Capítulo 60 - Guardando o Segredo Descoberto

Os homens saíram e eu continuei quieto. Pela sombra projetada no chão, consegui ver a cabeça de Regininha verificando se havia mais alguém ali. Ela destrancou a porta da baia com cuidado e foi se encaminhando para a porta de saída. Eu não poderia deixar isso barato assim, não é?

“Onde você pensa que vai, senhorita Regininha?”

A mulher congelou. Ficou parada por alguns instantes antes de se virar. Depois de alguns segundos, olhou para mim com uma cara normal, como se nada estivesse acontecendo.

“Oi, David. Eu errei de banheiro.”
“Sei.”
“Sei o quê?”
“Eu estava aqui, quando você entrou.”
“Estava é?”
“Sim. Agora me diz: como você conseguiu?”
“Não foi tão difícil.”

Ela se virou e trancou a porta novamente.

“Ele estava sozinho, eu também. Qual o problema?”
“Nenhum problema.”
“Então por que isso tudo?”
“Não estou fazendo nada! Só fiquei curioso de saber como você corrompeu o garoto.”
“Sexo ganha qualquer homem. Você sabe disso.”, disse ela, chegando mais perto.
“É mesmo? E você deu uma chave de pernas no menino?”
“Mais ou menos isso.”

Ela já está mexendo no meu colarinho.

“Mas você não contaria nada pra ninguém, não é mesmo?”
“Claro que não. O Juliano é meu amigo.”
“Você sabe que o chefe não gosta que as secretárias saiam com os funcionários. Ele poderia me demitir por isso.”

Ela disse essa frase passando a língua na minha orelha. Que mulher mais vagabunda!

“Pode ficar tranqüila que não vou falar nada.”
“Que bom! Pois você pode ganhar muito mais com isso.”
“Ele parece estar gostando de você.”
“E eu também estou gostando dele. Ele praticamente me empala com aquela tora.”
“Poupe-me dos detalhes, ok?”
“Estamos entendidos, então?”
“Sim, estamos. Não vou prejudicar meu amigo.”
“Espero que não.”

O trinco da porta estava mal encaixado e destravou no primeiro empurrão. Regininha se afastou de mim no mesmo momento em que Juliano entrou pela porta. Ele ficou parado, olhando para gente, como se tivesse visto um fantasma. Eu fiquei parado, olhando para ele, esperando que ele não desconfiasse de nada.

“Desculpa, pessoal. Errei o banheiro de novo!”, disse ela, saindo do recinto.

Juliano continuou com a mesma cara e eu continuei olhando pra ele, completamente sem reação. Imagina eu ter que explicar pra ele que focinho de porco não é tomada?

“Eu estava te procurando.”, disse ele.
“Eu estava aqui no banheiro. Dor de barriga.”
“Está nervoso?”
“Um pouco.”
“Não se preocupe. Vai dar tudo certo.”
“Espero que sim.”
“Venha. Vamos lá pra fora. O povo já está caindo no chão de tanta cerveja.”
“Vamos sim.”

Conversa meio seca, sem muitas palavras. A situação continuava estranha. Ele parecia querer me perguntar algo, pois parou umas duas vezes antes de sairmos. Quando estávamos saindo do banheiro, ele não agüentou.

“Há quanto tempo você está aqui?”
“O bastante.”
“Você não vai contar nada, não é?”
“Pode deixar.”
“Que bom que posso contar com você.”
“Disponha.”

Passado o susto e guardado o segredo, vamos ao que interessa. Júlia já deve estar me esperando e não posso deixar uma dama aguardando por tanto tempo assim. Ainda bem que consegui descarregar a arma a tempo. Não posso fazer feio na primeira noite.

Capítulo 59 - Descobrindo o Segredo

“Entra e fica quieta.”
“Você é maluco? Aqui é o banheiro masculino!”

Um barulho trancando a porta.

“Não interessa! Eu não vejo a hora de te agarrar!”
“Ai, Juliano! Você é maluco!”
“Maluco por você!”

Sons de roupas roçando, ecoando pelo banheiro.

“Aí não, pelo amor de Deus!”
“É aqui que você gosta, não é?”
“Ai meu Deus! Ai meu Deus!”

Eu não fiquei espantado com as vozes de um homem e uma mulher ecoando pelo banheiro masculino, até porque eu mesmo já fiz isso. Mas saber que a voz masculina era do Juliano e a feminina da Regininha, me espantou bastante. Dentre todas as pessoas que Juliano poderia estar pegando, Regininha era a última a passar pela minha cabeça. Eu saio ou não da baia para pega-los no flagra?

