele não assumiu o filho e foi jogar no exterior. Chegando lá, o sujeito morreu num acidente de trem. Tudo muito trágico, mas engraçado ao mesmo tempo. Pelo menos, na época, ela foi legal comigo.

O tempo foi passando, fui ficando mais velho e levando alguns foras. Com um acerto aqui e outro erro ali, fui procurando um padrão a seguir. Hoje consegui manter um padrão, mas nunca pensei em elevá-lo tanto assim, como com Júlia. Talvez seja hora de novas mudanças.

Capítulo 67 - O Primeiro Round

Quando a cerveja é de graça, seja qual e onde for a festa, o balcão sempre estará cheio de pinguços amontoados, impedindo a sua passagem. A dificuldade em uma boate, por exemplo, chega a ser absurda, tamanho o esforço para se chegar ao objetivo. Hoje, claro, não está diferente.

“Me dá uma cerveja, por favor!”

Pedi ao garçom, que me ignorou. Será que ele não foi com a minha cara ou está dando preferência para aquele grupinho do marketing ali do outro lado.

“Garçom! Uma cerveja!”
“Uma pra mim também.”

Júlia apareceu ao meu lado, suando. As gotas de suor escorriam por entre seus seios fartos, dando certo brilho a sua pele queimada de sol. Ela balançou o cabelo tentando se refrescar do calor insuportável que devia estar sentindo. Eu fiquei imóvel, claro, tentando buscar palavras para expressar o tesão que eu estava sentindo. Melhor ficar calado para não falar besteira.

“O gato comeu sua língua?”
“Ainda não.”
“Que bom, pois você vai precisar dela.”

Uma cantada dessa vinda de uma mulher maravilhosa assim, só pode ser brincadeira. Tenho certeza de que os malucos pagaram essa mulher pra fazer isso ou então ainda estou sonhando, agarrando meu travesseiro babado.

“Você demorou, pensei que não vinha mais.”
“Eu tive um problema no trabalho.”
“Eu imaginei. Que bom que você veio.”

Fiquei completamente sem assunto. E isso é ruim, muito ruim. Eu não posso travar com uma mulher dessas. Eu não travei com a coelha lá fora e nem com a mulher do ônibus, por que travaria com ela? Respira fundo! Acalme-se!

“Eu não perderia essa festa por nada.”
“E qual seria o motivo?”
“Você sabe qual o motivo.”
“Não sei não, me fala?”

Ela já estava muito próxima de mim, quase encostando o rosto molhado no meu. Lógico que tinha que acontecer alguma coisa para atrapalhar nosso beijo.

“A cerveja de vocês!”, disse o garçom, colocando as cervejas no balcão.

Ela se afastou de mim por causa desse garçom imbecil! Eu estava prestes a quebrar a primeira regra. E eu estava muito feliz por isso!

“Vou dançar mais um pouquinho, tá?”, disse ela, colocando a mão no meu queixo.
“Vai lá. Mas não se cansa muito, pois você vai precisar de fôlego mais tarde.”
“Pode deixar que, isso, eu tenho de sobra.”

Ela foi embora e meu coração está batendo mais rápido do que coelho trepando. Entrei em transe, pensando em todos os momentos maravilhosos que irei passar com ela hoje à noite. Coisas nunca antes imaginadas. Estou em êxtase permanente e ninguém vai conseguir tirar isso de mim. Não hoje.

Quando voltei a mim, percebi que os quatro estavam em grupo, olhando pra mim, de bocas abertas. Uma indireta certeira e uma resposta positiva. É a primeira vez que isso me acontece.

Capítulo 66 - O Idiota e o Energúmeno

“O que está acontecendo?”, perguntou Dario.
“Nada não.”, disse, antes que Rodrigo abrisse a boca.

Rodrigo ficou olhando para mim, ainda com a boca aberta. Não sei se ele estava pensando em algo ou ainda processando o que eu tinha acabado de fazer.

“Está acontecendo alguma coisa, Rodrigo?”, perguntou Dario, me ignorando.
“David não quer me perdoar pelo que fiz hoje.”

Ele tinha que abrir a boca para falar merda.

