É isso...

ATUALIZADO!!!

Pessoal,

Depois de muito tempo sem passar por aqui, queria dizer uma novidade.
Como as editoras hoje em dia são muito chatas e só publicam os livros de quem aparece na mídia ou é famoso lá fora, resolvi publicar o livro em um site de impressão por demanda.

Se alguém gostou do texto, quer presentear alguém que não consegue ler no monitor ou mesmo ter o livro em casa para ler no banheiro, segue abaixo o link de venda:


E ajudem a divulgar, por favor!

Abraços!

Eduardo Martins

Obs.: Ah! Preparem-se, pois a história de David irá continuar. Como já é moda, estou preparando uma trilogia! ;-)

Só pra adiantar o título da segunda parte:

Relatos de um Analista: O Caso do Maníaco dos Cofrinhos

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Bom, acabou... rs

Acho que ficou bem legal, eu pelo menos ri sozinho algumas vezes escrevendo esse texto.
Para os que gostaram, espero que divulguem para que os outros possam ler também.
Para os que não gostaram, tudo bem... ninguém é perfeito.

Irei começar a enviar esse texto compilado para as editoras, então, por favor, torçam por mim.

Estou preparando um novo blog, que será divulgado aqui, com o meu outro livro, bem diferente deste. É um suspense, passado no Rio de Janeiro, o meu primeiro livro. Gostei muito de escrevê-lo e espero que vocês também gostem.

Agradeço a todos que leram os capítulos da saga de David e esperem por novidades.

Abraços!

Eduardo Martins
Escritor em Crise
Obs.: Por favor, comentem!!

Capítulo 77 - No Outro Dia de Manhã

Sabe quando o despertador toca e você simplesmente o ignora? É exatamente isso que estou fazendo. O despertador não me interessa, nada me interessa. Além disso, hoje é sábado. Não era nem para ele ter tocado! Não quero abrir os olhos, pois tenho certeza de que não vou encontrá-la ao meu lado e isso tudo terá sido um sonho, um sonho muito bom e maravilhoso.

As posições, a duração, foi tudo perfeito. Nunca pensei que eu fosse tão viril assim. Ela não se cansava, não se cansava! Adormecemos juntos, ao mesmo tempo, como almas gêmeas, complementos um do outro. Foi uma experiência arrebatadora, perfeita. Acho que não tenho mais adjetivos para caracterizar tudo que passei. Era um tipo de sexo tântrico, nunca dantes realizado. Algo novo e impossível de se descrever.

Vou abrir os olhos e dar de cara com aqueles olhos verdes hipnotizantes, aquele rosto perfeito e seu sorriso branco, seguidos de um “Bom dia, meu amor!” numa voz doce e suave.

“Bom dia!”, disse, me virando para abraçá-la.

Infelizmente, alegria de pobre dura pouco.

Ao me virar para abraçá-la, não encontrei ninguém ao meu lado, apenas meu travesseiro babado.

O grito de Joana ecoou pelo ambiente. Será que Júlia se matou na minha sala? Se sim, será que foi por que ela ficou apaixonada demais e achou que não conseguiria viver sem mim? Ou pior, foi por que ela não gostou da noite, entrou em depressão e se matou por não ter feito a coisa certa? Isso vai me dar dor de cabeça.

“Quem fez isso?”, gritou Joana, adentrando o meu quarto.
“Isso o quê?”
“Destruíram tudo!”
“Tudo o quê?”
“Você é cego ou iditota? Alguém picotou todo o meu material de trabalho! Sabe quanto custa esse espartilho?”

Saber eu não sei, mas pelo estado da coisa, acho que ela não vai conseguir usar isso de novo.

“Você viu a Júlia por aí?”
“Quem?!”
“Júlia. A mulher que estava comigo.”
“Eu não acredito!”
“Não acredita em quê?”

Num ataque de fúria, Joana pulou em cima de mim e começou a me bater. Eu sei que não fazemos isso há algum tempo, mas acho que ela não está em suas melhores condições mentais. Eu só não entendi aonde eu entro na história e porque eu estou apanhando.

“Dá pra parar com essa porra?!”, gritei, tirando ela de cima de mim.
“Eu te odeio! Eu te odeio!”
“Isso eu já sei, agora dá pra explicar?”
“Ela te usou, seu idiota!”
“Do que você está falando?”
“Vocês homens são um bando de imbecis!”

Ela saiu correndo do quarto, chorando, e se trancou no banheiro. Pra falar a verdade, eu não estou entendendo muita coisa. Será que ela está achando que fui eu? Ou pior, será que ela está acusando Júlia de ter feito isso?

“Joana!”, disse, já na porta do banheiro.
“Saia daqui, seu imbecil!”

Realmente, só de espiar o quarto dela, deu pra perceber que o estrago foi grande. Tem roupa espalhada por todos os lados, quase todas picotadas. Imagina comprar isso tudo de novo?

“Você acha que foi Júlia?”
“Quem mais poderia ser, seu idiota?”
“Mas por que ela faria isso?”
“Eu roubei o melhor cliente dela!”

Conversa entre duas pessoas com uma porta no meio é no mínimo estranho. Às vezes você não consegue ouvir direito o que a outra pessoa diz, e, às vezes, você finge não ter escutado só pra pensar no que dizer logo em seguida. Tipo bate-papo na internet.

“Como assim roubou?”

Ela não respondeu e eu fiquei confuso agora. Vou deixar ela chorando e vou voltar a dormir. Quem sabe eu consigo sonhar com a minha deusa?

Deitando novamente na cama onde tudo aconteceu. Esse travesseiro está com o cheiro dela e... um papel?! Que papel amarelo é esse? Com certeza isso não é meu, pois eu odeio amarelo. Deve ser de Júlia, dizendo que me ama e que vamos ser felizes para todo o sempre.

Adorei a nossa noite, foi algo fantástico, muito bom mesmo. Desculpe-me por ter saído sem falar nada, mas o compromisso era importante. É um cliente com muito dinheiro, e paga muito bem, por isso não posso perdê-lo também. Depois que a vagabunda da sua irmã roubou o meu melhor cliente, fica difícil perder um cliente assim. Ah! Avisa pra ela que não se mexe com Júlia Toledo, ok? Por isso deixei uma surpresinha pra ela.

Adorei tudo em você. Muito vigoroso e tem uma pegada boa, gostosa.
Espero que possamos sair mais algumas vezes. É só marcar!

Beijos!
Jú.

PS: a conta para depósito é 003124-4, agência 154, Banco do Brasil. O Valor é R$ 600,00. Te dei um desconto de 50%.

Tempo para raciocinar. Ela é puta?! O cara que ela perdeu era um cliente e a minha irmã que roubou o infeliz?! Eu fui só um brinquedo nas mãos de uma pessoa vingativa?! Fala sério! Fiquei sem esposa, sem filhos, sem dinheiro no banco e com uma dor de cabeça por pelo menos seis meses (leia-se Joana reclamando no meu ouvido). Eu juro que, segunda-feira, eu mato a Regininha!
FIM

Capítulo 76 - O Pé

Com o carro estacionado perfeitamente torto, caminhamos para o elevador, um pouco distantes um do outro. Ela continua com uma cara estranha. Será que ela vai desistir?

“Tudo bem com você?”, perguntei, pressionando o botão do meu andar.
“Claro que sim.”
“Você está com uma cara estranha.”
“Não é nada.”
“Você quer continuar? Se quiser podemos fazer isso outro dia.”

Não acredito que acabei de dizer isso!

“Quero. Eu preciso disso, depois de tudo.”
“Tudo bem.”

Será que ela quer me fazer de objeto sexual e depois me jogar fora? Será que sou apenas um brinquedo? Será que ela só quer me usar? Até que não seria tão ruim.

“Não pense que estou te usando.”

Ela lê mentes!

“Não estou pensando isso.”
“Eu gosto de você.”
“Eu também gosto de você. Na verdade, eu e a torcida do Flamengo.”
“Você é engraçado.”, disse ela sorrindo, “E muito bonito também. Espanta-me você ainda ser solteiro.”.
“É que eu não encontrei a pessoa certa ainda, eu acho.”

Meu Deus! Faça com que eu fique quieto e pare de falar asneiras pelo menos até as três da manhã!

“É aqui”, disse, mostrando a porta do apartamento.

Para o meu espanto, ao abrir a porta, me deparei com uma casa arrumada e limpa. Hoje é sexta-feira! Dia de diarista! Não acredito que estou com tanta sorte assim!

“Sente-se. Vou pegar alguma coisa pra gente beber.”

Agora estou em apuros. Não deve ter nada nessa casa para beber, a não ser água ou algum refrigerante sem gás! Será que ofereço um café? Só se for para ela jogar na minha cara e me chamar de estúpido. Essa cozinha não tem nada!

Um vinho! Eu ganhei um vinho ano passado na churrascaria que fomos almoçar no final do ano! Ele deve estar escondido em algum lugar dessa despensa. Arroz, feijão, Trakinas, Trakinas, Trakinas, Trakinas... não é possível que Joana coma tanto biscoito! Esse maldito vinho deve estar no meio das garrafas.

Refrigerante diet, Refrigerante normal, Refrigerante Light, Cerveja... Cerveja! Mas está quente, essa merda! Como vou oferecer cerveja quente para ela? Será que se eu colocar um gelo fica bom? É capaz de dar caganeira quando a gente começar a transar. Vai ser como colocar bala de menta em garrafa de refrigerante. Não quero nem imaginar!

Lembro de ter colocado na geladeira. Será que está lá?

Água, água, torta, presunto, queijo podre. Tenho que lembrar de fazer uma limpeza nessa geladeira. Gelatina, frango, Vinho! Achei o desgraçado! E está gelado! Nem acredito! Agora as taças!

“Você gosta de vinho tin...”

Sabe aqueles momentos em que você olha para alguma coisa e leva um susto, deixando escapar qualquer coisa que esteja em suas mãos? Foi o que aconteceu.

Ela já estava sem o vestido, deitada no sofá, olhando para mim. Um espartilho azul claro cobria e torneava seu corpo estonteante. Uma meia-calça de mesma cor estava presa a pequenos prendedores, ligando-a ao espartilho. O cabelo solto e lindo escorria por seus ombros. A minha boca permaneceu aberta e só saí do transe quando senti o sangue escorrendo por entre os dedos de meu pé. Os copos tinham quebrado e cortado a minha pele, bem acima do dedão. Tinha que acontecer alguma coisa errada, não é?

“Você se cortou? Desculpa!”
“Não foi culpa sua, claro.”
“Você tem uma caixinha de primeiros socorros? Posso fazer um curativo para você.”
“Não precisa se incomodar. Eu mesmo posso fazer isso.”
“Eu já fiz curso de enfermagem. Faço isso em dois segundos e com garantia de permanência do curativo, mesmo com atritos constantes.”

Gostei da idéia dos atritos constantes.

“Onde está a caixa?”
“Está no banheiro, dentro do armário.”
“Vou pegar. Fique aí, quietinho, ok?”
“Não vou me mexer.”

Ela se levantou e foi andando para o banheiro. A calcinha minúscula quase não aparecia. Como ela rebola! Eu já estou preparado, pronto para a guerra!

“Levante o pé para que eu possa limpá-lo, antes de fazer o curativo.”

Levantei o pé e coloquei-o em cima da toalha de Joana. Júlia, lógico, não sabia de quem era a toalha. Com certeza, aquela demonstração de amor de Joana hoje a tarde irá desaparecer quando ela colocar o olho em seu pertence, completamente sujo de sangue.

Estou impressionado com a delicadeza dela. É perfeita, a mulher da minha vida. Não quero deixá-la nunca mais. Vou envelhecer ao seu lado, olhando para esses olhos verdes e dizendo “Te amo” de cinco em cinco minutos.

“Pronto.”
“Tem certeza de que não vai sair ou sangrar?”
“Não tenho, não. Eu estava brincando.”
“Mas e aí?”
“Por precaução, sente-se aí e deixa que eu faço o serviço.”

Começamos no sofá, terminamos na cama. Não vou dar detalhes. Só preciso dizer que foi a coisa mais incrível do mundo. Acho que depois disso, vou passar a acreditar em você, meu Deus, de tanto que eu te chamo!

Capítulo 75 - Lembranças da Primeira Quase Transa

Nunca tive muita sorte com esse lance de levar mulher pra casa. Sempre acontece alguma coisa, como: o chuveiro quebrar na hora de tomar banho com a garota; a menina retirar de suas costas uma roupa completamente imunda que estava em cima da cama; alguém aparecendo para uma visita surpresa; entre outras desventuras.

Ainda me lembro bem da primeira vez que tentei levar uma menina para a minha casa, quando ainda morava no interior com a minha mãe. Ela tinha viajado em excursão com algumas amigas e Joana já morava em Niterói. Eu estava aguardando por isso há bastante tempo e, na mesma hora que a minha mãe saiu de casa, eu, prontamente, liguei para uma menina que estava me dando mole. A garota chegou em alguns minutos, estes intermináveis! Eu era adolescente, o que explicava um pouco da ansiedade.