“Para com isso! Assim você me deixa louca!”
“Eu sou seu macho, não sou?”
“Sim, você é meu macho. Mas pode ter gente aqui no banheiro!”
“Não tem ninguém aqui. Eu vi Roberto saindo e David deve ter saído antes.”
“Deve ter saído?”
“Cale a boca e deixe-me terminar o serviço!”
“Sim senhor!”

Acho que vou ficar quieto aqui. Até porque, além de ser um diálogo super-engraçado, essa gemeção toda vai me ajudar a terminar o serviço.

“Tem gente querendo entrar, meu pixuco.”
“Não estou nem aí pra eles, minha gostosa!”

Pixuco? Fala sério! Eles já estão com apelidos esdrúxulos!
Mais barulhos de roupa roçando em roupa. Acho que ouvi um barulho de zíper, mas não tenho certeza.

“Se controla, Jú! Você vai ter mais hoje a noite!”
“Eu não consigo! Você é muito gostosa!”
“Eu vou te mostrar muito mais, daqui a pouco!”
“Mal posso esperar! Como vamos sair daqui?”
“Você é homem, então você sai primeiro. Eu vou me trancar em uma das cabines e esperar todo mundo sair para depois me retirar.”
“Ok! Me dá mais um beijo, sua potranca!”
“Vai agora, seu insaciável!”

Um barulho na baia ao lado coincidiu com o barulho do destrancar da porta. Dois caras entraram empurrando Juliano e xingando alguns palavrões. Juliano saiu do recinto e fechou a porta. Não ouvia-se um pio de Regininha, apenas os homens conversando.

“Cara, a Júlia tá foda hoje!”
“Porra, nem me fale!”
“Eu já cheguei nela umas três vezes e ela, nada.”
“Ninguém consegue pegar aquela mulher, cara. Ela não dá bola pra ninguém. Ela só deve ficar com homens ricos e poderosos. Nunca vai dar bola pra pés-de-chinelo como nós!”
“Pois é! Eu dou meu carro pra quem conseguir pegar aquela mulher hoje. Mas tem que ser da classe, por que senão não vale!”
“Duvido muito que isso vá acontecer aqui.”
“Eu também.”

Acho que vou ganhar um carro hoje.

Capítulo 58 - Ajudando um Amigo

Não há coisa melhor do que uma sessão de descarrego antes de sair com uma mulher. Você fica limpo, ou seja, com mais tempo para detonar sem ter perigo de, precocemente, terminar o que estava bom. Aproveitando a prévia que acabei de ter, vou descarregar logo pelo menos umas três vezes, pra não ter problemas mais tarde. Mas primeiro, os amigos.

“Roberto!”
“Tô aqui.”

Pelo visto ele não está muito bem, pois está sentado no vaso, em uma das cabines e com a porta fechada.

“O que você está fazendo aí?”
“Tentando morrer afogado na privada, mas a minha cabeça não entra.”
“Não tinha um jeito melhor de morrer não? Você poderia pular da ponte. Deve ser uma sensação boa. Pelo menos durante três segundos.”
“Eu prefiro morrer na merda, que é o que eu sou.”
“Você já tem o resultado do exame?”
“Já.”

Pelo visto, as coisas saíram como previsto.

“E aí?”
“Deu negativo.”
“O quê?”

As coisas não saíram como previsto. Sorte a dele!

“Deu negativo.”
“Não estou entendendo. E por que essa fossa toda?”
“Por que eu sou um merda.”
“Cara, você se livrou de uma furada absurda!”
“Mas eu fiz a merda e poderia ter perdido Catarina por isso.”

O cara está em crise. Realmente, foi uma experiência não muito agradável. Fico imaginando a tensão que ele devia estar sentindo até o resultado sair.

“Você não perdeu, então agradeça por isso.”
“Se eu continuar assim, vou acabar sozinho.”
“Você nunca está sozinho. Nem quando você quer!”
“Eu preciso dar um jeito na minha vida. Isso foi um aviso.”
“E o que você pretende fazer?”
“Vou contar tudo para a Catarina e terminar com a Juliana.”
“Você vai o quê?”

O cara pirou de vez. Será que ele não entende que isso seria o apocalipse?

“Vou terminar com Juliana. Não agüento mais isso tudo. Catarina é a mulher da minha vida. Juliana foi só uma aventura. Eu já estou velho, não agüento mais isso. Quero sossego, envelhecer em paz e com a mulher que eu amo ao meu lado.”
“Poxa cara, estou até comovido. Nunca imaginei ouvir algo assim de você. Só não conte nada para Catarina.”
“Por que não contaria?”
“Por que ela vai jogar isso na sua cara para o resto da vida!”
“Provavelmente sim.”
“Então deixa isso pra lá. Faz de conta que não aconteceu nada entre você e Juliana.”
“Não sei se vou conseguir conviver com essa culpa.”
“Claro que consegue! Você é homem! Já está no gene!”

Ele sorriu e ficou olhando pra mim com cara de arrasado.

