Capítulo 40 - Criado por Vó
“Rodrigo!”
Ele não atendeu, pois deve estar no décimo sono. Meu Deus, ele está babando!
“Rodrigo, acorda!”, disse cutucando o sujeito.
“Hã, oi chefe!”, disse ele limpando a boca babada.
“O que você está fazendo?”
“Eu estava fazendo o que você mandou.”
“Eu mandei você dormir?”
“Não. Você me mandou ficar aqui até você ir embora. Só que eu estou morrendo de fome e você não foi embora ainda. Aí acabei caindo no sono. Eu tenho sono quando estou com fome.”
Acho que se eu tivesse uma serra-elétrica aqui, eu partiria esse imbecil ao meio! Como pode ele ter levado tão a sério o que eu disse? Com certeza ele tem problemas mentais.
“Rodrigo, o que eu disse, não era para ser levado a sério.”
“Não é pra levar a sério o que você diz?”
“Não foi o que eu disse!”
“Não estou entendendo.”
“O que eu quis dizer com aquilo foi que não era para você falar comigo durante o dia, só isso.”
“Mas eu pensei...”
“Esquece o que você pensou. Vai almoçar, vai!”
“Obrigado, chefe!”
“E não durma mais no trabalho!”
“Pode deixar, não vou fazer mais isso.”
Coitado, até tenho pena. Às vezes, claro.
“Chefe!”
“O que você quer agora?”
“Você não vai me levar para a reunião, mesmo?”
Ele está fazendo cara de cachorro pidão e está com os olhos cheios de lágrimas, como se tivesse perdido o brinquedo preferido. Não sei se ele está tentando me convencer ou se realmente está chateado. Não dá pra saber essas coisas de bajuladores. Eles nascem profissionais no assunto!
“Desculpa Rodrigo, mas você fica dessa vez.”
“Por favor!”
Estou com medo de ele ajoelhar e começar a implorar, agarrando minhas pernas. Imagina o mico?
“Dessa vez, você fica. E ponto final.”
“Isso é uma sacanagem! É culpa daquela mulher! Ela está jogando você contra mim, tomando meu lugar!”
“Deixa de ser idiota! Ana não está fazendo nada contra você!”
“Eu não acredito!”
“Bom, o problema é seu.”
Acho que fui grosso, pois ele não estava esperando essa resposta. Se ele começar a chorar, eu juro que dou um tapa na cara dele.
“Rodrigo, olha só. Você fez besteira e eu estou indo consertar.”
“Eu juro que foi sem querer!”
“Imagino que tenha sido, mas eu preciso consertar isso sozinho, ok?”
“Então por que está levando ela?”
“Porque ela vai me ajudar com algumas questões técnicas que eles estão com dúvidas.”
Mentira, claro, mas foi uma ótima desculpa.
“Tá bom então. Mas da próxima vez, eu é que vou, não é?”
“Vamos ver. Vai almoçar e depois a gente conversa.”
“Ok!”
Eu estou pagando todos os meus pecados com esse sujeito. Devo ter sido um cara muito mal na última encarnação, se eu acreditasse nisso, claro. Esqueci de perguntar sobre o erro que encontraram ontem. Não sei onde estava com a cabeça quando pedi o Rodrigo para ver isso pra mim.
“Rodrigo!”
“Oi chefe!”
“Você viu o problema que estava dando no sistema de Avaliação de Desempenho que está em produção?”
“Ainda não chefe. Vou ver depois do almoço.”
“Não esquece! Hoje é o último dia de avaliação.”
“Pode deixar, não vou te decepcionar.”
Por que não consigo acreditar no que ele diz?
Capítulo 39 - Tudo Consegue ser Pior do que se Imagina
“Cara, você sabe como eu sou.”
“Você é um idiota, isso sim!”
“E agora? O que eu faço?”
“Eu sei lá! Quantos anos essa garota tem?”
“Dezenove.”
“É o quê?”
“Dezenove! É, eu sei que fiz merda!”
“Você engravidou uma garota de dezenove anos e, ainda por cima, ela é sua cunhada? Você tem merda na cabeça?”
“Ela me provocava toda hora, porra! Como eu poderia resistir a um pernil daquele, tão fresquinho!”
“Caralho, Roberto! Você não consegue se controlar?”
“Você sabe o que aconteceu comigo.”
“Não fique usando aquilo para justificar as besteiras que você anda fazendo. Isso já faz muito tempo e você já está bem crescidinho para ficar lembrando disso!”
“Tá bom, papai. Mas o que eu faço agora?”
“Sei lá! É impossível pensar em alguma coisa!”
“Ela falou que vai tirar.”
Se tem uma coisa que não suporto é ouvir alguém falando de aborto. A criança não pede pra vir ao mundo e ela não tem culpa das idiotices que seus pais irresponsáveis fazem!
“Tá maluco?”
“Cara, foi ela que disse!”
“Você é mais irresponsável do que eu imaginava!”
“Eu não sei o que fazer! Eu não vejo outra saída.”
“Não faça nada estúpido para depois se arrepender. A criança não tem nada com isso.”
“Eu sei. Mas não tenho tempo nem dinheiro para outra família.”
“Se vira, meu irmão! Ninguém mandou fazer merda!”
“Por que você está alterado? Eu é que devia estar nervoso!”
“Porra, Roberto! Você quer que eu fique normal vendo a merda que você fez? E ainda vem me falar de aborto?!”
“Não sabia que você era tão radical. Pode deixar que não vou deixar que ela faça besteira.”
“É bom mesmo!”
“Eu falei isso tudo, mas ainda não está certo de que ela está grávida.”
Deixa eu me acalmar, porque, senão, vou acabar brigando com ele.
“Quando sai o resultado do exame?”
“Hoje à tarde.”
“Quantos meses sem descer?”
“Dois meses e alguns dias.”
“A probabilidade é alta.”
“Eu sei.”
Eu não consigo entender o que esse sujeito tem na cabeça. Será que ele não sabe que existe camisinha?
“Eu tenho que ir, minha reunião é na Barra da Tijuca às 15h.”
“Vai lá. Depois a gente conversa mais.”
“Reze para que ela não esteja mesmo grávida, pois, se não, sua vida vai virar um inferno.”
“Vou rezar muito!”
“Vai trabalhar e vê se você coloca um pouco de juízo nessa sua cabeça!”
“É difícil, mas vou tentar.”
Eu já estou pilhado hoje e ainda fico ouvindo os problemas dos outros. Vou chegar na festa todo travado. Depois dessa reunião então, ficarei pior ainda! Preciso me acalmar.
“David, temos que ir.”, disse Ana Cláudia.
“Já vamos. Só vou colocar essas coisas na minha mesa e ir ao banheiro.”
“Estou te esperando lá embaixo então.”
“Ok!”
Meia-hora no carro evitando olhar para o rosto dela. Ainda por cima, depois de tudo, vou arranjar um torcicolo.
Capítulo 38 - As Cinco Certezas da Vida
1) Você irá morrer (isso é fato).
2) Você será demitido pelo menos uma vez (mesmo não sendo culpa sua!).
3) Você trairá a pessoa amada (e se arrependerá, provavelmente).
4) Você será traído pela pessoa amada (e usará isso como desculpa para fazer o mesmo com a próxima namorada).
5) Você fará uma merda que o fará pedir um conselho ao amigo mais próximo (ou ao primeiro que passar na sua frente).
Não preciso comentar que Roberto só não passou pela primeira certeza. Pelo menos até uma de suas mulheres descobrir o que está acontecendo.
Capítulo 37 - A História de Roberto
O cara ficou arrasado e passou meses, trancado em casa, chorando a perda da mulher amada. Até que um dia, seus amigos mais que legais, apresentaram a ele os prazeres da vida fácil. Após essa experiência, o sujeito virou o cara mais avesso a compromisso na face da terra.
Ele não queria saber de nada sério com ninguém. Queria apenas se divertir, sair, pegar a mulherada e transar com todas na sua frente. Estava completamente perdido. Foi quando, numa noite dessas de farra, conheceu Catarina. Os dois se apaixonaram e logo estavam morando juntos. Eram felizes e tiveram um filho, João, que hoje está com cinco anos.
O problema foi a chegada daquela vontade que aflige todos os homens casados: a vontade da “carne fresca”. Como Roberto trabalhava muito e sempre viajava para o norte do estado, foi fácil encontrar uma outra pessoa que lhe desse atenção, além de outras coisas a mais. Juliana passou a ser a sua segunda mulher “oficial”, a do final de semana.
Então ficou algo parecido com isso: durante a semana ele ficava com Catarina no Rio e, nos finais de semana, ele ficava com Juliana em Campos. Para fugir nos finais de semana, ele usa a desculpa “ainda existem pendências no trabalho antigo”. Durante a semana, ele usa a desculpa “trabalho na matriz e venho pra cá somente nos finais de semana”. Como as mulheres são patetas quando apaixonadas, as duas caem nas lorotas do rapaz.Além dessa enrolação toda, ele ainda arranja tempo para fazer merda aqui no Rio, normalmente longe de casa. Mas, agora, ele se superou.
Capítulo 36 - Um Novo Problema
“Aconteceu alguma coisa?”, perguntou Roberto.
“Oi Roberto. Eu estava só subornando o cara do gás.”
“Você o quê?”
“Eu tive que oferecer um dinheiro pro sujeito para ele religar meu gás ainda hoje.”
“Nada como um cafezinho para acertar as coisas.”
“Pois é, morar no Brasil tem dessas coisas. O povo faz tudo por um cafezinho.”
“Nem me fale.”
Engraçado. O Roberto está com uma cara de preocupado. Parece que quer dizer alguma coisa, mas não está conseguindo.
“David, preciso te falar um coisa.”
“É, eu percebi. Aconteceu alguma coisa?”
“Ainda não sei.”
“Como assim não sabe?”
“Podemos conversar lá na copa?”
“Eu tenho uma reunião agora.”
“Mas é rápido!”
“Beleza.”
Homem quando fica nervoso desse jeito é porque engravidou alguém ou está precisando de dinheiro. Se for a segunda opção, coitado, ele não vai conseguir nada. Não é por eu ser pão-duro e sim por eu ser somente ‘duro’.
“Cara, estou com um problema.”
“Pode falar, Roberto. Aconteceu alguma coisa grave?”
“Acho que sim.”
“O que você aprontou dessa vez?”
“Acho que a menina que eu estou saindo está grávida.”
Ainda bem que não era a segunda opção.
“Mas você está saindo com outra pessoa?”
“Estou. E ela é mais nova do que eu. Bem mais nova!”
“Você não consegue se satisfazer com apenas duas?”
“Poxa cara, não vamos ficar discutindo isso! Eu estou com um problemão aqui!”
“Cara, se você consegue enganar duas, consegue enganar três. O problema é ter mais um rebento para sustentar!”
“Se fosse só esse o problema, estava tranqüilo.”
“Tem mais algum problema?”
“Tem.”
“Diga qual, infeliz!”
“A garota é irmã de Catarina. Ela é minha cunhada!”
Quase cuspi o café em cima dele.
Capítulo 35 - O Jeitinho Brasileiro
“Alô! Poderia me liberar o sinal do fax, por favor?”
É engraçado como algumas coisas não mudam. O fax, por exemplo, já era para ter sido abolido há pelo menos uns dez anos. A internet chegou e não vejo diferença em se mandar um documento por fax ou por e-mail. A autenticidade será duvidosa em ambos os casos, então, para que se preocupar com segurança? Presume-se, apenas, que a pessoa não esteja te enganando. Apenas isso.
“Poderia confirmar o recebimento?”
“Recebemos uma conta com registro de pagamento com data de hoje. Confere?”
“Sim, é isso mesmo.”
“E mando para quem esse fax?”
“Para o Eduardo, do setor financeiro.”
“Só um segundo.”
Pelo menos essa empresa não possui setor de telemarketing, nem atendimento eletrônico, o que é quase um milagre hoje em dia. Nela, conseguimos falar direto com quem queremos, o que torna as coisas muito mais práticas e fáceis.