A recebi com uma cerveja choca (eu não sabia que estava choca, pois não bebia muito!) e um pote de amendoim. Sempre me disseram que amendoim era bom para a ereção e eu sempre achei isso uma idiotice. Nesse dia, claro, eu confirmei a minha suspeita de que, realmente, era uma idiotice.

Depois de abrir algumas outras milhares de cervejas, encontrei uma que não estivesse ruim, para o meu alívio. Peguei mais alguns petiscos e fomos assistir TV na sala.

Coloquei um filme bem picante, com cenas de nudez, mas sem sexo explícito. O filme era horrível, mas serviu para o que eu queria. Em pouco tempo, a garota, começou a levantar a saia e a dizer que estava com calor. Vendo que a coisa toda estava ficando boa, me entupi de amendoim, esperando um efeito mais rápido.

A garota começou a roçar a perna em mim e eu comecei a passar a mão na perna dela. De supetão, ela subiu em mim e começou a me beijar, mesmo cheio de amendoins na boca. Os amendoins voavam da minha boca à medida que ela enfiava ainda mais fundo a sua língua. Ela estava ávida por sexo e eu desesperado, quase sufocando com a porra do amendoim na garganta. Ela não tirava a boca da minha e eu, entupido, não conseguia respirar. Eu já estava ficando roxo e sem forças, quando ela desistiu e deitou no sofá, me chamando para continuar.

Eu cuspi o amendoim no chão e recuperei o ar. Ela ficou olhando para mim, como se nada estivesse acontecendo, me chamando com o dedo indicador e mordendo o canto esquerdo do lábio inferior. Nesse momento ela já estava sem roupas.

Desesperado, como de costume, retirei a minha roupa e fiquei olhando para baixo, esperando uma resposta do bendito, que nem se mexia. Fiquei mexendo nele, olhando para aquela garota sem roupas e nada. Para completar o vexame, minha mãe entrou pela porta dos fundos, sem fazer um barulho sequer, pegou um remédio na despensa, colocou numa colher e foi me procurar. O que ela encontra na sala? Uma mulher nua, um rapaz de quinze anos brocha e um monte de amendoim mastigado grudado em seu tapete. Nunca mais comi amendoim na minha vida.

Depois de alguns meses, voltei a falar com a minha mãe. Ela me disse que fez o ônibus voltar, pois sabia que eu não ia tomar o remédio na hora certa. Eu dei uma bronca nela e pedi para que nunca mais fizesse isso novamente. Sentimental como nenhuma outra, ela começou a chorar e a dizer que eu não a amava mais. Passei mais alguns dias revertendo a situação. Afinal de contas, eu não era tão idiota de ficar brigado com a minha mãe por muito tempo. Ela que pagava as minhas contas!

Esse foi o vexame do século e a garota nunca mais olhou pra mim. Pelo menos ela não contou pra ninguém, pois ela não podia fazer isso. O Pastor da igreja dela não deixava.

Capítulo 74 - Criança Carente

Depois de algumas freadas bruscas e alguns motoristas nervosos me xingando, consegui pegar o jeito do carro. E por sinal, que carro!

O bicho nem sentia meu pé, normalmente pesado, apenas continuava respondendo, como se nada estivesse acontecendo. Atingi, fácil, os duzentos quilômetros por hora na perimetral e um pouco mais na ponte. Na descida do vão central cheguei aos duzentos e cinqüenta, bem longe do limite do carro, que era trezentos e vinte. Fiquei com medo e diminuí. Júlia não parecia incomodada com aquela velocidade toda.

“Você gosta de velocidade, não é?”
“Gosto um pouco, mas não tive muitas oportunidades de dirigir carros possantes. E os que dirigi não chegam nem aos pés desse aqui.”
“Gosto de velocidade também, por isso comprei esse carro.”
“Ele deve ter sido caro.”
“E foi.”

Como uma mulher que trabalha na minha empresa possui um carro desses? Nem se eu trabalhasse a minha vida inteira, ganhando o que eu ganho, teria dinheiro para gastar em um carro desses!
Ela parou e ficou olhando para o lado, com um olhar triste. Parece que o carro a fez lembrar de algo. Estávamos chegando à praça do pedágio.

“Aconteceu alguma coisa?”
“Lembranças, nada mais.”
“Entendo.”
“Mas são águas passadas. Agora encontrei alguém.”
“Eu não sei o que dizer.”
“É passado, mas não interessa mais.”

Ela deve estar se lembrando do antigo namorado. Talvez ele seja muito rico e tenha dado esse carro de presente para ela! Eu ficaria triste também se eu perdesse um namorado rico assim.
Tenho que parecer atencioso. Mulher adora homem atencioso, homem que ouve seus problemas diários ou problemas mais sérios. Esse é um bom momento para atacar!

“Você não quer conversar sobre isso?”
“Acho que não. Não vamos estragar a nossa noite, certo?”
“Certo!”

Se ela não quer conversar sobre isso, quem sou eu para dizer algo. Pelo menos fiz minha parte.

Capítulo 73 - Comentário Indiscreto

“Pra ser sincero, dirigi apenas uma vez.”

Eu tinha que falar a verdade, não podia mentir para a mulher com quem eu vou casar e ter filhos!

“Não é muito difícil, basta colocar na posição D e acelerar.”
“Realmente não parece muito difícil.”

Vamos lá! Posição D e acelerar! O carro é tão silencioso que não percebi que ele já estava ligado.

“Carro bem silencioso.”
“Só o carro. A dona já não é muito silenciosa.”

Sem comentários.

Capítulo 72 - A História do Carro Automático

Certa vez, conheci uma garota numa noitada bem interessante. Saímos algumas e ela estava se apaixonando por mim, o que é ruim. Mulher que se apaixona rápido é sempre perigosa, mas fui levando, até porque ela era bem gostosinha.

Um dia, num sábado, ela me convidou para ir a um casamento de uma amiga. Eu não conhecia ninguém na festa, só Juliana (esse era o nome da garota) e muito mal.

Era uma festa clássica, com ternos e longos desfilando pelo salão ornamentado e bem iluminado. Tinha um bolo maior do que eu e dois bonequinhos representando o casal em situações engraçadinhas (isso está virando moda). No caso deles, a noiva estava em pé, com cara de feliz e, o noivo, com cara de desesperado, todo amarrado, sendo puxado pelos pés pela noiva e com um controle de Playstation nas mãos. Fiquei imaginando os bonecos do meu casamento: o noivo implorando para a noiva não dar um tiro na minha CPU. Muito engraçadinho, mas desesperador!
Fomos para a última mesa, bem no canto e bem longe de todos. Mesmo assim, estávamos muito bem servidos. Eram tantos garçons que, os mesmos, se degladiavam para servir uma mesa. Parecia até garçom de boteco da lapa.

Depois de encher o rabo de comida, começamos a beber cerveja, pois não consigo beber uísque, que era a outra bebida que estavam servindo. Após alguns copos, Juliana começou a me encher o saco para ir para a pista de dança. Não gosto de dançar e já estava tempo suficiente com ela para dizer não para essas coisas. Eu disse e ela ficou puta. Foi sozinha para a pista e eu fiquei sentado, olhando para o povo, me distraindo.

Uma mulher, já coroa, sentou-se à mesa ao lado e começou a olhar para mim. Ela estava muito bem vestida, com pulseiras e colares chamativos e, aparentemente, de ouro. Ou seja, era rica.

Eu fiquei meio sem-graça, até porque ela parecia ter a mesma idade da minha mãe. Tentei desviar dos olhares, mas não conseguia. Ela não parava. Aquilo tudo já estava me irritando, quando ela puxou assunto comigo.

“Oi”, disse ela.
“Olá.”
“Você não conhece ninguém aqui, não é?”
“Como você sabe disso?”
“É só olhar para você.”

Ela tirou uma carteira de cigarros da pequena bolsa e começou a fumar um cigarro comprido e com cheiro enjoativo.

“Você está sozinho?”, perguntou ela.
“Não. Estou com a minha namorada.”

Como achei que ela não ia entender o termo ficante, tive que dizer que ela era minha namorada.

“É aquela ali, de cabelo ruivo?”
“É sim.”
“Ela não parece te dar muita atenção.”
“Eu não quis dançar. Por isso ela está lá sozinha.”
“Ela não está sozinha.”

Juliana estava dançando com um sujeito, provavelmente um amigo antigo. Pelo menos era o que eu esperava.

“Deve ser algum amigo.”
“Imagino que sim.”, disse ela, sorrindo.

O garçom passou com uma bebida desconhecida, pelo menos para mim. Era uma taça fina e comprida e o líquido borbulhava lá dentro. Ela pegou uma taça e perguntou se eu queria uma. Eu tive que aceitar.

“Gostoso isso. O que é?”
“Prosseco.”
“Muito bom.”
“Só não beba muito. Ela pega rápido.”

Dali pra frente, foi só prosseco. A bebida era boa e descia que era uma beleza. Era algo energizante e me deixava alegre, feliz e disposto. Fiquei conversando com aquela mulher e não demorou muito para eu estar no meio da pista de dança.

O garçom ficava triste quando via meu copo vazio e enchia o bendito novamente. Eu já estava louco, dançando com todas as mulheres da festa, sem distinção de cor ou idade. A essa altura, eu não tinha a menor idéia da onde estava Juliana. Pra dizer a verdade, não me interessava muito também. Para completar a festa, entrou a bateria da Viradouro, contagiando todo mundo. Nunca sambei tanto na minha vida.

Depois de algum tempo e algumas paqueradas de algumas senhoras, fiquei cansado e voltei para a minha mesa. A mulher ainda estava lá, fumando.

“Está tudo bem com você?”, perguntou ela.
“Estou ótimo!”, disse, com a língua enrolada.
“Ainda está com energia sobrando?”
“Muita energia!”
“Quer gastar essa energia em outro lugar?”
“Só se for agora.”

Saímos do meio da multidão, a caminho do pátio onde os carros estavam estacionados. Eu estava completamente bêbado, mas tentei fingir que estava bem. Pena que nunca fui muito bom com interpretações.

Chegamos ao carro, após tropeçar em alguns paralelepípedos. Eu fiquei olhando para aquele Honda Fit, vermelho berrante, esperando que ele viesse me atacar. Assisti muito “O Ataque dos tomates assassinos” quando criança e tinha certeza de que aquilo era o chefe deles.

A mulher parou ao lado do carro, na porta do carona, e jogou a chave para mim. Eu permaneci parado, não entendendo muito bem.

“Você dirige.”
“Ok.”

Quando entrei no carro, levei um susto: era câmbio automático. Agora, imagina eu, bêbado, dirigindo um carro automático, sem ter a mínima idéia de como fazer isso? Entrei em pânico.

Acabei caindo na besteira de não contar para ela o meu pequeno segredo e fui, a trancos e barrancos, dirigindo para a saída do clube. No caminho, encontrei Juliana atracada com o maluco que ela estava dançando. Nem liguei muito, pois não gostava muito dela.

Depois de algumas barbeiragens, a mulher, lógico, percebeu que eu não sabia dirigir aquilo e ficou apreensiva, sempre se agarrando ao descanso de braço da porta.

Quando chegamos ao túnel que vai de Botafogo para Copacabana, antes do Rio Sul, um carro freou na minha frente, bruscamente. Procurei a embreagem e pisei no freio. Estávamos em alta velocidade e pisar no freio não era a coisa certa a se fazer naquele momento. Foi então que viramos uma bola de pinball, batendo de um lado ao outro do túnel. Ela não parava de gritar e eu de apertar o freio e o acelerador ao mesmo tempo, piorando ainda mais a situação. Quando paramos, o carro estava destruído e eu morrendo de vontade de vomitar. Saí do carro e descarreguei todo aquele pró-seco, enquanto a mulher me xingava dizendo que o seu marido ia ficar louco. Permaneci sentado, esperando a polícia chegar, além do marido furioso.

A ambulância chegou primeiro, me levando para o hospital. Estava na cara que eu precisava de uma dose de glicose na veia. A mulher eu nunca mais vi. Acho que esqueceram de pegar meu nome, por isso não entrei no processo e no Boletim de Ocorrência. Menos mal, pois prefiro tomar glicose a enfrentar marido corno.

Capítulo 71 - O Preparatório

O caminho para o estacionamento foi rápido. Ela continuou me puxando pelo braço, como se estivesse desesperada com alguma coisa. Não sei se era falta de sexo, mas aquilo não era muito normal. Pelo menos é o que eu acho. Só não entendi o porquê de ser na minha casa. Será que é algum tipo de fetiche que ela gosta? Algo do tipo: “oi, eu não te conheço direito, mas vamos transar na sua casa estranha, pois tenho mais tesão assim?”. Ainda bem que Joana trabalha a noite.

“Você tem certeza que quer ir para minha casa? Podemos ficar em algum lugar por aqui.”
“Tem algum problema com a sua casa?”
“Não! Quer dizer, a minha irmã mora comigo.”
“E ela vai atrapalhar?”
“Ela trabalha a noite. Não vai atrapalhar.”
“Ela trabalha a noite?”
“É. Ela é promoter.”

