Telefone de novo.
“Alô!”
“Oi meu filho.”
“Quem é?”
“É a mamãe! Não está reconhecendo minha voz?”
Prestar a atenção no motorista maluco e falar com a minha mãe ao mesmo tempo, não é algo pra qualquer um.
“Claro que tô, mãe. É que esse número eu não conhecia.”
“Eu troquei de telefone de novo. To ligando pra te passar o número, já que, para o antigo, você não ligou nenhuma vez.”
Lá vem ela reclamando que eu não ligo. Mas eu falei com ela não tem nem duas semanas!
“Já está anotado!”
“Por que você não liga pra mamãe?”
“Eu liguei pra você esses dias!”
“Já tem quase um mês que você ligou pra mim! Se for dinheiro, pode ligar a cobrar, não tem problema.”
“Não é isso, mãe. É que eu ando meio sem tempo.”
“Sem tempo de lembrar da sua mãe?”
“Você não entende, não tem nada a ver!”
“Se eu morrer aqui, nessa casa, sozinha, você não vai nem saber!”
“Mãe, sem melodrama.”
“Mas é verdade! Poderia ligar pra perguntar ‘e aí? A cachorra já morreu?’; nem parece que eu sou sua mãe!”
Só falta ela começar a chorar agora.
“Mãe, pára com isso?”
“Como eu posso parar? A sua irmã me liga quase todos os dias e você só de mês em mês!”
“Ela liga porque é uma a toa!”
“Não fale assim da sua irmã! Você tem que respeitar ela, pois ela vai virar advogada!”
Coitada. Não tem a mínima idéia do que Joana faz. Eu só não conto, porque ela vai ter um treco e vai acabar ficando igual a minha avó. Imagina o remorso?
“Por falar na sua irmã, ouvi dizer que ela está namorando. Você já conheceu?”
“Qual deles?”
“Qual deles o quê?”
“Qual dos namorados!”
“Ela tem mais de um?”
“Ela tem um monte! Inclusive, namora um monte de uma vez só!”
Silêncio.
“Tô brincando mãe!”
E o silêncio continua. Algo está acontecendo. Será que ela está passando mal?
“Mãe?”
“Não me mata de susto menino!”, disse ela, soluçando.
“Você está chorando?!”
“Com um susto desses, você queria o quê?”
“Calma mãe, eu estou brincando!”
“Não brinca com uma coisa séria dessas!”
“Desculpa!”
Ela está tentando se recompor. Pelo visto, jamais poderei falar a verdade! De que adianta um trunfo se nunca poderei usá-lo?
“Mas então, você conheceu o rapaz? É algum advogado importante?”
“Deve ser mãe, mas não conheci.”
“Rezo tanto para Joana conseguir um rapaz bom!”
“Eu também!”
Arranjando um bom marido, ela sai de casa e me deixa morando sozinho. Não poderia querer algo melhor pra ela, não é?
“Você está comendo direito, Davizinho?”
“Você sabe que eu não gosto que me chame assim, mãe!”
“Está ou não está?”
“Estou! Estou!”
“Está tomando leite de manhã?”
“Quando eu lembro, sim!”
“Você sabe que não pode ficar sem leite, David! Você fica fraco!”
“Eu estava com pressa hoje, por isso não tomei. Dá próxima vez eu juro que tomo.”
“Vocês, nessa cidade grande, precisam se alimentar direito!”
“Tá bom, mãe! Eu já entendi!”
Mais um silêncio. Parece que ela está ficando sem assunto, o que é um bom sinal de fim de conversa. Não que eu não goste de conversar com a minha mãe, mas é que eu prefiro terminar a conversa antes que ela comece com assuntos que não gosto de conversar.
“Você está rezando meu filho?”
Esse é um dos assuntos.
“Sim, todos os dias!”
Não gosto de mentir pra ela, mas não dá pra falar a verdade sobre religião. Não depois de tudo que ela já passou comigo sobre o assunto.
“Muito bem! Reze bastante, pois só papai do céu pode dar as coisas pra gente!”
“Desde quando você virou religiosa?”
“A vida sem religião é uma vida sem sentido! Você tem que ter uma, seja ela qual for!”
“Ok!”
“Vou desligar, meu filho, pois não sou dona da Telemar. Tive que pagar quase seiscentos reais de plano de saúde, pois não tem ninguém pra me ajudar.”
Segundo assunto chato: reclamações sobre a situação financeira atual.
“Mãe, eu não tenho dinheiro pra ajudar.”
“Eu sei, meu filho, não estou te cobrando nada.”
“Beleza.”
“A sua avó mandou um abraço!”
“Como assim? Ela conseguiu falar alguma coisa normal?”
“Não, mas estou mandando mesmo assim. Tenho certeza que, entre um palavrão e outro, ela falou algo do tipo.”
“Dá um abraço nela pra mim. Mas não chegue muito perto para ela não te morder de novo!”
“Pode deixar, meu filho. Fica com Deus!”
“Beijos, mãe!”
“Beijo meu filho! Mamãe te ama, viu? E cuida da sua irmã pra mim, pois não vou durar muito tempo!”
“Tchau!”
Tive que cortar o assunto, pois ela ia entrar no terceiro assunto chato: a proximidade da morte. Acho que não conheci uma pessoa mais hipocondríaca do que a minha mãe. Ela sabe, décor, todas as bulas de remédio existentes no mundo. Isso é bom quando preciso curar uma dorzinha, pois, assim, não gasto dinheiro com médico. Existem outros assuntos chatos, como: “você tem que passar em concurso público” e “eu quero um neto”; não ia agüentar mais dois tópicos com ela ao telefone.
Agora, a festa! Já são 19h30min e eu ainda estou nesse táxi. Tem alguma coisa engraçada na paisagem. O que eu estou fazendo na praia do Flamengo?
“Amigo, o que você está fazendo aqui?”
“Eu? Estou dirigindo!”
“Eu disse aqui, na praia do Flamengo!”
“Você me mandou virar a direita e eu virei!”
“Eu mandei você manter a direita!”
“Mas eu fiz isso!”
“E por que você não entrou na rua dos Arcos?”
“Por que você não disse que era pra virar a direita duas vezes!”
Isso que dá querer dar uma de rico. Pobre tem que andar é de ônibus!
Here and Back Again...
Há 14 anos

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