“Você tem razão. Como sempre.”

Silêncio no recinto. Um sujeito do suporte entrou no banheiro e olhou para gente. Ficou parado um tempo, tentando entender o que estava acontecendo. Levantou os braços e saiu de ré, como se não quisesse atrapalhar a briga do casal. Como estou sem saco para ligar para esse tipo de coisa, ignorei o ocorrido.

“Parece que o susto serviu para alguma coisa.”
“Pois é.”
“Só não me diga que vai entrar pra igreja, por que, senão, mando te internar na hora!”
“Desse mal eu não sofro. Apesar de agora eu querer uma mulher só, eu adoro uma sacanagem!”
“Esse é o Roberto que eu conheço!”
“Vamos sair daqui. Vamos comemorar a minha mudança!”
“Vai indo que eu já te alcanço.”
“Por quê? Vai ficar retocando a maquiagem?”
“Deixa de ser babaca! Eu preciso fazer uma parada aqui.”
“Beleza, então. To te esperando com umas doses de tequila lá fora.”
“Segura lá, que já estou indo!”

Ajuda realizada com sucesso. Agora, a segunda parte: a sessão tripla de descarrego. Espero que ninguém me ouça.

Capítulo 57 - As Panelas

Numa empresa sempre temos o que chamamos de “panelas”. As panelas são grupos formados por pessoas que, normalmente, possuem alguma afinidade ou interesse comum. Por uma lei universal, uma mistura de “panelas” nunca é bem vista e um desgarro de um componente é considerado como heresia, por isso os grupos são sempre muito bem definidos, limitando a conversa entre indivíduos de “panelas” diferentes a alguns “oi” e outros “bom dia”.
Na empresa em que trabalho também existem esses grupos. São eles:

· Os nerds (não podiam deixar de existir em uma empresa de informática. São chatos e geralmente feios. Só sabem conversar sobre desenhos japoneses e atualização de softwares e hardwares).
· Os malucos (são drogados, limitados a maconha. São tranqüilos, calmos e burros. Normalmente são do suporte operacional. Algumas recepcionistas participam desse grupo quando querem entrar na “onda” de graça).
· Os chefes (sempre andam juntos, comem juntos, cagam juntos... devem transar juntos também, no meio de um monte de dinheiro, tipo Tio Patinhas).
· Os puxa-sacos (sempre andam juntos com os seus respectivos chefes. São arredios e não gostam muito de conversar entre si, a não ser quando um inventa uma técnica nova para bajular o chefe. Tem muita competição nesse grupo).
· As feias (mulher feia sempre anda em grupo. Acho que é pra dar suporte uma a outra, quando um sujeito dá um fora em uma delas.)
· As bonitas (mulher bonita também anda em grupo e eu apoio perfeitamente essa iniciativa. É muito bom olhar um grupo de mulheres bonitas. Faz bem aos olhos. De vez em quando, uma mulher bonita entra no grupo das feias só para se sentir mais bonita e permitir que as feias falem bem dela. Serve para aumentar a auto-estima, só isso).
· Os peixes-burros (esse é um grupo duplo. Servem tanto para peixes quanto para os burros. Os componentes existem apenas para atrapalhar ou para encher o saco. O Rodrigo é o chefe deles).
· O meu grupo (Eu, Gilberto, Ricardo, Roberto e Juliano. Somos os cara mais bonitos e os mais legais desse lugar. Pelo menos é o que nós achamos).
Nas festas da empresa, esses grupos são claramente identificados, cada um nos seus cantos, claro.

“Porra, você demorou pra caralho!”, gritou Gilberto, me abraçando.

Já estavam todos “alegres”, como de costume. Afinal, já tem uma hora de bebida liberada, o que é suficiente pra deixar muita gente torta.

“Se eu contar, vocês não vão acreditar no que aconteceu.”
“Então não conta e toma uma cerveja!”, disse Ricardo, me entregando uma caneca congelada de cerveja.
“Cara, a mulherada tá sinistra!”, comentou Gilberto.
“Parece que chegou uma fornada nova no telemarketing que a gente não tinha visto ainda. Olha aquela morena ali!”, apontou Ricardo.

Era uma morena de pelo menos um metro e setenta. Estava num vestido branco e rodado que realçava seu corpo perfeito. Os olhos verdes cintilavam na escuridão da pista de dança. Mas, em um relance de luz, algumas espinhas em seu rosto apareceram.

“Ela tem espinhas!”, comentei.
“Eu não quero comer a cara dela, porra!”, gritou Ricardo.

Todos começaram a rir, inclusive Juliano, que apareceu à surdina.