“Eu disse que ia tentar e provavelmente estaria tudo bem pela manhã.”
“Mas o que você fez, Digo?”
“Eu...”
“Ele não fez nada.”, disse, antes que ele terminasse sua frase.
“Você poderia deixar o Rodrigo falar?”
“Ok!”, disse, desistindo.
“Eu apaguei a base da avaliação de desempenho. Mas foi sem querer!”
“Você o quê?”

Dario olhou sério para Rodrigo. Até eu fiquei assustado agora. Será que ele vai levar um esporro por isso? Eu ia adorar se isso acontecesse.

“Eu apaguei a base, mas foi sem querer!”
“Como você fez isso?”
“Ele esqueceu de colocar um filtro na query, só isso.”, disse.
“Eu te perguntei alguma coisa?”, indagou Dario.

Eu tive que ficar quieto e esperar a conversa dos dois terminar.

“Eu esqueci de colocar um filtro na query.”
“E por que você fez isso?”
“Por que o David não me ensinou direito.”

Filho da mãe! Está colocando a culpa pela sua burrice em mim!

“Eu precisava te ensinar isso?”
“Eu disse pra você que queria que você ensinasse tudo a ele!”
“Mas isso é muito básico!”
“Não interessa!”
“Mas...”
“Amanhã nós conversamos sobre isso. Vou tentar tomar um pouco mais de uísque, pois já está acabando.”
“Vou com você, tio!”
“Então venha e aproveite a festa. Amanhã eu dou um jeito no seu tutor.”

Os dois sumiram no meio da multidão. Rodrigo seguiu seu mestre, olhando para trás, como se soubesse que tinha falado merda. Alguns segundos depois, Gilberto já estava próximo novamente.

“O que aconteceu?”
“Eu mato o Rodrigo!”
“O que ele disse?”
“Ele me queimou com o Dario! É mole?”
“Você não tinha que conversar com Dario na festa. Você feriu a regra número dois!”
“Não senhor! Ele chegou para falar comigo, não eu com ele!”
“Olhando por esse lado, talvez você tenha razão.”

Estou com muita raiva daquele imbecil. Depois de tudo que eu fiz! Tentei proteger o cara e ele me apunhala pelas costas! Preciso de uma cerveja.

“E a Ana? Não vem?”, perguntou Gilberto, mudando de assunto.
“Ana Cláudia nunca participou das festas”

Uma olhada geral, para analisar o ambiente e não estou vendo Júlia no recinto. Será que ela já foi embora? Deve ter me visto conversando com o Dario. Com certeza ela acha que eu sou um pela-saco.

“Vou pegar uma cerveja.”
“Seu copo está furado?”, perguntou Gilberto, rindo.
“Espero que sim.”, disse, me afastando.

Capítulo 65 - Chefes e Festas

Conversar com alguém superior, hierarquicamente falando, a você em uma festa, é um crime imperdoável. Os que se renderam ao lado negro da força, não retornaram. Ficaram perdidos no mundo, procurando um saco amigo para puxar. Meio Gollum sem o anel, em Senhor dos Anéis, meio criança sem seu deamon, em Fronteiras do Universo. Eu só sei que os caras ficam desnorteados. Pelo menos assim, eles não enchem o meu saco.

Roberto tentou, certa vez, ir para o lado de lá. A justificativa era a necessidade de um aumento, pois estava difícil sustentar tantas mulheres ao mesmo tempo. Tentamos convence-lo de que existiam outras maneiras de conseguir um aumento, mas ele não queria saber, estava determinado.

Escolheu um dos seus chefes e partiu para cima. Tentou algumas semanas, mas não conseguiu se aproximar do sujeito. Desistiu desse e foi tentar algo com um que ele achava ser mais fácil.
Roberto caiu na besteira de escolher, como foco, Marcela, uma dos diretores e grande concorrente de Ana Cláudia como mulher mais feia do mundo. O problema foi que Roberto considerou que, jogando o seu charme para cima da mulher, ele conseguiria algo rapidamente, talvez até um lugar na diretoria.

Ele estava determinado, afinal, o que precisava era só dar um trato e pronto, o aumento estava garantido. Marcou a data para o ataque: o dia da festa da empresa.

Chegamos cedo e começamos a beber. Tentamos convencê-lo de não ferir a segunda regra, ainda mais com Leonardo, mas ele não queria saber, não ouvia nossos conselhos.