Eu não podia contar pra ela que minha irmã é puta! Imagina se ela é da igreja ou algo parecido? Se bem que ela nem me conhece e já está indo pra cama comigo, então não pode ser da igreja. Pelo menos, eu acho.

“Promoter?”
“É. Promove festas.”
“Eu sei o que é promoter.”

Mancada! Ela deve estar pensando que eu acho que ela é burra. Não vai nem me deixar entrar no carro!

“Desculpe-me, não foi minha intenção.”

Ela parou, olhou pra mim e passou a mão no meu rosto. Ficou olhando por um tempo e sorriu. Foi se aproximando da minha orelha. Eu quase descarreguei a arma ali mesmo, no meio do estacionamento.

“Não precisa se desculpar, meu lindo!”

Afastou-se e me deu um beijo. Um beijo! O beijo mais gostoso e vitorioso do mundo! Movimentos perfeitos de língua e boca. Estou extasiado, perplexo e feliz. São tantos sentimentos juntos que não sei distinguir exatamente o que eu estou sentindo. Ela pegou os meus braços e colocou envolta de seu corpo, pedindo um amasso. Eu tive que responder a altura.

Levantei sua perna esquerda e a encostei em um dos carros próximos. Estávamos nos roçando como se nunca tivéssemos feito isso antes. Mais um fetiche será realizado: transar sob um carro em um estacionamento! Eu sonho com isso desde que vi o meu primeiro filme com aqueles cinemas abertos, onde você entra com o seu carro e esquece o filme para transar loucamente com a mulher ao seu lado.

Ela está me apertando contra seu corpo, pedindo mais e ao mesmo tempo dizendo “não, por favor! É proibido!”. Essa sensação é imensamente prazerosa. A mulher quer e você quer dar, mas ela sabe que isso é proibido, o que torna a situação ainda melhor.

Eu estou nas nuvens, pulando em colchões de algodão, como uma criança feliz que acabou de ganhar um brinquedo, há tanto tempo desejado.

“Pára! Não podemos fazer isso aqui!”

Eu não acredito que ela parou agora!

“Por que não? Não tem ninguém aqui!”
“Vamos para sua casa.”
“Você não pode me deixar aqui assim! Eu estou em desespero!”
“Eu estou vendo. Mas será melhor na sua casa, pode ter certeza.”

Ela me afastou e endireitou sua roupa. Pegou um espelho na bolsa e retocou o batom, além de tirar uma mancha da bochecha. Eu fiquei ali, parado, com a calça estourando. É a segunda vez que alguém me deixa assim hoje. Não é possível que eu seja tão azarado!

“Vamos! Você dirige meu carro enquanto eu vou fazendo brincadeiras com você.”, disse ela sorrindo.

Ela jogou a chave do carro e eu quase deixei cair. Era uma chave estranha que eu nunca tinha visto antes. Praticamente um quadrado. Ela foi andando na frente e parou ao lado de um carro importado prata, com um símbolo enorme da Mercedes na frente. Era um carro esportivo e muito bonito, bem ao estilo dos carros do James Bond. Ela ficou parada, esperando eu abrir as portas. E quem disse que eu sabia mexer naquilo?

“Aperte o botão.”
“Qual botão?”
“O único que tem aí!”

Pra mim, essa chave tem no mínimo uns trinta e cinco botões, mas um único “pressionável”. O carro fez um barulho e destravou as portas. Ela entrou e ficou me esperando. Eu, claro, fiquei babando mais um pouco a máquina que eu estava prestes a dirigir. Afinal, não é todo dia que um pobre coitado como eu, tem a oportunidade de dirigir um carro desses.

“Coloque a chave aqui.”, disse ela, apontando para o pequeno orifício no painel.

Coloquei a chave devagar, com medo de estragar alguma coisa. Olhei para o câmbio e me assustei ao ver que ele não era manual. Eu só dirigi carro automático uma vez na vida e foi uma experiência traumática!

“Você já dirigiu um carro automático antes?”

Acho que ela percebeu a minha cara de desespero.

Capítulo 70 - Adeus aos Companheiros

“Fechem as bocas, por favor.”, disse.
“Cara, só de olhar eu gozei umas quinze vezes.”, disse Gilberto.
“Cadê o Ricardo?”
“Foi correndo para um canto, tentar comer a espinhuda. Você sabe como ele é, acha que está perdendo a competição.”
“E aí? Preparado?”, perguntou Roberto.
“Acho que não.”
“Que viadinho!”, disse Ricardo, chegando com uma cerveja na mão.

Todos olharam para ele e perceberam que havia algo estranho.

“Seu zíper está aberto.”, apontou Juliano.
“Bianca quis visitar o Bráulio.”, disse ele, sorrindo.
“O nome da espinhuda é Bianca? Nem sabia.”, disse Roberto.
“Tem uma pilastra ali atrás super-escondida. Joguei uma máscara facial na cara dela e a coitada foi correndo pro banheiro. Uma das meninas do RH perguntou pra ela se ela estava gripada!”, disse Ricardo, caindo na gargalhada.
“Que nojo!”, disse Juliano.
“Você é muito viadinho mesmo!”, disse Ricardo.
“Ricardo, menos.”, disse Roberto.
“Vamos ao que interessa: vocês vão para algum lugar?”, perguntou Gilberto.
“Ela quer ir para a minha casa.”
“Para sua casa?!”, indagaram todos.
“É!”
“Mas por que você não vai pra um motel aqui perto?”, perguntou Roberto.
“Ela disse que precisa estar em Niterói amanhã cedo e que seria ótimo para ela.”
“Estranho, não acha?”, perguntou Gilberto.
“Para de jogar areia na fogueira do cara!”, disse Ricardo.
“Eu só achei estranho!”, disse Gilberto.
“Eu também achei, mas fazer o quê?”, disse.
“Eu vou carregar a espinhuda pra casa também. Não vou gastar dinheiro com ela.”, disse Ricardo.
“Faz você muito bem.”, disse Roberto.
“Lá vem sua futura esposa.”, disse Juliano, apontando para Júlia, saindo do banheiro.

Ela pegou a minha mão e me carregou para fora do grupo. Fomos direto para a saída. Só deu tempo de eu olhar para trás e ver os caras, mais felizes do que eu, torcendo por mim. Eu não posso decepcioná-los.

Capítulo 69 - O Chamado

“Meu irmão, você tirou a sorte grande!”, comentou Ricardo.
“O que você está fazendo aqui? Cadê a espinhuda?”
“A cara dela tava sangrando, então ela foi ao banheiro.”, disse Ricardo.
“É sério isso?”
“Claro que não, porra!”
“Eu sei lá! A mulher parece um terreno lunar, cheia de crateras!”
“Para de zoar! Ela tem um rabo maravilhoso!”
“É, a gente viu daqui.”, comentou Gilberto.
“Mas conta o que ela disse!”, pediu Roberto.

Eu contei tudo. O detalhe da roupa suada, o que ela disse e o quase beijo. Não podia faltar nenhum detalhe, inclusive o inconveniente do garçom.

“A mulher tá feroz! Toda vez que te encontra ela te dá uma cantada assim?”, comentou Juliano.
“Pois é, tô ficando até com medo.”
“Temos que continuar com o plano!”, comentou Ricardo.
“Por que você não vai lá dançar com ela?”, perguntou Gilberto.
“Eu não sei dançar nada!”

Começou o funk novamente. Parece que o povo do marketing pediu para o DJ, pois ninguém agüentava mais ouvir “Uma barata chamada Kafka”.

“Agora você não tem escolha. Qualquer um sabe dançar funk!”
“Eu não sei dançar nada!”

Olhei para cara do Ricardo e vi que ele pretendia alguma coisa. Não gosto desses olhares de maluco dele.

“Vai aprender agora.”

Os quatro começaram a me empurrar em direção ao salão. Aquele som forte do funk carioca parecia explodir na minha cabeça. Eles me deixaram, a contragosto, bem no meio, de frente para Júlia, que logo tratou de me puxar pra perto dela. Quando percebi, já estava rebolando até o chão.
A minha perna roçava nas partes íntimas de Júlia, me fazendo ir ao extremo. Eu olhava para os lados e, de relance, via as pessoas comentando. Ela me puxou pra bem perto e se virou, esfregando as nádegas fartas da minha barriga até meu joelho. É lógico que não agüentei e fiquei de barraca armada, para minha vergonha.
Num susto, ela se virou e ficou com o rosto colado no meu, nariz com nariz. Ela continuava dançando e rebolando e eu parado, feito uma estátua. Ela começou a falar, sem tirar os olhos dos meus.

“Não vejo a hora de sair daqui.”, disse ela, mordendo os lábios.
“Eu saio na hora que você quiser.”
“Vamos agora então.”
“Pra onde?”
“Pra sua casa.”
“Pra minha casa?”
“É!”
“Mas eu moro em Niterói!”
“Eu preciso estar em Niterói amanhã cedo. Vai ser ótimo pra mim.”
“Mas eu não tenho carro. Estou a pé!”
“Vamos no meu carro. Você tem garagem?”
“Tenho.”
“Ótimo.”

Ela se virou mais uma vez, esfregando suas costas suadas no meu peito. Todos já estavam de boca aberta.

“Vamos agora porque eu estou a ponto de bala!”, disse.
“Eu preciso ir ao banheiro primeiro.”
“Então vai logo!”

Ela olhou para mim e parou de dançar. Deu mais um sorriso e seguiu para o banheiro feminino.Eu fui para perto da galera, que mantinha a boca acerta.

Capítulo 68 - A Minha Primeira Conquista (Leia-se Tentativa)

As lembranças das minhas conquistas, ao longo desses anos, não são muito agradáveis. É lógico que, à medida que vai ficando mais velho, você vai pegando experiência e, com isso, fica mais confiante. Mas, mesmo assim, você, com certeza, ficará sem respostas ou em um beco sem saída em algumas de suas conquistas.

A minha primeira investida foi quando eu tinha quinze anos. O nome dela era Rebeca e era uma das meninas mais bonitas da minha escola, só pra variar. Eu já gostava dela desde os doze anos, mas só criei coragem aos quinze. Foram três anos de sofrimento, só pra chegar numa garota. O resultado? Levei um não, claro.

Estávamos numa festinha do pessoal do colégio, na casa de um dos malucos da turma, o Alfredo. O pai do Alfredo tinha tanto dinheiro que ele brincava de montar castelo de cartas com notas de cem dólares. A casa do cara era enorme, bem parecida com a do meu sonho de hoje de manhã, mas sem as árvores imponentes e os passarinhos cantantes.

Os pais dele tinham viajado e, como todo garoto de quinze anos que quer aparecer, ele convidou todo mundo para uma festa em sua casa. Era tudo de graça, por isso, todos foram, inclusive os mais humildes. Era tanta comida e bebida, que metade do povo passou mal, todos com indigestão.

A garota estava lá e eu bem longe dela. Tinha medo, vergonha, nervoso, qualquer sintoma de um pré-beijo na garota dos seus sonhos. Bebi algumas cervejas e criei coragem.

“Oi Rebeca.”
“Oi David. Aconteceu alguma coisa?”
“Não, nada.”
“Então o que foi?”
“Eu queria conversar com você, só isso.”
“Pode falar.”
“Poderíamos ir ali atrás?”
“Por quê?”
“É particular. Não queria falar na frente de suas amigas.”

As amigas começaram a rir e eu comecei a ficar ainda mais nervoso.

“Pode falar aqui mesmo. Não tenho segredos.”
“Tá bom, então.”

Eu não tinha outro jeito, senão travar. Tentava falar, mas não conseguia. As garotas começaram a soltar risadinhas e Rebeca percebeu que aquilo estava me incomodando, me impedindo de falar. Foi então que ela resolveu ir comigo para mais longe, onde as garotas não pudessem ver.

“Pode falar, David.”
“Eu...”
“Pode falar!”
“Eu... estou apaixonado por você.”
“Você o quê?”
“Eu queria te beijar.”
“Olha David, não me leve a mal, mas você é muito novo e eu estou em outra.”
“Mas somos da mesma idade!”
“Garotas da nossa idade gostam de garotos mais velhos. Eu até acho você bonitinho, mas estou atrás de mais maturidade.”
“Tudo bem, então. Desculpe te incomodar.”
“Não fique triste, ok? Tenho certeza que você encontrará alguém pra te fazer feliz.”
“Podemos ser amigos, pelo menos?”
“Claro que sim.”

Ela saiu de perto de mim e voltou para as amigas. Fiquei olhando de longe ela contando tudo o que eu tinha acabado de dizer e as amigas gargalhando. Pelo menos ela ficou meio brava, pedindo que as amigas parassem com a brincadeira. Eu desencanei, parti para outras.

Depois de algum tempo, fiquei sabendo que Rebeca engravidou de um capitão de futebol do time da cidade. Ela ficou na merda, pois ele não assumiu o filho e foi jogar no exterior. Chegando lá, o sujeito morreu num acidente de trem. Tudo muito trágico, mas engraçado ao mesmo tempo. Pelo menos, na época, ela foi legal comigo.

