Existe uma grande curva ao final, logo na subida da rodovia, que impede avistar os ônibus que descem em direção a Alameda São Boaventura. Eu odeio essa curva, pois ela me deixa numa expectativa absurda. Aliás, porque todas as estradas não são feitas em linha reta? Acho que seria bem mais fácil e rápido de se chegar a algum lugar.
Subir num ônibus, aqui, é quase uma aventura. As pessoas, quando avistam o ônibus que desejam, já saem correndo feito umas loucas em direção a porta, só para conseguir um lugar para sentar, algo cada dia mais escasso. São ponta-pés, puxões de cabelo, socos no olho entre outros artifícios para se chegar à tão sonhada poltrona vazia. Todo mundo sabe que a alameda está sempre engarrafada e nada melhor que estar sentado no ônibus, em um engarrafamento. Já peguei alguns ônibus em pé, mas são momentos dos quais não quero me lembrar.
Depois de alguns anos, você consegue desenvolver técnicas para conseguir entrar na frente dos outros. Primeiro vem a técnica de avistar o ônibus. Você precisa saber detalhes como adesivos, formato das letras, cores, entre outros já que é necessária a identificação do carro de muito longe. Depois a técnica do posicionamento estratégico. Você precisa analisar a posição e força de todos os seus oponentes, além de calcular as possíveis posições do ônibus no ponto, levando em consideração os que já estão no ponto e os outros que ainda chegarão ao ponto. Usa-se muita probabilidade. A terceira já é mais tranqüila, pois se trata de uma técnica no interior do ônibus. Sempre finja que está dormindo ou com alguma dor, pois sempre aparece um velhinho, uma velhinha ou um deficiente para pedir o seu lugar. Eu utilizo essas técnicas todos os dias, por isso sempre vou sentado até a porta da empresa.
Hoje é um dia estranho, pois as pessoas se posicionaram em alguns pontos chave. Por incrível que possa parecer, o trânsito está tranqüilo, o que é quase um milagre.
Bom, o ônibus já está chegando e estou sem um ponto para me posicionar e isso com certeza não é coincidência. Será que eles descobriram as minhas técnicas? Ele é o próximo da fila a parar e a mulher com as crianças já está bem mais próxima da porta do que eu. Não me resta alternativa se não usar a quarta técnica, nunca antes utilizada: a força bruta.
Começou a corrida.
Já passei pela EMO que está andando como uma lesma. Sobre o gordo e a gorda não preciso nem dizer, pois já ficaram pra trás. Um vento repentino desarrumou o cabelo do magrelo, o que o fez parar para tentar dar um jeito da cabeleira inexistente. Menos um. Agora cheguei ao problema: a mulher com a ninhada.
Ela estava posicionada no melhor ponto! Existia ainda uma chance para mim, pois a criançada a estava atrasando um pouco, o que me fez ganhar tempo. Quando consegui ultrapassa-los a mulher gritou: “Pedrinho, pega aquele homem! Não o deixe chegar à porta do ônibus!”. O garoto, num surto de raiva, agarrou as minhas pernas me fazendo cair ao chão.
“Me solta garoto dos infernos” gritei chutando o menino. O garoto parecia possuído por um demônio, pois ficava rosnando e olhando pra mim com os olhos esbugalhados. Parecia um zumbi vindo do filme “Madrugada dos Mortos” (adoro esse filme!).
Com um chute, acertei o ombro do garoto, que urrou de dor. Ele devia ter algum problema no ombro, pois se levantou e saiu correndo na direção oposta do ônibus. A mãe, no momento de subir a escada, olhou para trás e viu o garoto indo embora, correndo e gritando feito um louco. Ela xingou algumas vezes e desceu, carregando a penca junto com ela. Levantei sorridente e corri para o ônibus. Com olhar de vitorioso, passei pela mulher que tentou cuspir em mim, mas consegui desviar a tempo. Já assisti muito Matrix, por isso minha percepção e destreza já estão bem aguçadas.
Enfim, estou dentro do ônibus. Meio sujo, mas ainda inteiro.
Uma coisa eu preciso dizer: o ar-condicionado é uma das melhores invenções da humanidade, principalmente quando se mora no buraco onde o capeta se esconde, como é o caso do Fonseca. Acho que eu beijaria na boca o inventor dessa maravilha. Na verdade, retiro o que eu disse, pois o sujeito deve ser homem e eu não beijo homem!
Como previsto, havia apenas um lugar vazio no ônibus e na janela! Olhei para trás feliz e vi o motorista dizendo para os outros que estavam no ponto que não havia mais lugares. Mesmo assim, algumas outras pessoas entraram e permaneceram em pé. Não vi nenhum dos sujeitos do ponto, ou seja, eles aceitaram a derrota. Estou sujo, mas me sinto vitorioso.
O caminho em direção ao assento parecia possuir um tapete vermelho. Eu sou um rei, um rei que realizou um feito significativo e derrotou seus inimigos. Eu mereço aquele trono. Gostaria que tivesse uma rainha para sentar ao meu lado, de preferência uma que batesse com a descrição da mulher do meu sonho. Mas a realidade é dura e a decepção tomou conta de mim, quando olhei para o que me acompanharia durante toda a viagem.
Um sujeito enorme de gordo estava ali, roncando. Os braços cruzados, apoiados na barriga imensa, subiam e desciam com a sua respiração profunda. Estou com medo de acordá-lo e descobrir que o sujeito não é humano. Acho que tem um Alien pra sair da barriga dele!
Ele está ocupando toda a sua poltrona e mais um pedaço da minha. Como eu vou conseguir sentar ali? Bom, vamos lá acordar o Jaba.
“Senhor”, primeira tentativa sem sucesso.
“Senhor!”, na segunda tentativa, ele se mexeu, ou seja, não está morto e nem em fase de decomposição.
“Senhor, eu preciso sentar!”, dei uma cutucada no sujeito que acordou assustado.
“Desculpe meu filho. Eu estava sonhando com o Senhor”, disse ele.
“Comigo?”, perguntei sem entender.
“Não meu querido, com o Senhor todo poderoso!”, disse ele sorrindo e se levantando com dificuldade para me dar a passagem.
Um evangélico. Era só o que me faltava.

Nenhum comentário:
Postar um comentário