Capítulo 4 - A Corrida

Existe uma grande curva ao final, logo na subida da rodovia, que impede avistar os ônibus que descem em direção a Alameda São Boaventura. Eu odeio essa curva, pois ela me deixa numa expectativa absurda. Aliás, porque todas as estradas não são feitas em linha reta? Acho que seria bem mais fácil e rápido de se chegar a algum lugar.

Subir num ônibus, aqui, é quase uma aventura. As pessoas, quando avistam o ônibus que desejam, já saem correndo feito umas loucas em direção a porta, só para conseguir um lugar para sentar, algo cada dia mais escasso. São ponta-pés, puxões de cabelo, socos no olho entre outros artifícios para se chegar à tão sonhada poltrona vazia. Todo mundo sabe que a alameda está sempre engarrafada e nada melhor que estar sentado no ônibus, em um engarrafamento. Já peguei alguns ônibus em pé, mas são momentos dos quais não quero me lembrar.

Depois de alguns anos, você consegue desenvolver técnicas para conseguir entrar na frente dos outros. Primeiro vem a técnica de avistar o ônibus. Você precisa saber detalhes como adesivos, formato das letras, cores, entre outros já que é necessária a identificação do carro de muito longe. Depois a técnica do posicionamento estratégico. Você precisa analisar a posição e força de todos os seus oponentes, além de calcular as possíveis posições do ônibus no ponto, levando em consideração os que já estão no ponto e os outros que ainda chegarão ao ponto. Usa-se muita probabilidade. A terceira já é mais tranqüila, pois se trata de uma técnica no interior do ônibus. Sempre finja que está dormindo ou com alguma dor, pois sempre aparece um velhinho, uma velhinha ou um deficiente para pedir o seu lugar. Eu utilizo essas técnicas todos os dias, por isso sempre vou sentado até a porta da empresa.

Hoje é um dia estranho, pois as pessoas se posicionaram em alguns pontos chave. Por incrível que possa parecer, o trânsito está tranqüilo, o que é quase um milagre.

Bom, o ônibus já está chegando e estou sem um ponto para me posicionar e isso com certeza não é coincidência. Será que eles descobriram as minhas técnicas? Ele é o próximo da fila a parar e a mulher com as crianças já está bem mais próxima da porta do que eu. Não me resta alternativa se não usar a quarta técnica, nunca antes utilizada: a força bruta.

Começou a corrida.

Já passei pela EMO que está andando como uma lesma. Sobre o gordo e a gorda não preciso nem dizer, pois já ficaram pra trás. Um vento repentino desarrumou o cabelo do magrelo, o que o fez parar para tentar dar um jeito da cabeleira inexistente. Menos um. Agora cheguei ao problema: a mulher com a ninhada.

Ela estava posicionada no melhor ponto! Existia ainda uma chance para mim, pois a criançada a estava atrasando um pouco, o que me fez ganhar tempo. Quando consegui ultrapassa-los a mulher gritou: “Pedrinho, pega aquele homem! Não o deixe chegar à porta do ônibus!”. O garoto, num surto de raiva, agarrou as minhas pernas me fazendo cair ao chão.

“Me solta garoto dos infernos” gritei chutando o menino. O garoto parecia possuído por um demônio, pois ficava rosnando e olhando pra mim com os olhos esbugalhados. Parecia um zumbi vindo do filme “Madrugada dos Mortos” (adoro esse filme!).

Com um chute, acertei o ombro do garoto, que urrou de dor. Ele devia ter algum problema no ombro, pois se levantou e saiu correndo na direção oposta do ônibus. A mãe, no momento de subir a escada, olhou para trás e viu o garoto indo embora, correndo e gritando feito um louco. Ela xingou algumas vezes e desceu, carregando a penca junto com ela. Levantei sorridente e corri para o ônibus. Com olhar de vitorioso, passei pela mulher que tentou cuspir em mim, mas consegui desviar a tempo. Já assisti muito Matrix, por isso minha percepção e destreza já estão bem aguçadas.

