“Desculpa, eu não sabia.”
“Você não sabia a hora da reunião também?”
A mãe do sujeito morre e ele está preocupado com o horário da reunião? Só pode ser maluco!
“Como eu já disse...”.
“Não me interessa as suas desculpas. Já estou cansado delas.”
“Mas...”
“Nada de ‘mas’. Quando eu te coloquei nesse trabalho, achei que estivesse fazendo a coisa certa. Pelo visto me enganei.”.
“Que isso Dario, eu trabalho pra caramba!”
“De que adianta trabalhar muito e não produzir nada?”
“Como assim? Eu entreguei a primeira versão do sistema um dia antes da data estimada! Eu fiquei vários dias até tarde da noite para entregar o prometido!”
“Ficou até tarde porque chega atrasado e não trabalha direito!”
Estou ficando com raiva desse babaca. Eu só não xingo a mãe dele porque ela acabou de morrer! A minha vontade é afogar esse imbecil nesse aquário idiota que ele tanto ama. Agora me diz, pra que um aquário de mil litros pra colocar um peixe? Um mísero peixe! O coitado não deve nem conhecer o outro lado do aquário!
O sujeito está meio abatido. Provavelmente por causa da morte da mãe. Se bem que o cara é tão frio que é bem capaz de ter gostado da velha ter morrido, pois já me disseram que ela tinha um seguro de vida que daria para alimentar uma família de dez pessoas por vinte anos!
“Infelizmente, você tem muita sorte, David. Se o presidente da empresa cliente estivesse aqui e você não, você não precisaria aparecer na sua baia para o resto da sua vida.”
“Estou numa maré boa.”
“Conseguiu terminar a apresentação, pelo menos?”
“Sim, consegui.”
Estou com medo dele. Está falando numa voz arrastada e nem levantou a voz pra mim ainda! Tudo muito estranho.
“Aqui, o pendrive.”, disse, entregando para ele.
“Não está funcionando.”
“Como não?”
“Não está reconhecendo.”
“Não é possível! Deixa-me ver.”
“Além de chegar atrasado, traz um pendrive fodido?”
“Mas eu testei antes de sair de casa!”
Uma das piores coisas que existem é um olhar de reprovação seguido de um tsc tsc tsc. E foi exatamente o que ele fez, segundos antes do telefone tocar. Ele pegou o fone e começou a dizer palavras pequenas, em uma conversa monossilábica. Tirou o telefone da orelha, colocou no gancho e olhou pra mim.
“Acho melhor você jogar na mega-sena hoje.”
“Por quê?”
“Eles desmarcaram a reunião.”
Era tudo que eu precisava ouvir.
Capítulo 12 - O Esporro e a Sorte
Capítulo 11 - A Primeira Gafe
A primeira gafe, da qual eu me lembro, foi com uma professora minha do colégio. A mulher lecionava Inglês e era muito gente boa. Estávamos eu e um amigo conversando com ela sobre casas mal-assombradas.
“A casa, onde eu moro hoje, tem um espírito. Eu já o vi algumas vezes. Ouço barulhos e tal, além de coisas caindo e quebrando.”, disse ela.
“Eu não gosto de conversar sobre isso, me dá calafrios!”, disse Gustavo, o meu amigo.
“Deixa de ser viadinho! Mas, fala Tia, é sério isso mesmo?”, perguntei.
“É sério. Tem um centro espírita ali perto de casa e eles foram fazer uma sessão lá em casa.”
“Gente, vamos mudar de assunto?”, disse Gustavo, já desesperado.
“Mas e ai?”, perguntei, não dando muita bola para Gustavo.
“Eles descobriram que o sujeito morreu na casa e que era tão apegado a ela que não foi para o plano espiritual. Ficou ali.”
“Cacete! Nunca me convide para ir à sua casa, por favor!”, disse Gustavo.
“Eles tentaram convencer o espírito a sair, mas não adiantou. Ele achava que ainda não tinha morrido.”
“E ai? O que você vai fazer?”, perguntei curioso.
“Já fiz! Voltei pra casa da minha mãe, ali em frente ao hospital. Uma de portão branco.”
“Há! Sei qual é. Ali era onde morava um doidinho que ficava socando o portão, não é? Eu ficava com medo de passar ali em frente e aquele doido me agarrar pelo pescoço e me matar.”, disse sorrindo.
“Aquele doido era meu irmão e ele morreu.”, disse ela, olhando pra mim com raiva.
Gustavo quase caiu pra trás. Eu fiquei tão sem graça que nunca mais cheguei perto dela pra conversar sobre nada. Não preciso nem dizer que quase perdi na matéria por causa disso.
Capítulo 10 - Sem meias palavras
Primeira tática a se usar com um chefe chato e com cara feia é, simplesmente, não o deixar falar. “Saia atropelando!” é o meu lema.
“Oi Dario. Peguei um engarrafamento monstruoso hoje. Andava dois metros a cada dez minutos, você acredita?! O prefeito tem que fazer alguma coisa porque, senão, daqui a pouco, está igual a São Paulo! E o pior é que o cara do rádio só dá dica furada. Diz que a perimetral está livre quando está toda engarrafada! Já me ferrei com essas dicas de rádio várias vezes, mas eu sempre acabo acreditando neles de novo. De qualquer jeito, não posso mudar o itinerário do ônibus. Mas e aí? Os caras ainda não chegaram, né? A Regina me disse. Ela pediu para eu vir aqui direto falar com você. Aliás, como vai a sua mãe, já melhorou?”
“Ela morreu hoje de manhã.”
Pelo visto, hoje será um dia muito ruim.