O tempo foi passando, fui ficando mais velho e levando alguns foras. Com um acerto aqui e outro erro ali, fui procurando um padrão a seguir. Hoje consegui manter um padrão, mas nunca pensei em elevá-lo tanto assim, como com Júlia. Talvez seja hora de novas mudanças.

Capítulo 67 - O Primeiro Round

Quando a cerveja é de graça, seja qual e onde for a festa, o balcão sempre estará cheio de pinguços amontoados, impedindo a sua passagem. A dificuldade em uma boate, por exemplo, chega a ser absurda, tamanho o esforço para se chegar ao objetivo. Hoje, claro, não está diferente.

“Me dá uma cerveja, por favor!”

Pedi ao garçom, que me ignorou. Será que ele não foi com a minha cara ou está dando preferência para aquele grupinho do marketing ali do outro lado.

“Garçom! Uma cerveja!”
“Uma pra mim também.”

Júlia apareceu ao meu lado, suando. As gotas de suor escorriam por entre seus seios fartos, dando certo brilho a sua pele queimada de sol. Ela balançou o cabelo tentando se refrescar do calor insuportável que devia estar sentindo. Eu fiquei imóvel, claro, tentando buscar palavras para expressar o tesão que eu estava sentindo. Melhor ficar calado para não falar besteira.

“O gato comeu sua língua?”
“Ainda não.”
“Que bom, pois você vai precisar dela.”

Uma cantada dessa vinda de uma mulher maravilhosa assim, só pode ser brincadeira. Tenho certeza de que os malucos pagaram essa mulher pra fazer isso ou então ainda estou sonhando, agarrando meu travesseiro babado.

“Você demorou, pensei que não vinha mais.”
“Eu tive um problema no trabalho.”
“Eu imaginei. Que bom que você veio.”

Fiquei completamente sem assunto. E isso é ruim, muito ruim. Eu não posso travar com uma mulher dessas. Eu não travei com a coelha lá fora e nem com a mulher do ônibus, por que travaria com ela? Respira fundo! Acalme-se!

“Eu não perderia essa festa por nada.”
“E qual seria o motivo?”
“Você sabe qual o motivo.”
“Não sei não, me fala?”

Ela já estava muito próxima de mim, quase encostando o rosto molhado no meu. Lógico que tinha que acontecer alguma coisa para atrapalhar nosso beijo.

“A cerveja de vocês!”, disse o garçom, colocando as cervejas no balcão.

Ela se afastou de mim por causa desse garçom imbecil! Eu estava prestes a quebrar a primeira regra. E eu estava muito feliz por isso!

“Vou dançar mais um pouquinho, tá?”, disse ela, colocando a mão no meu queixo.
“Vai lá. Mas não se cansa muito, pois você vai precisar de fôlego mais tarde.”
“Pode deixar que, isso, eu tenho de sobra.”

Ela foi embora e meu coração está batendo mais rápido do que coelho trepando. Entrei em transe, pensando em todos os momentos maravilhosos que irei passar com ela hoje à noite. Coisas nunca antes imaginadas. Estou em êxtase permanente e ninguém vai conseguir tirar isso de mim. Não hoje.

Quando voltei a mim, percebi que os quatro estavam em grupo, olhando pra mim, de bocas abertas. Uma indireta certeira e uma resposta positiva. É a primeira vez que isso me acontece.

Capítulo 66 - O Idiota e o Energúmeno

“O que está acontecendo?”, perguntou Dario.
“Nada não.”, disse, antes que Rodrigo abrisse a boca.

Rodrigo ficou olhando para mim, ainda com a boca aberta. Não sei se ele estava pensando em algo ou ainda processando o que eu tinha acabado de fazer.

“Está acontecendo alguma coisa, Rodrigo?”, perguntou Dario, me ignorando.
“David não quer me perdoar pelo que fiz hoje.”

Ele tinha que abrir a boca para falar merda.

“Eu disse que ia tentar e provavelmente estaria tudo bem pela manhã.”
“Mas o que você fez, Digo?”
“Eu...”
“Ele não fez nada.”, disse, antes que ele terminasse sua frase.
“Você poderia deixar o Rodrigo falar?”
“Ok!”, disse, desistindo.
“Eu apaguei a base da avaliação de desempenho. Mas foi sem querer!”
“Você o quê?”

Dario olhou sério para Rodrigo. Até eu fiquei assustado agora. Será que ele vai levar um esporro por isso? Eu ia adorar se isso acontecesse.

“Eu apaguei a base, mas foi sem querer!”
“Como você fez isso?”
“Ele esqueceu de colocar um filtro na query, só isso.”, disse.
“Eu te perguntei alguma coisa?”, indagou Dario.

Eu tive que ficar quieto e esperar a conversa dos dois terminar.

“Eu esqueci de colocar um filtro na query.”
“E por que você fez isso?”
“Por que o David não me ensinou direito.”

Filho da mãe! Está colocando a culpa pela sua burrice em mim!

“Eu precisava te ensinar isso?”
“Eu disse pra você que queria que você ensinasse tudo a ele!”
“Mas isso é muito básico!”
“Não interessa!”
“Mas...”
“Amanhã nós conversamos sobre isso. Vou tentar tomar um pouco mais de uísque, pois já está acabando.”
“Vou com você, tio!”
“Então venha e aproveite a festa. Amanhã eu dou um jeito no seu tutor.”

Os dois sumiram no meio da multidão. Rodrigo seguiu seu mestre, olhando para trás, como se soubesse que tinha falado merda. Alguns segundos depois, Gilberto já estava próximo novamente.

“O que aconteceu?”
“Eu mato o Rodrigo!”
“O que ele disse?”
“Ele me queimou com o Dario! É mole?”
“Você não tinha que conversar com Dario na festa. Você feriu a regra número dois!”
“Não senhor! Ele chegou para falar comigo, não eu com ele!”
“Olhando por esse lado, talvez você tenha razão.”

Estou com muita raiva daquele imbecil. Depois de tudo que eu fiz! Tentei proteger o cara e ele me apunhala pelas costas! Preciso de uma cerveja.

“E a Ana? Não vem?”, perguntou Gilberto, mudando de assunto.
“Ana Cláudia nunca participou das festas”

Uma olhada geral, para analisar o ambiente e não estou vendo Júlia no recinto. Será que ela já foi embora? Deve ter me visto conversando com o Dario. Com certeza ela acha que eu sou um pela-saco.

“Vou pegar uma cerveja.”
“Seu copo está furado?”, perguntou Gilberto, rindo.
“Espero que sim.”, disse, me afastando.

Capítulo 65 - Chefes e Festas

Conversar com alguém superior, hierarquicamente falando, a você em uma festa, é um crime imperdoável. Os que se renderam ao lado negro da força, não retornaram. Ficaram perdidos no mundo, procurando um saco amigo para puxar. Meio Gollum sem o anel, em Senhor dos Anéis, meio criança sem seu deamon, em Fronteiras do Universo. Eu só sei que os caras ficam desnorteados. Pelo menos assim, eles não enchem o meu saco.

Roberto tentou, certa vez, ir para o lado de lá. A justificativa era a necessidade de um aumento, pois estava difícil sustentar tantas mulheres ao mesmo tempo. Tentamos convence-lo de que existiam outras maneiras de conseguir um aumento, mas ele não queria saber, estava determinado.

Escolheu um dos seus chefes e partiu para cima. Tentou algumas semanas, mas não conseguiu se aproximar do sujeito. Desistiu desse e foi tentar algo com um que ele achava ser mais fácil.
Roberto caiu na besteira de escolher, como foco, Marcela, uma dos diretores e grande concorrente de Ana Cláudia como mulher mais feia do mundo. O problema foi que Roberto considerou que, jogando o seu charme para cima da mulher, ele conseguiria algo rapidamente, talvez até um lugar na diretoria.

Ele estava determinado, afinal, o que precisava era só dar um trato e pronto, o aumento estava garantido. Marcou a data para o ataque: o dia da festa da empresa.

Chegamos cedo e começamos a beber. Tentamos convencê-lo de não ferir a segunda regra, ainda mais com Leonardo, mas ele não queria saber, não ouvia nossos conselhos.

Aproximou-se do grupo dos diretores e chamou Marcela, carregando-a para um canto. Conversaram por alguns momentos, sorrindo um para o outro. Nós não conseguíamos ouvir nada, apenas ver os afagos discretos e as risadas escandalosas. Não estávamos acreditando naquilo, pois o cara estava se entregando por dinheiro!

Os dois ficaram, um tempo, se olhando e depois seguiram em direção ao banheiro masculino. Nós, como bons amigos, fomos para perto da porta, tentar guardar aquele ato insano.

Infelizmente, as coisas não acontecem como esperado e, no momento em que houve uma dispersão do grupo (estavam todos sem cerveja!), Dario, como sempre inconveniente, entrou no banheiro para mijar e pegou os dois se agarrando.

Roberto começou a gritar feito um louco dizendo que Marcela estava agarrando ele à força. Ela ficou puta da vida e começou a desmentir Roberto, que continuava gritando. Nós entramos no banheiro alguns momentos depois e encontramos Marcela, segurada pelos seguranças, e Roberto, perto de Dario, com uma cara de transtornado. Estava claro que sua expressão era de medo. Medo de perder o emprego.

Dario ficou do lado de Roberto e demitiu Marcela da empresa, talvez não só pelo ocorrido, mas também pelo incomodo de ter aquela mulher feia nas reuniões de diretoria. Roberto ficou sem o aumento, mas continuou empregado. Ele prometeu nunca mais ferir a regra número dois. Pena que ninguém acredita no que ele diz.

Capítulo 64 - Eis que Surge o Protetor do Infeliz

Encontrar gente indesejável em festa é brochante. Você está lá, feliz, alegre, falando mal dos outros e chega o sujeito para espalhar o bolinho de amigos formados, normalmente para falar com apenas uma das pessoas do grupo. Nesse caso específico, o bucha era eu.

“Oi Chefe.”

Sabe quando você vai conversar com uma criança pequena e ela fica cheia de vergonha, abaixando a cabeça e rodando os pés? É o que Rodrigo está fazendo agora.

“O que você quer?”, disse, sem muita paciência.

Ele levantou o rosto e ficou olhando para mim, com cara de choro. Será que ele vai ter coragem de chorar na minha frente, no meio da festa?

“Vim te pedir desculpas.”, disse ele, deixando escorrer uma lágrima.

As pessoas começaram a perceber aquela cena. Todos olhando, já somos o centro das atenções, pois estamos sozinhos no meio do salão, perto do bar. Queria ser um avestruz nessas horas.

“Está desculpado. Agora some!”
“Não precisa ser ignorante. Eu só quis ajudar!”
“Ajudar como? Não sei como você consegue andar sem cair!”

Acho que peguei pesado demais com o coitado, pois ele acabou de segurar um soluço.

“É incrível como as pessoas são más hoje em dia.”
“Do que você está falando?”
“Você não reconhece o meu esforço! Para que eu chego cedo todos os dias?”

Isso não dá para agüentar. Tem gente que acha que chegar cedo todos os dias serve para alguma coisa. De que adianta chegar cedo e sair tarde se você não consegue produzir nada? É melhor chegar meio-dia e sair às quatro e entregar o que deve-se entregar!

“Rodrigo, vamos mudar de assunto? Estamos numa festa! Festa é alegria, felicidade, bebida de graça e mulher gostosa. Por que você não pára de chorar e vai conversar com alguém?”
“Você não quer conversar comigo, é isso?”

Sujeito sentimental é um saco. Na verdade, o que eu precisava agora era um saco para enfiar na cabeça desse sujeito e sufocá-lo até ficar roxo. Queria ter a delicadeza do capitão Nascimento nessas horas.

“Para falar a verdade, não estou a fim de conversa mesmo. Estou chateado com você, mas até amanhã passa.”
“Jura?”
“Não.”

Fraqueza é uma das minhas qualidades que menos prezo. Mas não consigo ser diferente, não nesses momentos.

“Você não jura?”
“Eu juro que vou tentar.”

Uma figura estranha apareceu do meu lado. Pelo cheiro de colônia barata já até sei quem é.

“Se divertindo, Diguinho?”, disse Dario.
“Não muito, tio.”

Agora a conversa vai ficar interessante.

Capítulo 63 - Eis que Surge o Infeliz

“Ele pegou a espinhuda!”, indagou Roberto, que havia chegado a poucos segundos.
“Pois é. Ele acabou de ferir a regra número um do nosso mandamento.”, comentou Gilberto.
“Mas ele feriu a regra número três também, então não tem problema.”, disse Roberto.
“Só falta ele ferir a regra número dois.”, comentei.
“Ele não é maluco.”, disse Gilberto.
“Espero que não.”, disse.

Ricardo já sumiu de vista, ou seja, já está com a mulher pronta para levar para o abatedouro. É bem provável que não o vejamos mais esta noite.

