Eu sou uma pessoa que não liga muito para comida. Se eu pudesse, comeria a mesma coisa todo dia. A minha mãe sempre me disse que eu tinha preguiça de comer, por isso nunca queria experimentar nada e nunca terminava um prato sequer. Ela passou um tempo me botando de castigo e me forçando a comer coisas que eu não queria, mas não adiantou muito. Hoje em dia como algumas coisas a mais, mas nada substitui um bom bife com batata frita.
Como o restaurante escolhido é bem caro, eu só como carne, camarão e um pouquinho de batata pra não perder o costume. Nada de arroz, pois arroz é barato e eu como em casa de graça. Faço de conta que estou de regime para não parecer tão muquirana.
Pegamos a comida e nos encaminhamos para um mesa perto da janela, que dá pra Avenida Rio Branco. Não sei se por ser em um prédio velho ou se porque o dono é muquirana, mas o restaurante não possui ar-condicionado. A vista não é das melhores, mas, quando tem briga de camelôs com a Guarda Municipal, aquele lugar se torna bem disputado. Essa é mais uma razão para nos mantermos perto da janela.
“Eu não vou falar nada!”
“Juliano, nós somos seus amigos! Você tem que contar isso pra gente!”, disse Gilberto.
“Ele deve estar chamando o namorado viado dele de linda e vocês estão achando que é alguém da empresa.”, disse Ricardo, jogando um sache de sal em Juliano.
“Uma coisa a gente sabe: é da empresa.”, comentou Roberto.
“Pessoal, não adianta que eu não vou falar nada. Até porque tem gente aqui que é boca aberta e vai acabar espalhando pra todo mundo.”
“Vamos deixar o cara em paz, ok?”, disse.
“David, é um absurdo ele não nos contar algo assim! Nós contamos tudo pra ele!”, disse Gilberto indignado.
“Eu conto na hora certa. Agora não dá pra contar.”
O cara não quer contar, então é melhor não insistir. Se fosse qualquer um dos outros, provavelmente já estaríamos sabendo bem antes do sujeito marcar o primeiro encontro.
“Vamos mudar de assunto, antes que o Ricardo comece com as gracinhas dele?”, indagou Juliano.
“Pode deixar que não vou ficar comentando com ninguém as suas aventuras amorosas, se o problema for a minha presença.”
Ricardo ficou chateado e cruzou os braços, fechando a cara. Pelo visto, ele entendeu que ele era o problema, já que Juliano nunca gostou de contar nada pra gente com ele por perto. Ele sabia que o sujeito espalharia para todo mundo alguns segundos depois.
Depois de algumas sessões de esporro e muita conversa, conseguimos controlar a ânsia de Ricardo a contar a todos os acontecimentos para todo mundo que fala “oi” com ele. Já faz algum tempo que ele não dá nenhuma crisa, mas, mesmo assim, Juliano ainda permanece resistente. Não tiro a razão dele, mas, se não dermos um voto de confiança, como saberemos se ele melhorou ou não?
Ricardo sempre se sente meio ofendido com essas “exclusões”, por isso, como todo bom grupo de amigos, não há como não sacanear o sujeito depois de uma demonstração clara de se sentir “excluído do grupo”.
“Depois eu que sou viadinho.”, comentou Juliano.
“Fala sério! Ficou boladinho, ficou?”, sacaneou Roberto.
“Essa foi a maior demonstração de homossexualismo que eu já presenciei na minha vida!”, gritou Gilberto, batendo no ombro de Ricardo.
“Vão todos se fuder!”.
“O cara tá nervosinho mesmo! Ricardo, vai com calma! Se o cara não quer falar, deixa ele. Tenho certeza que ele falará na hora certa. Vamos mudar de assunto?”, perguntei.
Como estamos em lugar público, preciso conter esses caras. Se eu deixar, Ricardo daqui a pouco está quebrando o lugar todo. Ele sempre cai na pilha.
“Gilberto, o novo papai de dois, irá nos contar como está lidando com isso.”, disse Roberto.
“Não me falem disso! Eu estou feliz, mas, ao mesmo tempo, desesperado!”
“Imaginamos!”, disseram todos os outros.
Coitado do Gilberto. Ele não vai durar muito tempo com três pessoas controlando sua vida.

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