Aproximou-se do grupo dos diretores e chamou Marcela, carregando-a para um canto. Conversaram por alguns momentos, sorrindo um para o outro. Nós não conseguíamos ouvir nada, apenas ver os afagos discretos e as risadas escandalosas. Não estávamos acreditando naquilo, pois o cara estava se entregando por dinheiro!

Os dois ficaram, um tempo, se olhando e depois seguiram em direção ao banheiro masculino. Nós, como bons amigos, fomos para perto da porta, tentar guardar aquele ato insano.

Infelizmente, as coisas não acontecem como esperado e, no momento em que houve uma dispersão do grupo (estavam todos sem cerveja!), Dario, como sempre inconveniente, entrou no banheiro para mijar e pegou os dois se agarrando.

Roberto começou a gritar feito um louco dizendo que Marcela estava agarrando ele à força. Ela ficou puta da vida e começou a desmentir Roberto, que continuava gritando. Nós entramos no banheiro alguns momentos depois e encontramos Marcela, segurada pelos seguranças, e Roberto, perto de Dario, com uma cara de transtornado. Estava claro que sua expressão era de medo. Medo de perder o emprego.

Dario ficou do lado de Roberto e demitiu Marcela da empresa, talvez não só pelo ocorrido, mas também pelo incomodo de ter aquela mulher feia nas reuniões de diretoria. Roberto ficou sem o aumento, mas continuou empregado. Ele prometeu nunca mais ferir a regra número dois. Pena que ninguém acredita no que ele diz.

Capítulo 64 - Eis que Surge o Protetor do Infeliz

Encontrar gente indesejável em festa é brochante. Você está lá, feliz, alegre, falando mal dos outros e chega o sujeito para espalhar o bolinho de amigos formados, normalmente para falar com apenas uma das pessoas do grupo. Nesse caso específico, o bucha era eu.

“Oi Chefe.”

Sabe quando você vai conversar com uma criança pequena e ela fica cheia de vergonha, abaixando a cabeça e rodando os pés? É o que Rodrigo está fazendo agora.

“O que você quer?”, disse, sem muita paciência.

Ele levantou o rosto e ficou olhando para mim, com cara de choro. Será que ele vai ter coragem de chorar na minha frente, no meio da festa?

“Vim te pedir desculpas.”, disse ele, deixando escorrer uma lágrima.

As pessoas começaram a perceber aquela cena. Todos olhando, já somos o centro das atenções, pois estamos sozinhos no meio do salão, perto do bar. Queria ser um avestruz nessas horas.

“Está desculpado. Agora some!”
“Não precisa ser ignorante. Eu só quis ajudar!”
“Ajudar como? Não sei como você consegue andar sem cair!”

Acho que peguei pesado demais com o coitado, pois ele acabou de segurar um soluço.

“É incrível como as pessoas são más hoje em dia.”
“Do que você está falando?”
“Você não reconhece o meu esforço! Para que eu chego cedo todos os dias?”

Isso não dá para agüentar. Tem gente que acha que chegar cedo todos os dias serve para alguma coisa. De que adianta chegar cedo e sair tarde se você não consegue produzir nada? É melhor chegar meio-dia e sair às quatro e entregar o que deve-se entregar!

“Rodrigo, vamos mudar de assunto? Estamos numa festa! Festa é alegria, felicidade, bebida de graça e mulher gostosa. Por que você não pára de chorar e vai conversar com alguém?”
“Você não quer conversar comigo, é isso?”

Sujeito sentimental é um saco. Na verdade, o que eu precisava agora era um saco para enfiar na cabeça desse sujeito e sufocá-lo até ficar roxo. Queria ter a delicadeza do capitão Nascimento nessas horas.

“Para falar a verdade, não estou a fim de conversa mesmo. Estou chateado com você, mas até amanhã passa.”
“Jura?”
“Não.”

Fraqueza é uma das minhas qualidades que menos prezo. Mas não consigo ser diferente, não nesses momentos.

“Você não jura?”
“Eu juro que vou tentar.”

Uma figura estranha apareceu do meu lado. Pelo cheiro de colônia barata já até sei quem é.

“Se divertindo, Diguinho?”, disse Dario.
“Não muito, tio.”

Agora a conversa vai ficar interessante.