“Onde você estava?”, perguntei.
“Estava pegando uma bebida.”, disse ele, meio nervoso.
“E o seu copo estava com batom?!”, perguntou Gilberto, apontando para a boca de Juliano, toda manchada de batom.
“Eu não acredito! O Viadinho já tá de amasso com alguém e ninguém viu?”, disse Ricardo, espantado.
“Cadê a pretendente?”, Gilberto perguntou.
“Não adianta que não vou dizer!”
“Sabemos que ela está na festa.”, disse.
“Claro que ela está na festa! Como você acha que esse batom apareceu na minha cara?”
“O viadinho já está pegando alguém e eu não? Em que mundo nós vivemos?”, indagou Ricardo.
“Nós conhecemos?”, perguntou Gilberto.
“Não.”
“Não conhecemos?”
“Não.”
“É de qual setor?”
“Não vou dizer!”
“Deixa de ser viadinho e fala logo!”, gritou Ricardo.
“Não! Vocês vão ficar me sacaneando na frente dela.”
“Beleza. Vocês estão se agarrando aqui dentro. Uma hora descobrimos quem é.”, disse.
“Vamos ver!”, disse Juliano, sorrindo.
“Cadê o Roberto?”, perguntei.
“Tá no banheiro, falando ao telefone já tem uma meia hora.”, respondeu Juliano.
“Ele está bem?”, perguntei.
“Não parecia muito bem.”, comentou Gilberto.
“Vou dar um pulo lá pra saber se está tudo legal com ele.”, disse.
“Deixa de ser viado e olha ali o que está te esperando!”, disse Ricardo, virando minha cabeça na direção de Júlia.

Ela está dançando no meio do salão, descendo até o chão ao som de um funk bem pesado. Todos abriram espaço para que ela dançasse sozinha, em destaque. O vestido arrasta no solo, à medida que ela balança seu quadril maravilhoso. O dedo na boca e a mão no cabelo completam o visual estonteante. Eu não sei se vou agüentar por muito tempo.

“Realmente eu preciso ir ao banheiro.”

Todos começaram a gargalhar ao mesmo tempo, inclusive Juliano. Preciso descarregar as minhas emoções repentinas e aproveito para ver se Roberto está bem. Provavelmente ele já tem o resultado do exame da garota e deve estar precisando de apoio. Afinal, pra que servem os amigos se não para sacanear o outro em horas impróprias?

Capítulo 56 - Os Portões do Céu

Uma recepcionista, vestida de coelhinha da Playboy, está recebendo os convidados na porta do lugar, como de costume. Todas as festas da empresa são aqui e possuem as mesmas características: recepcionista gostosa, vestida com algo do imaginário masculino, comida frita e massuda, para poder encher rápido, e muita cerveja gelada, além de uísque e caipirinha. As mulheres sempre reclamam da recepcionista, mas azar o delas se o presidente da empresa é homem.

“Qual o seu nome?”, perguntou a coelha.
“Você pode me chamar do que você quiser!”, disse o homem a minha frente.
“Eu não estou vendo na lista nenhuma pessoa com esse nome.”
“Que nome?”
“Idiota.”
“Não precisa ser grossa.”, entrou ele tristonho, após dizer seu nome correto.

Já vi que não dá pra brincar com essa garota, então me deixa ficar quieto. É uma pena, pois tenho ótimas cantadas de coelho.

“Qual o seu nome?”, disse ela.
“David.”
“David. Deixa-me ver aqui na lista.”

Ela permaneceu procurando por alguns segundos, pois eram várias folhas com nomes bem pequenos. Enquanto isso, fiquei analisando o material. E que material!

“Você tem levado muitas cantadas hoje, não é?”
“Nem me fale. As pessoas não percebem que isso é só um trabalho.”
“Imagino. Alguma cantada de coelho?”
“É o que mais tem! Um cara perguntou se eu conseguia mexer o meu rabo tão rápido quanto os outros da minha espécie. É mole?”
“Pelo menos ele foi original.”
“É, ao menos isso. Aqui! David. Pode entrar.”
“Obrigado.”
“De nada.”
“A propósito, você está uma gracinha de coelhinha.”
“Pelo menos um elogio gentil diante de tanta mediocridade.”
“Você merece.”
“Você é um lindinho, sabia?”
“A minha mãe sempre diz isso.”
“E engraçado também! Gostei de você. Vai fazer alguma coisa depois da festa?”
“Infelizmente tenho compromisso.”
“Que pena. Toma meu telefone e me liga quando estiver livre.”
“Você vai vestida assim no nosso primeiro encontro?”
“Vou te mostrar se faço jus à espécie.”

Ela sorriu e piscou pra mim. Acabei de me surpreender com as sacadas rápidas e frases de efeito, não previamente ensaiadas. Tudo muito espontâneo e natural. Tô ficando bom nisso!
Pelo menos, se não der certo com a Júlia, eu já tenho uma coelhinha pra hoje à noite.