Quando preciso utilizar atendimento eletrônico, quase sempre tenho taquicardia. Esse tipo de atendimento é extremamente irritante, pois, além de ter que ouvir uma mulher com voz de zumbi, temos que pressionar milhões de opções para, no final, não obter a informação que queremos. A ligação, então, é transferida para um atendente. A etapa seguinte é estressante, pois o atendente não consegue te explicar nenhuma de suas dúvidas, não consegue resolver nada e ainda fica te enrolando para você gastar com os minutos cobrados, ou seja, não servem para nada.
“Senhor, não existe nenhum Eduardo no setor financeiro.”
Falei bem cedo demais.
“Como não? Eu falei com ele ontem!”
“Senhor, eu conheço todos os funcionários do setor financeiro e não existe ninguém com esse nome.”
“Meu amigo, eu não estou maluco. Eu falei com um Eduardo ontem, dizendo que eu ia pagar a conta hoje.”
“Senhor, não existe ninguém com esse nome. Desculpe-me.”
Não é possível! Será que fui enganado? Mas eu liguei para esse mesmo número!
“Se você conhece todo mundo, diga-me os nomes.”
“Senhor, os únicos que trabalham no setor financeiro são: Roberta, Rogéria, Carlos e Edward.”
“Edward?”
“É. Filho da Dona Josefa e do seu Atílio. Fazem churrasco todos os finais de semana e são muito legais e divertidos.”
“Mas que porra de nome é esse?”
“Senhor, pedirei para diminuir o conteúdo impróprio do linguajar empregado, ok?”
Que atendente é esse que fala tão difícil?
“Ok! Desculpe-me!”
“Edward é o nome dele.”
“Poderia me transferir para o ‘Edward’ então?”
“Sim senhor! Envio o fax para ele?”
“Pode enviar!”
“Obrigado, senhor! Não saia daí, pois sua ligação é muito importante para nós!”
Músicas de espera são sempre depressivas. Parecem ser uma cantiga de Natal daquelas bem chatas e tristes, que grudam na cabeça e só saem após você ouvir uma outra música de natal!
“Eduardo falando.”
“Eduardo?”
“Foi o que eu disse. Em que posso ajudar?”
“Cara, aqui é o David, lá do Fonseca, tudo bem?”
“Oi David, como vai? Conseguiu resolver o problema do pagamento?”
“Consegui, mas deixa eu te perguntar outra coisa, primeiro.”
“Pode perguntar.”
“Qual o seu nome, afinal de contas?”
“Mas eu já disse meu nome. Não estou entendendo.”
“Desculpa, mas é que o primeiro atendente disse que seu nome era Edward.”
“Esse é meu nome.”
“Mas você acabou de se anunciar como Eduardo!”
“Mas meu nome é esse também!”
Conversa de maluco...
“Não estou entendendo mais nada!”
“Meu nome de registro é Edward Eduardo. Alguns me chamam de Edward e outros de Eduardo. Pra mim, tanto faz.”
“Sua mãe não gostava muito de você, não é?”
“Desculpe senhor David, mas não escutei direito.”
“Nada não, esquece. Cara, é o seguinte: mandei o fax para você. Tem como religar o gás?”
“Sim, claro! O prazo para religar o gás é de quarenta e oito horas.”
“Mas isso é muita coisa!”
“Desculpe senhor, mas esse é o procedimento.”
“Não tem como dar uma agilizada nisso? Se não minha irmã vai me matar!”
“Desculpe, mas não há o que fazer.”
“Teria como você parar de se desculpar de tudo que eu falo?”
“Desculpe senhor, não farei mais isso.”
Esse cara deve estar devendo a um monte de gente. Não é possível, ele pede desculpas a cada cinco segundos!
“Vamos começar de novo: hoje é sexta-feira; amanhã vocês não trabalham; eu preciso de gás. O que podemos acordar?”
“Está tentando me subornar, senhor?”
“Não! Longe de mim fazer algo tão abominável! Mas, caso eu estivesse, você aceitaria?”
“Dependendo de quantos cafés estamos falando, podemos tentar um milagre.”
Sabia! É só oferecer um cafezinho e eles conseguem fazer tudo com mais rapidez e eficiência. É um absurdo eu ter que fazer esse tipo de coisa, mas não posso fazer nada. É mais forte que eu!
“E de quantos cafés estamos falando?”
“Uns dez cafés já estão de bom tamanho.”
“Ótimo! Consegue ligar hoje ainda?”
“Com certeza! Daqui umas duas horas você pode conferir.”
“O fax que enviei está correto?”
“E o que importa? Não fazemos nada com isso mesmo!”
Gosto de pessoas sinceras.
“Obrigado! Manda por e-mail a sua conta para eu depositar os cafés.”
“Beleza. Até mais e obrigado por entrar em contato conosco!
“De nada.”
Ter que subornar alguém para conseguir gás é uma atitude completamente antiética. Não concordo com esse lance de suborno, mas já tive que fazer isso algumas vezes, principalmente em blitz da polícia militar. Mas, apesar disso tudo, é melhor ferir a minha ética do que ficar ouvindo a Joana me enchendo a paciência por que perdeu o “cliente”.
Capítulo 34 - Irmã Chata - Parte 2
“Alô!”
“Acabaram de cortar a merda do gás!”
Minha querida irmã, quase uma lady de tão educada.
“Graças a você né, Joana?”
“Você sabe que eu trabalho a noite e durmo durante o dia! Não dá pra pagar conta à noite, seu idiota!”
“Já ouviu falar em internet?”
“Por que você não vai à merda?”
“Joana, eu estou na rua, falando no celular, no centro do Rio de Janeiro. Dá pra falar logo o que você quer?”
“Eu quero gás pra poder tomar banho, porra! Como eu vou trabalhar sem tomar banho?”
E eu ainda tenho que ouvir isso.
“Eu acabei de pagar a conta e já vou passar o fax para a empresa fornecedora.”
“E eles ligam o gás na hora?”
“Sei lá, porra!”
“E se não ligarem? Eu tenho um cliente marcado para as quatro!”
“Tem gente que faz isso às quatro da tarde?”
“Gente com dinheiro não precisa trabalhar!”
“A que ponto a humanidade chegou.”
“Deixa de ser viado, seu merda!”
Vamos acalmar os ânimos. Não vou ficar gritando no meio da rua por causa da minha irmã doente mental.
“Por que você não toma banho frio, já que está com tanta pressa?”
“Porque a minha pele fica ressecada! Eu não posso sair com meus clientes com pele ressecada! Eu já te disse isso um milhão de vezes, seu imbecil!”
“Será que um dia conseguiremos conversar sem palavrões?”
“Será que um dia você vai deixar de ser viadinho e vai fazer alguma coisa direito na vida?”
“Eu já disse que vou mandar o fax. O que mais você quer que eu faça?”
“Você quer mesmo que eu fale?”
“Não, obrigado. Assim que tiver alguma resposta eu te aviso.”
“É bom mesmo!”
Desligou o telefone na minha cara. Ela só não consegue ser mais grossa por falta de espaço.
Capítulo 33 - O Inferno do Mundo Moderno
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Hoje o banco está especialmente lotado, como de costume. As pessoas devem adivinhar que eu tenho que ir ao banco e, por isso, vão todas na minha frente, só pra me irritar. E o pior é que sempre tem algum sujeito fazendo comentários sobre a fila, mesmo quando você não está a fim de conversa. Eu sempre ignoro todos, mas eles continuam comentando e se dirigindo a mim como se eu fosse seu amigo de infância. Com certeza, deve ser alguma provação divina ou algo parecido.
Estou no final da fila e são quase vinte pessoas na minha frente. Pra variar, apenas dois dos sete caixas estão abertos. Por que os bancos colocam tantos postos de caixa em suas agências se nunca, eu digo nunca mesmo, eles estão todos ocupados? Para mim, é desperdício de espaço.
Um amigo me disse que, uma vez, há muito tempo atrás, ele viu, por alguns minutos, todos os caixas atendendo. Pedi provas, como fotos ou gravações em vídeo, mas ele não tinha. Deve ser alguma lenda urbana, pois eu não acreditei muito nele.
Tem um sujeito que está irritado com a demora da fila. E ele está na minha frente! Ele é um candidato, ou seja, em breve irá começar a falar comigo, pois além das reclamações e os estalos com a língua, ele está virando, lentamente, para mim.
Não demorou muito.
“Essa fila tá foda.”, disse o homem.
O que eu faço com esse sujeito? Será que ele não vê que não estou a fim de novos amigos?
“Esse banco está fincando cada dia pior!”
Eu tenho que concordar com ele, mas não posso expressar nada., pois, pelo visto, o fato de ignorar seus comentários não está funcionando. Vou ter que usar a técnica de ficar olhando para os lados, toda vez que ele começar a se dirigir a mim.
“Não agüento mais fila. E você?”
Ele iniciou uma conversa. Esse é o pior dos casos. E agora? Continuo ignorando ou falo alguma coisa? Eu posso simplesmente acenar com a cabeça, fazendo cara de poucos amigos. Será que ele engole essa?
Ele ainda está olhando pra mim, esperando a resposta! Vou continuar fingindo que não é comigo.
Agora são apenas dez na minha frente. Até que o atendimento não está tão ruim hoje. Eles só podiam andar um pouco mais rápido, pois não quero conversar com esse sujeito.
“Você tem celular aí?”
“O quê?”
“Você tem celular aí, com você?”
Por que será que ele está me perguntando isso? Será que ele vai me assaltar dentro do banco?
“Tenho, por quê?”
“Posso fazer uma ligação?”
É pior do que ladrão, é sem-noção!
“Você quer fazer uma ligação do meu celular?”
“É rapidinho e a cobrar.”
“Você não tem celular?”
“Não, não tenho.”
“E por que você não compra um?”
“Porque eu não preciso de um.”
“Você está precisando agora.”
“Mas é por isso que eu estou pedindo o seu emprestado.”
Mais uma característica do sujeito: ele é maluco!
“Qual o número?”
“Deixa que eu digito o número.”
“Por que você não quer que eu digite o número? Tem medo de eu roubar seu celular?”
“Eu não disse isso.”
“Estamos num banco e você acha que eu vou te roubar? Só estou pedindo um favor!”
Ele começou a gritar, chamando a atenção das outras pessoas. Tinha que acontecer alguma coisa para estragar meu dia, não é mesmo?
“Amigo, se você quiser utilizar o meu celular, fale baixo.”
“Ok!”
“Diga-me o número que eu disco para você.”
“2555-2555.”
Eu não acredito que estou fazendo isso, mas tenho medo de malucos.
“Está dizendo que o telefone não existe.”
“Impossível! Disque de novo!”
E lá vamos nós novamente. Tomara que dê certo dessa vez, pois tenho medo dele me espancar aqui dentro. Se isso acontecer, será que alguém vai me socorrer ou todos vão ficar rindo da minha cara?
“Está dizendo que o telefone não existe.”
“Isso é má vontade?”
“Não, não é!”
“Obrigado então.”
Ele se virou e ficou olhando para a fila. Ainda continua estalando a língua, fazendo aquele barulho irritante. Está meio inquieto. Acho que vai se virar novamente. Merda!
“Você pode guardar o meu lugar? Eu vou ali e já volto.”
“Vai com Deus!”
“Você é cristão?”, disse ele, virando-se.
“Não, não sou.”
“Então por que disse isso?”
“Disse o quê?”
“Você disse para eu ir com Deus.”
“E o que isso tem a ver?”
“Se você não é cristão, por que disse isso?”
“Isso é só uma maneira de se dizer, nada mais!”
“Você é bem estranho.”
Ele saiu da fila e se dirigiu a um dos atendentes. Enquanto isso, a fila andava a passos de tartarugas. Agora faltam apenas duas pessoas, mais o sujeito que saiu da fila. E por falar nele...
“Pedi a gerente para usar o telefone.”
“E daí?”
“Eu consegui fazer a ligação.”
“Bom pra você.”
“Eu queria ligar a cobrar e consegui de primeira.”
“Legal.”
Anda filinha! Anda!
“Por que será que no seu celular não funcionou?”
“Não sei.”
Ele é o próximo! Por favor, dona caixa, chama esse sujeito logo!
“Muito estranho, não acha? Eu conseguir lá e, com você, não.”
“Amigo, eu liguei pro número que você pediu.”
“Sei.”
“Eu não preciso mentir pra você. Na verdade, eu não preciso nem conversar com você! Eu não te conheço!”