Enfim, estou dentro do ônibus. Meio sujo, mas ainda inteiro.

Uma coisa eu preciso dizer: o ar-condicionado é uma das melhores invenções da humanidade, principalmente quando se mora no buraco onde o capeta se esconde, como é o caso do Fonseca. Acho que eu beijaria na boca o inventor dessa maravilha. Na verdade, retiro o que eu disse, pois o sujeito deve ser homem e eu não beijo homem!

Como previsto, havia apenas um lugar vazio no ônibus e na janela! Olhei para trás feliz e vi o motorista dizendo para os outros que estavam no ponto que não havia mais lugares. Mesmo assim, algumas outras pessoas entraram e permaneceram em pé. Não vi nenhum dos sujeitos do ponto, ou seja, eles aceitaram a derrota. Estou sujo, mas me sinto vitorioso.

O caminho em direção ao assento parecia possuir um tapete vermelho. Eu sou um rei, um rei que realizou um feito significativo e derrotou seus inimigos. Eu mereço aquele trono. Gostaria que tivesse uma rainha para sentar ao meu lado, de preferência uma que batesse com a descrição da mulher do meu sonho. Mas a realidade é dura e a decepção tomou conta de mim, quando olhei para o que me acompanharia durante toda a viagem.

Um sujeito enorme de gordo estava ali, roncando. Os braços cruzados, apoiados na barriga imensa, subiam e desciam com a sua respiração profunda. Estou com medo de acordá-lo e descobrir que o sujeito não é humano. Acho que tem um Alien pra sair da barriga dele!

Ele está ocupando toda a sua poltrona e mais um pedaço da minha. Como eu vou conseguir sentar ali? Bom, vamos lá acordar o Jaba.

“Senhor”, primeira tentativa sem sucesso.
“Senhor!”, na segunda tentativa, ele se mexeu, ou seja, não está morto e nem em fase de decomposição.
“Senhor, eu preciso sentar!”, dei uma cutucada no sujeito que acordou assustado.
“Desculpe meu filho. Eu estava sonhando com o Senhor”, disse ele.
“Comigo?”, perguntei sem entender.
“Não meu querido, com o Senhor todo poderoso!”, disse ele sorrindo e se levantando com dificuldade para me dar a passagem.

Um evangélico. Era só o que me faltava.

Capítulo 3 - O Destino de um Pobre

Por incrível que pareça, o elevador do meu prédio estava funcionando normalmente, o que é quase um milagre. Ele sempre emperra quando mais se precisa e, aí, tenho que descer ou subir os dez lances de degraus da escada de incêndio. Não preciso dizer que chego ao meu destino completamente molhado de suor, o que é bem nojento.

O caminho para o ponto de ônibus foi tranqüilo, sem muitos problemas. A única coisa que, talvez, seja considerada estranha, é a permanência dos porcos na rua a essa hora do dia. Pode parecer estranho, mas alguma entidade misteriosa materializa vários porcos a noite para revirarem os lixos dos outros atrás de comida. No outro dia, de manhã, os bichos já não estão mais lá. São vários e enormes! Eu tenho até medo de ser mordido por um deles (porcos mordem?), por isso, passei do outro lado da rua, bem longe daqueles bichos nojentos.

Voltando: existe coisa mais deprimente do que um ponto de ônibus? Você fica ali, parado, esperando um veículo de transporte coletivo resolver parar e te levar. Fora que a gente fica do lado de um monte de gente desconhecida e feia. Acho que nunca encontrei uma pessoa bonita num ponto de ônibus. Todas elas devem andar de carro ou então de táxi, o que me faz chegar a uma conclusão: ou todas as pessoas bonitas são ricas, o que explica o fato de elas não estarem em um ponto de ônibus e, sim, em táxis e carros importados, ou elas simplesmente não existem (foram criadas como ilusão de ótica por algum cientista que não gostava de olhar para a mulher que tinha). Essas são as únicas explicações que consigo pensar.