Capítulo 63 - Eis que Surge o Infeliz

“Ele pegou a espinhuda!”, indagou Roberto, que havia chegado a poucos segundos.
“Pois é. Ele acabou de ferir a regra número um do nosso mandamento.”, comentou Gilberto.
“Mas ele feriu a regra número três também, então não tem problema.”, disse Roberto.
“Só falta ele ferir a regra número dois.”, comentei.
“Ele não é maluco.”, disse Gilberto.
“Espero que não.”, disse.

Ricardo já sumiu de vista, ou seja, já está com a mulher pronta para levar para o abatedouro. É bem provável que não o vejamos mais esta noite.

“Por falar nisso, o Rodrigo não apareceu.”, comentou Gilberto.
“Espero que não apareça, pois eu não gostaria de me tornar um assassino no meio da festa da empresa.”
“Por falar no capeta...”, disse Gilberto se afastando, no mesmo momento em que Rodrigo surgia no meio da multidão.

Capítulo 62 - Lembrando da Idade

Ultimamente virou moda tocar música dos anos oitenta nas festas, boates, festas de criança, Bar Mitzvá, funerais e afins. Os caras desenterram cada defunto, cada grupo bizarro, principalmente os que tiveram apenas um sucesso.

Você acaba lembrando da música, fica feliz por isso te lembrar coisas boas do seu passado, daquela mulher feia que você pegou na época e todo mundo te sacaneou, mas fica triste por saber que está ficando velho. É bem legal tentar lembrar do nome dos grupos, principalmente quando você está cercado de pessoas da mesma idade. Eu não consigo me lembrar de nenhum grupo, pois tenho péssima memória para essas coisas. Já o Ricardo, conhece todos os nomes, todas as músicas, todas as coreografias e lembra de todas as mulheres que ele pegou cantando “Amante Profissional” para elas. Acho que por isso ele ficou tão empolgado.

Capítulo 61 - Ferindo uma Regra

“Por que vocês demoraram tanto?”, perguntou Gilberto.
“Estávamos conversando, só isso.”

Juliano já tinha se afastado para pegar uma cerveja.

“Cadê o Ricardo e o Roberto?”
“O Roberto foi pegar a tequila no carro e o Ricardo está ali!”
O cara já estava dançando com a espinhuda no meio do salão. A coisa toda já estava caminhando para o bizarro, quando o DJ resolveu tirar o funk e colocar música dos anos oitenta. Ricardo deu um berro quando começou a tocar “Amante Profissional” e puxou a espinhuda pra bem perto, tascando um beijo na coitada. Eu juro que vi algumas espinhas e cravos voando, tamanha a força que Ricardo imprimia naquele beijo. Ele acabou de ferir uma das regras.

Capítulo 60 - Guardando o Segredo Descoberto

Os homens saíram e eu continuei quieto. Pela sombra projetada no chão, consegui ver a cabeça de Regininha verificando se havia mais alguém ali. Ela destrancou a porta da baia com cuidado e foi se encaminhando para a porta de saída. Eu não poderia deixar isso barato assim, não é?

“Onde você pensa que vai, senhorita Regininha?”

A mulher congelou. Ficou parada por alguns instantes antes de se virar. Depois de alguns segundos, olhou para mim com uma cara normal, como se nada estivesse acontecendo.

“Oi, David. Eu errei de banheiro.”
“Sei.”
“Sei o quê?”
“Eu estava aqui, quando você entrou.”
“Estava é?”
“Sim. Agora me diz: como você conseguiu?”
“Não foi tão difícil.”

Ela se virou e trancou a porta novamente.

“Ele estava sozinho, eu também. Qual o problema?”
“Nenhum problema.”
“Então por que isso tudo?”
“Não estou fazendo nada! Só fiquei curioso de saber como você corrompeu o garoto.”
“Sexo ganha qualquer homem. Você sabe disso.”, disse ela, chegando mais perto.
“É mesmo? E você deu uma chave de pernas no menino?”
“Mais ou menos isso.”

Ela já está mexendo no meu colarinho.

“Mas você não contaria nada pra ninguém, não é mesmo?”
“Claro que não. O Juliano é meu amigo.”
“Você sabe que o chefe não gosta que as secretárias saiam com os funcionários. Ele poderia me demitir por isso.”

Ela disse essa frase passando a língua na minha orelha. Que mulher mais vagabunda!