“Por falar nisso, o Rodrigo não apareceu.”, comentou Gilberto.
“Espero que não apareça, pois eu não gostaria de me tornar um assassino no meio da festa da empresa.”
“Por falar no capeta...”, disse Gilberto se afastando, no mesmo momento em que Rodrigo surgia no meio da multidão.

Capítulo 62 - Lembrando da Idade

Ultimamente virou moda tocar música dos anos oitenta nas festas, boates, festas de criança, Bar Mitzvá, funerais e afins. Os caras desenterram cada defunto, cada grupo bizarro, principalmente os que tiveram apenas um sucesso.

Você acaba lembrando da música, fica feliz por isso te lembrar coisas boas do seu passado, daquela mulher feia que você pegou na época e todo mundo te sacaneou, mas fica triste por saber que está ficando velho. É bem legal tentar lembrar do nome dos grupos, principalmente quando você está cercado de pessoas da mesma idade. Eu não consigo me lembrar de nenhum grupo, pois tenho péssima memória para essas coisas. Já o Ricardo, conhece todos os nomes, todas as músicas, todas as coreografias e lembra de todas as mulheres que ele pegou cantando “Amante Profissional” para elas. Acho que por isso ele ficou tão empolgado.

Capítulo 61 - Ferindo uma Regra

“Por que vocês demoraram tanto?”, perguntou Gilberto.
“Estávamos conversando, só isso.”

Juliano já tinha se afastado para pegar uma cerveja.

“Cadê o Ricardo e o Roberto?”
“O Roberto foi pegar a tequila no carro e o Ricardo está ali!”
O cara já estava dançando com a espinhuda no meio do salão. A coisa toda já estava caminhando para o bizarro, quando o DJ resolveu tirar o funk e colocar música dos anos oitenta. Ricardo deu um berro quando começou a tocar “Amante Profissional” e puxou a espinhuda pra bem perto, tascando um beijo na coitada. Eu juro que vi algumas espinhas e cravos voando, tamanha a força que Ricardo imprimia naquele beijo. Ele acabou de ferir uma das regras.

Capítulo 60 - Guardando o Segredo Descoberto

Os homens saíram e eu continuei quieto. Pela sombra projetada no chão, consegui ver a cabeça de Regininha verificando se havia mais alguém ali. Ela destrancou a porta da baia com cuidado e foi se encaminhando para a porta de saída. Eu não poderia deixar isso barato assim, não é?

“Onde você pensa que vai, senhorita Regininha?”

A mulher congelou. Ficou parada por alguns instantes antes de se virar. Depois de alguns segundos, olhou para mim com uma cara normal, como se nada estivesse acontecendo.

“Oi, David. Eu errei de banheiro.”
“Sei.”
“Sei o quê?”
“Eu estava aqui, quando você entrou.”
“Estava é?”
“Sim. Agora me diz: como você conseguiu?”
“Não foi tão difícil.”

Ela se virou e trancou a porta novamente.

“Ele estava sozinho, eu também. Qual o problema?”
“Nenhum problema.”
“Então por que isso tudo?”
“Não estou fazendo nada! Só fiquei curioso de saber como você corrompeu o garoto.”
“Sexo ganha qualquer homem. Você sabe disso.”, disse ela, chegando mais perto.
“É mesmo? E você deu uma chave de pernas no menino?”
“Mais ou menos isso.”

Ela já está mexendo no meu colarinho.

“Mas você não contaria nada pra ninguém, não é mesmo?”
“Claro que não. O Juliano é meu amigo.”
“Você sabe que o chefe não gosta que as secretárias saiam com os funcionários. Ele poderia me demitir por isso.”

Ela disse essa frase passando a língua na minha orelha. Que mulher mais vagabunda!

“Pode ficar tranqüila que não vou falar nada.”
“Que bom! Pois você pode ganhar muito mais com isso.”
“Ele parece estar gostando de você.”
“E eu também estou gostando dele. Ele praticamente me empala com aquela tora.”
“Poupe-me dos detalhes, ok?”
“Estamos entendidos, então?”
“Sim, estamos. Não vou prejudicar meu amigo.”
“Espero que não.”

O trinco da porta estava mal encaixado e destravou no primeiro empurrão. Regininha se afastou de mim no mesmo momento em que Juliano entrou pela porta. Ele ficou parado, olhando para gente, como se tivesse visto um fantasma. Eu fiquei parado, olhando para ele, esperando que ele não desconfiasse de nada.

“Desculpa, pessoal. Errei o banheiro de novo!”, disse ela, saindo do recinto.

Juliano continuou com a mesma cara e eu continuei olhando pra ele, completamente sem reação. Imagina eu ter que explicar pra ele que focinho de porco não é tomada?

“Eu estava te procurando.”, disse ele.
“Eu estava aqui no banheiro. Dor de barriga.”
“Está nervoso?”
“Um pouco.”
“Não se preocupe. Vai dar tudo certo.”
“Espero que sim.”
“Venha. Vamos lá pra fora. O povo já está caindo no chão de tanta cerveja.”
“Vamos sim.”

Conversa meio seca, sem muitas palavras. A situação continuava estranha. Ele parecia querer me perguntar algo, pois parou umas duas vezes antes de sairmos. Quando estávamos saindo do banheiro, ele não agüentou.

“Há quanto tempo você está aqui?”
“O bastante.”
“Você não vai contar nada, não é?”
“Pode deixar.”
“Que bom que posso contar com você.”
“Disponha.”

Passado o susto e guardado o segredo, vamos ao que interessa. Júlia já deve estar me esperando e não posso deixar uma dama aguardando por tanto tempo assim. Ainda bem que consegui descarregar a arma a tempo. Não posso fazer feio na primeira noite.

Capítulo 59 - Descobrindo o Segredo

“Entra e fica quieta.”
“Você é maluco? Aqui é o banheiro masculino!”

Um barulho trancando a porta.

“Não interessa! Eu não vejo a hora de te agarrar!”
“Ai, Juliano! Você é maluco!”
“Maluco por você!”

Sons de roupas roçando, ecoando pelo banheiro.

“Aí não, pelo amor de Deus!”
“É aqui que você gosta, não é?”
“Ai meu Deus! Ai meu Deus!”

Eu não fiquei espantado com as vozes de um homem e uma mulher ecoando pelo banheiro masculino, até porque eu mesmo já fiz isso. Mas saber que a voz masculina era do Juliano e a feminina da Regininha, me espantou bastante. Dentre todas as pessoas que Juliano poderia estar pegando, Regininha era a última a passar pela minha cabeça. Eu saio ou não da baia para pega-los no flagra?

“Para com isso! Assim você me deixa louca!”
“Eu sou seu macho, não sou?”
“Sim, você é meu macho. Mas pode ter gente aqui no banheiro!”
“Não tem ninguém aqui. Eu vi Roberto saindo e David deve ter saído antes.”
“Deve ter saído?”
“Cale a boca e deixe-me terminar o serviço!”
“Sim senhor!”

Acho que vou ficar quieto aqui. Até porque, além de ser um diálogo super-engraçado, essa gemeção toda vai me ajudar a terminar o serviço.

“Tem gente querendo entrar, meu pixuco.”
“Não estou nem aí pra eles, minha gostosa!”

Pixuco? Fala sério! Eles já estão com apelidos esdrúxulos!
Mais barulhos de roupa roçando em roupa. Acho que ouvi um barulho de zíper, mas não tenho certeza.

“Se controla, Jú! Você vai ter mais hoje a noite!”
“Eu não consigo! Você é muito gostosa!”
“Eu vou te mostrar muito mais, daqui a pouco!”
“Mal posso esperar! Como vamos sair daqui?”
“Você é homem, então você sai primeiro. Eu vou me trancar em uma das cabines e esperar todo mundo sair para depois me retirar.”
“Ok! Me dá mais um beijo, sua potranca!”
“Vai agora, seu insaciável!”

Um barulho na baia ao lado coincidiu com o barulho do destrancar da porta. Dois caras entraram empurrando Juliano e xingando alguns palavrões. Juliano saiu do recinto e fechou a porta. Não ouvia-se um pio de Regininha, apenas os homens conversando.

“Cara, a Júlia tá foda hoje!”
“Porra, nem me fale!”
“Eu já cheguei nela umas três vezes e ela, nada.”
“Ninguém consegue pegar aquela mulher, cara. Ela não dá bola pra ninguém. Ela só deve ficar com homens ricos e poderosos. Nunca vai dar bola pra pés-de-chinelo como nós!”
“Pois é! Eu dou meu carro pra quem conseguir pegar aquela mulher hoje. Mas tem que ser da classe, por que senão não vale!”
“Duvido muito que isso vá acontecer aqui.”
“Eu também.”

Acho que vou ganhar um carro hoje.

Capítulo 58 - Ajudando um Amigo

Não há coisa melhor do que uma sessão de descarrego antes de sair com uma mulher. Você fica limpo, ou seja, com mais tempo para detonar sem ter perigo de, precocemente, terminar o que estava bom. Aproveitando a prévia que acabei de ter, vou descarregar logo pelo menos umas três vezes, pra não ter problemas mais tarde. Mas primeiro, os amigos.

“Roberto!”
“Tô aqui.”

Pelo visto ele não está muito bem, pois está sentado no vaso, em uma das cabines e com a porta fechada.

“O que você está fazendo aí?”
“Tentando morrer afogado na privada, mas a minha cabeça não entra.”
“Não tinha um jeito melhor de morrer não? Você poderia pular da ponte. Deve ser uma sensação boa. Pelo menos durante três segundos.”
“Eu prefiro morrer na merda, que é o que eu sou.”
“Você já tem o resultado do exame?”
“Já.”

Pelo visto, as coisas saíram como previsto.

“E aí?”
“Deu negativo.”
“O quê?”

As coisas não saíram como previsto. Sorte a dele!

“Deu negativo.”
“Não estou entendendo. E por que essa fossa toda?”
“Por que eu sou um merda.”
“Cara, você se livrou de uma furada absurda!”
“Mas eu fiz a merda e poderia ter perdido Catarina por isso.”

O cara está em crise. Realmente, foi uma experiência não muito agradável. Fico imaginando a tensão que ele devia estar sentindo até o resultado sair.

“Você não perdeu, então agradeça por isso.”
“Se eu continuar assim, vou acabar sozinho.”
“Você nunca está sozinho. Nem quando você quer!”
“Eu preciso dar um jeito na minha vida. Isso foi um aviso.”
“E o que você pretende fazer?”
“Vou contar tudo para a Catarina e terminar com a Juliana.”
“Você vai o quê?”

O cara pirou de vez. Será que ele não entende que isso seria o apocalipse?

“Vou terminar com Juliana. Não agüento mais isso tudo. Catarina é a mulher da minha vida. Juliana foi só uma aventura. Eu já estou velho, não agüento mais isso. Quero sossego, envelhecer em paz e com a mulher que eu amo ao meu lado.”
“Poxa cara, estou até comovido. Nunca imaginei ouvir algo assim de você. Só não conte nada para Catarina.”
“Por que não contaria?”
“Por que ela vai jogar isso na sua cara para o resto da vida!”
“Provavelmente sim.”
“Então deixa isso pra lá. Faz de conta que não aconteceu nada entre você e Juliana.”
“Não sei se vou conseguir conviver com essa culpa.”
“Claro que consegue! Você é homem! Já está no gene!”

Ele sorriu e ficou olhando pra mim com cara de arrasado.

“Você tem razão. Como sempre.”

Silêncio no recinto. Um sujeito do suporte entrou no banheiro e olhou para gente. Ficou parado um tempo, tentando entender o que estava acontecendo. Levantou os braços e saiu de ré, como se não quisesse atrapalhar a briga do casal. Como estou sem saco para ligar para esse tipo de coisa, ignorei o ocorrido.

“Parece que o susto serviu para alguma coisa.”
“Pois é.”
“Só não me diga que vai entrar pra igreja, por que, senão, mando te internar na hora!”
“Desse mal eu não sofro. Apesar de agora eu querer uma mulher só, eu adoro uma sacanagem!”
“Esse é o Roberto que eu conheço!”
“Vamos sair daqui. Vamos comemorar a minha mudança!”
“Vai indo que eu já te alcanço.”
“Por quê? Vai ficar retocando a maquiagem?”
“Deixa de ser babaca! Eu preciso fazer uma parada aqui.”
“Beleza, então. To te esperando com umas doses de tequila lá fora.”
“Segura lá, que já estou indo!”

Ajuda realizada com sucesso. Agora, a segunda parte: a sessão tripla de descarrego. Espero que ninguém me ouça.

