Capítulo 74 - Criança Carente

Depois de algumas freadas bruscas e alguns motoristas nervosos me xingando, consegui pegar o jeito do carro. E por sinal, que carro!

O bicho nem sentia meu pé, normalmente pesado, apenas continuava respondendo, como se nada estivesse acontecendo. Atingi, fácil, os duzentos quilômetros por hora na perimetral e um pouco mais na ponte. Na descida do vão central cheguei aos duzentos e cinqüenta, bem longe do limite do carro, que era trezentos e vinte. Fiquei com medo e diminuí. Júlia não parecia incomodada com aquela velocidade toda.

“Você gosta de velocidade, não é?”
“Gosto um pouco, mas não tive muitas oportunidades de dirigir carros possantes. E os que dirigi não chegam nem aos pés desse aqui.”
“Gosto de velocidade também, por isso comprei esse carro.”
“Ele deve ter sido caro.”
“E foi.”

Como uma mulher que trabalha na minha empresa possui um carro desses? Nem se eu trabalhasse a minha vida inteira, ganhando o que eu ganho, teria dinheiro para gastar em um carro desses!
Ela parou e ficou olhando para o lado, com um olhar triste. Parece que o carro a fez lembrar de algo. Estávamos chegando à praça do pedágio.

“Aconteceu alguma coisa?”
“Lembranças, nada mais.”
“Entendo.”
“Mas são águas passadas. Agora encontrei alguém.”
“Eu não sei o que dizer.”
“É passado, mas não interessa mais.”

Ela deve estar se lembrando do antigo namorado. Talvez ele seja muito rico e tenha dado esse carro de presente para ela! Eu ficaria triste também se eu perdesse um namorado rico assim.
Tenho que parecer atencioso. Mulher adora homem atencioso, homem que ouve seus problemas diários ou problemas mais sérios. Esse é um bom momento para atacar!

“Você não quer conversar sobre isso?”
“Acho que não. Não vamos estragar a nossa noite, certo?”
“Certo!”

Se ela não quer conversar sobre isso, quem sou eu para dizer algo. Pelo menos fiz minha parte.

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