Adendo do Capítulo Anterior: na saída do restaurante, cada um foi para um lado. Juliano foi para empresa em passos largos. Gilberto foi a livraria, a meu pedido, procurar o livro novo do Eduardo Martins. Roberto e Ricardo foram para o Mercado Popular da Uruguaiana, carinhosamente apelidado, por nós, como ‘Pólo Tecnológico’. Eles foram comprar mídias (lá é muito mais barato!). Eu estou caminhando para o banco. Será que eu mereço tamanho castigo? Também, ninguém mandou ser pobre e não ter dinheiro para pagar a conta de gás antes da data do vencimento.
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Pagar conta em banco é uma das atividades que mais provam o ser humano no mundo. Você precisa ter resistência física, resistência ao frio (acho que eles mantêm o dinheiro congelado para não derreter, tamanho o frio dentro dos bancos) e muita, mas muita paciência para agüentar as vinte e sete horas de fila e pessoas inconvenientes. Isso tudo para pagar uma simples conta de trinta e sete reais.
Hoje o banco está especialmente lotado, como de costume. As pessoas devem adivinhar que eu tenho que ir ao banco e, por isso, vão todas na minha frente, só pra me irritar. E o pior é que sempre tem algum sujeito fazendo comentários sobre a fila, mesmo quando você não está a fim de conversa. Eu sempre ignoro todos, mas eles continuam comentando e se dirigindo a mim como se eu fosse seu amigo de infância. Com certeza, deve ser alguma provação divina ou algo parecido.
Estou no final da fila e são quase vinte pessoas na minha frente. Pra variar, apenas dois dos sete caixas estão abertos. Por que os bancos colocam tantos postos de caixa em suas agências se nunca, eu digo nunca mesmo, eles estão todos ocupados? Para mim, é desperdício de espaço.
Um amigo me disse que, uma vez, há muito tempo atrás, ele viu, por alguns minutos, todos os caixas atendendo. Pedi provas, como fotos ou gravações em vídeo, mas ele não tinha. Deve ser alguma lenda urbana, pois eu não acreditei muito nele.
Tem um sujeito que está irritado com a demora da fila. E ele está na minha frente! Ele é um candidato, ou seja, em breve irá começar a falar comigo, pois além das reclamações e os estalos com a língua, ele está virando, lentamente, para mim.
Não demorou muito.
“Essa fila tá foda.”, disse o homem.
O que eu faço com esse sujeito? Será que ele não vê que não estou a fim de novos amigos?
“Esse banco está fincando cada dia pior!”
Eu tenho que concordar com ele, mas não posso expressar nada., pois, pelo visto, o fato de ignorar seus comentários não está funcionando. Vou ter que usar a técnica de ficar olhando para os lados, toda vez que ele começar a se dirigir a mim.
“Não agüento mais fila. E você?”
Ele iniciou uma conversa. Esse é o pior dos casos. E agora? Continuo ignorando ou falo alguma coisa? Eu posso simplesmente acenar com a cabeça, fazendo cara de poucos amigos. Será que ele engole essa?
Ele ainda está olhando pra mim, esperando a resposta! Vou continuar fingindo que não é comigo.
Agora são apenas dez na minha frente. Até que o atendimento não está tão ruim hoje. Eles só podiam andar um pouco mais rápido, pois não quero conversar com esse sujeito.
“Você tem celular aí?”
“O quê?”
“Você tem celular aí, com você?”
Por que será que ele está me perguntando isso? Será que ele vai me assaltar dentro do banco?
“Tenho, por quê?”
“Posso fazer uma ligação?”
É pior do que ladrão, é sem-noção!
“Você quer fazer uma ligação do meu celular?”
“É rapidinho e a cobrar.”
“Você não tem celular?”
“Não, não tenho.”
“E por que você não compra um?”
“Porque eu não preciso de um.”
“Você está precisando agora.”
“Mas é por isso que eu estou pedindo o seu emprestado.”
Mais uma característica do sujeito: ele é maluco!
“Qual o número?”
“Deixa que eu digito o número.”
“Por que você não quer que eu digite o número? Tem medo de eu roubar seu celular?”
“Eu não disse isso.”
“Estamos num banco e você acha que eu vou te roubar? Só estou pedindo um favor!”
Ele começou a gritar, chamando a atenção das outras pessoas. Tinha que acontecer alguma coisa para estragar meu dia, não é mesmo?
“Amigo, se você quiser utilizar o meu celular, fale baixo.”
“Ok!”
“Diga-me o número que eu disco para você.”
“2555-2555.”
