Capítulo 72 - A História do Carro Automático

Certa vez, conheci uma garota numa noitada bem interessante. Saímos algumas e ela estava se apaixonando por mim, o que é ruim. Mulher que se apaixona rápido é sempre perigosa, mas fui levando, até porque ela era bem gostosinha.

Um dia, num sábado, ela me convidou para ir a um casamento de uma amiga. Eu não conhecia ninguém na festa, só Juliana (esse era o nome da garota) e muito mal.

Era uma festa clássica, com ternos e longos desfilando pelo salão ornamentado e bem iluminado. Tinha um bolo maior do que eu e dois bonequinhos representando o casal em situações engraçadinhas (isso está virando moda). No caso deles, a noiva estava em pé, com cara de feliz e, o noivo, com cara de desesperado, todo amarrado, sendo puxado pelos pés pela noiva e com um controle de Playstation nas mãos. Fiquei imaginando os bonecos do meu casamento: o noivo implorando para a noiva não dar um tiro na minha CPU. Muito engraçadinho, mas desesperador!
Fomos para a última mesa, bem no canto e bem longe de todos. Mesmo assim, estávamos muito bem servidos. Eram tantos garçons que, os mesmos, se degladiavam para servir uma mesa. Parecia até garçom de boteco da lapa.

Depois de encher o rabo de comida, começamos a beber cerveja, pois não consigo beber uísque, que era a outra bebida que estavam servindo. Após alguns copos, Juliana começou a me encher o saco para ir para a pista de dança. Não gosto de dançar e já estava tempo suficiente com ela para dizer não para essas coisas. Eu disse e ela ficou puta. Foi sozinha para a pista e eu fiquei sentado, olhando para o povo, me distraindo.

Uma mulher, já coroa, sentou-se à mesa ao lado e começou a olhar para mim. Ela estava muito bem vestida, com pulseiras e colares chamativos e, aparentemente, de ouro. Ou seja, era rica.

Eu fiquei meio sem-graça, até porque ela parecia ter a mesma idade da minha mãe. Tentei desviar dos olhares, mas não conseguia. Ela não parava. Aquilo tudo já estava me irritando, quando ela puxou assunto comigo.

“Oi”, disse ela.
“Olá.”
“Você não conhece ninguém aqui, não é?”
“Como você sabe disso?”
“É só olhar para você.”

Ela tirou uma carteira de cigarros da pequena bolsa e começou a fumar um cigarro comprido e com cheiro enjoativo.

“Você está sozinho?”, perguntou ela.
“Não. Estou com a minha namorada.”

Como achei que ela não ia entender o termo ficante, tive que dizer que ela era minha namorada.

“É aquela ali, de cabelo ruivo?”
“É sim.”
“Ela não parece te dar muita atenção.”
“Eu não quis dançar. Por isso ela está lá sozinha.”
“Ela não está sozinha.”

Juliana estava dançando com um sujeito, provavelmente um amigo antigo. Pelo menos era o que eu esperava.

“Deve ser algum amigo.”
“Imagino que sim.”, disse ela, sorrindo.

O garçom passou com uma bebida desconhecida, pelo menos para mim. Era uma taça fina e comprida e o líquido borbulhava lá dentro. Ela pegou uma taça e perguntou se eu queria uma. Eu tive que aceitar.

“Gostoso isso. O que é?”
“Prosseco.”
“Muito bom.”
“Só não beba muito. Ela pega rápido.”

Dali pra frente, foi só prosseco. A bebida era boa e descia que era uma beleza. Era algo energizante e me deixava alegre, feliz e disposto. Fiquei conversando com aquela mulher e não demorou muito para eu estar no meio da pista de dança.

O garçom ficava triste quando via meu copo vazio e enchia o bendito novamente. Eu já estava louco, dançando com todas as mulheres da festa, sem distinção de cor ou idade. A essa altura, eu não tinha a menor idéia da onde estava Juliana. Pra dizer a verdade, não me interessava muito também. Para completar a festa, entrou a bateria da Viradouro, contagiando todo mundo. Nunca sambei tanto na minha vida.

Depois de algum tempo e algumas paqueradas de algumas senhoras, fiquei cansado e voltei para a minha mesa. A mulher ainda estava lá, fumando.

“Está tudo bem com você?”, perguntou ela.
“Estou ótimo!”, disse, com a língua enrolada.
“Ainda está com energia sobrando?”
“Muita energia!”
“Quer gastar essa energia em outro lugar?”
“Só se for agora.”

Saímos do meio da multidão, a caminho do pátio onde os carros estavam estacionados. Eu estava completamente bêbado, mas tentei fingir que estava bem. Pena que nunca fui muito bom com interpretações.

Chegamos ao carro, após tropeçar em alguns paralelepípedos. Eu fiquei olhando para aquele Honda Fit, vermelho berrante, esperando que ele viesse me atacar. Assisti muito “O Ataque dos tomates assassinos” quando criança e tinha certeza de que aquilo era o chefe deles.

A mulher parou ao lado do carro, na porta do carona, e jogou a chave para mim. Eu permaneci parado, não entendendo muito bem.

“Você dirige.”
“Ok.”

Quando entrei no carro, levei um susto: era câmbio automático. Agora, imagina eu, bêbado, dirigindo um carro automático, sem ter a mínima idéia de como fazer isso? Entrei em pânico.

Acabei caindo na besteira de não contar para ela o meu pequeno segredo e fui, a trancos e barrancos, dirigindo para a saída do clube. No caminho, encontrei Juliana atracada com o maluco que ela estava dançando. Nem liguei muito, pois não gostava muito dela.

Depois de algumas barbeiragens, a mulher, lógico, percebeu que eu não sabia dirigir aquilo e ficou apreensiva, sempre se agarrando ao descanso de braço da porta.

Quando chegamos ao túnel que vai de Botafogo para Copacabana, antes do Rio Sul, um carro freou na minha frente, bruscamente. Procurei a embreagem e pisei no freio. Estávamos em alta velocidade e pisar no freio não era a coisa certa a se fazer naquele momento. Foi então que viramos uma bola de pinball, batendo de um lado ao outro do túnel. Ela não parava de gritar e eu de apertar o freio e o acelerador ao mesmo tempo, piorando ainda mais a situação. Quando paramos, o carro estava destruído e eu morrendo de vontade de vomitar. Saí do carro e descarreguei todo aquele pró-seco, enquanto a mulher me xingava dizendo que o seu marido ia ficar louco. Permaneci sentado, esperando a polícia chegar, além do marido furioso.

A ambulância chegou primeiro, me levando para o hospital. Estava na cara que eu precisava de uma dose de glicose na veia. A mulher eu nunca mais vi. Acho que esqueceram de pegar meu nome, por isso não entrei no processo e no Boletim de Ocorrência. Menos mal, pois prefiro tomar glicose a enfrentar marido corno.

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