Capítulo 57 - As Panelas

Numa empresa sempre temos o que chamamos de “panelas”. As panelas são grupos formados por pessoas que, normalmente, possuem alguma afinidade ou interesse comum. Por uma lei universal, uma mistura de “panelas” nunca é bem vista e um desgarro de um componente é considerado como heresia, por isso os grupos são sempre muito bem definidos, limitando a conversa entre indivíduos de “panelas” diferentes a alguns “oi” e outros “bom dia”.
Na empresa em que trabalho também existem esses grupos. São eles:

· Os nerds (não podiam deixar de existir em uma empresa de informática. São chatos e geralmente feios. Só sabem conversar sobre desenhos japoneses e atualização de softwares e hardwares).
· Os malucos (são drogados, limitados a maconha. São tranqüilos, calmos e burros. Normalmente são do suporte operacional. Algumas recepcionistas participam desse grupo quando querem entrar na “onda” de graça).
· Os chefes (sempre andam juntos, comem juntos, cagam juntos... devem transar juntos também, no meio de um monte de dinheiro, tipo Tio Patinhas).
· Os puxa-sacos (sempre andam juntos com os seus respectivos chefes. São arredios e não gostam muito de conversar entre si, a não ser quando um inventa uma técnica nova para bajular o chefe. Tem muita competição nesse grupo).
· As feias (mulher feia sempre anda em grupo. Acho que é pra dar suporte uma a outra, quando um sujeito dá um fora em uma delas.)
· As bonitas (mulher bonita também anda em grupo e eu apoio perfeitamente essa iniciativa. É muito bom olhar um grupo de mulheres bonitas. Faz bem aos olhos. De vez em quando, uma mulher bonita entra no grupo das feias só para se sentir mais bonita e permitir que as feias falem bem dela. Serve para aumentar a auto-estima, só isso).
· Os peixes-burros (esse é um grupo duplo. Servem tanto para peixes quanto para os burros. Os componentes existem apenas para atrapalhar ou para encher o saco. O Rodrigo é o chefe deles).
· O meu grupo (Eu, Gilberto, Ricardo, Roberto e Juliano. Somos os cara mais bonitos e os mais legais desse lugar. Pelo menos é o que nós achamos).
Nas festas da empresa, esses grupos são claramente identificados, cada um nos seus cantos, claro.

“Porra, você demorou pra caralho!”, gritou Gilberto, me abraçando.

Já estavam todos “alegres”, como de costume. Afinal, já tem uma hora de bebida liberada, o que é suficiente pra deixar muita gente torta.

“Se eu contar, vocês não vão acreditar no que aconteceu.”
“Então não conta e toma uma cerveja!”, disse Ricardo, me entregando uma caneca congelada de cerveja.
“Cara, a mulherada tá sinistra!”, comentou Gilberto.
“Parece que chegou uma fornada nova no telemarketing que a gente não tinha visto ainda. Olha aquela morena ali!”, apontou Ricardo.

Era uma morena de pelo menos um metro e setenta. Estava num vestido branco e rodado que realçava seu corpo perfeito. Os olhos verdes cintilavam na escuridão da pista de dança. Mas, em um relance de luz, algumas espinhas em seu rosto apareceram.

“Ela tem espinhas!”, comentei.
“Eu não quero comer a cara dela, porra!”, gritou Ricardo.

Todos começaram a rir, inclusive Juliano, que apareceu à surdina.

“Onde você estava?”, perguntei.
“Estava pegando uma bebida.”, disse ele, meio nervoso.
“E o seu copo estava com batom?!”, perguntou Gilberto, apontando para a boca de Juliano, toda manchada de batom.
“Eu não acredito! O Viadinho já tá de amasso com alguém e ninguém viu?”, disse Ricardo, espantado.
“Cadê a pretendente?”, Gilberto perguntou.
“Não adianta que não vou dizer!”
“Sabemos que ela está na festa.”, disse.
“Claro que ela está na festa! Como você acha que esse batom apareceu na minha cara?”
“O viadinho já está pegando alguém e eu não? Em que mundo nós vivemos?”, indagou Ricardo.
“Nós conhecemos?”, perguntou Gilberto.
“Não.”
“Não conhecemos?”
“Não.”
“É de qual setor?”
“Não vou dizer!”
“Deixa de ser viadinho e fala logo!”, gritou Ricardo.
“Não! Vocês vão ficar me sacaneando na frente dela.”
“Beleza. Vocês estão se agarrando aqui dentro. Uma hora descobrimos quem é.”, disse.
“Vamos ver!”, disse Juliano, sorrindo.
“Cadê o Roberto?”, perguntei.
“Tá no banheiro, falando ao telefone já tem uma meia hora.”, respondeu Juliano.
“Ele está bem?”, perguntei.
“Não parecia muito bem.”, comentou Gilberto.
“Vou dar um pulo lá pra saber se está tudo legal com ele.”, disse.
“Deixa de ser viado e olha ali o que está te esperando!”, disse Ricardo, virando minha cabeça na direção de Júlia.

Ela está dançando no meio do salão, descendo até o chão ao som de um funk bem pesado. Todos abriram espaço para que ela dançasse sozinha, em destaque. O vestido arrasta no solo, à medida que ela balança seu quadril maravilhoso. O dedo na boca e a mão no cabelo completam o visual estonteante. Eu não sei se vou agüentar por muito tempo.

“Realmente eu preciso ir ao banheiro.”

Todos começaram a gargalhar ao mesmo tempo, inclusive Juliano. Preciso descarregar as minhas emoções repentinas e aproveito para ver se Roberto está bem. Provavelmente ele já tem o resultado do exame da garota e deve estar precisando de apoio. Afinal, pra que servem os amigos se não para sacanear o outro em horas impróprias?

Capítulo 56 - Os Portões do Céu

Uma recepcionista, vestida de coelhinha da Playboy, está recebendo os convidados na porta do lugar, como de costume. Todas as festas da empresa são aqui e possuem as mesmas características: recepcionista gostosa, vestida com algo do imaginário masculino, comida frita e massuda, para poder encher rápido, e muita cerveja gelada, além de uísque e caipirinha. As mulheres sempre reclamam da recepcionista, mas azar o delas se o presidente da empresa é homem.

“Qual o seu nome?”, perguntou a coelha.
“Você pode me chamar do que você quiser!”, disse o homem a minha frente.
“Eu não estou vendo na lista nenhuma pessoa com esse nome.”
“Que nome?”
“Idiota.”
“Não precisa ser grossa.”, entrou ele tristonho, após dizer seu nome correto.

Já vi que não dá pra brincar com essa garota, então me deixa ficar quieto. É uma pena, pois tenho ótimas cantadas de coelho.

“Qual o seu nome?”, disse ela.
“David.”
“David. Deixa-me ver aqui na lista.”

Ela permaneceu procurando por alguns segundos, pois eram várias folhas com nomes bem pequenos. Enquanto isso, fiquei analisando o material. E que material!

“Você tem levado muitas cantadas hoje, não é?”
“Nem me fale. As pessoas não percebem que isso é só um trabalho.”
“Imagino. Alguma cantada de coelho?”
“É o que mais tem! Um cara perguntou se eu conseguia mexer o meu rabo tão rápido quanto os outros da minha espécie. É mole?”
“Pelo menos ele foi original.”
“É, ao menos isso. Aqui! David. Pode entrar.”
“Obrigado.”
“De nada.”
“A propósito, você está uma gracinha de coelhinha.”
“Pelo menos um elogio gentil diante de tanta mediocridade.”
“Você merece.”
“Você é um lindinho, sabia?”
“A minha mãe sempre diz isso.”
“E engraçado também! Gostei de você. Vai fazer alguma coisa depois da festa?”
“Infelizmente tenho compromisso.”
“Que pena. Toma meu telefone e me liga quando estiver livre.”
“Você vai vestida assim no nosso primeiro encontro?”
“Vou te mostrar se faço jus à espécie.”

Ela sorriu e piscou pra mim. Acabei de me surpreender com as sacadas rápidas e frases de efeito, não previamente ensaiadas. Tudo muito espontâneo e natural. Tô ficando bom nisso!
Pelo menos, se não der certo com a Júlia, eu já tenho uma coelhinha pra hoje à noite.

Capítulo 55 - O Resultado da Corrida

Acho que essa foi a corrida mais estressante, demorada e cara que eu já realizei em um táxi na minha vida inteira. Para sair da Avenida Rio Branco e ir até a Lapa, foram vinte minutos e vinte reais. Um real por minuto! Eu não ia pagar, pois ele errou em quase todas as esquinas, mas o coitado chorou tanto que acabei pagando. Vai que ele perde o emprego e resolve matar o culpado por isso?

Finalmente consegui chegar ao meu destino: o Curral do Chope. Estou ouvindo o barulho vindo lá de dentro, o tilintar das canecas congeladas e sentindo o cheiro da comida frita e gordurosa. Não existe coisa melhor, não é?

Capítulo 54 - Ligação Inesperada

Telefone de novo.

“Alô!”
“Oi meu filho.”
“Quem é?”
“É a mamãe! Não está reconhecendo minha voz?”

Prestar a atenção no motorista maluco e falar com a minha mãe ao mesmo tempo, não é algo pra qualquer um.

“Claro que tô, mãe. É que esse número eu não conhecia.”
“Eu troquei de telefone de novo. To ligando pra te passar o número, já que, para o antigo, você não ligou nenhuma vez.”

Lá vem ela reclamando que eu não ligo. Mas eu falei com ela não tem nem duas semanas!

“Já está anotado!”
“Por que você não liga pra mamãe?”
“Eu liguei pra você esses dias!”
“Já tem quase um mês que você ligou pra mim! Se for dinheiro, pode ligar a cobrar, não tem problema.”
“Não é isso, mãe. É que eu ando meio sem tempo.”
“Sem tempo de lembrar da sua mãe?”
“Você não entende, não tem nada a ver!”
“Se eu morrer aqui, nessa casa, sozinha, você não vai nem saber!”
“Mãe, sem melodrama.”
“Mas é verdade! Poderia ligar pra perguntar ‘e aí? A cachorra já morreu?’; nem parece que eu sou sua mãe!”

Só falta ela começar a chorar agora.

“Mãe, pára com isso?”
“Como eu posso parar? A sua irmã me liga quase todos os dias e você só de mês em mês!”
“Ela liga porque é uma a toa!”
“Não fale assim da sua irmã! Você tem que respeitar ela, pois ela vai virar advogada!”

Coitada. Não tem a mínima idéia do que Joana faz. Eu só não conto, porque ela vai ter um treco e vai acabar ficando igual a minha avó. Imagina o remorso?

“Por falar na sua irmã, ouvi dizer que ela está namorando. Você já conheceu?”
“Qual deles?”
“Qual deles o quê?”
“Qual dos namorados!”
“Ela tem mais de um?”
“Ela tem um monte! Inclusive, namora um monte de uma vez só!”

Silêncio.

“Tô brincando mãe!”

E o silêncio continua. Algo está acontecendo. Será que ela está passando mal?

“Mãe?”
“Não me mata de susto menino!”, disse ela, soluçando.
“Você está chorando?!”
“Com um susto desses, você queria o quê?”
“Calma mãe, eu estou brincando!”
“Não brinca com uma coisa séria dessas!”
“Desculpa!”

Ela está tentando se recompor. Pelo visto, jamais poderei falar a verdade! De que adianta um trunfo se nunca poderei usá-lo?

“Mas então, você conheceu o rapaz? É algum advogado importante?”
“Deve ser mãe, mas não conheci.”
“Rezo tanto para Joana conseguir um rapaz bom!”
“Eu também!”

Arranjando um bom marido, ela sai de casa e me deixa morando sozinho. Não poderia querer algo melhor pra ela, não é?

“Você está comendo direito, Davizinho?”
“Você sabe que eu não gosto que me chame assim, mãe!”
“Está ou não está?”
“Estou! Estou!”
“Está tomando leite de manhã?”
“Quando eu lembro, sim!”
“Você sabe que não pode ficar sem leite, David! Você fica fraco!”
“Eu estava com pressa hoje, por isso não tomei. Dá próxima vez eu juro que tomo.”
“Vocês, nessa cidade grande, precisam se alimentar direito!”
“Tá bom, mãe! Eu já entendi!”

Mais um silêncio. Parece que ela está ficando sem assunto, o que é um bom sinal de fim de conversa. Não que eu não goste de conversar com a minha mãe, mas é que eu prefiro terminar a conversa antes que ela comece com assuntos que não gosto de conversar.

“Você está rezando meu filho?”

Esse é um dos assuntos.

“Sim, todos os dias!”

Não gosto de mentir pra ela, mas não dá pra falar a verdade sobre religião. Não depois de tudo que ela já passou comigo sobre o assunto.

“Muito bem! Reze bastante, pois só papai do céu pode dar as coisas pra gente!”
“Desde quando você virou religiosa?”
“A vida sem religião é uma vida sem sentido! Você tem que ter uma, seja ela qual for!”
“Ok!”
“Vou desligar, meu filho, pois não sou dona da Telemar. Tive que pagar quase seiscentos reais de plano de saúde, pois não tem ninguém pra me ajudar.”

Segundo assunto chato: reclamações sobre a situação financeira atual.

