Capítulo 28 - A Mancada

Vamos aos e-mails do almoço.

Gilberto: “E ai? Onde vai ser o rango?”.
David: “Por mim, pode ser em qualquer lugar!”.
Ricardo: “Vamos num lugar ali na Buenos Aires que têm umas paradas gostosas pra comer... hehehe”.
Gilberto: “Meu Deus, lá vem o tarado!”.
Juliano: “Vamos ali, naquele do filé com queijo!”.
Ricardo: “O viadinho tá com desejo, tá?”.
Juliano: “Vou ignorar seu comentário idiota.”.
Gilberto: “Ali é muito caro, vocês não acham? E o atendimento ta caindo cada dia mais.”.
Gilberto: “Cacete! David, dá um jeito no Ricardo, por favor?”
Ricardo: “Olha só, tá defendendo o namorado! Pra quando é o filho de vocês?”.
David: “Ricardo, chega! Já tá enchendo o saco essas suas palhaçadas!”
Ricardo: “Tá bom, desculpa!”.
Juliano: “Podemos voltar ao assunto do almoço?”.
David: “Por mim pode ser ali mesmo. O bom é que é perto e depois dá pra passar na livraria.”.
Gilberto: “Beleza então. Mas amanhã vamos almoçar em um lugar mais barato, ok? Minha mulher já está reclamando que eu estou gastando muito com comida na hora do almoço.”.
Juliano: “A sua mulher controla o dinheiro que você gasta com comida?”.
Gilberto: “A minha mulher controla todo o meu dinheiro! Inclusive, o meu salário vai pra conta dela.”.
Ricardo: “Existe idiota pra tudo hoje em dia.”.
David: “Isso é sério?”.
Gilberto: “É sério. Não posso nem comprar uma bala no sinal que ela já vem reclamando. Depois que ela ficou grávida, ficou paranóica. Ela acha que não vamos ter dinheiro suficiente para cuidar bem dos nossos filhos.”.
David: “Como assim ‘nossos filhos’?”.
Ricardo: “Eu não sabia que vocês já tinham um filho.”.
Gilberto: “Não temos. Ela está grávida de gêmeos.”.
David: “Ae papai! Meus parabéns!”.
Ricardo: “Hahahaha! Tá fudido em dobro!”.
Gilberto: “Obrigado pela força, Ricardo. Você está ajudando muito!”.
David: “Fica assim não! Vai dar tudo certo!”.
Juliano: “Então, fica marcado pra hoje depois da festa, tá linda? Beijos!”.
David: “Que porra é essa?”.
Gilberto: “???”.
Ricardo: “A bichona tá pegando alguém e a gente não sabe?”.
Juliano: “Merda! Respondi o e-mail errado!”.

Juliano, um palavrão e uma gafe. O almoço vai ser longo hoje.

Capítulo 27 - A Segunda Melhor Hora do Dia

Hora do almoço!

A calorosa discussão do local do almoço sempre começa cedo, normalmente na hora que o primeiro do grupo chega à empresa. O recorde registrado, até o momento, é de Gilberto. Ele virou a noite trabalhando e, às quatro e meia da manhã, enviou um e-mail para todos perguntando aonde seria a sagrada refeição do dia.

No centro do Rio de Janeiro, você encontra todo tipo de restaurante: do mais barato, aos mais caros e sofisticados.

Existem algumas pessoas que insistem em se aventurar em alguns buracos para economizar no final do mês. Estes, em compensação, gastam o que não queriam gastar com remédios e consultas, já que não se sabe a procedência e o modo de preparo da comida desses lugares. Quando você olhar um restaurante com uma placa escrita “coma o que quiser por 3,99”, só entre se você possuir um estômago de aço e um fígado mutante.

Algumas outras pessoas, que gostam de aparecer, freqüentam os restaurantes mais caros, onde um pratinho de comida safado e bonitinho custa em média vinte e nove reais. Conheço algumas da empresa, que não tem onde caírem mortas, que almoçam nesses lugares todos os dias. Como elas não têm dinheiro, acabam por dividir esses pratos miserentos, dizendo aos quatro ventos que estão de regime. Provavelmente, elas chegam em casa e batem um prato de arroz, feijão e carne de segunda para suprir as necessidades, já que acabam comendo cerca de cento e cinqüenta gramas de alimento. A aparência é tudo hoje em dia!

Nós, como pessoas normais e famintas, comemos nos intermediários, pois a comida não é ruim e o preço é mais em conta. Escolhemos, sempre, um restaurante mais perto do trabalho, pois assim não precisamos andar muito. Andar de barriga cheia no sol do Rio de Janeiro é, como dizem os cariocas, sinistro!

