Capítulo 42 - Primeiro Contato

A reunião é na sala do cara, que fica no final do corredor apontado pela segunda secretária. Ao longo deste corredor, existem vários pôsteres, bem grandes, dos antigos presidentes da empresa. Acho meio macabro isso, pois parece que tem um monte de gente morta te olhando, mas já me acostumei.

A Ana, coitada, também está assustada com os rostos pálidos e sisudos dos homens. Eu fiquei impressionado com a foto de um dos presidentes, pois se manteve imóvel, mesmo com a Ana chegando bem perto para ler o que estava escrito na plaquinha de metal. Esse cara deveria ser bom!

A porta da sala do sujeito possui ornamentos estranhos, como gárgulas segurando argolas com a boca e unicórnios desenhados ao longo da madeira escura. Além disso, existem duas estátuas de minotauros, uma em cada lado da entrada, que parecem guardar o conteúdo da sala. Tudo muito esquisito e excêntrico demais para o meu gosto.

“Entre!”, gritou o homem, após eu bater na porta.

Ana Cláudia manteve-se atrás de mim, como um fator surpresa, um ás na manga. O homem está fumando um charuto, sentado na sua cadeira de couro e de aparência confortável. Um ventilador de teto girava devagar, mesmo com o ar-condicionado ligado, mantendo um clima estranho.

O homem apontou os dois lugares a frente dele e apagou o charuto em um cinzeiro em forma de elefante. Manteve-se olhando para o cinzeiro enquanto nós nos sentávamos.

“Adoro elefantes. Eles são grandes, gordos e lentos. Acho engraçado isso.”, disse ele, levantando o rosto.

Foi engraçada a reação dele ao ver Ana Cláudia. Foi um misto de surpresa e pavor nunca antes presenciado por mim. Ele arregalou os olhos e ficou, por alguns segundos, espremendo o charuto no elefante, como se estivesse no automático. Tive que intervir.

“Oi Astolfo, essa é a Ana Cláudia, minha arquiteta.”
“É um prazer, senhor.”, disse ela, estendendo a mão.

Ele continuou esfregando o charuto no elefante, agora com mais força. Num lampejo, retornou ao mundo, estendendo a mão para a garota. Mas ainda estava hipnotizado.

“Eh, oi.”, disse ele.
“Estamos aqui para resolver o mal-entendido que o Rodrigo causou. Não temos como acessar as contas dos funcionários para saber seus saldos. Isso é contra lei.”
“Eh, eu sei.”
“Alguém mais virá para a reunião?”
“Não. Somente eu.”

Ele saiu do transe quando o charuto se desfez completamente e a brasa, ainda existente, queimou seu dedo. Ele parecia hipnotizado pela feiúra de Ana Cláudia. Eu pensei que a intimidação estava dando certo, mas eu estava enganado.

“Vocês me ofereceram um produto e disseram ser viável.”, disse ele, acendendo outro charuto.
“Eu sei disso, mas foi sugerido algo impossível de se desenvolver nos moldes da lei.”
“Não me interessa a lei, só não quero levar calote desses desgraçados que eu chamo de funcionários!”
“Mas não podemos fazer isso!”
“Se vira, mermão! Se vocês não fizerem, cancelo o contrato!”

A Ana Cláudia continuava calada, mas inquieta com a atitude do sujeito. Eu só conseguia pensar no Rodrigo, pendurado por uma corda, no alto do prédio, implorando para eu não jogar ele lá embaixo.

“Astolfo, sejamos racionais. Eu não posso fazer isso.”
“Por que não podem?”
“Porque é ilegal!”
“Você acha que coloquei essa empresa onde está sendo legal? Mantendo as coisas dentro da lei? Não seja idiota!”
“Desculpa Astolfo, mas é meio complicada a comparação. Se o banco descobrir, podemos ser presos!”
“Pelo amor de Deus! Você acha que mora em que lugar do mundo? Aqui, ninguém é preso! Basta pagar uns cafezinhos para os malucos e está tudo certo! O que eu não posso permitir é a minha empresa perder tanto dinheiro com empréstimos internos!”
“Astolfo, nós fomos contratados para fazer um sistema para a área financeira e não de empréstimos! Isso não estava nem no escopo inicial e, mesmo assim, incluímos no projeto a seu pedido.”
“E empréstimo não tem a ver com Finanaças?”
“Tem sim. Mas não estava no escopo.”
“Eu mudo o escopo quantas vezes eu quiser, nessa merda! O dinheiro é meu e eu faço o que quiser com esse projeto!”

Clientes são todos iguais.

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