“Pode ficar tranqüila que não vou falar nada.”
“Que bom! Pois você pode ganhar muito mais com isso.”
“Ele parece estar gostando de você.”
“E eu também estou gostando dele. Ele praticamente me empala com aquela tora.”
“Poupe-me dos detalhes, ok?”
“Estamos entendidos, então?”
“Sim, estamos. Não vou prejudicar meu amigo.”
“Espero que não.”

O trinco da porta estava mal encaixado e destravou no primeiro empurrão. Regininha se afastou de mim no mesmo momento em que Juliano entrou pela porta. Ele ficou parado, olhando para gente, como se tivesse visto um fantasma. Eu fiquei parado, olhando para ele, esperando que ele não desconfiasse de nada.

“Desculpa, pessoal. Errei o banheiro de novo!”, disse ela, saindo do recinto.

Juliano continuou com a mesma cara e eu continuei olhando pra ele, completamente sem reação. Imagina eu ter que explicar pra ele que focinho de porco não é tomada?

“Eu estava te procurando.”, disse ele.
“Eu estava aqui no banheiro. Dor de barriga.”
“Está nervoso?”
“Um pouco.”
“Não se preocupe. Vai dar tudo certo.”
“Espero que sim.”
“Venha. Vamos lá pra fora. O povo já está caindo no chão de tanta cerveja.”
“Vamos sim.”

Conversa meio seca, sem muitas palavras. A situação continuava estranha. Ele parecia querer me perguntar algo, pois parou umas duas vezes antes de sairmos. Quando estávamos saindo do banheiro, ele não agüentou.

“Há quanto tempo você está aqui?”
“O bastante.”
“Você não vai contar nada, não é?”
“Pode deixar.”
“Que bom que posso contar com você.”
“Disponha.”

Passado o susto e guardado o segredo, vamos ao que interessa. Júlia já deve estar me esperando e não posso deixar uma dama aguardando por tanto tempo assim. Ainda bem que consegui descarregar a arma a tempo. Não posso fazer feio na primeira noite.

Capítulo 59 - Descobrindo o Segredo

“Entra e fica quieta.”
“Você é maluco? Aqui é o banheiro masculino!”

Um barulho trancando a porta.

“Não interessa! Eu não vejo a hora de te agarrar!”
“Ai, Juliano! Você é maluco!”
“Maluco por você!”

Sons de roupas roçando, ecoando pelo banheiro.

“Aí não, pelo amor de Deus!”
“É aqui que você gosta, não é?”
“Ai meu Deus! Ai meu Deus!”

Eu não fiquei espantado com as vozes de um homem e uma mulher ecoando pelo banheiro masculino, até porque eu mesmo já fiz isso. Mas saber que a voz masculina era do Juliano e a feminina da Regininha, me espantou bastante. Dentre todas as pessoas que Juliano poderia estar pegando, Regininha era a última a passar pela minha cabeça. Eu saio ou não da baia para pega-los no flagra?

“Para com isso! Assim você me deixa louca!”
“Eu sou seu macho, não sou?”
“Sim, você é meu macho. Mas pode ter gente aqui no banheiro!”
“Não tem ninguém aqui. Eu vi Roberto saindo e David deve ter saído antes.”
“Deve ter saído?”
“Cale a boca e deixe-me terminar o serviço!”
“Sim senhor!”

Acho que vou ficar quieto aqui. Até porque, além de ser um diálogo super-engraçado, essa gemeção toda vai me ajudar a terminar o serviço.

“Tem gente querendo entrar, meu pixuco.”
“Não estou nem aí pra eles, minha gostosa!”

Pixuco? Fala sério! Eles já estão com apelidos esdrúxulos!
Mais barulhos de roupa roçando em roupa. Acho que ouvi um barulho de zíper, mas não tenho certeza.

“Se controla, Jú! Você vai ter mais hoje a noite!”
“Eu não consigo! Você é muito gostosa!”
“Eu vou te mostrar muito mais, daqui a pouco!”
“Mal posso esperar! Como vamos sair daqui?”
“Você é homem, então você sai primeiro. Eu vou me trancar em uma das cabines e esperar todo mundo sair para depois me retirar.”
“Ok! Me dá mais um beijo, sua potranca!”
“Vai agora, seu insaciável!”

Um barulho na baia ao lado coincidiu com o barulho do destrancar da porta. Dois caras entraram empurrando Juliano e xingando alguns palavrões. Juliano saiu do recinto e fechou a porta. Não ouvia-se um pio de Regininha, apenas os homens conversando.

