Existe uma máquina de fax na empresa que é liberada para todos os funcionários. O único problema é que, para conseguir ligar e solicitar o sinal do fax, você precisa do fio do telefone, que fica com Regininha. Eles resolveram tirar o cabo porque o segurança não parava de usar o telefone. O coitado tentava, sem muito sucesso, convencer seu filho a não ser gay. Tudo bem ele tentar, mas ele podia fazer isso em casa e não no telefone da empresa.
“Alô! Poderia me liberar o sinal do fax, por favor?”
É engraçado como algumas coisas não mudam. O fax, por exemplo, já era para ter sido abolido há pelo menos uns dez anos. A internet chegou e não vejo diferença em se mandar um documento por fax ou por e-mail. A autenticidade será duvidosa em ambos os casos, então, para que se preocupar com segurança? Presume-se, apenas, que a pessoa não esteja te enganando. Apenas isso.
“Poderia confirmar o recebimento?”
“Recebemos uma conta com registro de pagamento com data de hoje. Confere?”
“Sim, é isso mesmo.”
“E mando para quem esse fax?”
“Para o Eduardo, do setor financeiro.”
“Só um segundo.”
Pelo menos essa empresa não possui setor de telemarketing, nem atendimento eletrônico, o que é quase um milagre hoje em dia. Nela, conseguimos falar direto com quem queremos, o que torna as coisas muito mais práticas e fáceis.
Quando preciso utilizar atendimento eletrônico, quase sempre tenho taquicardia. Esse tipo de atendimento é extremamente irritante, pois, além de ter que ouvir uma mulher com voz de zumbi, temos que pressionar milhões de opções para, no final, não obter a informação que queremos. A ligação, então, é transferida para um atendente. A etapa seguinte é estressante, pois o atendente não consegue te explicar nenhuma de suas dúvidas, não consegue resolver nada e ainda fica te enrolando para você gastar com os minutos cobrados, ou seja, não servem para nada.
“Senhor, não existe nenhum Eduardo no setor financeiro.”
Falei bem cedo demais.
“Como não? Eu falei com ele ontem!”
“Senhor, eu conheço todos os funcionários do setor financeiro e não existe ninguém com esse nome.”
“Meu amigo, eu não estou maluco. Eu falei com um Eduardo ontem, dizendo que eu ia pagar a conta hoje.”
“Senhor, não existe ninguém com esse nome. Desculpe-me.”
Não é possível! Será que fui enganado? Mas eu liguei para esse mesmo número!
“Se você conhece todo mundo, diga-me os nomes.”
“Senhor, os únicos que trabalham no setor financeiro são: Roberta, Rogéria, Carlos e Edward.”
“Edward?”
“É. Filho da Dona Josefa e do seu Atílio. Fazem churrasco todos os finais de semana e são muito legais e divertidos.”
“Mas que porra de nome é esse?”
“Senhor, pedirei para diminuir o conteúdo impróprio do linguajar empregado, ok?”
Que atendente é esse que fala tão difícil?
“Ok! Desculpe-me!”
“Edward é o nome dele.”
“Poderia me transferir para o ‘Edward’ então?”
“Sim senhor! Envio o fax para ele?”
“Pode enviar!”
“Obrigado, senhor! Não saia daí, pois sua ligação é muito importante para nós!”
Músicas de espera são sempre depressivas. Parecem ser uma cantiga de Natal daquelas bem chatas e tristes, que grudam na cabeça e só saem após você ouvir uma outra música de natal!
“Eduardo falando.”
“Eduardo?”
“Foi o que eu disse. Em que posso ajudar?”
“Cara, aqui é o David, lá do Fonseca, tudo bem?”
“Oi David, como vai? Conseguiu resolver o problema do pagamento?”
“Consegui, mas deixa eu te perguntar outra coisa, primeiro.”
“Pode perguntar.”
“Qual o seu nome, afinal de contas?”
“Mas eu já disse meu nome. Não estou entendendo.”
“Desculpa, mas é que o primeiro atendente disse que seu nome era Edward.”
“Esse é meu nome.”
“Mas você acabou de se anunciar como Eduardo!”
“Mas meu nome é esse também!”
Conversa de maluco...
“Não estou entendendo mais nada!”
“Meu nome de registro é Edward Eduardo. Alguns me chamam de Edward e outros de Eduardo. Pra mim, tanto faz.”
“Sua mãe não gostava muito de você, não é?”
“Desculpe senhor David, mas não escutei direito.”
“Nada não, esquece. Cara, é o seguinte: mandei o fax para você. Tem como religar o gás?”
“Sim, claro! O prazo para religar o gás é de quarenta e oito horas.”
“Mas isso é muita coisa!”
“Desculpe senhor, mas esse é o procedimento.”
“Não tem como dar uma agilizada nisso? Se não minha irmã vai me matar!”
“Desculpe, mas não há o que fazer.”
“Teria como você parar de se desculpar de tudo que eu falo?”
“Desculpe senhor, não farei mais isso.”
Esse cara deve estar devendo a um monte de gente. Não é possível, ele pede desculpas a cada cinco segundos!
“Vamos começar de novo: hoje é sexta-feira; amanhã vocês não trabalham; eu preciso de gás. O que podemos acordar?”
“Está tentando me subornar, senhor?”
“Não! Longe de mim fazer algo tão abominável! Mas, caso eu estivesse, você aceitaria?”
“Dependendo de quantos cafés estamos falando, podemos tentar um milagre.”
Sabia! É só oferecer um cafezinho e eles conseguem fazer tudo com mais rapidez e eficiência. É um absurdo eu ter que fazer esse tipo de coisa, mas não posso fazer nada. É mais forte que eu!
“E de quantos cafés estamos falando?”
“Uns dez cafés já estão de bom tamanho.”
“Ótimo! Consegue ligar hoje ainda?”
“Com certeza! Daqui umas duas horas você pode conferir.”
“O fax que enviei está correto?”
“E o que importa? Não fazemos nada com isso mesmo!”
Gosto de pessoas sinceras.
“Obrigado! Manda por e-mail a sua conta para eu depositar os cafés.”
“Beleza. Até mais e obrigado por entrar em contato conosco!
“De nada.”
Ter que subornar alguém para conseguir gás é uma atitude completamente antiética. Não concordo com esse lance de suborno, mas já tive que fazer isso algumas vezes, principalmente em blitz da polícia militar. Mas, apesar disso tudo, é melhor ferir a minha ética do que ficar ouvindo a Joana me enchendo a paciência por que perdeu o “cliente”.
Here and Back Again...
Há 14 anos

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