Capítulo 26 - Segundo Confronto

Se eu pudesse, voltaria para os meus e-mails, mas o Rodrigo está vindo pra cá, provavelmente para me encher a paciência. Será que ele ouviu minha conversa?

“Fala Rodrigo, o que você quer agora?”
“Nada, só queria saber o que estava acontecendo.”
“Não foi nada.”
“Como não foi nada? Você estava nervoso no telefone. Aconteceu alguma coisa?”
“Não aconteceu nada.”
“Tem certeza? Não quer se abrir comigo?”

Existe coisa mais irritante do que uma pessoa intrometida? Ele não tinha nem que estar prestando atenção à minha conversa!

“Não, não quero.”
“Tem certeza?”
“Cacete, Rodrigo! Já disse que não foi nada! Dá pra me deixar em paz?”
“Ok! Desculpa! Quando quiser conversar, estou aqui do lado.”

Não entendi porque ele piscou após dizer essa frase. Será que ele acha que, dando uma de psicólogo pra cima de mim, ele vai conseguir algum aumento? Se for isso, ele é mais idiota do que eu pensava.

“Rodrigo! Preciso te fazer uma pergunta.”
“Diga chefe!”
“Não precisa me chamar de chefe, eu já te disse isso algumas vezes.”
“Desculpa! É que eu acho mais legal.”

Vou ignorar essa última frase.

“Por que diabos você enviou um caso de uso para o cliente sem passar pela Ana Cláudia?”
“Eu achei que já estava preparado para fazer algo sozinho. Além disso, não agüento mais ela ficar alterando tudo que eu faço. Fica parecendo que não sei fazer nada direito!”

Bingo! Infelizmente não posso confirmar essa suspeita.

“A gente não tinha combinado?”
“Tinha. Mas eu tinha certeza de que esse tinha sido o melhor caso de uso que eu já tinha escrevido até hoje!”

“Escrevido”? Isso é o nome de algum sabonete novo?

“Imagino.”
“Imagina o quê?”
“Nada não. Agora, por que você escreveu que a gente poderia consultar o saldo das pessoas nos bancos? Você não sabia que isso era proibido?”
“Sabia, mas eu li num site que dava pra fazer e era bem fácil.”
“Mas que site é esse?”
“Acho que era algo parecido com www.hackerecia.com.”
“Você tá maluco?”
“Não que eu saiba, por quê?”
“Isso é um site de invasão! Não podemos nos basear nele!”
“Mas você disse pra ‘mim’ procurar na internet por facilidades para os clientes!”
“Eu sei que eu disse, mas não num site de hacker! Era pra entrar num fórum de programação ou coisa do tipo!”
“Eu apenas segui suas ordens. Era pra procurar na internet, então eu procurei!”

O que eu faço com um sujeito desses? A minha vontade é jogá-lo pela janela, como fazemos com os papeis antigos no final de ano!

“Você tem idéia de quanto transtorno isso causou?”
“Acredito que ninguém tenha reclamado. Ninguém me ligou pra reclamar até agora e toda vez eles ligam. Na verdade, ligam até bastante”.
“Eu tive que marcar uma reunião hoje à tarde para acalmar os ânimos daquele povo!”
“Reunião? Eu posso participar?”
“A Ana vai comigo e não posso levar mais de uma pessoa.”
“Além de me corrigir em tudo, agora toma o meu lugar nas reuniões.”

Ele está fazendo cara de choro. Será que se eu der um tapão no pescoço dele, ele começa a chorar de verdade?

“Rodrigo, me faz um favor: vai pra sua baia e não saia de lá até eu ir embora.”
“Mas chefe, faltam quinze minutos pro almoço!”
“Faz o que eu estou pedindo, por favor?”
“Ok! Mas acho que eu vou ficar com fome.”
“Quando você ficar com fome, você pode levantar, ok?”
“Tá bom. Você que manda.”

Ele não moveu um músculo. Continua parado, a minha frente, olhando pra mim com cara de idiota. Será que se eu jogar uma bolinha de papel ele sai correndo atrás? Só tenho medo dele gostar da brincadeira.

“Está aqui ainda por quê?”
“Ok! Já estou indo!”

Finalmente, me livrei desse maluco. Por enquanto.

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