“Cara, a Júlia tá foda hoje!”
“Porra, nem me fale!”
“Eu já cheguei nela umas três vezes e ela, nada.”
“Ninguém consegue pegar aquela mulher, cara. Ela não dá bola pra ninguém. Ela só deve ficar com homens ricos e poderosos. Nunca vai dar bola pra pés-de-chinelo como nós!”
“Pois é! Eu dou meu carro pra quem conseguir pegar aquela mulher hoje. Mas tem que ser da classe, por que senão não vale!”
“Duvido muito que isso vá acontecer aqui.”
“Eu também.”

Acho que vou ganhar um carro hoje.

Capítulo 58 - Ajudando um Amigo

Não há coisa melhor do que uma sessão de descarrego antes de sair com uma mulher. Você fica limpo, ou seja, com mais tempo para detonar sem ter perigo de, precocemente, terminar o que estava bom. Aproveitando a prévia que acabei de ter, vou descarregar logo pelo menos umas três vezes, pra não ter problemas mais tarde. Mas primeiro, os amigos.

“Roberto!”
“Tô aqui.”

Pelo visto ele não está muito bem, pois está sentado no vaso, em uma das cabines e com a porta fechada.

“O que você está fazendo aí?”
“Tentando morrer afogado na privada, mas a minha cabeça não entra.”
“Não tinha um jeito melhor de morrer não? Você poderia pular da ponte. Deve ser uma sensação boa. Pelo menos durante três segundos.”
“Eu prefiro morrer na merda, que é o que eu sou.”
“Você já tem o resultado do exame?”
“Já.”

Pelo visto, as coisas saíram como previsto.

“E aí?”
“Deu negativo.”
“O quê?”

As coisas não saíram como previsto. Sorte a dele!

“Deu negativo.”
“Não estou entendendo. E por que essa fossa toda?”
“Por que eu sou um merda.”
“Cara, você se livrou de uma furada absurda!”
“Mas eu fiz a merda e poderia ter perdido Catarina por isso.”

O cara está em crise. Realmente, foi uma experiência não muito agradável. Fico imaginando a tensão que ele devia estar sentindo até o resultado sair.

“Você não perdeu, então agradeça por isso.”
“Se eu continuar assim, vou acabar sozinho.”
“Você nunca está sozinho. Nem quando você quer!”
“Eu preciso dar um jeito na minha vida. Isso foi um aviso.”
“E o que você pretende fazer?”
“Vou contar tudo para a Catarina e terminar com a Juliana.”
“Você vai o quê?”

O cara pirou de vez. Será que ele não entende que isso seria o apocalipse?

“Vou terminar com Juliana. Não agüento mais isso tudo. Catarina é a mulher da minha vida. Juliana foi só uma aventura. Eu já estou velho, não agüento mais isso. Quero sossego, envelhecer em paz e com a mulher que eu amo ao meu lado.”
“Poxa cara, estou até comovido. Nunca imaginei ouvir algo assim de você. Só não conte nada para Catarina.”
“Por que não contaria?”
“Por que ela vai jogar isso na sua cara para o resto da vida!”
“Provavelmente sim.”
“Então deixa isso pra lá. Faz de conta que não aconteceu nada entre você e Juliana.”
“Não sei se vou conseguir conviver com essa culpa.”
“Claro que consegue! Você é homem! Já está no gene!”

Ele sorriu e ficou olhando pra mim com cara de arrasado.

“Você tem razão. Como sempre.”

Silêncio no recinto. Um sujeito do suporte entrou no banheiro e olhou para gente. Ficou parado um tempo, tentando entender o que estava acontecendo. Levantou os braços e saiu de ré, como se não quisesse atrapalhar a briga do casal. Como estou sem saco para ligar para esse tipo de coisa, ignorei o ocorrido.

“Parece que o susto serviu para alguma coisa.”
“Pois é.”
“Só não me diga que vai entrar pra igreja, por que, senão, mando te internar na hora!”
“Desse mal eu não sofro. Apesar de agora eu querer uma mulher só, eu adoro uma sacanagem!”
“Esse é o Roberto que eu conheço!”
“Vamos sair daqui. Vamos comemorar a minha mudança!”
“Vai indo que eu já te alcanço.”
“Por quê? Vai ficar retocando a maquiagem?”
“Deixa de ser babaca! Eu preciso fazer uma parada aqui.”
“Beleza, então. To te esperando com umas doses de tequila lá fora.”
“Segura lá, que já estou indo!”