“Mãe, eu não tenho dinheiro pra ajudar.”
“Eu sei, meu filho, não estou te cobrando nada.”
“Beleza.”
“A sua avó mandou um abraço!”
“Como assim? Ela conseguiu falar alguma coisa normal?”
“Não, mas estou mandando mesmo assim. Tenho certeza que, entre um palavrão e outro, ela falou algo do tipo.”
“Dá um abraço nela pra mim. Mas não chegue muito perto para ela não te morder de novo!”
“Pode deixar, meu filho. Fica com Deus!”
“Beijos, mãe!”
“Beijo meu filho! Mamãe te ama, viu? E cuida da sua irmã pra mim, pois não vou durar muito tempo!”
“Tchau!”

Tive que cortar o assunto, pois ela ia entrar no terceiro assunto chato: a proximidade da morte. Acho que não conheci uma pessoa mais hipocondríaca do que a minha mãe. Ela sabe, décor, todas as bulas de remédio existentes no mundo. Isso é bom quando preciso curar uma dorzinha, pois, assim, não gasto dinheiro com médico. Existem outros assuntos chatos, como: “você tem que passar em concurso público” e “eu quero um neto”; não ia agüentar mais dois tópicos com ela ao telefone.

Agora, a festa! Já são 19h30min e eu ainda estou nesse táxi. Tem alguma coisa engraçada na paisagem. O que eu estou fazendo na praia do Flamengo?

“Amigo, o que você está fazendo aqui?”
“Eu? Estou dirigindo!”
“Eu disse aqui, na praia do Flamengo!”
“Você me mandou virar a direita e eu virei!”
“Eu mandei você manter a direita!”
“Mas eu fiz isso!”
“E por que você não entrou na rua dos Arcos?”
“Por que você não disse que era pra virar a direita duas vezes!”

Isso que dá querer dar uma de rico. Pobre tem que andar é de ônibus!

Capítulo 53 - O Taxista

Dúvida cruel de pobre: vou de ônibus ou a pé? Não tenho muito tempo pra pensar. O restaurante é perto, mas provavelmente vou suar no caminho se for a pé. Imagina pegar a mulher da minha vida fedendo a suor? Já estou suando de nervoso, se for andando então, vou chegar com marcas de pizza nas axilas! Acho que vou de táxi, pois assim me mantenho refrescado no ar-condicionado de um Santana qualquer.

“Táxi!”

Pra variar, realmente é um Santana. Acho que noventa e oito por cento dos táxis do Rio de Janeiro são Santana. Eles devem continuar fabricando esse carro só para os taxistas. Aliás, eles devem sair da fábrica já pintados e com taxímetro rodando!

“Sabe aonde é o Curral do Chope?”
“Curral do quê?”

Taxista que não conhece bar na Lapa é novato. Deve ter sido importado do nordeste, com promessas de uma vida melhor e muito dinheiro no bolso. Coitados, foram todos enganados, pois não existe povo mais explorado do que os taxistas. Até relevo o fato de eles roubarem de vez em quando numa corrida. Com os outros, claro, não comigo!

“Curral do Chope, ali na Lapa.”
“Vixi! Onde fica isso?”
“Passa os Arcos que eu te mostro.”
“Arcos da Lapa?”
“De onde mais seriam?”
“Sei lá! Não conheço essa cidade direito ainda.”
“Eu já percebi. Vai logo, que eu estou atrasado!”
“Pode deixar patrão! Mas eu vou por onde?”

Era só o que me faltava. O coitado deve estar começando hoje!

“Você está na Rio Branco e não sabe chegar na Lapa?”
“É que eu comecei hoje. Meu primo, Edisberto, me arrumou esse emprego.”
“Beleza. É só ir reto até o final dessa rua. Chegando lá, mantenha-se a direita, ok?”
“Ok! Vambora patrão!”

O cara deu uma arrancada e morreu com o carro. Quase bati com a cabeça no banco da frente. Era tudo que eu precisava agora: um motorista que não sabe dirigir e que não tem a mínima idéia da onde está.

“Desculpa patrão! Agora nós vamos!”

Espero que eu não morra antes de chegar à festa.

Capítulo 52 - Saindo da Empresa

Mais uma ligação.

“Você vem ou não?”, gritou Roberto do outro lado da linha.
“Tô saindo daqui!”
“Porra, já são 19h! Já tem um monte de gente bêbada aqui! E estão chegando na sua mulher direto!”
“E aí? Ela tá dando mole pra alguém?”
“Não! Está só conversando com as meninas do Marketing. Todo mundo que chega ela veta!”
“O Ricardo já chegou nela?”
“Já! Levou o maior veto!”
“Muito bom! Segura ai, que eu estou indo!”

Agora posso me encaminhar à zona da perdição, para a minha glória, para meu reconhecimento como macho alfa. Hoje, eu sou um predador atrás de uma presa específica e o meu campo de caça é a festa!

Capítulo 51 - Irmã Chata, Parte 3

Ah, não! Ligação de casa a essa hora só pode ser problema.

“Alô!”
“Eles não religaram o gás!”

Joana a essa hora? Só pode ser piada!

“Você ligou o chuveiro?”
“Claro que liguei! Está achando que eu sou o quê?”
“Você quer que eu responda?”
“Vai à merda! Por sua causa eu perdi meu cliente das 16h e vou perder o meu cliente das 19h!”
“Daqui a pouco você arranja outro.”

Um silêncio dominou a conversa. Ela suspirou e manteve-se muda por alguns segundos. Hesitou algumas vezes, como se quisesse dizer algo que não podia ou que tinha medo de falar.

“Você pode me ajudar, por favor?”

Joana pedindo algo para mim com educação? Tem alguma coisa errada.

“Você está passando mal?”
“Não, por quê?”
“Nada não, deixa. Você foi verificar lá no aquecedor?”
“Fui! Não está acendendo!”
“Você religou o registro que você provavelmente deve ter mexido em um de seus ataques de raiva?”
“Não!”
“Então liga!”
“Funcionou! Te amo, irmão!”

Realmente ela não está bem.

Capítulo 50 - Resultado do Capítulo Anterior

Após meia-hora de muito esforço e paciência, consegui convencer Dario a refazer as avaliações que ele havia perdido. Inclusive, como eu havia reclamado, ele fez questão de fazer a minha avaliação comigo presente. Até que a minha nota final foi razoável, pois ele me detonou nos fatores comportamentais, principalmente no item trabalho em equipe. Mas como ganhei notas boas nas metas de trabalho e de aprendizagem, minha nota subiu um pouco.Mas de que adianta? Nunca ganho PLR mesmo!

Capítulo 49 - Mais Longe do Fim

Já são 18h30min e a Ana ainda não mandou o e-mail e nem telefonou pra avisar que está tudo ok. Vou telefonar para ver como anda as coisas.

Merda! Ela não está atendendo! Por que isso só acontece comigo?

Telefone tocando, só pode ser ela!

“Alô!”
“Vem pra cá logo, porra!”

É Gilberto me enchendo a paciência. Está uma barulheira absurda do outro lado da linha. Ele já está com voz de bêbado.

“Eu estou tentando terminar essa merda aqui!”
“Esquece isso e vem pra cá!”
“Não posso! O Dario descobriu!”
“Manda ele tomar no cú e vem pra cá logo!”
“Se eu pudesse, jogava ele daqui de cima!”
“Vai jogar quem, aqui de cima?”

Dario apareceu como um fantasma atrás de mim. Eu gelei e desliguei o telefone na cara de Gilberto. Tenho que pensar rápido e pensamentos rápidos são sempre perigosos.

“O computador. Queria jogar o computador daqui de cima.”
“Que bom. Pensei que você estivesse falando de mim.”
“Não, não estava.”
“Alguma novidade? O Uísque já deve estar acabando.”
“Já estou quase terminando.”
“Descobriu o que era?”
“Não.”
“Então como você está terminando se você não sabe nem o que é?”
“Dario, se você continuar me fazendo perguntas, não conseguirei terminar rápido.”
“Por que eu acho que você está me enganando?”

Chefe desconfiado. Perigo! Perigo!

“Dario, você pode fazer as suas avaliações sem problemas. Você não tem um monte pendente ainda?”
“Tenho.”
“Então, porque não vai adiantando?”
“Vou fazer isso então. Mas ande logo com isso!”

Anda logo Ana Cláudia, atende essa merda de telefone.

“Alô!”, disse ela.
“Finalmente!”
“Já acabei aqui. Pode liberar o sistema.”
“Mas o sistema já estava liberado!”
“Ih! Se alguém estiver fazendo avaliação, vai perder tudo!”
“Ah, não!”
“David!”, gritou Dario.

É hoje que não saio daqui.

Capítulo 48 - Terrorismo

“Posso saber por que as avaliações que eu fiz não estão aqui?”, disse ele, virando o monitor e apontando para a tela.
“Deixa-me ver.”

Virei o monitor para mim e peguei o teclado e o mouse. Preciso ganhar tempo, enquanto a Ana faz a parte dela.

“Estranho.”
“O que é estranho?”
“Entrei com a minha senha, de administrador. Não está aparecendo a avaliação de ninguém!”
“É o quê?”

Fingir não saber de nada é uma boa tática. Não ia adiantar eu botar a culpa no Rodrigo, pois ele ia jogar para cima de mim de qualquer jeito.

“Não está aparecendo de ninguém!”
“Mas como pode isso? Hoje é o último dia!”
“Eu pedi o Rodrigo para acertar uma coisa no sistema hoje. Vou lá na minha máquina para saber o que ele fez.”

Preciso de uma desculpa para sair daqui.

“Vê se anda logo e conserta isso! Eu preciso fazer a sua avaliação para ir para a festa!”
“Mas você não deviria marcar uma reunião comigo para realizar essa avaliação? Afinal de contas, eu posso comentar ou discordar de algo que você tenha escrito.”
“Fala sério! Desde quando eu chamo algum funcionário para conversar sobre avaliação de desempenho?”
“São regras do RH!”
“E eu com isso? Fui eu que criei essa empresa. Eu faço as minhas regras!”
“Mas eu não tinha que fazer uma avaliação sua também?”
“Eu mesmo já fiz essa parte, mas, pelo jeito, vou ter que fazer de novo, já que você fez o favor de sumir com todos os dados do sistema!”

O cara além de botar a culpa em mim, faz a minha avaliação sem me consultar e ainda se auto-avalia! Como pode alguém assim pode ser gestor de alguém?

“Posso ir então?”
“Vai e anda logo com isso! E se vocês perderam todos os dados, inclusive os das avaliações feitas pelo presidente, não precisa nem ir à festa. Pode ir direto pra casa e não voltar mais!”

Terrorismo a essa altura do campeonato é demais pra mim.

Capítulo 47 - As Festas da Empresa

Festas de empresa são sempre interessantes. Há quem reclame de tudo e há quem não se lembre de nada. Eu sou da turma que se diverte, ri da cara dos outros e tenta alguma coisa com a mulherada, mas bem no sapatinho. Existem três regras que devem ser seguidas a risca, pois, se não, seu emprego corre sério risco. São elas:

1) Nunca pegue ninguém na festa. Mesmo que aquela gata esteja bêbada e esteja muito a fim de dar pra você, passe bem longe dela. Pode xavecar, combinar de ir pra casa, mas não faça nada no ambiente!
2) Nunca fique puxando assunto com o chefe. Ele sabe que você está ali só porque é seu chefe, então saia de perto.
3) Nunca beba demais. Fazer papelão em festa de empresa significa ser sacaneado pro resto da vida. Se vomitar então, pode pedir a um amigo para recolher suas coisas e manda-las pelo correio.

Feito isso, você pode se divertir a vontade. E diversão em festa de empresa significa falar mal dos outros, beber e comer de graça. Não existe coisa mais agradável do que ver uma pessoa que você não gosta na fossa. É muito mais agradável ainda, conversar com as mulheres sem ter que falar de trabalho e ver que elas concordam com a maioria das nossas opiniões sobre certas pessoas da empresa. Além disso, mulher é sempre uma fonte boa de fofoca. Não que eu seja fofoqueiro, mas é bom se manter atualizado com os últimos acontecimentos.

Certa vez, Roberto resolveu desrespeitar as regras e se deu mal. Encheu a cara de Uísque com Red Bull, encheu a paciência de Dario (chegou a chamar o sujeito de Senhor dos Anéis!) e, o pior de tudo, pegou a mulher mais feia da festa. Para completar, ele andou de mãos dadas com ela por todo o ambiente e, para piorar a sua situação, foi embora de carona com ela.

No dia seguinte, Roberto veio nos contar que acordou ao lado de uma mulher horrorosa e que estava morrendo de dor nas costas. Não conseguia se lembrar de nada, mas pediu para que nós não o lembrássemos de nada. Rimos bastante da cara dele por pelo menos uns três meses. Ninguém mandou desrespeitar as regras!

O resto do pessoal sempre se comporta, pois todo mundo tem medo de perder o emprego. Os casados ficam na deles e os solteiros tentam alguma coisa, mas sem efetivar ali dentro. A conversa é sempre recheada de “vamos sair daqui” e “aqui dentro tá muito quente”. A grande maioria não consegue nada, mas o que custa tentar, não é?