“Não precisa justificar a sua má vontade em ajudar alguém necessitado com ignorância.”
Meu Deus! Dai-me paciência para aturar esse tipo de gente chata! E por que a porra do caixa não chama logo esse sujeito?
“Você devia ser mais solícito, sabia?”
“Meu amigo, eu posso ficar na fila em paz? Você está enchendo o meu saco desde que cheguei aqui.”
“Eu só vim pagar as minhas contas! Eu tenho direito tanto quanto você!”
“Então pague as suas contas em silêncio!”
Eu não acredito. O caixa que ia chamar o sujeito acabou de colocar uma placa de fechado em cima do balcão! Agora só tem um funcionário atendendo esse monte de gente! Daqui a pouco, vai haver motim aqui, tamanha a quantidade de reclamações.
O Homem ficou mais calmo, respirou fundo e continuou estalando a língua. É nessas horas que eu gostaria de ser com o Hannibal Lecter, em ‘Silêncio dos Inocentes’, só pra mandar esse sujeito cortar a própria língua e morrer sufocado com ela entalada na garganta.
“As minhas contas não venceram ainda. Eu tenho medo de usar a internet. Acho que vão roubar meu dinheiro.”
“Você tem conta aqui?”
“Tenho.”
“E os seus boletos não estão vencidos?”
“Não.”
“E o que você está fazendo aqui então?”
“Eu já disse que não gosto de internet.”
“Você já ouviu falar em caixa eletrônico?”
“Já!”
“Você sabia que dá pra pagar contas lá também?”
“Sério? Disso eu não sabia.”
“E por que você não vai pagar suas contas lá?”
“Não sei.”
“Se eu fosse você, eu tentaria. É muito fácil!”
“Acho que vou experimentar então.”
“Faça isso.”
Ele foi embora me agradecendo. Ganhei um amigo retardado e um lugar a mais na fila. Agora sou o próximo. Finalmente!
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Observação 1: quarenta minutos de chateação e espera, para menos de um minuto de atendimento. Esses são os bancos do Brasil. Da próxima vez, tenho que me lembrar de não depender da minha irmã querida para pagar uma conta.
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Observação 2: quando saí do banco, o sujeito estava na fila do caixa eletrônico enchendo o saco de outra pessoa. Será que ele vai pedir para usar o celular, de novo?
Capítulo 32 - Encontro Casual
“Pois é, isso que está me deixando preocupado. Não estou acostumado a dormir menos de oito horas por dia.”
“Não se preocupe! O ser humano tem uma capacidade absurda de adaptação. Você vai conseguir!”, disse Juliano.
“Você vai conseguir uma cirrose e alguns cabelos brancos, isso sim!”, disse Ricardo, em mais um comentário desnecessário.
“E sua mulher, como está reagindo a isso tudo?”, perguntei.
“Ela está tranqüila, tirando a paranóia do dinheiro. A mãe dela que tá feliz pra caramba com isso.”
“As sogras sempre ficam felizes com as desgraças dos genros.”, comentou Roberto.
“Isso eu tenho que concordar.”, disse Ricardo.
“Como você sabe disso? Você nunca consegue ficar tempo suficiente com uma mulher para conhecer bem a sogra!”, disse Juliano.
“Mas elas me conhecem muito bem. Tanto que mandam a filha sair fora enquanto é tempo!”, comentou Ricardo e todos começamos a rir.
“E eu que tenho duas e não consigo comparar qual é a pior?”, indagou Roberto.
“Você é maluco! E canalha também!”, disse.
“Eu não consigo aturar uma, imagina duas sogras!”, disse Gilberto.
“Esse cara é bom! Mas diz ai, como você consegue fazer com que uma não saiba da outra?”, perguntou Ricardo.
“Uma mora em Campos e a outra mora aqui. Como estou em um projeto da Petrobrás, digo pra uma que no final de semana tenho que ir pro Rio para trabalhar, enquanto para a outra, digo que tenho que ir pra Macaé durante a semana. Adoro petróleo!”
“Você não existe, Roberto!”, disse.
“Mas elas não desconfiam?”, perguntou Juliano.
“Desconfiar, até desconfiam. Mas ninguém tem certeza de nada.”
“Eu não conseguiria manter isso por muito tempo.”, comentou Ricardo.
“Você não consegue manter um relacionamento normal por mais de três meses!”, indagou Juliano.
“Olha quem fala! Nunca fica com ninguém e ainda vem falar de mim! Há quanto tempo você está com esse seu namorado novo?”, disse Ricardo.
“Ricardo, por que você não vai catar coquinho?”
“Olha só! É viadinho até na hora de ofender alguém. Vira homem, porra!”
“David, dá um jeito nele, por favor?”, pediu Juliano.
“Ricardo dá pra parar!”
“Ok! Foi mal! Só estava brincando com ele.”
“Pessoal, vamos pedir a conta logo, pois preciso ir ao banco para pagar a conta de gás que está atrasada.”, disse.
“Mas já? Nem deu duas horas de almoço ainda!”, reclamou Gilberto.
“Nós temos apenas uma, não duas horas de almoço. Não sei nem porque ainda não fui embora. Qualquer dia desses, vou levar uma bronca por causa de vocês!”, disse Juliano.
“Todo mundo fica mais tempo no almoço, não é só a gente.”, comentou Roberto.
“Ele tem razão!”, comentou Ricardo.
“Já ficamos além da nossa cota!”, disse Juliano.
Juliano está ficando nervoso com a situação. Ele sempre fica olhando para o relógio quando vai terminando a uma hora de almoço. Ele só não vai embora sozinho, porque fica com medo da gente ficar sacaneando ele pro resto do dia. Paranóia total!
“Vamos embora logo, antes que o garanhão aí perca o controle.”, disse Ricardo.
“Por falar nisso, não vai mesmo nos dizer quem é a dama desconhecida?”, perguntou Roberto.
“Não. Vou deixar no suspense, pelo menos por enquanto. Podemos ir agora?”
“Tá bom, não precisa ficar nervoso.”, disse Gilberto.
“Vamos logo, pois, se não, a bichona vai dar um ataque de purpurina aqui dentro.”, comentou Ricardo.
“Cara, você está atentado hoje!”, comentei.
“Hoje é dia de festa! E, melhor ainda, vamos ver nosso amigo comendo aquela gostosa! Trouxe a câmera?”
“Já estava lá no trabalho. Mas não sei se vou ter coragem de usar.”
“Deixa de ser viadinho! A empresa inteira quer ver essas fotos e podemos ganhar uma grana com isso!”
“Deixa de ser idiota, Ricardo! Se eu tirar alguma foto, vai ser pra mostrar pra vocês e não para vender pela empresa inteira!”
“Até porque, ele precisa manter o contato para poder comer de novo!”, comentou Gilberto.
“Nisso ele tem razão.”, disse Roberto.
“Beleza, mas, como melhor amigo, eu quero ver primeiro!”, disse Ricardo.
“Vou mandar pra todos ao mesmo tempo. E vamos embora logo, pois o Juliano já está tendo um ataque de nervos! Ele está quase pedindo o relógio pra voltar no tempo.”
Olhamos todos para o Juliano e o coitado já estava suando frio. O garçom chegou com a conta e foi embora, atender outra mesa. Não consigo entender porque esse restaurante não possui comandas individuais. Não faz sentido nenhum você pedir a conta e depois ter que se levantar para pagar no caixa. É sempre uma confusão na hora de ver quem vai pagar quanto, principalmente quando Gilberto está no grupo.
Todos nos levantamos e seguimos para a fila do caixa, que já estava enorme. Alguém me tocou no ombro. Olhei para a boca aberta dos caras que estavam à minha frente e fiquei sem reação. Uma voz doce e suave se destacou no ambiente barulhento daquele restaurante. Alguém estava falando comigo.
“Nem me chamou para almoçar. Que feio!”
Quando me virei, dei de encontro com aquela deusa, em seu vestido preto curtíssimo e com sua sandalinha alta, amarrada até o joelho. O sorriso de Júlia emanou pelo ambiente, contaminando a todos com a sua presença. Os malucos já saíram de perto, mas tenho certeza de que todos estão com os ouvidos atentos.
“É... desculpa. É que saímos muito rápido e não deu muito tempo pra pensar direito, então...”.
“Não se preocupe, não estou chateada. Só estou brincando com você.”, disse ela, passando a mão no meu rosto.
Quase tive um orgasmo. Eu não acredito que ela está falando assim comigo na frente do pessoal! Só pode ser sonho.
“Hoje à noite eu te recompenso.”
“Estou esperando ansiosamente.”, disse ela mordendo os lábios.
“Próximo!”, gritou a atendente do caixa.
“Deixa eu ir. Te vejo hoje a noite, tá?”
“Estarei lá, pode ter certeza.”
Ela está indo embora e está furando fila. Ela pode, eu não ligo. Ela é tão linda de costas! Acho que até mais do que de frente! Os caras devem estar babando.
Esperei por um tempo, parado na fila, sozinho. Em alguns segundos, estavam todos lá, olhando aquela bunda maravilhosa e balançante passando pela porta de saída. Não demorou muito para o primeiro comentário.
“Eu estou pasmo. Não acredito que você teve coragem de dizer aquilo.”, disse Gilberto.
“Saiu sem querer!”
“Mandou muito bem!”, disse Juliano.
“A mulher está na sua mão!”, comentou Roberto.
Todos começaram a bagunçar o meu cabelo, como se eu fosse um adolescente que combinou a primeira transa. Na verdade, é como estou me sentindo: um adolescente. Fazer o quê? A mulher que todo mundo deseja acabou de demonstrar toda a sua vontade de ficar comigo. E em público! Agora não há mais dúvida: o cara que ela está interessada sou eu!
“Agora é só chegar!”, comentou Roberto.
“Já chega agarrando logo, no inicio da festa!”, disse Gilberto.
“É, meu amigo, agora é contigo.”, disse Juliano.
“Eu não disse? Tem gente que vai comer um cú hoje e agora é certo!”, disse Ricardo, me abraçando.
O almoço tinha que terminar com um comentário obsceno de Ricardo.
Capítulo 31 - Gilberto
Não que ele seja corno, longe disso. Eles se amam loucamente e garanto que nenhum dos dois teria coragem de fazer alguma coisa de errado. Acho que por ser tão apaixonado, Gilberto acabou permitindo que sua amada utilizasse esse pequeno detalhe a seu favor.
Os dois se conheceram na faculdade e se casaram logo depois da formatura. Foram morar em um minúsculo apartamento na Lapa. Não era um apartamento bom, mas era o que Gilberto podia pagar com seu irrisório salário de treinee. Cristina não conseguia emprego, pois era formada em Nutrição, o que não ajudava muito no mercado.
O tempo passou e os dois seguiram caminhando. Gilberto arranjou um emprego novo e Cristina conseguiu um emprego em uma empresa de alimentos. Eles se mudaram para um apartamento maior, na Glória, pois ficava mais perto do trabalho de Cristina, que era no Catete.
O salário de Gilberto já era bem melhor, mas o de Cristina não pagava nem a conta de luz. Ele, então, começou a gastar com um monte de coisas supérfluas, como videogames, televisões grandes, restaurantes caros e carros novos. Cristina assistia aquilo tudo com raiva, pois estava vendo o dinheiro indo pelo ralo. Foi então que, num surto, ela disse para Gilberto que não dava mais para agüentar aquilo tudo e que ele não pensava no futuro dos dois. Ela ameaçou ir embora, mas Gilberto implorou para ela ficar. Ela resolveu permanecer casada, mas com uma condição: ela controlaria todo o dinheiro que entrasse naquela casa.
Desde então, Cristina proíbe qualquer aventura de Gilberto, seja ela em equipamentos eletrônicos novos, seja em roupas caras. Os dois se acostumaram com a rotina e Gilberto passou a ser mandado pela mulher, motivo pelo qual é constantemente sacaneado.
De uns meses pra cá, algo mudou e Gilberto foi ficando preocupado com a condição da mulher. O nível de paranóia estava aumentando muito e ele não sabia o porquê.