Ajuda realizada com sucesso. Agora, a segunda parte: a sessão tripla de descarrego. Espero que ninguém me ouça.

Capítulo 57 - As Panelas

Numa empresa sempre temos o que chamamos de “panelas”. As panelas são grupos formados por pessoas que, normalmente, possuem alguma afinidade ou interesse comum. Por uma lei universal, uma mistura de “panelas” nunca é bem vista e um desgarro de um componente é considerado como heresia, por isso os grupos são sempre muito bem definidos, limitando a conversa entre indivíduos de “panelas” diferentes a alguns “oi” e outros “bom dia”.
Na empresa em que trabalho também existem esses grupos. São eles:

· Os nerds (não podiam deixar de existir em uma empresa de informática. São chatos e geralmente feios. Só sabem conversar sobre desenhos japoneses e atualização de softwares e hardwares).
· Os malucos (são drogados, limitados a maconha. São tranqüilos, calmos e burros. Normalmente são do suporte operacional. Algumas recepcionistas participam desse grupo quando querem entrar na “onda” de graça).
· Os chefes (sempre andam juntos, comem juntos, cagam juntos... devem transar juntos também, no meio de um monte de dinheiro, tipo Tio Patinhas).
· Os puxa-sacos (sempre andam juntos com os seus respectivos chefes. São arredios e não gostam muito de conversar entre si, a não ser quando um inventa uma técnica nova para bajular o chefe. Tem muita competição nesse grupo).
· As feias (mulher feia sempre anda em grupo. Acho que é pra dar suporte uma a outra, quando um sujeito dá um fora em uma delas.)
· As bonitas (mulher bonita também anda em grupo e eu apoio perfeitamente essa iniciativa. É muito bom olhar um grupo de mulheres bonitas. Faz bem aos olhos. De vez em quando, uma mulher bonita entra no grupo das feias só para se sentir mais bonita e permitir que as feias falem bem dela. Serve para aumentar a auto-estima, só isso).
· Os peixes-burros (esse é um grupo duplo. Servem tanto para peixes quanto para os burros. Os componentes existem apenas para atrapalhar ou para encher o saco. O Rodrigo é o chefe deles).
· O meu grupo (Eu, Gilberto, Ricardo, Roberto e Juliano. Somos os cara mais bonitos e os mais legais desse lugar. Pelo menos é o que nós achamos).
Nas festas da empresa, esses grupos são claramente identificados, cada um nos seus cantos, claro.

“Porra, você demorou pra caralho!”, gritou Gilberto, me abraçando.

Já estavam todos “alegres”, como de costume. Afinal, já tem uma hora de bebida liberada, o que é suficiente pra deixar muita gente torta.

“Se eu contar, vocês não vão acreditar no que aconteceu.”
“Então não conta e toma uma cerveja!”, disse Ricardo, me entregando uma caneca congelada de cerveja.
“Cara, a mulherada tá sinistra!”, comentou Gilberto.
“Parece que chegou uma fornada nova no telemarketing que a gente não tinha visto ainda. Olha aquela morena ali!”, apontou Ricardo.

Era uma morena de pelo menos um metro e setenta. Estava num vestido branco e rodado que realçava seu corpo perfeito. Os olhos verdes cintilavam na escuridão da pista de dança. Mas, em um relance de luz, algumas espinhas em seu rosto apareceram.

“Ela tem espinhas!”, comentei.
“Eu não quero comer a cara dela, porra!”, gritou Ricardo.

Todos começaram a rir, inclusive Juliano, que apareceu à surdina.