Hoje é dia de festa e, ao invés de eu aproveitar todas essas coisas legais citadas acima, estou indo para a sala do Dario, levar esporro por algo que eu não tenho culpa. Na verdade, a culpa é dele por manter aquele energúmeno do Rodrigo dentro da empresa.

Capítulo 46 - Que Falta faz uma Serra-Elétrica

Glossário:

Base: base de dados, onde ficam os dados de um sistema... grande explicação!

DBA (Data Base Administrator): é o sujeito que cuida da base de dados, ou pelo menos deveria... na verdade só sabe valorizar o trabalho dele e atrasar o dos outros!!

Tabela: é uma parte do banco de dados. Na verdade mesmo, é onde ficam os dados... e as tabelas ficam no banco de dados... ah! Deu pra entender!! Pense uma planilha do excel! É a mesma coisa! Quer dizer, mais ou menos...

Select: é uma instrução que você usa para consultar alguma coisa numa tabela. Lógico que tem que escrever mais coisas, não é só escrever "select" e pensar no que você quer... computador ainda nao lê mente!

*************************
No caminho para minha baia, constatei o que Gilberto tinha acabado de dizer. Não é que o sujeito está dormindo mesmo? É muito cara-de-pau!

“Rodrigo!”

Engraçado, parece que ouvi um soluço.

“Rodrigo!”
“Eu juro que foi sem querer!”, disse ele, ainda abaixado.
“Você está chorando?!”
“Foi sem querer. Eu não tive culpa!”
“O que você fez?”
“Eu fui corrigir o erro, mas aí, foi sem querer!”
“Fala logo a merda que você fez!”
“Eu descobri que o problema do sistema era um registro que estava na tabela e que não deveria existir. Então eu apaguei o bendito.”
“E o que tem isso?”
“Só que eu esqueci de colocar o filtro...”
“Você apagou a tabela toda?!”

Parece que tem alguém lá em cima de sacanagem com a minha cara, mordendo e assoprando o tempo inteiro. Será que não dava para ficarmos apenas com a parte boa da história?

“Eu juro que foi sem querer!”
“Rodrigo, se você não sair da minha frente agora, eu juro que eu te enforco com as minhas próprias mãos!”
“Desculpa, por favor! Me perdoa!”
“SOME DA MINHA FRENTE!”

Com esse grito, toda a empresa olhou para mim. Rodrigo, coitado, parecia um cão escorraçado, com as orelhas caídas e com o rabo entre as pernas. Deve ter um monte de gente com pena dele. Vou perguntar se eles querem levar para casa.

“Ana, me ajuda aqui, pelo amor de Deus!”
“O que aconteceu?”
“O Rodrigo apagou toda a tabela de avaliações.”
“Ele fez o quê?”
“É isso mesmo. O infeliz fez o favor de fazer merda no último dia da avaliação de desempenho e no mesmo dia da festa!”
“Precisamos recuperar o backup da base. Eles acabaram de fazer um, às 17h.”
“Estamos com sorte então. Não é possível que alguém tenha feito alguma avaliação de desempenho nesse meio tempo. Solicita ao DBA substituto pra mim, enquanto eu vou dar uma olhada para saber se foi criado algum registro na tabela.”
“Como você vai fazer isso?”
“Vou olhar a tabela de Auditoria.”
“Tenho uma má notícia.”
“Mais uma não, pelo amor de Deus!”
“A função que inclui na tabela de auditoria não está funcionando desde a semana passada.”
“Ótimo!”

Sem tabela de auditoria, DBA de férias e funcionário burro. O que eu faço com essa empresa? Como eles querem que eu trabalhe ou resolva um problema urgente se eles mesmos criam tantas regras para nos impedir de fazer tais coisas? É inexplicável!

“O DBA substituto não sabe como fazer isso!”, disse ela.
“Como não sabe? Ele é pago para isso!”
“Ele disse que não foi pago pra isso.”
“É o quê? O cara é o sujeito que deveria tomar conta das bases de dados! Ele é o administrador!”
“Foi o que ele disse.”
“O que vamos fazer?”
“Eu vou até lá ajudá-lo, porque, senão, isso não sai hoje.”
“Vai lá correndo e dá um tapão no pescoço dele por mim.”

Vamos lá! Preciso de dados! Uma consulta na base de testes, copiada todos os dias, vai me dar uma noção de quantos registros terei que migrar. O problema são os dados de hoje! Por que todo mundo deixa pra fazer tudo na última hora? Se eu perder essa festa, eu juro que aquele infeliz não arranjará emprego nem em empresa de limpeza!

Dez mil registros, uma quantidade razoável. Preciso fazer uma cópia desses dados para a mesma tabela em produção. Só que eu não me lembro como se faz isso! O problema de virar gerente é esse: você acaba “esquecendo” das coisas!

Quando não se sabe de alguma coisa em informática, basta procurar na internet! Se você não encontrar algo idêntico ao que você quer, com certeza vai achar algo muito parecido.
Menos de um segundo depois e eu já estou com o que preciso fazer. Uns Select's, mais alguns ajustes, um teste básico e pronto! Feito!

Agora só falta o backup de hoje. Já são 17h50min e o Gilberto já foi. Vou chegar sozinho e atrasado! Eu sei que não acredito no senhor, meu Deus, mas dá uma ajudinha aí! Eu preciso transar hoje!

Tomara que Dario não descubra o que está acontecendo!

“David!”, gritou Dario.

Agora já era.

Capítulo 45 - A Suspeita do Início do Fim

“Ela fez o quê?”, perguntou Gilberto.

Estávamos no café, como de costume. Gilberto não estava fazendo nada e acabei chamando-o para conversar. Tinha que contar para alguém o que tinha ocorrido na reunião.

“Ela peitou o Astolfo! O cara parecia um cachorro sem dono ao final do esporro.”
“Cacete! A mulher, além de feia, é macho mesmo!”
“Eu fiquei atônito. Não conseguia me mexer, atracado com a cadeira.”
“Eu nunca imaginei em falar isso, mas você tem sorte de ter uma mulher assim trabalhando com você.”
“Eu também nunca imaginei em concordar com você. Não sobre isso.”

É incrível como algumas pessoas são curiosas. O Jorge, um técnico fofoqueiro da empresa, nunca toma café, mas, hoje, ele resolveu entrar na copa para pegar um. Ele deve estar tentando pescar alguma coisa do que estamos falando, mas ele não vai conseguir.

“E a festa?”, perguntou Gilberto, tentando mudar de assunto.
“Nem sei se vou. Estou com preguiça.”
“Eu também não estou com muita vontade.”

Bom, a mudança de assunto deu certo. Ele já foi embora. O sujeito é chato e inconveniente. Como podem existir pessoas assim? Agora podemos voltar ao assunto.

“Você perguntou o porquê dela ter feito aquilo?”
“Perguntei na volta. Ela disse que não estava agüentando mais aquele homem me maltratando.”
“Vixi! Ela deve estar apaixonada por você!”, disse ele, gargalhando.
“Sai pra lá, urubu! Já tenho compromisso pra hoje a noite!”

Não consigo imaginar alguém pegando a Ana Cláudia. É até estranho dizer isso, mas o marido dela tem sorte de ser cego.

“E aí? Empolgado?”
“Como nunca estive!”
“Eu estaria também, se fosse você.”
“Vai pra lá que horas? Já são 17h30min.”
“Vou às 18h mesmo, na hora que abre aquele lugar.”
“Eu vou com você então.”
“Cara, me deixa ir trabalhar. Preciso, ainda, ver se o Rodrigo terminou de corrigir o erro no sistema de Avaliação de Desempenho.”
“Não gosto de fazer isso, mas, quando passei por ele, ele estava de cabeça abaixada. Parecia dormir.”
“Não acredito! De novo?!”
“Ele estava normal, trabalhando. Mas aí colocou as mãos na cabeça e se abaixou na baia.”
“Mãos na cabeça?”
“É.”

Isso não é um bom sinal.

Capítulo 44 - Curta e Grossa

“Eu quero consultar o saldo das contas e pronto!”
“Não dá pra fazer isso, nós seremos presos!”
“Não me interessa!”

A Ana está mais inquieta do que o normal. Estou ficando preocupado.

“Astolfo, desculpa, mas não podemos fazer nada.”
“Vocês vão dar um jeito nessa merda, por que, se não, o contrato vai pro saco!, gritou ele.

Pronto, agora ferrou.

“Olha aqui, Senhor Asfalto!”, disse Ana, levantando e apontando o dedo para o homem.
“Meu nome é Astolfo!”
“Não me interessa qual é o seu nome!”
“Olha como fala comigo, sua...”
“Você fica quieto e me escuta! Se o David está dizendo que não dá pra fazer, nós não iremos fazer! Eu conheço bem o seu tipo imbecil e, se você continuar com esse terrorismo barato e idiota, você pode enfiar esse contrato no rabo junto com a sua prepotência!”

O silêncio. Ana ainda está respirando fundo, enquanto Astolfo se mantém de boca aberta. Eu ainda estou segurando os braços da cadeira, de tão nervoso. Não vai dar nem tempo de ir à festa, pois serei demitido na hora que pisar na empresa.

“Gostei de você!”, disse ele.
“Acordado então?”, perguntou ela.
“Sim, acordado.”

Mais um milagre para a minha coleção de hoje.

Capítulo 43 - A Questão do Escopo

A grande briga entre as consultorias de informática e seus usuários resume-se em apenas uma palavra: escopo.

Essa discussão já dura desde o início dos tempos, quando um homem discutia com o outro que tinha solicitado uma roda redonda e não uma roda quadrada. Isso causou uma grande confusão entre os dois que sucedeu uma quebra de pescoço e uma mulher roubada.

Acho que em todos os projetos que participei, até hoje, seja ele de informática ou não, tiveram problemas no escopo. Isso me lembra a minha primeira peça de teatro na escola.

Eu tinha cerca de doze anos e fazia parte do grupo de teatro da escola. Eu achava legal e todas as meninas da minha idade achavam lindo, um cara, numa sociedade tão machista, ter sentimentos legais, ao ponto de participar de uma peça de teatro. Mal sabiam elas que eu estava ali apenas para conseguir dar o meu primeiro beijo.

A diretora da peça, baseada num conto infantil, estava uma pilha, pois restavam apenas há três dias da estréia e o roteiro ainda possuía um problema, apontado pelos produtores. Existia um personagem na peça que matava um outro personagem com uma espadada na cabeça, o que seria muito trágico para uma peça para pré-adolescentes. Foi então que a diretora encomendou um escritor para reescrever a morte do sujeito.

A primeira versão do roteiro chegou impressa em papel meio amassado e cheia de manchas, o que tornou a sua leitura impossível. A diretora reclamou e, no mesmo dia, chegou uma nova versão, impressa em papel super-branco e em alto-relevo, mas faltando a parte que interessava: a alteração solicitada.

A diretora, em completo desespero, mandou um e-mail dando um bronca no sujeito e solicitando uma nova versão. Chegou inclusive a dizer que o contrato seria cancelado, caso a versão não chegasse naquele dia.

A nova versão chegou, em papel branco e letras em alto-relevo, além da parte faltante. Quando a diretora leu, ela caiu pra trás. A morte não somente continuava ali, como estava muito pior, pois envolvia um moedor de carne e um funil. O assistente de direção, vendo que a diretora já não tinha mais condições, convocou uma nova reunião com o escritor para acabar de vez com o problema. A reunião foi realizada e ficou decidido que a morte seria retirada do roteiro, tornando o final mais feliz.

No dia seguinte, uma nova versão chegou às mãos da diretora que leu e gostou. Ela apresentou um ensaio ao produtor que, pra variar, não gostou e pediu para voltar com a morte do garoto.
A diretora entrou em contato com o escritor e explicou o ocorrido. O escritor, por sua vez, ficou puto da vida e mandou a diretora à merda, dizendo nunca mais escrever uma linha sequer para ela.

A mulher ficou transtornada. Chorava por todos os cantos e não sabia mais o que fazer. Foi então que, com uma idéia brilhante, a diretora resolveu voltar ao roteiro original, mudando a forma da morte (uma pedra caía na cabeça do garoto), e mostrar aos produtores assim mesmo.
Ela realizou um novo ensaio e os produtores adoraram.

Seguimos em frente e estreamos no dia programado. A peça foi um fracasso e todos acharam que a morte do garoto foi muito trágica, preferindo que tivesse sido realizada de forma mais sutil, como uma espadada na cabeça. Os produtores, então, demitiram a diretora da peça. Ela nunca mais conseguiu um novo emprego.

As semelhanças entre esse e os outros projetos que eu participei em minha vida profissional são imensas! Tirei algumas lições desse caso e as levei por toda a minha vida profissional:

· Não importa em que área você trabalhe, as alterações no escopo estarão sempre presentes e atormentarão sua vida.
· Nunca terceirize os seus problemas. Eles sempre triplicam!
· Sempre tenha alguém para colocar a culpa, caso a coisa toda não dê certo.

Observação: adivinha quem era o garoto que morria?

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