Eles sentaram e Gilberto perguntou o que estava acontecendo. Cristina explicou, aos prantos, que estava grávida e que tinha medo de não ter dinheiro para manter a criança. Gilberto, após o susto, abraçou a mulher e prometeu a ela que nada de mal aconteceria com o filho deles. Os dois choraram por um tempo e depois caíram na gargalhada de felicidade. A família estava aumentando!
Os dois passaram a planejar todos os gastos possíveis e imagináveis, causados pela chegada do novo membro da família Souza.Eles só não sabiam que a família aumentaria, de novo, tão rápido.
Capítulo 30 - O Almoço
Como o restaurante escolhido é bem caro, eu só como carne, camarão e um pouquinho de batata pra não perder o costume. Nada de arroz, pois arroz é barato e eu como em casa de graça. Faço de conta que estou de regime para não parecer tão muquirana.
Pegamos a comida e nos encaminhamos para um mesa perto da janela, que dá pra Avenida Rio Branco. Não sei se por ser em um prédio velho ou se porque o dono é muquirana, mas o restaurante não possui ar-condicionado. A vista não é das melhores, mas, quando tem briga de camelôs com a Guarda Municipal, aquele lugar se torna bem disputado. Essa é mais uma razão para nos mantermos perto da janela.
“Eu não vou falar nada!”
“Juliano, nós somos seus amigos! Você tem que contar isso pra gente!”, disse Gilberto.
“Ele deve estar chamando o namorado viado dele de linda e vocês estão achando que é alguém da empresa.”, disse Ricardo, jogando um sache de sal em Juliano.
“Uma coisa a gente sabe: é da empresa.”, comentou Roberto.
“Pessoal, não adianta que eu não vou falar nada. Até porque tem gente aqui que é boca aberta e vai acabar espalhando pra todo mundo.”
“Vamos deixar o cara em paz, ok?”, disse.
“David, é um absurdo ele não nos contar algo assim! Nós contamos tudo pra ele!”, disse Gilberto indignado.
“Eu conto na hora certa. Agora não dá pra contar.”
O cara não quer contar, então é melhor não insistir. Se fosse qualquer um dos outros, provavelmente já estaríamos sabendo bem antes do sujeito marcar o primeiro encontro.
“Vamos mudar de assunto, antes que o Ricardo comece com as gracinhas dele?”, indagou Juliano.
“Pode deixar que não vou ficar comentando com ninguém as suas aventuras amorosas, se o problema for a minha presença.”
Ricardo ficou chateado e cruzou os braços, fechando a cara. Pelo visto, ele entendeu que ele era o problema, já que Juliano nunca gostou de contar nada pra gente com ele por perto. Ele sabia que o sujeito espalharia para todo mundo alguns segundos depois.
Depois de algumas sessões de esporro e muita conversa, conseguimos controlar a ânsia de Ricardo a contar a todos os acontecimentos para todo mundo que fala “oi” com ele. Já faz algum tempo que ele não dá nenhuma crisa, mas, mesmo assim, Juliano ainda permanece resistente. Não tiro a razão dele, mas, se não dermos um voto de confiança, como saberemos se ele melhorou ou não?
Ricardo sempre se sente meio ofendido com essas “exclusões”, por isso, como todo bom grupo de amigos, não há como não sacanear o sujeito depois de uma demonstração clara de se sentir “excluído do grupo”.
“Depois eu que sou viadinho.”, comentou Juliano.
“Fala sério! Ficou boladinho, ficou?”, sacaneou Roberto.
“Essa foi a maior demonstração de homossexualismo que eu já presenciei na minha vida!”, gritou Gilberto, batendo no ombro de Ricardo.
“Vão todos se fuder!”.
“O cara tá nervosinho mesmo! Ricardo, vai com calma! Se o cara não quer falar, deixa ele. Tenho certeza que ele falará na hora certa. Vamos mudar de assunto?”, perguntei.
Como estamos em lugar público, preciso conter esses caras. Se eu deixar, Ricardo daqui a pouco está quebrando o lugar todo. Ele sempre cai na pilha.
“Gilberto, o novo papai de dois, irá nos contar como está lidando com isso.”, disse Roberto.
“Não me falem disso! Eu estou feliz, mas, ao mesmo tempo, desesperado!”
“Imaginamos!”, disseram todos os outros.
Coitado do Gilberto. Ele não vai durar muito tempo com três pessoas controlando sua vida.
Capítulo 29 - A História das Mancadas
COMENTÁRIO!!!
Por causa desse pequeno problema, tive que correr para registrar o livro na biblioteca nacional. Se o infeliz que roubou o meu pendrive estiver lendo essa frase, que você queime no mármore do inferno!!!
Tenho dito!
Bom, tirando esse problema, segue um capítulo novo para desgustação.
Abraços a todos!
Eduardo
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Em outros casos, os problemas causados são ainda maiores. Certa vez, um garoto do suporte técnico estava trocando mensagens com um amigo quando uma outra mensagem chegou a sua caixa, no momento em que ele pressionou a opção de responder. O garoto, sem perceber, enviou o e-mail para um grupo interno, criado para envio de mensagens para todos os membros da empresa, inclusive o presidente. A mensagem era a seguinte:
“Ae, tô coçando o saco o dia inteiro. Vamos lá embaixo fumar um cigarro para matar o tempo?”
O rapaz ficou tão transtornado e desesperado quando viu o que fez que, quando entrou na sala do chefe para explicar, o presidente já tinha lido o e-mail e ligado pedindo explicações sobre o ocorrido. Não preciso dizer que o garoto foi mandado embora.
Eu mesmo já fiz besteira aqui dentro e quase perdi meu emprego. Existia um cara que trabalhou comigo, em um outro projeto, que possuía um nome muito parecido com o de um gerente da empresa. Eu tinha intimidade com o cara, por isso não vi problemas em sacaneá-lo quando recebi um e-mail assim:
De: Carlos Fernando Gomes
Para: David
Assunto: Liberação de acesso
Prezado,
Solicito acesso ao sistema de avaliação de desempenho para o login cagomes.
Obrigado,
Carlos Gomes
O meu amigo também se chamava Carlos Gomes e, quando li, não entendi o porquê da solicitação, já que ele já possuía o acesso ao sistema. Então, muito engraçadinho, respondi com o seguinte e-mail:
De: David
Para: Carlos Fernando Gomes
Assunto: Res: Liberação de acesso
Uhauhauhauahuahauh
Que porra de login é esse? Cagomes?
Que viadinho!!
Mas afinal, pra que você quer acesso?
Valeu!
David
Quando percebi o “Fernando” entrei em pânico. Fiquei branco e não conseguia emitir um som sequer. Ana Cláudia chegou perto de mim e levou um susto. Ela perguntava o que era, mas eu não conseguia falar. Trinta segundos depois, ouvi a voz de Dario me chamando, aos berros, solicitando a minha presença em sua sala.
“Você é maluco ou come merda?”, gritou Dario.
“Eu... eu... não vi o nome!”
“O cara me ligou agora me pedindo explicações!”
“Foi sem querer! Eu não vi o sobrenome! E eu pensei que o login de sistema do Carlos fosse diferente do da rede!”
“E agora? O que eu faço com você? O cara é gerente comercial da empresa e quer a sua cabeça!”
“Ele quer me demitir por causa de uma brincadeira?”
“Ele odeia esse login. Simplesmente odeia!”
“Então peça para trocar o login dele!”
Ele ficou parado por um tempo, com a mão no queixo, como se estivesse com dificuldade de raciocinar o que eu tinha acabado de dizer. Juro que senti um cheiro estranho na sala nesse momento.
“Pode ser que funcione.”
“Então, é só você fazer isso e tudo fica tranqüilo.”
“Não, você faz isso. Você vai ao setor de administração de redes pedir para trocarem o login dele para ‘cgomes’. E tem que ser hoje!”
“Eu? Mas aqueles caras só atendem com rapidez os gerentes e diretores! A última vez que solicitei algo levou três semanas para eu ser atendido! E esse login já está sendo utilizado!”
“Você gosta do seu emprego?”
“Gosto sim, mas isso é...”.
“Você tem até o final da tarde.”
“Mas...”
“Você está aqui ainda?”
Era uma tarefa impossível. Eu tinha que convencer o Carlos, meu amigo, a ceder o login dele para o Carlos, meu não amigo, e ainda conseguir que o pessoal de redes me atendesse ainda naquele dia. Tive que apelar e pedir ajuda para o Rodrigo que, apesar de maluco, tinha uma boa influência no setor.
Eu fui convencer o meu amigo, enquanto o Rodrigo foi convencer o gerente de redes. A minha parte foi mais complicada que a dele, mas ambos conseguimos completar nossas missões antes das dezessete horas.
Missão cumprida, todos ficaram satisfeitos, menos o Carlos, meu amigo, que ficou com um login esquisito (cajose, parece nome de fruta do nordeste) e eu, que fiquei devendo um favor para o Rodrigo. Ele ainda me cobra esse favor até hoje, mas mal sabe ele que já paguei todos os meus pecados com suas burrices.
*****Atrasos*****
Desculpem o atraso nas postagens, mas ta difícil conseguir tempo...
Prometo que, em breve, continuarei com as postagens regulares, ou seja, toda sexta-feira.
Por enquanto, gostaria que vocês comentassem, pois to vendo que tem um monte de gente lendo e ninguém comentando!!!!
Essa semana será uma semana interessante. É a semana de resposta da editora, ou seja, posso virar um escritor até sexta-feira!
Bom, é isso...
Acho que sexta vai dar pra postar mais um. Quem sabe outro comentário dizendo quando o livro estará nas lojas?
Abraços!
Eduardo
Capítulo 28 - A Mancada
Gilberto: “E ai? Onde vai ser o rango?”.
David: “Por mim, pode ser em qualquer lugar!”.
Ricardo: “Vamos num lugar ali na Buenos Aires que têm umas paradas gostosas pra comer... hehehe”.
Gilberto: “Meu Deus, lá vem o tarado!”.
Juliano: “Vamos ali, naquele do filé com queijo!”.
Ricardo: “O viadinho tá com desejo, tá?”.
Juliano: “Vou ignorar seu comentário idiota.”.
Gilberto: “Ali é muito caro, vocês não acham? E o atendimento ta caindo cada dia mais.”.
Gilberto: “Cacete! David, dá um jeito no Ricardo, por favor?”
Ricardo: “Olha só, tá defendendo o namorado! Pra quando é o filho de vocês?”.
David: “Ricardo, chega! Já tá enchendo o saco essas suas palhaçadas!”
Ricardo: “Tá bom, desculpa!”.
Juliano: “Podemos voltar ao assunto do almoço?”.
David: “Por mim pode ser ali mesmo. O bom é que é perto e depois dá pra passar na livraria.”.
Gilberto: “Beleza então. Mas amanhã vamos almoçar em um lugar mais barato, ok? Minha mulher já está reclamando que eu estou gastando muito com comida na hora do almoço.”.
Juliano: “A sua mulher controla o dinheiro que você gasta com comida?”.
Gilberto: “A minha mulher controla todo o meu dinheiro! Inclusive, o meu salário vai pra conta dela.”.
Ricardo: “Existe idiota pra tudo hoje em dia.”.
David: “Isso é sério?”.
Gilberto: “É sério. Não posso nem comprar uma bala no sinal que ela já vem reclamando. Depois que ela ficou grávida, ficou paranóica. Ela acha que não vamos ter dinheiro suficiente para cuidar bem dos nossos filhos.”.
David: “Como assim ‘nossos filhos’?”.
Ricardo: “Eu não sabia que vocês já tinham um filho.”.
Gilberto: “Não temos. Ela está grávida de gêmeos.”.
David: “Ae papai! Meus parabéns!”.
Ricardo: “Hahahaha! Tá fudido em dobro!”.
Gilberto: “Obrigado pela força, Ricardo. Você está ajudando muito!”.
David: “Fica assim não! Vai dar tudo certo!”.
Juliano: “Então, fica marcado pra hoje depois da festa, tá linda? Beijos!”.
David: “Que porra é essa?”.
Gilberto: “???”.
Ricardo: “A bichona tá pegando alguém e a gente não sabe?”.
Juliano: “Merda! Respondi o e-mail errado!”.
Juliano, um palavrão e uma gafe. O almoço vai ser longo hoje.
