Eu tenho uma coisa a confessar: fui eu quem contratou a Ana Cláudia. Eu sei que as pessoas erram e pode ter certeza que aprendi com meu erro. Mas o que eu podia fazer? Ela fez as provas de seleção e conseguiu tirar dez em todas elas. Além disso, eu estava com pressa, precisava de alguém logo, pois o projeto já estava em andamento. Como não tive tempo de entrevistá-la, pedi a analista da RH responsável para contratá-la assim mesmo.
Quando a garota chegou, em seu primeiro dia de trabalho, levei um susto e quase caí da cadeira. Recebi a menina, sem olhar muito pra ela, e fui correndo para o RH tirar satisfações com a analista. Ela me disse que não podia fazer nada e que a culpa foi minha por não ter conversado com a Ana Cláudia antes. Deus sabe como eu rezei para que ela fosse linda e inteligente, mas ele exagerou em uma e esqueceu da outra qualidade. Também, em informática não se pode esperar muito quando o quesito é beleza feminina!
Depois de ouvir todas as regras de ética seguidas pelo setor, eu desisti de argumentar com a analista e fui enfrentar o meu novo problema.
Seguimos para a sala de reunião para uma conversa, só eu e ela. Juro que, no primeiro sorriso, fiquei com medo de um alien sair da boca dela para me matar.
“Queria te pedir desculpas por não ter conseguido te entrevistar.”
“Sem problemas.”
“Fiquei impressionado com as suas notas. Foram as melhores em anos!”
“Minha mãe sempre dizia: ‘Minha filha, se você não tem beleza externa, use a sua inteligência! ’.”
Fiquei pasmo quando ela me disse isso, mas pelo menos ela é uma pessoa realista. E a mãe também.
“Queria pedir desculpas, também, pelo incidente na sua chegada.”
“Deixa isso pra lá. Já estou acostumada.”
“Acostumada?”
“É. As pessoas não gostam muito de olhar pra mim.”
“E como você se sente sobre isso?”
“Normal. Nada me afeta, pois quem eu quero sempre estará do meu lado.”
“Não vai me dizer que você é crente?”
“Crente? Não. Sou católica, mas não muito praticante. Estava falando do meu marido.”
“Não sabia que você era casada. E ele também tinha problemas com a sua aparência?”
“Não. Ele nunca teve.”
“Existem pessoas que não ligam para beleza exterior. Acho isso legal, pois vai contra o que a sociedade acha. Deve ser um cara de personalidade.”
“Não é isso. É que ele é cego.”
Isso explicou tudo.
Depois dessa reunião, fiquei mais a vontade. Já conseguia olhar pra ela tranquilamente. Era só não prestar muita atenção.
Hoje eu fico agradecido por ela estar na minha equipe, pois já me tirou de várias furadas, com suas sacadas repentinas e soluções brilhantes. Penso nela como a minha sucessora, mas não sei se Dario agüentaria ficar mais de cinco minutos em reunião com ela. Afinal de contas, eu continuo achando que um alien vai sair da boca dela um dia.
Here and Back Again...
Há 14 anos

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