Hoje é um recorde. Acho que todas as pessoas ao meu lado passaram por uma linha de produção com defeito. O operador da máquina devia estar com sono ou querendo um aumento, de tanta gente feia. E com certeza eram todas do mesmo lote! Vou detalhar alguns dos espécimes presentes:
  • Uma mulher gorda (quando eu digo gorda é gorda mesmo) com uma mini-saia e uma blusinha agarrada mostrando a barriga (eu juro que eu quase vomitei quando olhei a perna dela... lembrei logo de um bolo de carne moída).
  • Um homem alto, magro e careca, mas pelo jeito ele não queria ser careca. Havia alguns fiapos de cabelo compridos partindo de um lado para o outro na cabeça. Sinceramente, não sei se ele achava que o penteado exótico o deixaria menos careca. Não vou comentar suas roupas.
  • Uma menina, muito magra e branca com uma roupa preta cobrindo todo seu corpo. Não dá pra identificar aonde termina uma e começa outra peça de roupa. Além disso, ela está com um all-star preto (odeio esse tênis!) e possui alguns milhares de piercings no rosto. Tinha um no lábio dava para prender uma corrente de cachorro. Acho que é de uma dessas tribos malucas, meio EMO, sei lá. Só sei que a garota parecia que ia tirar uma gilete da bolsa e se matar a qualquer momento.
  • Uma mulher normal, bem estragadinha, com uma penca de filhos. Tem umas sete crianças ao seu redor e são todos parecidos com ela (olhos esbugalhados e orelhas de abano). Provavelmente a coitada não tinha televisão em casa.
  • Um gordinho com cara de nerd, com cabelo grande e ouvindo música. O som do Ipod dele está bem alto e dá para perceber que ele está ouvindo alguma música japonesa. Deve ser a trilha sonora de algum desenho pervertido.
O gordinho, agora, está tentando extrair algo do nariz. Um dos moleques está puxando a saia da mãe pedindo para ir embora, enquanto um outro está socando a cabeça da irmã na propaganda do ponto. A mãe não está nem vendo, mas a menina já está sangrando.

O magricela está ajeitando o cabelo que ele não tem e a gordinha está puxando a blusa para baixo, tentando esconder a barriga. Infelizmente descobri que ela tem um piercing no umbigo. Sinceramente não consigo entender porque mulher gorda coloca um piercing no umbigo!

Tudo muito clichê, mas é a mais pura verdade. E viva o Fonseca!

Capítulo 2 - Dúvida Cruel

Bom, tenho apenas alguns minutos para realizar todas as minhas tarefas e ainda estou sentado na cama, olhando para o meu querido rádio-relógio. Se não fosse a obra na rua lá embaixo, eu estaria dormindo ainda. Nunca pensei que o som de uma britadeira salvaria meu emprego, até porque, não há nada mais insuportável do que o som de trabalhadores furando o asfalto às 8h da manhã. Se eu conseguir chegar a tempo, tenho que me lembrar de agradecer os caras pela ajuda.

Voltando aos meus afazeres matinais, acredito que eu tenha que cortar algumas das minhas atividades para conseguir chegar a tempo no trabalho. Sintetizando:

  1. Ficar enrolando na cama durante 45 minutos, após desligar o primeiro toque do despertador -> 45 minutos
  2. Tentar me manter de pé, equilibrando meu corpo para não cair na cama novamente e voltar a dormir -> 10 minutos
  3. Caminhar calmamente até o banheiro -> 3 minutos
  4. Ligar o chuveiro e aguardar a água esquentar por causa do aquecedor que está com defeito -> 20 minutos
  5. Relaxar debaixo do chuveiro -> 10 minutos
  6. Descarregar os três meses de abstinência -> 2 minutos
  7. Escolher a roupa para trabalhar -> 1 minuto
  8. Vestir a roupa, comer um biscoito e sair de casa -> 5 minutos
  9. Andar até o ponto correndo -> 5 minutos
    Total -> 1h 46 min.