Capítulo 27 - A Segunda Melhor Hora do Dia
A calorosa discussão do local do almoço sempre começa cedo, normalmente na hora que o primeiro do grupo chega à empresa. O recorde registrado, até o momento, é de Gilberto. Ele virou a noite trabalhando e, às quatro e meia da manhã, enviou um e-mail para todos perguntando aonde seria a sagrada refeição do dia.
No centro do Rio de Janeiro, você encontra todo tipo de restaurante: do mais barato, aos mais caros e sofisticados.
Existem algumas pessoas que insistem em se aventurar em alguns buracos para economizar no final do mês. Estes, em compensação, gastam o que não queriam gastar com remédios e consultas, já que não se sabe a procedência e o modo de preparo da comida desses lugares. Quando você olhar um restaurante com uma placa escrita “coma o que quiser por 3,99”, só entre se você possuir um estômago de aço e um fígado mutante.
Algumas outras pessoas, que gostam de aparecer, freqüentam os restaurantes mais caros, onde um pratinho de comida safado e bonitinho custa em média vinte e nove reais. Conheço algumas da empresa, que não tem onde caírem mortas, que almoçam nesses lugares todos os dias. Como elas não têm dinheiro, acabam por dividir esses pratos miserentos, dizendo aos quatro ventos que estão de regime. Provavelmente, elas chegam em casa e batem um prato de arroz, feijão e carne de segunda para suprir as necessidades, já que acabam comendo cerca de cento e cinqüenta gramas de alimento. A aparência é tudo hoje em dia!
Nós, como pessoas normais e famintas, comemos nos intermediários, pois a comida não é ruim e o preço é mais em conta. Escolhemos, sempre, um restaurante mais perto do trabalho, pois assim não precisamos andar muito. Andar de barriga cheia no sol do Rio de Janeiro é, como dizem os cariocas, sinistro!
Mesmo pagando um pouco mais do que nos pés-sujos da vida, às vezes, nos deparamos com algumas lagartas na salada ou creme de leite estragado no molho do strogonoff. Mas aí é só jogar pro lado e continuar comendo. Afinal, o que não mata, engorda!
Capítulo 26 - Segundo Confronto
“Fala Rodrigo, o que você quer agora?”
“Nada, só queria saber o que estava acontecendo.”
“Não foi nada.”
“Como não foi nada? Você estava nervoso no telefone. Aconteceu alguma coisa?”
“Não aconteceu nada.”
“Tem certeza? Não quer se abrir comigo?”
Existe coisa mais irritante do que uma pessoa intrometida? Ele não tinha nem que estar prestando atenção à minha conversa!
“Não, não quero.”
“Tem certeza?”
“Cacete, Rodrigo! Já disse que não foi nada! Dá pra me deixar em paz?”
“Ok! Desculpa! Quando quiser conversar, estou aqui do lado.”
Não entendi porque ele piscou após dizer essa frase. Será que ele acha que, dando uma de psicólogo pra cima de mim, ele vai conseguir algum aumento? Se for isso, ele é mais idiota do que eu pensava.
“Rodrigo! Preciso te fazer uma pergunta.”
“Diga chefe!”
“Não precisa me chamar de chefe, eu já te disse isso algumas vezes.”
“Desculpa! É que eu acho mais legal.”
Vou ignorar essa última frase.
“Por que diabos você enviou um caso de uso para o cliente sem passar pela Ana Cláudia?”
“Eu achei que já estava preparado para fazer algo sozinho. Além disso, não agüento mais ela ficar alterando tudo que eu faço. Fica parecendo que não sei fazer nada direito!”
Bingo! Infelizmente não posso confirmar essa suspeita.
“A gente não tinha combinado?”
“Tinha. Mas eu tinha certeza de que esse tinha sido o melhor caso de uso que eu já tinha escrevido até hoje!”
“Escrevido”? Isso é o nome de algum sabonete novo?
“Imagino.”
“Imagina o quê?”
“Nada não. Agora, por que você escreveu que a gente poderia consultar o saldo das pessoas nos bancos? Você não sabia que isso era proibido?”
“Sabia, mas eu li num site que dava pra fazer e era bem fácil.”
“Mas que site é esse?”
“Acho que era algo parecido com www.hackerecia.com.”
“Você tá maluco?”
“Não que eu saiba, por quê?”
“Isso é um site de invasão! Não podemos nos basear nele!”
“Mas você disse pra ‘mim’ procurar na internet por facilidades para os clientes!”
“Eu sei que eu disse, mas não num site de hacker! Era pra entrar num fórum de programação ou coisa do tipo!”
“Eu apenas segui suas ordens. Era pra procurar na internet, então eu procurei!”
O que eu faço com um sujeito desses? A minha vontade é jogá-lo pela janela, como fazemos com os papeis antigos no final de ano!
“Você tem idéia de quanto transtorno isso causou?”
“Acredito que ninguém tenha reclamado. Ninguém me ligou pra reclamar até agora e toda vez eles ligam. Na verdade, ligam até bastante”.
“Eu tive que marcar uma reunião hoje à tarde para acalmar os ânimos daquele povo!”
“Reunião? Eu posso participar?”
“A Ana vai comigo e não posso levar mais de uma pessoa.”
“Além de me corrigir em tudo, agora toma o meu lugar nas reuniões.”
Ele está fazendo cara de choro. Será que se eu der um tapão no pescoço dele, ele começa a chorar de verdade?
“Rodrigo, me faz um favor: vai pra sua baia e não saia de lá até eu ir embora.”
“Mas chefe, faltam quinze minutos pro almoço!”
“Faz o que eu estou pedindo, por favor?”
“Ok! Mas acho que eu vou ficar com fome.”
“Quando você ficar com fome, você pode levantar, ok?”
“Tá bom. Você que manda.”
Ele não moveu um músculo. Continua parado, a minha frente, olhando pra mim com cara de idiota. Será que se eu jogar uma bolinha de papel ele sai correndo atrás? Só tenho medo dele gostar da brincadeira.
“Está aqui ainda por quê?”
“Ok! Já estou indo!”
Finalmente, me livrei desse maluco. Por enquanto.
Capítulo 25 - Resolvendo o Problema
“Eu estou no meu trabalho, sossegado, e você me liga pra me agredir? Vai tomar no seu cú!”
“Já fiz muito isso essa noite e ainda fui paga!”
“Você é uma puta mesmo!”
“Sou sim, e registrada!”
As coisas não estão indo muito bem. Se eu não parar, daqui a pouco estou gritando aqui dentro e vou acabar me tornando o centro das atenções.
“Olha só! Eu tenho que trabalhar. Se você não quiser minha ajuda, beleza. Agora não fique me enchendo o saco, me fazendo perder tempo com as suas baboseiras.”
“Então diz logo porque essa merda não está funcionando! Você não é analista de sistemas? Então analisa essa joça que você chama de computador!”
“Você não tem idéia como eu tenho vontade de contar pra mãe as suas aventuras ilícitas, sua vagabunda!”
“E você não tem idéia como eu tenho vontade de contar, pra todos os seus amigos, que você fez fio-terra com a Claudinha!”
Agora ela pegou pesado! Esse episódio da Claudinha foi um caso a parte. Eu não sabia nem quem eu era direito e ela estava a fim de fazer. Então eu fiz. Mas quero deixar bem claro que eu não gostei nem um pouco!
“Você é muito baixa mesmo.”
“Vai me ajudar ou não vai?”
Vamos às perguntas básicas, pois ela é uma anta quando o assunto é computador.
“O computador ligou?”
“Lógico, seu idiota!”
“Mas você disse que não estava ligando!”
“Não tá aparecendo imagem na televisão!”
“Televisão?”
“É! Nessa merda aqui!".
“No monitor, caralho!”
“Isso!”
“Tem alguma luz piscando na CPU?”.
“Onde?”
“Na torre.”
“Dá pra esclarecer?”
“Nessa merda branca e comprida onde você coloca os seus CD’s pra ouvir, sua idiota!”
“Olha a grosseria!”
“Tem ou não tem?”
“Tem.”
“Quantas?”
“Um monte.”
“Dá pra dizer quantas?”
“Três luzes, porra!”
“Tem uma piscando mais que as outras?”
“Tem uma verde!”
“Beleza. O monitor está ligado?”
“Agora funcionou, tchau!”
Menos mal. Monitor desligado é um dos meus menores problemas. Agora imagina se eu tivesse que explicar pra ela que o Sistema Operacional não está funcionando e será necessária a substituição de um arquivo de sistema, logo após um boot?
Capítulo 24 - Família Feliz
Ela era filha única e acabei chegando e roubando o trono dela. Isso fez com que ocorresse um desvio de conduta, causando uma perturbação psicológica grave e quebra da linha de sua personalidade. Acho que foi isso que o médico falou pra minha mãe na época que minha irmã tentou me afogar no aquário lá de casa. Pelo menos foi o que ela me contou, já que eu tinha apenas um ano de vida na época da lição de nado involuntária.
Depois que eu comecei a perceber o mundo, tratei de arranjar algumas técnicas para me defender das maldades dela. Uma das mais clássicas era fingir que ela tinha me batido para poder ganhar algo com a minha mãe. Ela podia estar no quarto dela e eu no meu, que eu saía gritando, dizendo que ela tinha me batido por nada. Era quase um prazer vê-la levando uma surra. Eu sei que era um sentimento estranho, até porque isso poderia ter afetado na minha personalidade, mas era muito bom assisti-la apanhando, já que, na maioria das brigas corporais com ela, era eu que apanhava (ela era maior do que eu!).
O tempo foi passando e eu fui crescendo. Ela nunca deixou de me encher o saco, mas não existiam mais brigas com agressão física. Na última vez, fui bastante criticado, pois dei um soco em suas costas que deixou a garota sem ar por um bom tempo. Ainda tive que ouvir a minha avó dizendo “Ela é mocinha agora! Não pode apanhar porque, senão, pode desregular o período dela!”.
Depois desse episódio, foram realizadas apenas brigas verbais, mas sem restrições quanto à forma da linguagem empregada, o que se tornou a nossa forma de comunicação mais freqüente.
Após sua ida para Niterói, para freqüentar a faculdade, minha vida ficou menos tumultuada. Infelizmente, minha mãe não tinha dinheiro para pagar um apartamento para cada, por isso, quando passei na federal, fui morar com Joana. As brigas eram feias e os vizinhos reclamavam constantemente. Pelo menos até eu descobrir, sem querer, sua nova forma de ganhar dinheiro. Só fiquei quieto porque ela prometeu me arranjar umas amigas de graça. Assim, minha mãe não ficava sabendo de nada, ela continuava ganhando dinheiro, eu ficava com as amigas dela e todo mundo ficava feliz. Simples assim!
Hoje sou muito mais tranqüilo, mas, às vezes, ela me tira do sério. Afinal, ninguém agüenta tanta burrice e prepotência numa pessoa só.
Capítulo 23 - A Gentileza de Joana
Reunião marcada! Todos os envolvidos provavelmente receberão os convites a qualquer momento. Queria voltar para os meus e-mails, mas antes preciso atender meu celular. É uma ligação lá de casa, ou seja, não deve ser boa coisa.
“Fala Joana. O que você quer?”
“Essa merda desse computador estragou de novo!”
“O que está acontecendo com ele?”
“Simplesmente não liga!”
“Você já tentou ligar na tomada?”
“Eu já mandei você à merda hoje?”
“Se você não cooperar, eu não vou te ajudar.”
“Você nunca me ajuda em nada mesmo!”
“Olha aqui, garota! Você já está acabando com a pouca paciência que me resta.”
“Por que, então, você não enfia o dedo no cú e rasga?”
Começamos a nos entender.
Capítulo 22 - A Feiúra do Mundo
Existem pessoas feias por todos os lugares do mundo. Em qualquer lugar que você vá, seja num boteco, seja num hotel sete estrelas, haverá alguém que você achará feio. Não há escapatória!
Tudo bem que isso é uma convenção da sociedade, que cultua o corpo perfeito e ignora os mais estragados. Mas, fazer o quê? Nós vivemos nessa sociedade e temos que conviver com isso.
No Rio de Janeiro, essa cultura é muito mais forte. Acho que devido às praias, as pessoas ficam mais peladas, o que faz com que elas malhem bastante para não passar vergonha. Deveríamos ter uma estátua de um deus grego em cada esquina, para poder estimular as pessoas a malhar, serem magros ou fortes e felizes.