Mesmo pagando um pouco mais do que nos pés-sujos da vida, às vezes, nos deparamos com algumas lagartas na salada ou creme de leite estragado no molho do strogonoff. Mas aí é só jogar pro lado e continuar comendo. Afinal, o que não mata, engorda!

Capítulo 26 - Segundo Confronto

Se eu pudesse, voltaria para os meus e-mails, mas o Rodrigo está vindo pra cá, provavelmente para me encher a paciência. Será que ele ouviu minha conversa?

“Fala Rodrigo, o que você quer agora?”
“Nada, só queria saber o que estava acontecendo.”
“Não foi nada.”
“Como não foi nada? Você estava nervoso no telefone. Aconteceu alguma coisa?”
“Não aconteceu nada.”
“Tem certeza? Não quer se abrir comigo?”

Existe coisa mais irritante do que uma pessoa intrometida? Ele não tinha nem que estar prestando atenção à minha conversa!

“Não, não quero.”
“Tem certeza?”
“Cacete, Rodrigo! Já disse que não foi nada! Dá pra me deixar em paz?”
“Ok! Desculpa! Quando quiser conversar, estou aqui do lado.”

Não entendi porque ele piscou após dizer essa frase. Será que ele acha que, dando uma de psicólogo pra cima de mim, ele vai conseguir algum aumento? Se for isso, ele é mais idiota do que eu pensava.

“Rodrigo! Preciso te fazer uma pergunta.”
“Diga chefe!”
“Não precisa me chamar de chefe, eu já te disse isso algumas vezes.”
“Desculpa! É que eu acho mais legal.”

Vou ignorar essa última frase.

“Por que diabos você enviou um caso de uso para o cliente sem passar pela Ana Cláudia?”
“Eu achei que já estava preparado para fazer algo sozinho. Além disso, não agüento mais ela ficar alterando tudo que eu faço. Fica parecendo que não sei fazer nada direito!”

Bingo! Infelizmente não posso confirmar essa suspeita.

“A gente não tinha combinado?”
“Tinha. Mas eu tinha certeza de que esse tinha sido o melhor caso de uso que eu já tinha escrevido até hoje!”

“Escrevido”? Isso é o nome de algum sabonete novo?

“Imagino.”
“Imagina o quê?”
“Nada não. Agora, por que você escreveu que a gente poderia consultar o saldo das pessoas nos bancos? Você não sabia que isso era proibido?”
“Sabia, mas eu li num site que dava pra fazer e era bem fácil.”
“Mas que site é esse?”
“Acho que era algo parecido com www.hackerecia.com.”
“Você tá maluco?”
“Não que eu saiba, por quê?”
“Isso é um site de invasão! Não podemos nos basear nele!”
“Mas você disse pra ‘mim’ procurar na internet por facilidades para os clientes!”
“Eu sei que eu disse, mas não num site de hacker! Era pra entrar num fórum de programação ou coisa do tipo!”
“Eu apenas segui suas ordens. Era pra procurar na internet, então eu procurei!”

O que eu faço com um sujeito desses? A minha vontade é jogá-lo pela janela, como fazemos com os papeis antigos no final de ano!

“Você tem idéia de quanto transtorno isso causou?”
“Acredito que ninguém tenha reclamado. Ninguém me ligou pra reclamar até agora e toda vez eles ligam. Na verdade, ligam até bastante”.
“Eu tive que marcar uma reunião hoje à tarde para acalmar os ânimos daquele povo!”
“Reunião? Eu posso participar?”
“A Ana vai comigo e não posso levar mais de uma pessoa.”
“Além de me corrigir em tudo, agora toma o meu lugar nas reuniões.”

Ele está fazendo cara de choro. Será que se eu der um tapão no pescoço dele, ele começa a chorar de verdade?

“Rodrigo, me faz um favor: vai pra sua baia e não saia de lá até eu ir embora.”
“Mas chefe, faltam quinze minutos pro almoço!”
“Faz o que eu estou pedindo, por favor?”
“Ok! Mas acho que eu vou ficar com fome.”
“Quando você ficar com fome, você pode levantar, ok?”
“Tá bom. Você que manda.”

Ele não moveu um músculo. Continua parado, a minha frente, olhando pra mim com cara de idiota. Será que se eu jogar uma bolinha de papel ele sai correndo atrás? Só tenho medo dele gostar da brincadeira.

“Está aqui ainda por quê?”
“Ok! Já estou indo!”

Finalmente, me livrei desse maluco. Por enquanto.