Capítulo 24 - Família Feliz

Joana e eu nunca nos demos muito bem. Por ser três anos mais novo, minha mãe me mimou um pouco mais do que Joana, o que foi suficiente para ela me odiar para o resto da vida.

Ela era filha única e acabei chegando e roubando o trono dela. Isso fez com que ocorresse um desvio de conduta, causando uma perturbação psicológica grave e quebra da linha de sua personalidade. Acho que foi isso que o médico falou pra minha mãe na época que minha irmã tentou me afogar no aquário lá de casa. Pelo menos foi o que ela me contou, já que eu tinha apenas um ano de vida na época da lição de nado involuntária.

Depois que eu comecei a perceber o mundo, tratei de arranjar algumas técnicas para me defender das maldades dela. Uma das mais clássicas era fingir que ela tinha me batido para poder ganhar algo com a minha mãe. Ela podia estar no quarto dela e eu no meu, que eu saía gritando, dizendo que ela tinha me batido por nada. Era quase um prazer vê-la levando uma surra. Eu sei que era um sentimento estranho, até porque isso poderia ter afetado na minha personalidade, mas era muito bom assisti-la apanhando, já que, na maioria das brigas corporais com ela, era eu que apanhava (ela era maior do que eu!).

O tempo foi passando e eu fui crescendo. Ela nunca deixou de me encher o saco, mas não existiam mais brigas com agressão física. Na última vez, fui bastante criticado, pois dei um soco em suas costas que deixou a garota sem ar por um bom tempo. Ainda tive que ouvir a minha avó dizendo “Ela é mocinha agora! Não pode apanhar porque, senão, pode desregular o período dela!”.

Depois desse episódio, foram realizadas apenas brigas verbais, mas sem restrições quanto à forma da linguagem empregada, o que se tornou a nossa forma de comunicação mais freqüente.

Após sua ida para Niterói, para freqüentar a faculdade, minha vida ficou menos tumultuada. Infelizmente, minha mãe não tinha dinheiro para pagar um apartamento para cada, por isso, quando passei na federal, fui morar com Joana. As brigas eram feias e os vizinhos reclamavam constantemente. Pelo menos até eu descobrir, sem querer, sua nova forma de ganhar dinheiro. Só fiquei quieto porque ela prometeu me arranjar umas amigas de graça. Assim, minha mãe não ficava sabendo de nada, ela continuava ganhando dinheiro, eu ficava com as amigas dela e todo mundo ficava feliz. Simples assim!

Hoje sou muito mais tranqüilo, mas, às vezes, ela me tira do sério. Afinal, ninguém agüenta tanta burrice e prepotência numa pessoa só.

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