Está certo que uma barriga de tanquinho e um braço do tamanho de um pernil te ajudarão a pegar algumas mulheres gostosas, mas um nariz de batata e a cara cheia de buracos de espinhas da época que você não pegava ninguém, também te prejudicarão com as mais exigentes. Eu, sinceramente, acho malhar um saco. Pra que ficar se matando na academia, fazendo cara feia pras pessoas e ficar se encostando aos aparelhos suados, se eu posso ir para um bar com os amigos, beber cerveja gelada, ficar sorrindo para todo mundo e olhando a mulherada passar? Pra mim, não faz nenhum sentido.
Acredito que a maior concentração de gente feia do Rio de Janeiro está nos transportes públicos. Se alguém resolver jogar uma bomba atômica na Central do Brasil às sete horas da manhã numa segunda-feira, metade das pessoas feias e estranhas do mundo seria morta. Na barca acontece o mesmo. E quanto mais cedo, pior!
De qualquer jeito, isso só acontece porque existem pessoas. Porque, se não existissem, a menos feia de hoje seria a mais bonita de amanhã e assim por diante. Ou seja, elas sempre existirão!
Agora, uma pergunta vem a minha cabeça: será que a Ana Cláudia anda de trem?
Esqueci de comentar, mas, durante toda a conversa com Ana Cláudia, permaneci olhando para o monitor, sem desviar meu olhar um segundo sequer. Não estava me sentindo bem e fiquei com medo de vomitar, ainda mais no dia da festa.
Capítulo 21 - O Início da Merda
“Ai meu Deus, o que ele fez agora?”
“Ele mandou um Caso de Uso para o cliente sem passar por mim.”
“E o que ele especificou de impossível dessa vez?”
“Tirando os erros de português, ele escreveu que o sistema vai buscar a informação de saldo em conta corrente dos associados, para o ator saber se o funcionário pode ou não pagar o empréstimo devido e registrado.”
“Ele o quê?”
“É isso mesmo. Além disso, ao invés de escrever ‘problema’ ele escreveu ‘poblema’ em todo o Caso de Uso.”
“Será que ele finge ou é retardado assim mesmo?”
“Eu acho melhor você conversar com o Dario sobre ele. Nós vamos acabar perdendo o projeto por causa do energúmeno.”
“Eu não posso, você sabe disso.”
“Não dá nem pra mandar ele pra outro setor?”
“Não. Dario disse que quer que eu ensine tudo pra ele.”
“Meus pêsames.”
“O que os clientes disseram?”
“Eles estão furiosos, pois eu disse que não dava pra fazer isso que estava especificado.”
“E o que podemos fazer para contornar a situação?”
“Não tenho a mínima idéia.”
Quando a Ana Cláudia não sabe o que fazer, pode ter certeza que a situação não é boa. Acho que vou pagar cinqüenta reais para matarem esse idiota antes que ele me mate. Infelizmente, é bem capaz de ele voltar do além e me acordar todos os dias de manhã me dizendo “Bom dia, David! Espero que seu dia seja ótimo e que você consiga tudo o que deseja!”.
“Vou marcar uma reunião pra acalmar os ânimos deles.”
“Acho melhor você fazer isso. Vai marcar pra hoje?”
“Tá maluca? Hoje é dia de festa!”
“Acho melhor marcar pra hoje.”
“Por que você diz isso?”
“Porque eu liguei pra eles e os caras falaram até em cancelar o contrato.”
“Cancelar o contrato por causa de um caso de uso?”
“É.”
“Esses caras tem merda na cabeça? Vão jogar todo esse dinheiro fora por causa de um erro de português?”
“Não foi um erro de português, e você sabe disso.”
“Eu mato aquele desgraçado do Rodrigo.”
“Vai marcar pra hoje à tarde então?”
“Infelizmente, não tenho alternativa.”
“Não preciso ir, correto?”
“Dessa vez, você vai comigo. Mas não se empolgue muito, pois os caras são um saco.”
“Nada é mais chato do que aturar, oito horas por dia, esse imbecil do Rodrigo.”
“Nisso eu tenho que concordar com você.”
Como pode uma pessoa, que vive numa sociedade como a nossa, não saber que existe sigilo bancário? Esses usuários devem viver no mundo da lua! Na verdade, eu acho que a lua tem uma fábrica de usuários idiotas que, quando ficam prontos, são despachados para as empresas para atormentar todos os analistas de sistemas do mundo. Acho, inclusive, que isso deve ser uma provação divina ou algo do tipo, pois não há explicação para tal fenômeno. Eu devia ter escutado a minha mãe e devia ter virado médico legista. Pelo menos os clientes não reclamam.
Capítulo 20 - Ana Cláudia
Eu tenho uma coisa a confessar: fui eu quem contratou a Ana Cláudia. Eu sei que as pessoas erram e pode ter certeza que aprendi com meu erro. Mas o que eu podia fazer? Ela fez as provas de seleção e conseguiu tirar dez em todas elas. Além disso, eu estava com pressa, precisava de alguém logo, pois o projeto já estava em andamento. Como não tive tempo de entrevistá-la, pedi a analista da RH responsável para contratá-la assim mesmo.
Quando a garota chegou, em seu primeiro dia de trabalho, levei um susto e quase caí da cadeira. Recebi a menina, sem olhar muito pra ela, e fui correndo para o RH tirar satisfações com a analista. Ela me disse que não podia fazer nada e que a culpa foi minha por não ter conversado com a Ana Cláudia antes. Deus sabe como eu rezei para que ela fosse linda e inteligente, mas ele exagerou em uma e esqueceu da outra qualidade. Também, em informática não se pode esperar muito quando o quesito é beleza feminina!
Depois de ouvir todas as regras de ética seguidas pelo setor, eu desisti de argumentar com a analista e fui enfrentar o meu novo problema.
Seguimos para a sala de reunião para uma conversa, só eu e ela. Juro que, no primeiro sorriso, fiquei com medo de um alien sair da boca dela para me matar.
“Queria te pedir desculpas por não ter conseguido te entrevistar.”
“Sem problemas.”
“Fiquei impressionado com as suas notas. Foram as melhores em anos!”
“Minha mãe sempre dizia: ‘Minha filha, se você não tem beleza externa, use a sua inteligência! ’.”
Fiquei pasmo quando ela me disse isso, mas pelo menos ela é uma pessoa realista. E a mãe também.
“Queria pedir desculpas, também, pelo incidente na sua chegada.”
“Deixa isso pra lá. Já estou acostumada.”
“Acostumada?”
“É. As pessoas não gostam muito de olhar pra mim.”
“E como você se sente sobre isso?”
“Normal. Nada me afeta, pois quem eu quero sempre estará do meu lado.”
“Não vai me dizer que você é crente?”
“Crente? Não. Sou católica, mas não muito praticante. Estava falando do meu marido.”
“Não sabia que você era casada. E ele também tinha problemas com a sua aparência?”
“Não. Ele nunca teve.”
“Existem pessoas que não ligam para beleza exterior. Acho isso legal, pois vai contra o que a sociedade acha. Deve ser um cara de personalidade.”
“Não é isso. É que ele é cego.”
Isso explicou tudo.
Depois dessa reunião, fiquei mais a vontade. Já conseguia olhar pra ela tranquilamente. Era só não prestar muita atenção.
Hoje eu fico agradecido por ela estar na minha equipe, pois já me tirou de várias furadas, com suas sacadas repentinas e soluções brilhantes. Penso nela como a minha sucessora, mas não sei se Dario agüentaria ficar mais de cinco minutos em reunião com ela. Afinal de contas, eu continuo achando que um alien vai sair da boca dela um dia.
Capítulo 19 - Colhendo os Louros
Júlia tinha acabado de sair do café e estava sorrindo. Com certeza todos perceberam isso. E quem estava no café, sozinho com ela? Eu! Ou seja, estão todos com inveja, pois estávamos tendo uma conversa agradável e divertida. Pobres mortais.
Voltando do café, voltamos aos e-mails. Já tinha uns cinco do Ricardo, ansioso por saber o que tinha acontecido.
Ricardo: “E aí? Já marcou pra hoje à noite?”.
Gilberto: “Fala ae, seu pastel!”.
David: “Por que a pressa? Vocês estão muito curiosos!”.
É engraçado como homem é fofoqueiro. Acho que, por ser uma sociedade machista, a humanidade estigmatizou a mulher como sendo o ser fofoqueiro, até porque elas não tinham muita coisa pra fazer antigamente. Mas, na verdade, o homem é muito mais curioso que a mulher, principalmente quando se trata de “quem comeu quem” ou “quem está traindo quem”.
Ricardo: “Fala logo, seu viado!”.
Gilberto: “Tô achando que o Ricardo ta querendo subir no muro. Não para de falar em viado um segundo sequer!”.
Ricardo: “Vai se fuder, seu viado de merda!”.
Gilberto: “Eu não disse?”.
David: “Hoje, realmente, está muito difícil conversar com vocês dois.”.
Ricardo: “Voltando ao assunto: marcou ou não com ela?”.
David: “Marcar, assim, diretamente, não. Mas ela me disse que quer me ver na festa.”.
Ricardo: “Vixi! Tem gente que vai comer um cú hoje!”.
Gilberto: “Porra Ricardo, dá pra maneirar um pouco na pornografia? O e-mail tem monitoramento, seu idiota!”.
David: “Ricardo, maneira aí!”.
Ricardo: “Tá bom, foi mal! É que eu fiquei empolgado.”.
David: “Tem uma outra coisa: ela passou a mão no meu rosto e me chamou de fofo.”.
Ricardo: “Puta merda! Com certeza ela quer te dar o cú!”
Gilberto: “Ricardo, dá pra para com essa porra?”.
David: “Pessoal, vou parar agora, pois a feiosa tá vindo falar comigo.”.
Gilberto: “Putz, que diferença... sai de uma Deusa pra falar com o capeta.”.
Ricardo: “Boa sorte pra você! Pensando bem, até que ela dá um caldo. Às vezes fico me imaginando comendo ela de quatro e batendo na cara dela pra ela não virar o rosto pra mim.”.
Gilberto: “Essa foi demais pra mim. Tchau pra vocês, pois eu tenho que trabalhar. Não está dando pra conversar com o Ricardo hoje.”.
David: “Beleza, to indo, mas depois eu volto. Isso se eu sobreviver à filha do curupira.”.
Bom, pelo menos com ela dá pra manter uma conversa normal, bastando, claro, não olhar diretamente para seus olhos. Tenho medo de virar pedra.
Capítulo 18 - A Grande Plano
“Eu vou chegar nela? Tá maluco? Eu sou casado!”
“Porra, e o que tem isso?”
“Como assim o que é que tem? Você tem merda na cabeça? Todo mundo dessa empresa sabe que eu sou casado e muita gente conhece a minha mulher!”
“Tá bom então, o viadinho chega nela então.”
“De qual viadinho você está falando?”
“Do Juliano, porra!”
“E você acha que o Juliano vai mesmo chegar nela?”
“Você acha que ele não vai querer que nosso amigo aqui dê uma bimbada naquela gostosa?”
“Ricardo, acho que você está perdendo a noção. O Juliano nunca vai fazer isso.”
“Então pra que esse viadinho serve então?”
“Dá pra parar de chamar o cara de viadinho?”
“Tá defendendo o macho, tá?”
“Dá pra parar de brigar, vocês dois?”
Tive que intervir na discussão das duas moças. Do jeito que os dois são esquentados, daqui a pouco estão saindo no tapa.
“Ricardo, você chega nela pra eu sentir o clima. Você vai saber o que dizer pra tentar convencê-la a ficar com você.”
“Não sei se consigo. Ainda estou traumatizado desde o último não que recebi dela.”, disse Ricardo.
“Depois chama os outros de viadinho. Bicha traumatizada não dá pra agüentar!”
“Gilberto, vai se catar, vai? E não me encha a porra do saco!”
“Caralho, vocês parecem duas crianças!”
“Beleza então, vamos deixar você agora, ok? Vem Gilberto!”, disse Ricardo, puxando Gilberto pelo braço.
“Hei! Aonde vocês vão?”