São 08h15min. A primeira atividade já foi realizada. Inclusive passou da conta. A segunda atividade já foi realizada em tempo recorde (1 minuto) devido ao susto de saber que estou completamente ferrado. A terceira, posso realizar na metade do tempo. A quarta é um problema.

O Aquecedor do apartamento é a gás e deveria esquentar a água no mínimo em trinta segundos, segundo as instruções do vendedor que me vendeu o aparelho. Realmente, no início, o aquecedor funcionava que era uma beleza. Era só abrir a torneira que, em poucos segundos, uma enxurrada de água fervente surgia, jogando fumaça para todos os lados e embaçando o espelho do banheiro. Era bom demais!

Um dia, minha querida irmã resolveu acender o gás manualmente, pois havia faltado a luz. Na hora de enfiar o isqueiro na abertura para acender a chama, ela fez algo que não devia e acabou provocando uma pequena explosão, que fechou quase totalmente a entrada de gás do aquecedor. Eu, como todo bom irmão que odeia a irmã burra, fui solidário e levei o aquecedor para consertar. Levei um susto quando vi o orçamento.

O vendedor da autorizada teve a coragem de me dizer que teria que trocar toda a parte plástica interna do aquecedor (como pode um aquecedor ter partes plásticas internas???), o que encareceria bastante o preço do conserto. E realmente encareceu, pois ficou quase o preço de um novo aquecedor. Desisti de consertar e, hoje, convivo com os vinte minutos requeridos para aquecer a água.

Voltando aos itens, a quarta é um problema porque eu odeio água gelada. Odeio ao ponto de nunca ter entrado em um rio ou cachoeira para tomar banho. Sempre fui criticado por isso (e sacaneado também), mas eu simplesmente não consigo. Como eu não tenho 20 minutos disponíveis, vou ter que juntar as minhas forças, pedir ajuda aos céus para conseguir pelo menos lavar o cabelo.

Relaxar debaixo da água quente é uma maravilha, é revigorante. Como a água está fria, eu passo para o próximo item.

A seção de descarrego é problemática. Com essa água fria, o coitado não vai querer dar as caras. Ele já não é grandes coisas e na água fria então, nem se fala. O problema é que eu sou meio viciado, o que me causa crise de abstinência, caso eu não venha a realizar o ritual pelo menos uma vez ao dia. Normalmente faço no chuveiro, mas hoje vai ter que ser na pia mesmo.

A roupa pode ser qualquer uma, pois eu já passei da fase de andar arrumadinho para ver se alguém me dá um aumento. Eu não vou mudar o mundo mesmo, então eu prefiro ser um ninguém mais a vontade. Além disso, o Rio de Janeiro é um inferno no verão, o que complica um pouco. Eu acho que todas as empresas do Rio deveriam permitir os funcionários a trabalhar de bermuda e chinelão. As mulheres não podem ir de saia curta e decote no umbigo? Porque não podemos usar uma bermuda? Será que as pessoas não gostam de olhar uma perna cabeluda? Outra discussão filosófica que pode ficar para depois.

Comer, eu como qualquer coisa. Posso deixar pra comer no trabalho mesmo, pois eles dão pão com manteiga como café da manhã. Não é grande coisa, mas dá pra tapar o buraco do dente até a hora do almoço.

Sair de casa é o fim do processo.

Acho que se eu fosse o Juliano eu desenharia o fluxograma pra poder entender direito o que fazer. Mas depois eu falo sobre o Juliano.

Como ficou a lista de afazeres:

  1. Tomar banho de água gelada -> 5 minutos
  2. Descarregar os três meses de abstinência na pia -> 2 minutos
  3. Escolher a roupa para trabalhar -> 1 minuto
  4. Vestir a roupa, comer um biscoito e sair de casa -> 5 minutos
  5. Andar até o ponto correndo -> 5 minutos
    Total -> 18 min.

