Capítulo 64 - Eis que Surge o Protetor do Infeliz

Encontrar gente indesejável em festa é brochante. Você está lá, feliz, alegre, falando mal dos outros e chega o sujeito para espalhar o bolinho de amigos formados, normalmente para falar com apenas uma das pessoas do grupo. Nesse caso específico, o bucha era eu.

“Oi Chefe.”

Sabe quando você vai conversar com uma criança pequena e ela fica cheia de vergonha, abaixando a cabeça e rodando os pés? É o que Rodrigo está fazendo agora.

“O que você quer?”, disse, sem muita paciência.

Ele levantou o rosto e ficou olhando para mim, com cara de choro. Será que ele vai ter coragem de chorar na minha frente, no meio da festa?

“Vim te pedir desculpas.”, disse ele, deixando escorrer uma lágrima.

As pessoas começaram a perceber aquela cena. Todos olhando, já somos o centro das atenções, pois estamos sozinhos no meio do salão, perto do bar. Queria ser um avestruz nessas horas.

“Está desculpado. Agora some!”
“Não precisa ser ignorante. Eu só quis ajudar!”
“Ajudar como? Não sei como você consegue andar sem cair!”

Acho que peguei pesado demais com o coitado, pois ele acabou de segurar um soluço.

“É incrível como as pessoas são más hoje em dia.”
“Do que você está falando?”
“Você não reconhece o meu esforço! Para que eu chego cedo todos os dias?”

Isso não dá para agüentar. Tem gente que acha que chegar cedo todos os dias serve para alguma coisa. De que adianta chegar cedo e sair tarde se você não consegue produzir nada? É melhor chegar meio-dia e sair às quatro e entregar o que deve-se entregar!

“Rodrigo, vamos mudar de assunto? Estamos numa festa! Festa é alegria, felicidade, bebida de graça e mulher gostosa. Por que você não pára de chorar e vai conversar com alguém?”
“Você não quer conversar comigo, é isso?”

Sujeito sentimental é um saco. Na verdade, o que eu precisava agora era um saco para enfiar na cabeça desse sujeito e sufocá-lo até ficar roxo. Queria ter a delicadeza do capitão Nascimento nessas horas.

“Para falar a verdade, não estou a fim de conversa mesmo. Estou chateado com você, mas até amanhã passa.”
“Jura?”
“Não.”

Fraqueza é uma das minhas qualidades que menos prezo. Mas não consigo ser diferente, não nesses momentos.

“Você não jura?”
“Eu juro que vou tentar.”

Uma figura estranha apareceu do meu lado. Pelo cheiro de colônia barata já até sei quem é.

“Se divertindo, Diguinho?”, disse Dario.
“Não muito, tio.”

Agora a conversa vai ficar interessante.

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