O motivo da saída repentina dos dois apareceu na minha frente. Linda e maravilhosa, Júlia vem caminhando com seu sorriso de comercial de pasta de dentes em direção à copa.
“Oi”, disse ela, sorrindo pra mim.
“Hã, oi”
“Tudo bem com você?”
“Claro, agora melhor!”
Não acredito que eu disse a cantada mais velha do universo! Acho que até a minha avó ouviu essa cantada na época que ainda era menina-moça.
“Você é muito fofo, sabia?”
Ela está apertando a minha bochecha! Se ela continuar por mais alguns segundos, vou passar a maior vergonha da minha vida, tamanha a excitação do ser.
“Ficou sem graça?”
“Eu? Não. Claro que não.”
Segundos de silêncio. Quando os dois ficam completamente sem assunto, é um mau sinal.
“E aí? Vai à festa?”, perguntamos em uníssono.
Nós dois estamos rindo! Ela é tão linda... acho que casaria com ela agora, se ela quisesse.
“Eu vou, claro!”
“Vejo você lá, então!”
Ela quer me ver na festa! Será que estou sonhando? Tenho quase certeza que ainda devo estar em casa mordendo aquele travesseiro maldito.
“Beijos, tenho uma reunião agora com o Dario. Vim pegar um café pra não dormir.”, disse ela, sorrindo novamente.
“Vai lá! Boa sorte!”
“É, vou precisar!”, disse ela, sorrindo e passando a mão no meu rosto antes de sair do recinto.
Respira fundo! Respira fundo!
Todos os planetas estão alinhados. Todos os ascendentes estão a meu favor. Não tem como nada dar errado!
É hoje que eu fico famoso nessa empresa!
Capítulo 17 - O Tarado
Ricardo é um cara muito bacana. Solícito ao extremo, sempre está disposto a ajudar quando precisamos. Gosta de sacanear os amigos e não tem papas na língua na hora de expor sua opinião. Se ele não gostar de você, pode ter certeza que você saberá. Ele só tem um único problema: sexo.
O cara completamente tarado. Não pode ver um rabo de saia que já sai correndo atrás. E o pior é que a maioria de suas investidas dá certo, o que faz aumentar seu ego ainda mais. Além disso, ele coleciona filmes pornôs de todos os tipos e nacionalidades. Sabe o nome de todos, inclusive o nome dos “atores”, das “atrizes” e dos diretores. E olha que são muitos!
Em sua casa, os filmes que possui ficam em um dos quartos, com estantes e prateleiras pregadas até o teto. Ele separou todos os filmes na seguinte ordem:
- Nacionalidade
- Distribuidora
- Gênero
- Nome
A seção de filmes alemães é a maior. Tem filme de grávida, com animais, velhas, gordas, anãs e todo tipo de orifício possível. Acho que encontrei um onde os homens só transavam com plantas. Existe ainda uma seção restrita que não gosto nem de mencionar, de tão nojenta. Mas fazer o quê? Tem gosto pra tudo!
Resumindo: se você quiser um filme para tirar aquele atraso, é só falar com o Ricardo que ele te arranja com o que se distrair.
Acho que por ser assim, Ricardo nunca conseguiu ficar mais de seis meses com uma mesma mulher. Ele diz estar sempre procurando a futura ex-senhora Resende. E no meio tempo, procura alguns orifícios para se divertir.
O único troféu que Ricardo ainda não conseguiu conquistar foi Júlia. Ainda bem que ele já se reconheceu derrotado.
Capítulo 16 - O Refúgio
Ricardo, Eu, Juliano e Gilberto já estávamos no café fofocando. Quando esse tipo de coisa acontece, o e-mail já não é o suficiente. Acorda-se, então, o comboio para o café.
“Eu também acho.”, disse Gilberto. Juliano concordou com a cabeça.
“Será mesmo? To ficando nervoso. Acho essa mulher demais pra mim.”
“Deixa de ser viadinho! Vai lá e come ela até você ter que passar pasta d’água!”, disse Ricardo, batendo no meu ombro.
“Será que você consegue dizer uma frase sem besteiras?”, disse Juliano, ficando nervoso com o vocabulário de Ricardo.
“Vai se fuder, seu viado de merda!”
“Ricardo, vai com calma, ok?”
Tive que acalmar os ânimos de Ricardo, pois, às vezes, ele é muito sem noção! Mas daqui a pouco eu conto a história do sujeito.
“David, pelo amor de Deus! Essa mulher era tudo que eu queria comer na minha vida! Peguei todas as mulheres da empresa, menos ela! Ela nunca sequer olhou pra mim! Ela rejeitou uma cantada minha! Isso é quase impossível, mas aconteceu! E como você é meu amigo, você merece pegar aquela mulher, tirar fotos e mostrar para os amigos!”
“Eu concordo com o Ricardo.”, disse Gilberto.
“Eu não vou nem comentar o que ele acabou de dizer. Vou dar o fora, antes que vocês resolvam tramar o seqüestro de alguém.”, disse Juliano.
Juliano saiu da copa com as mãos pro alto. Coitado, ele não agüenta ficar nem cinco minutos conversando com o Ricardo. Os dois nunca se deram bem, pois são completamente diferentes.
“Eu sempre o achei meio viadinho.”
“Ricardo, você acha todo mundo viadinho. Deixa o garoto em paz um pouco, dá pra ser?” disse Gilberto.
“Eu vou ter que beber bastante pra chegar nela.”
“Pode deixar, que isso eu dou um jeito rapidinho. Já tenho uma idéia pra resolver essa sua timidez.”, disse Ricardo, rindo e esfregando as mãos.
Eu só tenho uma coisa a dizer: as idéias de Ricardo nunca são muito boas e sempre deixam a gente na mão. Mas, fazer o quê? Ninguém segura o cara quando o assunto é “fazer um amigo transar”.
Capítulo 15 - E-mails
Ler e-mails é uma tarefa árdua e um excelente modo de passar o tempo. Às vezes, você consegue passar um dia inteiro só fazendo isso. É, também, um modo legal das pessoas saberem ou acharem que você está trabalhando.
Recebo todos os tipos de e-mails imaginários. Depois que virei gerente então, o fluxo de e-mails da minha caixa de entrada praticamente duplicou. Os funcionários da empresa acham que, só porque você virou gerente, você resolverá o problema delas, seja ele qual for. Já recebi e-mail até de uma mulher, funcionária da empresa, pedindo pra eu arranjar um namorado pra filha dela que estava encalhada. Segundo ela, a filha já estava velha demais para ter filhos e, como eu era gerente, eu poderia arranjar um casamento para ela com um dos meus vários subordinados. Não tive coragem de mostrar as opções que tinha abaixo de mim.
Os mais legais, lógico, são os e-mails de piadas, fotos de mulheres peladas e vídeos de sacanagem. Esses dias, recebi um vídeo que se intitulava britadeira atômica. Não vou entrar em detalhes, mas aquele cara não era humano!
Gosto de vídeos de acidentes também, pois adoro imaginar o Dario e o Rodrigo dentro de um dos carros que saem voando e capotam trezentos e vinte e sete vezes antes de cair num rio turbulento e cheio de piranhas.
Agora, as que eu mais gosto, são as mensagens onde alguém está falando mal de alguém da empresa. Eu me divirto com esses e-mails e sempre emito minhas opiniões sarcásticas, só para apimentar a discussão.
Esses dias um sujeito estava perguntando para o Ricardo se ele sabia de alguma coisa da mulher dele, pois estava desconfiado que ela estivesse saindo com alguém da empresa. Coitado. Na mesma hora o Ricardo mandou a mensagem para mim e para mais três pessoas sacaneando o coitado do chifrudo. Também, ele foi perguntar logo para o cara que estava pegando a mulher dele! Eu achei escroto, mas fazer o quê? Alguns nascem para serem otários enquanto, outros, nascem para serem os espertos que zoam os otários.
Hoje é um dia especial: dia de festa! Minha caixa já está com quarenta e sete e-mails novos: vinte e nove com assunto “É Hoje!”, quinze com assunto relacionado à putaria e três de trabalho. Não preciso nem dizer que não vou olhar os de trabalho agora, certo?
Sempre pego o último e-mail com o mesmo assunto para ler, pois ali está todo o bate-papo ocorrido. Começo a ler de baixo pra cima, para entender toda a discussão. Nessa mensagem específica, estavam falando de Júlia. Pobres mortais, eles não tem idéia da onda que vou tirar hoje. Vamos ao e-mail:
Ricardo: “Ae, quero ver quem vai ser homem de chegar na Júlia hoje!”
Gilberto: “Você vai né, garanhão?”.
Roberto: “Deixa de ser viado, Gilberto!”.
Gilberto: “Vai pro inferno!”.
Rodrigo: “Eu vou chegar nela!”.
Ricardo: “Uhuahuahauhauh... você não vai chegar nem perto dela, seu retardado!”.
Rodrigo: “Não te perguntei nada, seu babaca!”
Roberto: “Pessoal, vamos focar no assunto, ok?”.
Rodrigo: “Ok! Mas se ele implicar vou falar de novo!”.
Ricardo: “Quem chamou o Rodrigo na conversa?”.
Rodrigo: “Você só sabe me excluir! Não deixa eu participar de nada!”
Ricardo: “Deve ser porque você é um retardado!”.
Juliano: “Quando vocês falarem algo de útil, eu volto a ler o e-mail, ok?”.
Roberto: “Pessoal, acabei de ver a Júlia! Ela está com um vestido preto minúsculo e uma sandalinha de vagabunda! Sem explicação!”.
Ricardo: “Puta merda! Como eu ainda não a vi?”
Roberto: “Cacete! O Rodrigo tá indo lá falar com ela!”
Ricardo: “Não acredito! Ela virou a cara pra ele e foi embora! Que otário!”.
Roberto: “O que você foi falar com ela, seu maluco?”.
Rodrigo: “Fui perguntar se ela queria ir pro motel comigo.”.
Ricardo: “VOCÊ O QUÊ?!”.
Roberto: “VOCÊ O QUÊ?!”.
Juliano: “VOCÊ O QUÊ?!”.
Eu não acredito. Simplesmente, não consigo acreditar no que o idiota acabou de fazer. Será que ele faz isso sério ou é maluco mesmo?
David: “O que ela disse, Rodrigo?”
Rodrigo: “Se eu te disser, você não vai acreditar!”
Ricardo: “Fala logo, porra!”.
Roberto: “Fala logo!”.
Juliano: “Eu não quero nem saber!”.
Rodrigo: “Ela disse: ‘eu só converso sobre essas coisas fora do trabalho. Além disso, só tem uma pessoa aqui que me interessa.’!”
Pelo visto, a coisa vai ser mais fácil do que eu imaginava.
Capítulo 14 - O Chato
“David!”
Ah, não. Mal sento na minha mesa e lá vem o Rodrigo me encher o saco. Será que ele não consegue ver que estou tentando ler meus e-mails? Posso até fingir que não estou escutando, pois utilizo a técnica do “fone de ouvido mudo”, mas acho que não vai adiantar muito. Ele é bem insistente.
“David!”
Sabe aqueles momentos num filme onde o ator olha pro alto pedindo clemência a Deus, retira o fone de ouvido com certa impaciência e vira para o sujeito que o está chamando com uma pequena grosseria do tipo “o que você quer?”? Pois é, acabei de fazer isso.
“O que você quer?”
“Te dar bom dia!”, disse ele sorrindo com cara de maluco.
“Beleza. Mais alguma coisa?”
“Mas eu nem te dei bom dia ainda!”
“E o que você está esperando?”
“Então tá, lá vai!”
O que eu fiz pra merecer isso? Será que foi aquele gato que coloquei fogo quando eu era pequeno? Acho que estou sendo castigado por isso, só pode ser!
“Bom dia, David! Espero que você tenha um óóóóóóóóótimo dia e que você seja muuuuuuuuito feliz e consiga tuuuuuuuudo que deseja!”
Eu não sei se ele é puxa-saco ou se é retardado, mas ele está sorrindo como um ET saído do filme “Heróis Fora de Órbita”.
“Muito Obrigado!”, disse sendo sarcástico, lógico.
“Que bom que você gostou!”
“Agora volte para a sua baia e continue trabalhando, ok?”