Mais treze minutos, serão 08h33min. Como o ônibus passa no ponto às 08h30min, eu teria que sair agora para chegar a tempo de embarcar, ou seja, não dá tempo.

Vou ter que mudar algumas coisas:

  1. Molhar o cabelo -> 1 minuto
  2. Vestir a roupa e sair de casa -> 2 minutos
  3. Andar até o ponto -> 5 minutos
    Total -> 8 min.

Agora dá tempo!
Há! Eu esqueci do tempo de reza para não pegar engarrafamento...

Capítulo 1 - A Maldição do Rádio-relógio

Sabe aqueles dias em que você sabe que tem que acordar cedo, pois você tem uma reunião às 09h00min, mas simplesmente, por um impulso, você desliga a merda do despertador e volta imediatamente a dormir profundamente? Pois é, esse é um daqueles dias e acabei de desligar o despertador.

Bom, levando em conta que a minha reunião é uma apresentação de um projeto que estou trabalhando há seis meses, acho que eu deveria estar no mínimo estressado nesse momento, levantando, correndo, sei lá, algo parecido com isso. Mas não. Pela minha cara de felicidade agarrando o travesseiro, definitivamente, não pareço muito preocupado.

Eu moro num modesto apartamento de quatro suítes em Icaraí, de frente pra praia e com uma varanda de sete metros de comprimento. Tenho uma mulher maravilhosamente gostosa e muda. Não reclama de nada (claro, ela é muda!) e sempre me acorda com um serviço sexual básico. Depois de terminado o “trabalho”, ela se levanta e vai preparar o café da manhã, sempre com um sorriso maravilhoso e agradável.

Revigorado, me levanto e vou tomar um banho no meu lindo banheiro, este equipado com uma banheira de hidromassagem de três mil litros. Quase uma piscina (dá até pra nadar!). Após o banho, me visto, desço dois lances de escadas até a cozinha e tomo meu café enquanto minha amada esposa realiza mais um de seus serviços.

Acabado todo o processo matinal, saio de casa até a minha garagem, pego o meu Porsche e saio pela estrada de árvores imponentes e passarinhos cantantes.

Eu sonho com isso praticamente todos os dias e claro que, se eu tivesse isso tudo, não estaria muito preocupado com a apresentação que provavelmente vale meu emprego.

Devo estar sonhando com isso nesse momento, pois estou agarrando com muita força o travesseiro extra comprado com muito esforço na liquidação de uma loja de varejo aqui de Niterói. Por falar nesse bendito travesseiro, segue uma explicação sucinta da história do mesmo, em itens:

  • Locutor narrando: “Esse travesseiro fará maravilhas para a sua coluna, vejam só!”.
  • TV mostrando a imagem de uma mulher com a calça no meio das costas deitando no travesseiro perfeito. O travesseiro parece fofo, lindo e branco. A mulher superfeliz dá um depoimento empolgante.
  • Locutor narrando: “Compre agora o seu em qualquer uma das nossas lojas por apenas R$14,99!”.
  • Eu, pensando: “Puta merda, preciso de um desses!”.
  • Eu, gritando com o outro cliente já na loja: “Esse travesseiro é meu, seu filho da puta! Eu vi primeiro!”.
  • Eu, falando com a caixa após um olho roxo, mas com o travesseiro em mãos: “Obrigado!”.
  • O travesseiro, após eu encostar a cabeça, foi descendo, murchando, até encontrar o colchão velho doado pela minha avó.
  • Eu, em pensamento rápido: “Isso vem com bomba pra encher?”.
  • Eu, pensando, após a primeira noite usando o travesseiro: “Eu mato aquele locutor!”.


Como não dava pra dormir com ele, passei a usá-lo como qualquer objeto dos meus sonhos. Não quero mais falar sobre isso, pois foi muito traumático.

