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* Caso de Uso = documento que contém as regras de uma determinada funcionalidade de um sistema. Deve ser sempre atualizado quando de uma mudança no requisito para garantir a consistencia da documentação do sistema. Claro que isso nunca acontece, já que você está correndo porque o prazo apertou e, no final das contas, não aguenta mais alterar aquele documento maldito de tanta mudança que o cliente pede...
“David!”
Ah, não. Mal sento na minha mesa e lá vem o Rodrigo me encher o saco. Será que ele não consegue ver que estou tentando ler meus e-mails? Posso até fingir que não estou escutando, pois utilizo a técnica do “fone de ouvido mudo”, mas acho que não vai adiantar muito. Ele é bem insistente.
“David!”
Sabe aqueles momentos num filme onde o ator olha pro alto pedindo clemência a Deus, retira o fone de ouvido com certa impaciência e vira para o sujeito que o está chamando com uma pequena grosseria do tipo “o que você quer?”? Pois é, acabei de fazer isso.
“O que você quer?”
“Te dar bom dia!”, disse ele sorrindo com cara de maluco.
“Beleza. Mais alguma coisa?”
“Mas eu nem te dei bom dia ainda!”
“E o que você está esperando?”
“Então tá, lá vai!”
O que eu fiz pra merecer isso? Será que foi aquele gato que coloquei fogo quando eu era pequeno? Acho que estou sendo castigado por isso, só pode ser!
“Bom dia, David! Espero que você tenha um óóóóóóóóótimo dia e que você seja muuuuuuuuito feliz e consiga tuuuuuuuudo que deseja!”
Eu não sei se ele é puxa-saco ou se é retardado, mas ele está sorrindo como um ET saído do filme “Heróis Fora de Órbita”.
“Muito Obrigado!”, disse sendo sarcástico, lógico.
“Que bom que você gostou!”
“Agora volte para a sua baia e continue trabalhando, ok?”
“Eu não posso.”
“Como não pode?”
“Eu preciso te perguntar uma coisa pra mim poder continuar o que estou fazendo.”
Quando Rodrigo está com dúvida em algo, pode ter certeza que será algo que você terá vontade de rir ou, no meu caso, matar o desgraçado por não saber aquilo. Foram tantas perguntas idiotas que já perdi a conta. Às vezes, tenho vontade de perguntar se ele realmente terminou o segundo grau, mas, como superior dele, a ética me manda ficar calado. Outra coisa: “pra mim poder” foi forte. Preciso correr com essa conversa, pois, senão, fico sem ouvido.
“Pergunta logo então!”
“Eu tenho que escrever uma frase no Caso de Uso* e não sei se uso Z ou S em uma palavra que está inserida no contexto.”
“E qual seria essa palavra?”
“Posso dizer a frase toda?”
“Por que você não me diz somente a palavra?”
“Por que ela está inserida no contexto da frase!”
“Mas o que isso tem a ver?”
“Sem a frase, talvez você não entenda a minha dúvida!”
“Então diz logo essa frase!”
“Lá vai: O ator pressiona a opção OK e o Sistema mantém a opção acesa. Esse “acesa” é com S ou com Z?”
A minha vontade era pegar o meu monitor e enfiar na cabeça desse imbecil! Como pode um analista de requisitos não saber escrever acesa? E que porra de frase é essa que ele está colocando no Caso de Uso?
“Vem cá, onde mesmo que você fez faculdade?”
“Na UFRJ.”
“E como você conseguiu entrar lá?”
“Não estou entendendo.”
“Deixa pra lá. É com S mesmo. Você já está terminando?”
“Ainda não. Esta é a terceira frase.”
“Mas você está escrevendo esse caso de uso há duas semanas!”
“Eu sei, mas é que você não estava podendo me atender e a Ana está sempre ocupada, então fiquei parado esperando a oportunidade de te perguntar a minha dúvida.”
“Você ficou o quê?”
“Parado, do verbo sem movimento.”
Estou pensando seriamente em deixar essa profissão. Como posso lidar todos os dias com uma pessoa tão burra? Não vou nem comentar essa última frase porque não vale a pena.
“Você conhece o google?”
“Conheço sim, por quê?”
“Você sabia que a gente consegue encontrar quase tudo nesse site, bastando digitar algumas palavras que tenham a ver com o que você quer procurar?”
“Claro que conheço! Esses dias eu não tinha nada pra fazer, então coloquei o meu nome lá. Achei um monte de coisas a meu respeito, até o número das minhas contas do banco! Legal né?”
“É, realmente, muito legal. Mas se você conhecia a ferramenta, por que não a utilizou para sanar a sua dúvida?”
“O que é sanar?”
“TIRAR! TIRAR A SUA DÚVIDA!”
“Não precisa gritar, chefe! Dá próxima vez eu faço isso então.”
“Se dependesse de mim, não existiria uma próxima vez!”
“Não entendi, chefe.”
“Vai pra sua baia, vai!”
“OK! Não precisa ser grosseiro.”
Tenho que reverter, pois, se ele contar para o Dario da grosseria, ele vai me encher o saco.
“Desculpa, é que eu estou nervoso.”
“Tudo bem. Eu também já fiquei nervoso hoje, pois não consegui achar a tecla para colocar um acento agudo nesse teclado americano. Coisa difícil de encontrar, né?”
“Rodrigo, faça-me um favor: não fale comigo pro resto do dia, OK? Vou ficar muito ocupado e preciso de paz e silêncio.”
“Sem problemas, chefe. Qualquer coisa, pergunto pra Ana.”
“Faça isso.”
Pelo visto a Ana Cláudia ouviu, pois acabou de fazer uma cara feia. Na verdade, ela conseguiu fazer uma cara mais feia do que a cara normal dela, o que era praticamente impossível. Agora que tenho paz, vou voltar aos e-mails.
“Chefe!”
Eu juro que vou procurar o esqueleto daquele gato. Vou mandar alguém exorcizar o espírito do bichano, pois não quero mais sofrer nessa vida.
“Fala Rodrigo.”
“Mandei um e-mail pra você, depois dá uma lida.”
“Obrigado por me avisar!”
“É uma piada! Muito engraçada!”
“Imagino.”
Não dou cinco minutos para ele voltar e perguntar por que eu apaguei o e-mail dele sem ler.