“Eu não posso.”
“Como não pode?”
“Eu preciso te perguntar uma coisa pra mim poder continuar o que estou fazendo.”
Quando Rodrigo está com dúvida em algo, pode ter certeza que será algo que você terá vontade de rir ou, no meu caso, matar o desgraçado por não saber aquilo. Foram tantas perguntas idiotas que já perdi a conta. Às vezes, tenho vontade de perguntar se ele realmente terminou o segundo grau, mas, como superior dele, a ética me manda ficar calado. Outra coisa: “pra mim poder” foi forte. Preciso correr com essa conversa, pois, senão, fico sem ouvido.
“Pergunta logo então!”
“Eu tenho que escrever uma frase no Caso de Uso* e não sei se uso Z ou S em uma palavra que está inserida no contexto.”
“E qual seria essa palavra?”
“Posso dizer a frase toda?”
“Por que você não me diz somente a palavra?”
“Por que ela está inserida no contexto da frase!”
“Mas o que isso tem a ver?”
“Sem a frase, talvez você não entenda a minha dúvida!”
“Então diz logo essa frase!”
“Lá vai: O ator pressiona a opção OK e o Sistema mantém a opção acesa. Esse “acesa” é com S ou com Z?”
A minha vontade era pegar o meu monitor e enfiar na cabeça desse imbecil! Como pode um analista de requisitos não saber escrever acesa? E que porra de frase é essa que ele está colocando no Caso de Uso?
“Vem cá, onde mesmo que você fez faculdade?”
“Na UFRJ.”
“E como você conseguiu entrar lá?”
“Não estou entendendo.”
“Deixa pra lá. É com S mesmo. Você já está terminando?”
“Ainda não. Esta é a terceira frase.”
“Mas você está escrevendo esse caso de uso há duas semanas!”
“Eu sei, mas é que você não estava podendo me atender e a Ana está sempre ocupada, então fiquei parado esperando a oportunidade de te perguntar a minha dúvida.”
“Você ficou o quê?”
“Parado, do verbo sem movimento.”
Estou pensando seriamente em deixar essa profissão. Como posso lidar todos os dias com uma pessoa tão burra? Não vou nem comentar essa última frase porque não vale a pena.
“Você conhece o google?”
“Conheço sim, por quê?”
“Você sabia que a gente consegue encontrar quase tudo nesse site, bastando digitar algumas palavras que tenham a ver com o que você quer procurar?”
“Claro que conheço! Esses dias eu não tinha nada pra fazer, então coloquei o meu nome lá. Achei um monte de coisas a meu respeito, até o número das minhas contas do banco! Legal né?”
“É, realmente, muito legal. Mas se você conhecia a ferramenta, por que não a utilizou para sanar a sua dúvida?”
“O que é sanar?”
“TIRAR! TIRAR A SUA DÚVIDA!”
“Não precisa gritar, chefe! Dá próxima vez eu faço isso então.”
“Se dependesse de mim, não existiria uma próxima vez!”
“Não entendi, chefe.”
“Vai pra sua baia, vai!”
“OK! Não precisa ser grosseiro.”
Tenho que reverter, pois, se ele contar para o Dario da grosseria, ele vai me encher o saco.
“Desculpa, é que eu estou nervoso.”
“Tudo bem. Eu também já fiquei nervoso hoje, pois não consegui achar a tecla para colocar um acento agudo nesse teclado americano. Coisa difícil de encontrar, né?”
“Rodrigo, faça-me um favor: não fale comigo pro resto do dia, OK? Vou ficar muito ocupado e preciso de paz e silêncio.”
“Sem problemas, chefe. Qualquer coisa, pergunto pra Ana.”
“Faça isso.”
Pelo visto a Ana Cláudia ouviu, pois acabou de fazer uma cara feia. Na verdade, ela conseguiu fazer uma cara mais feia do que a cara normal dela, o que era praticamente impossível. Agora que tenho paz, vou voltar aos e-mails.
“Chefe!”
Eu juro que vou procurar o esqueleto daquele gato. Vou mandar alguém exorcizar o espírito do bichano, pois não quero mais sofrer nessa vida.
“Fala Rodrigo.”
“Mandei um e-mail pra você, depois dá uma lida.”
“Obrigado por me avisar!”
“É uma piada! Muito engraçada!”
“Imagino.”
Não dou cinco minutos para ele voltar e perguntar por que eu apaguei o e-mail dele sem ler.
Capítulo 13 - O Senhor Certinho
“Nem me fale, Juliano.”
“Como você pôde sair de casa tão tarde? Poderia ter custado o seu emprego!”
“Eu não tive culpa! Quer dizer, tive um pouco de culpa sim. Mas eu não tenho culpa se o meu despertador fica tão próximo da cama.”
“Se eu estivesse no seu lugar, teria acordado pelo menos umas duas horas antes do horário normal para não ter problemas com horário. Afinal de contas, você sabe que o trânsito do Rio de Janeiro é uma m... droga.”
Vou dizer uma coisa que resume toda a personalidade do Juliano: ele é certinho demais. O cara não fala um palavrão sequer! Na verdade, só teve uma vez que ele disse um “Merda”, durante um problema ocorrido em um sistema em produção. Foi uma coisa tão espontânea, tão “sem querer”, que, quando a palavra saiu de sua boca, o garoto ficou roxo e saiu correndo pro banheiro. Dizem que ele ficou escovando os dentes por uma meia hora, tentando se livrar daquele pecado extremo.
Juliano foi criado pelo avô, que era militar. Vocês têm idéia de como é viver com um sujeito grita com a planta que quer se virar para esquerda até ela se virar para a direita? Pois é, Juliano tem medo de errar até depois que o velho morreu. Eu já falei pra ele que ele vai ficar igual a minha avó, mas ele não me ouve!
Metódico, como nenhum outro, Juliano não se move sem projetar, estimar e realizar. Até para colocar um novo tapete em sua sala, ele desenha tudo no computador: diagrama quais os móveis serão retirados primeiro, desenha o processo de como retirar os móveis, estender o tapete, e colocar os móveis de volta no lugar. Depois de tudo, ele faz um relatório de lições aprendidas e guarda para aperfeiçoar a próxima mudança.
“Essas coisas acontecem. Vou fazer o quê?”
“Comigo não acontecem.”
“Mas, convenhamos, você é meio maluco, né?”
“Já pedi pra você não me chamar de maluco!”
Vou parar de falar, que é melhor. Adoro o Juliano, mas quando ele fica nervoso, fico até com medo. Ele é filho de milico, então deve ter um monte de armas em casa. Vai que ele entra aqui e sai dando tiro em todo mundo? Tô fora!
“Tá certo. Desculpa!”
“Mas e aí, vai apresentar o projeto quando?”
“Não sei. Dario vai marcar de novo.”
“Espero que você seja precavido na próxima vez.”
“Vou tentar. Nesse momento já mudei meu foco. Só penso nessa festa de hoje. Você vai?”
“Acho que vou aparecer lá.”
“Nem acredito! Juliano Ferreira vai à festa da empresa depois de dois anos sem ir?”
“Eu disse que vou dar uma passada lá. Você sabe que não gosto de participar desse tipo de festividade. O povo perde a linha.”
“É só nisso que estou pensando: perder a linha!”
“Você não tem jeito mesmo!”
“Claro que não! Você deveria tentar às vezes.”
“Vou pensar no seu caso. Vou voltar pra minha baia porque tenho que terminar um diagrama. Até mais!”
“Vai lá. Depois a gente se fala!”
Deixa-me ligar o computador, pois tenho que, ao menos, fingir que estou trabalhando. Dia de festa o povo fica ouriçado, ou seja, a caixa de e-mail vai entupir de besteiras e comentários maldosos. Não tem nada melhor pra passar o tempo.
Capítulo 12 - O Esporro e a Sorte
“Desculpa, eu não sabia.”
“Você não sabia a hora da reunião também?”
A mãe do sujeito morre e ele está preocupado com o horário da reunião? Só pode ser maluco!
“Como eu já disse...”.
“Não me interessa as suas desculpas. Já estou cansado delas.”
“Mas...”
“Nada de ‘mas’. Quando eu te coloquei nesse trabalho, achei que estivesse fazendo a coisa certa. Pelo visto me enganei.”.
“Que isso Dario, eu trabalho pra caramba!”
“De que adianta trabalhar muito e não produzir nada?”
“Como assim? Eu entreguei a primeira versão do sistema um dia antes da data estimada! Eu fiquei vários dias até tarde da noite para entregar o prometido!”
“Ficou até tarde porque chega atrasado e não trabalha direito!”
Estou ficando com raiva desse babaca. Eu só não xingo a mãe dele porque ela acabou de morrer! A minha vontade é afogar esse imbecil nesse aquário idiota que ele tanto ama. Agora me diz, pra que um aquário de mil litros pra colocar um peixe? Um mísero peixe! O coitado não deve nem conhecer o outro lado do aquário!
O sujeito está meio abatido. Provavelmente por causa da morte da mãe. Se bem que o cara é tão frio que é bem capaz de ter gostado da velha ter morrido, pois já me disseram que ela tinha um seguro de vida que daria para alimentar uma família de dez pessoas por vinte anos!
“Infelizmente, você tem muita sorte, David. Se o presidente da empresa cliente estivesse aqui e você não, você não precisaria aparecer na sua baia para o resto da sua vida.”
“Estou numa maré boa.”
“Conseguiu terminar a apresentação, pelo menos?”
“Sim, consegui.”
Estou com medo dele. Está falando numa voz arrastada e nem levantou a voz pra mim ainda! Tudo muito estranho.
“Aqui, o pendrive.”, disse, entregando para ele.
“Não está funcionando.”
“Como não?”
“Não está reconhecendo.”
“Não é possível! Deixa-me ver.”
“Além de chegar atrasado, traz um pendrive fodido?”
“Mas eu testei antes de sair de casa!”
Uma das piores coisas que existem é um olhar de reprovação seguido de um tsc tsc tsc. E foi exatamente o que ele fez, segundos antes do telefone tocar. Ele pegou o fone e começou a dizer palavras pequenas, em uma conversa monossilábica. Tirou o telefone da orelha, colocou no gancho e olhou pra mim.
“Acho melhor você jogar na mega-sena hoje.”
“Por quê?”
“Eles desmarcaram a reunião.”
Era tudo que eu precisava ouvir.
Capítulo 11 - A Primeira Gafe
A primeira gafe, da qual eu me lembro, foi com uma professora minha do colégio. A mulher lecionava Inglês e era muito gente boa. Estávamos eu e um amigo conversando com ela sobre casas mal-assombradas.
“A casa, onde eu moro hoje, tem um espírito. Eu já o vi algumas vezes. Ouço barulhos e tal, além de coisas caindo e quebrando.”, disse ela.
“Eu não gosto de conversar sobre isso, me dá calafrios!”, disse Gustavo, o meu amigo.
“Deixa de ser viadinho! Mas, fala Tia, é sério isso mesmo?”, perguntei.
“É sério. Tem um centro espírita ali perto de casa e eles foram fazer uma sessão lá em casa.”
“Gente, vamos mudar de assunto?”, disse Gustavo, já desesperado.
“Mas e ai?”, perguntei, não dando muita bola para Gustavo.
“Eles descobriram que o sujeito morreu na casa e que era tão apegado a ela que não foi para o plano espiritual. Ficou ali.”
“Cacete! Nunca me convide para ir à sua casa, por favor!”, disse Gustavo.
“Eles tentaram convencer o espírito a sair, mas não adiantou. Ele achava que ainda não tinha morrido.”
“E ai? O que você vai fazer?”, perguntei curioso.
“Já fiz! Voltei pra casa da minha mãe, ali em frente ao hospital. Uma de portão branco.”
“Há! Sei qual é. Ali era onde morava um doidinho que ficava socando o portão, não é? Eu ficava com medo de passar ali em frente e aquele doido me agarrar pelo pescoço e me matar.”, disse sorrindo.
“Aquele doido era meu irmão e ele morreu.”, disse ela, olhando pra mim com raiva.
Gustavo quase caiu pra trás. Eu fiquei tão sem graça que nunca mais cheguei perto dela pra conversar sobre nada. Não preciso nem dizer que quase perdi na matéria por causa disso.
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