Capítulo 43 - A Questão do Escopo

A grande briga entre as consultorias de informática e seus usuários resume-se em apenas uma palavra: escopo.

Essa discussão já dura desde o início dos tempos, quando um homem discutia com o outro que tinha solicitado uma roda redonda e não uma roda quadrada. Isso causou uma grande confusão entre os dois que sucedeu uma quebra de pescoço e uma mulher roubada.

Acho que em todos os projetos que participei, até hoje, seja ele de informática ou não, tiveram problemas no escopo. Isso me lembra a minha primeira peça de teatro na escola.

Eu tinha cerca de doze anos e fazia parte do grupo de teatro da escola. Eu achava legal e todas as meninas da minha idade achavam lindo, um cara, numa sociedade tão machista, ter sentimentos legais, ao ponto de participar de uma peça de teatro. Mal sabiam elas que eu estava ali apenas para conseguir dar o meu primeiro beijo.

A diretora da peça, baseada num conto infantil, estava uma pilha, pois restavam apenas há três dias da estréia e o roteiro ainda possuía um problema, apontado pelos produtores. Existia um personagem na peça que matava um outro personagem com uma espadada na cabeça, o que seria muito trágico para uma peça para pré-adolescentes. Foi então que a diretora encomendou um escritor para reescrever a morte do sujeito.

A primeira versão do roteiro chegou impressa em papel meio amassado e cheia de manchas, o que tornou a sua leitura impossível. A diretora reclamou e, no mesmo dia, chegou uma nova versão, impressa em papel super-branco e em alto-relevo, mas faltando a parte que interessava: a alteração solicitada.

A diretora, em completo desespero, mandou um e-mail dando um bronca no sujeito e solicitando uma nova versão. Chegou inclusive a dizer que o contrato seria cancelado, caso a versão não chegasse naquele dia.

A nova versão chegou, em papel branco e letras em alto-relevo, além da parte faltante. Quando a diretora leu, ela caiu pra trás. A morte não somente continuava ali, como estava muito pior, pois envolvia um moedor de carne e um funil. O assistente de direção, vendo que a diretora já não tinha mais condições, convocou uma nova reunião com o escritor para acabar de vez com o problema. A reunião foi realizada e ficou decidido que a morte seria retirada do roteiro, tornando o final mais feliz.

No dia seguinte, uma nova versão chegou às mãos da diretora que leu e gostou. Ela apresentou um ensaio ao produtor que, pra variar, não gostou e pediu para voltar com a morte do garoto.
A diretora entrou em contato com o escritor e explicou o ocorrido. O escritor, por sua vez, ficou puto da vida e mandou a diretora à merda, dizendo nunca mais escrever uma linha sequer para ela.

A mulher ficou transtornada. Chorava por todos os cantos e não sabia mais o que fazer. Foi então que, com uma idéia brilhante, a diretora resolveu voltar ao roteiro original, mudando a forma da morte (uma pedra caía na cabeça do garoto), e mostrar aos produtores assim mesmo.
Ela realizou um novo ensaio e os produtores adoraram.

Seguimos em frente e estreamos no dia programado. A peça foi um fracasso e todos acharam que a morte do garoto foi muito trágica, preferindo que tivesse sido realizada de forma mais sutil, como uma espadada na cabeça. Os produtores, então, demitiram a diretora da peça. Ela nunca mais conseguiu um novo emprego.

As semelhanças entre esse e os outros projetos que eu participei em minha vida profissional são imensas! Tirei algumas lições desse caso e as levei por toda a minha vida profissional:

· Não importa em que área você trabalhe, as alterações no escopo estarão sempre presentes e atormentarão sua vida.
· Nunca terceirize os seus problemas. Eles sempre triplicam!
· Sempre tenha alguém para colocar a culpa, caso a coisa toda não dê certo.

Observação: adivinha quem era o garoto que morria?

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