Eu não acredito que estou fazendo isso, mas tenho medo de malucos.
“Está dizendo que o telefone não existe.”
“Impossível! Disque de novo!”
E lá vamos nós novamente. Tomara que dê certo dessa vez, pois tenho medo dele me espancar aqui dentro. Se isso acontecer, será que alguém vai me socorrer ou todos vão ficar rindo da minha cara?
“Está dizendo que o telefone não existe.”
“Isso é má vontade?”
“Não, não é!”
“Obrigado então.”
Ele se virou e ficou olhando para a fila. Ainda continua estalando a língua, fazendo aquele barulho irritante. Está meio inquieto. Acho que vai se virar novamente. Merda!
“Você pode guardar o meu lugar? Eu vou ali e já volto.”
“Vai com Deus!”
“Você é cristão?”, disse ele, virando-se.
“Não, não sou.”
“Então por que disse isso?”
“Disse o quê?”
“Você disse para eu ir com Deus.”
“E o que isso tem a ver?”
“Se você não é cristão, por que disse isso?”
“Isso é só uma maneira de se dizer, nada mais!”
“Você é bem estranho.”
Ele saiu da fila e se dirigiu a um dos atendentes. Enquanto isso, a fila andava a passos de tartarugas. Agora faltam apenas duas pessoas, mais o sujeito que saiu da fila. E por falar nele...
“Pedi a gerente para usar o telefone.”
“E daí?”
“Eu consegui fazer a ligação.”
“Bom pra você.”
“Eu queria ligar a cobrar e consegui de primeira.”
“Legal.”
Anda filinha! Anda!
“Por que será que no seu celular não funcionou?”
“Não sei.”
Ele é o próximo! Por favor, dona caixa, chama esse sujeito logo!
“Muito estranho, não acha? Eu conseguir lá e, com você, não.”
“Amigo, eu liguei pro número que você pediu.”
“Sei.”
“Eu não preciso mentir pra você. Na verdade, eu não preciso nem conversar com você! Eu não te conheço!”
“Não precisa justificar a sua má vontade em ajudar alguém necessitado com ignorância.”
Meu Deus! Dai-me paciência para aturar esse tipo de gente chata! E por que a porra do caixa não chama logo esse sujeito?
“Você devia ser mais solícito, sabia?”
“Meu amigo, eu posso ficar na fila em paz? Você está enchendo o meu saco desde que cheguei aqui.”
“Eu só vim pagar as minhas contas! Eu tenho direito tanto quanto você!”
“Então pague as suas contas em silêncio!”
Eu não acredito. O caixa que ia chamar o sujeito acabou de colocar uma placa de fechado em cima do balcão! Agora só tem um funcionário atendendo esse monte de gente! Daqui a pouco, vai haver motim aqui, tamanha a quantidade de reclamações.
O Homem ficou mais calmo, respirou fundo e continuou estalando a língua. É nessas horas que eu gostaria de ser com o Hannibal Lecter, em ‘Silêncio dos Inocentes’, só pra mandar esse sujeito cortar a própria língua e morrer sufocado com ela entalada na garganta.
“As minhas contas não venceram ainda. Eu tenho medo de usar a internet. Acho que vão roubar meu dinheiro.”
“Você tem conta aqui?”
“Tenho.”
“E os seus boletos não estão vencidos?”
“Não.”
“E o que você está fazendo aqui então?”
“Eu já disse que não gosto de internet.”
“Você já ouviu falar em caixa eletrônico?”
“Já!”
“Você sabia que dá pra pagar contas lá também?”
“Sério? Disso eu não sabia.”
“E por que você não vai pagar suas contas lá?”
“Não sei.”
“Se eu fosse você, eu tentaria. É muito fácil!”
“Acho que vou experimentar então.”
“Faça isso.”
Ele foi embora me agradecendo. Ganhei um amigo retardado e um lugar a mais na fila. Agora sou o próximo. Finalmente!
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Observação 1: quarenta minutos de chateação e espera, para menos de um minuto de atendimento. Esses são os bancos do Brasil. Da próxima vez, tenho que me lembrar de não depender da minha irmã querida para pagar uma conta.
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Observação 2: quando saí do banco, o sujeito estava na fila do caixa eletrônico enchendo o saco de outra pessoa. Será que ele vai pedir para usar o celular, de novo?

2 comentários:
Este ai não vai em bancos publicos como BB ou Caixa que desligam o ar e fica aquele inferno na fila.
Com roupa de trabalho então putz hauhsausahusa
Nem tinha visto que tava tudo desformatado!! Agora ta certo... hehehe
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