“Onde você estava?”, perguntei.
“Estava pegando uma bebida.”, disse ele, meio nervoso.
“E o seu copo estava com batom?!”, perguntou Gilberto, apontando para a boca de Juliano, toda manchada de batom.
“Eu não acredito! O Viadinho já tá de amasso com alguém e ninguém viu?”, disse Ricardo, espantado.
“Cadê a pretendente?”, Gilberto perguntou.
“Não adianta que não vou dizer!”
“Sabemos que ela está na festa.”, disse.
“Claro que ela está na festa! Como você acha que esse batom apareceu na minha cara?”
“O viadinho já está pegando alguém e eu não? Em que mundo nós vivemos?”, indagou Ricardo.
“Nós conhecemos?”, perguntou Gilberto.
“Não.”
“Não conhecemos?”
“Não.”
“É de qual setor?”
“Não vou dizer!”
“Deixa de ser viadinho e fala logo!”, gritou Ricardo.
“Não! Vocês vão ficar me sacaneando na frente dela.”
“Beleza. Vocês estão se agarrando aqui dentro. Uma hora descobrimos quem é.”, disse.
“Vamos ver!”, disse Juliano, sorrindo.
“Cadê o Roberto?”, perguntei.
“Tá no banheiro, falando ao telefone já tem uma meia hora.”, respondeu Juliano.
“Ele está bem?”, perguntei.
“Não parecia muito bem.”, comentou Gilberto.
“Vou dar um pulo lá pra saber se está tudo legal com ele.”, disse.
“Deixa de ser viado e olha ali o que está te esperando!”, disse Ricardo, virando minha cabeça na direção de Júlia.

Ela está dançando no meio do salão, descendo até o chão ao som de um funk bem pesado. Todos abriram espaço para que ela dançasse sozinha, em destaque. O vestido arrasta no solo, à medida que ela balança seu quadril maravilhoso. O dedo na boca e a mão no cabelo completam o visual estonteante. Eu não sei se vou agüentar por muito tempo.

“Realmente eu preciso ir ao banheiro.”

Todos começaram a gargalhar ao mesmo tempo, inclusive Juliano. Preciso descarregar as minhas emoções repentinas e aproveito para ver se Roberto está bem. Provavelmente ele já tem o resultado do exame da garota e deve estar precisando de apoio. Afinal, pra que servem os amigos se não para sacanear o outro em horas impróprias?

Capítulo 56 - Os Portões do Céu

Uma recepcionista, vestida de coelhinha da Playboy, está recebendo os convidados na porta do lugar, como de costume. Todas as festas da empresa são aqui e possuem as mesmas características: recepcionista gostosa, vestida com algo do imaginário masculino, comida frita e massuda, para poder encher rápido, e muita cerveja gelada, além de uísque e caipirinha. As mulheres sempre reclamam da recepcionista, mas azar o delas se o presidente da empresa é homem.

“Qual o seu nome?”, perguntou a coelha.
“Você pode me chamar do que você quiser!”, disse o homem a minha frente.
“Eu não estou vendo na lista nenhuma pessoa com esse nome.”
“Que nome?”
“Idiota.”
“Não precisa ser grossa.”, entrou ele tristonho, após dizer seu nome correto.

Já vi que não dá pra brincar com essa garota, então me deixa ficar quieto. É uma pena, pois tenho ótimas cantadas de coelho.

“Qual o seu nome?”, disse ela.
“David.”
“David. Deixa-me ver aqui na lista.”

Ela permaneceu procurando por alguns segundos, pois eram várias folhas com nomes bem pequenos. Enquanto isso, fiquei analisando o material. E que material!

“Você tem levado muitas cantadas hoje, não é?”
“Nem me fale. As pessoas não percebem que isso é só um trabalho.”
“Imagino. Alguma cantada de coelho?”
“É o que mais tem! Um cara perguntou se eu conseguia mexer o meu rabo tão rápido quanto os outros da minha espécie. É mole?”
“Pelo menos ele foi original.”
“É, ao menos isso. Aqui! David. Pode entrar.”
“Obrigado.”
“De nada.”
“A propósito, você está uma gracinha de coelhinha.”
“Pelo menos um elogio gentil diante de tanta mediocridade.”
“Você merece.”
“Você é um lindinho, sabia?”
“A minha mãe sempre diz isso.”
“E engraçado também! Gostei de você. Vai fazer alguma coisa depois da festa?”
“Infelizmente tenho compromisso.”
“Que pena. Toma meu telefone e me liga quando estiver livre.”
“Você vai vestida assim no nosso primeiro encontro?”
“Vou te mostrar se faço jus à espécie.”

Ela sorriu e piscou pra mim. Acabei de me surpreender com as sacadas rápidas e frases de efeito, não previamente ensaiadas. Tudo muito espontâneo e natural. Tô ficando bom nisso!
Pelo menos, se não der certo com a Júlia, eu já tenho uma coelhinha pra hoje à noite.

Últimos Capítulos