Enquanto continuo no meu sono de beleza, deixe-me apresentar: eu me chamo David. Sou alto, forte, moreno, gostoso, lindo e bem-dotado... isso pra minha mãe. Para os outros mortais, que não reconhecem minha divindade como minha querida progenitora, sou alto, magro e bem-apresentável (adjetivo que representa a minha total beleza).

Eu moro no Fonseca, em Niterói, num condomínio que deveria ser um paraíso (pelo menos parecia no panfleto distribuído na época da construção), mas não é. Inclusive destruíram todo o jardim, que era o mais legal do condomínio, para liberar mais espaço para garagem. Quase morri quando fiquei sabendo disso, mas os condôminos “legais” aceitaram, então tive que ficar quieto. Resumindo, o condomínio até que é bom, mas está situado num local não muito bom e mataram a porra do jardim! Só pra deixar algo bem claro: Fonseca não é São Gonçalo!

Já são 7h40min e parece que estou querendo fazer algo meio obsceno com o travesseiro.

Continuando o assunto da minha moradia: o apartamento é minúsculo e tem dois quartos, um banheiro, cozinha e sala. Se colocarmos dez pessoas na sala, não entra nem um Basset a mais. Um quarto é meu e o outro da minha irmã querida. Sim, eu sei: morar com mulher, sem ser sua esposa, é um saco. Ela ocupa a porra do banheiro sempre que você precisa. Nunca, mas nunca mesmo, more num apartamento com um banheiro apenas. É suicídio!

Joana ocupa o minúsculo compartimento por horas. Na verdade, parecem séculos. Sugeri que ela se mudasse pra dentro do banheiro, mas ela me xingou um pouco. Quando falei que ia retirar o chuveirinho do vaso então, ela quase me jogou pela janela. Acredito que retirando o bendito, ela demoraria menos no banheiro, mas foram tantos xingamentos que desisti da idéia. Aliás, os xingamentos são tão constantes que as pessoas devem achar que esse é o nosso único meio de comunicação.

Uma coisa boa sobre Joana: ela é linda. É sério! Todos os meus amigos babam por ela. Inclusive, acho que alguns só conversam comigo pra tentar algo com a garota, mas ela nunca dá muita bola pra eles.

Hoje ela está trabalhando no ramo do entretenimento masculino. Traduzindo: ela é puta. Até ganha bem com isso, mas gasta grande parte do dinheiro que ganha na tão sonhada faculdade de direito. Agora, uma pergunta: por que toda puta faz faculdade de direito? Será que é algum desejo de justiça, imposto, inconscientemente, pela profissão da vida? Essa é uma questão filosófica bastante complexa, na qual não quero gastar meus neurônios. Pelo menos, ela não leva trabalho pra casa.

Eu já devia estar acordado nesse momento, mas, até agora, continuo no travesseiro tentando fazer o impossível. A minha querida irmã seria a minha última esperança, mas a coitada deve ter trabalhado bastante durante a noite, então acho bastante difícil ela sequer se mexer na cama.

Sigo meu sono de beleza. Nesse momento o magnífico travesseiro já está todo babado. Algo importante me ocorreu. A reunião importante não só é importante, como é para o presidente da empresa cliente! Já são 08h10min e você sabe qual é a chance de eu chegar ao trabalho antes das 9h? Zero! Estou, literalmente, fodido e mal-pago.

Um barulho, um fio de esperança surgiu no mais profundo âmago da minha consciência. O travesseiro babado já se encontra fora do meu alcance. Eu devo o ter largado após não conseguir fazer com ele o que eu pretendia. Troquei-o pela colcha que estava quase caindo no chão.

Mais um barulho! Já estou incomodado.

Mais um, seguido de outro! Virei a cara para o rádio-relógio. Vou abrir os olhos a qualquer momento. Já estou me mexendo na cama, incomodado com o barulho constante.

Abri os olhos! Estou focando o relógio a quase um metro de distância. Apenas uma frase veio na minha cabeça e saiu quase que involuntariamente, num grito abafado pela colcha que ainda estava perto da minha boca.

“Puta que pariu, que merda!”